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17.4.14

Crítica: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO

Brasil, 2014 - 95 minutos.
Drama

Direção:
Daniel Ribeiro

Roteiro:
Daniel Ribeiro

Elenco:
Ghilherme Lobo, Fábio Audi, Tess Amorim


O cinema comercial brasileiro vive atualmente uma réplica amarga e clichê de tentar criar comédias bobas ao estilo hollywoodiano, quando não ostentando de forma bastante vulgar o estilo de vida dentro de favelas, conflitos entre policias, corruptos e traficantes. E aquele linguajar que é impossível não reconhecer de longe. Claro, não dá para generalizar, muito menos tirar o mérito de grandes obras como Cidade de Deus, de Fernando Meirelles ou mesmo Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro, de José Padillha. Entretanto, é impossível não ficar felicíssimo que um projeto tão pequeno e independente como o primeiro longa de Daniel Ribeiro, inspirado em seu fantástico curta “Eu Não Quero Voltar Sozinho”, chegue para contagiar o espectador com muita delicadeza e uma linguagem completamente inversa a que estamos acostumados a enxergar no cinema nacional. Mais do que isso, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho marca um grande passo para o nosso cinema, se desgruda completamente do cinema americano e caminha com suas próprias pernas de forma muito feliz e competente.

A trama basicamente é uma extensão do curta lançado em 2010. Nela somos apresentados a Leo, um garoto cego que sofre com bullying na escola por suas condições especiais, com a superproteção do pais e com os grandes dilemas da adolescência. Tudo isso acompanhado a sua inseparável melhor amiga, a divertidíssima Giovana. Pensando em mudar sua perspectiva vida, o adolescente decide que quer fazer intercambio e não muito pouco tempo depois, é surpreendido pela chegada de Gabriel, um novo estudante que vai balançar com seus sentimentos.

O roteiro simples se encarrega de ampliar com muita precisão o que foi criado no curta. Com pequenas e sutis mudanças, o texto de Daniel Ribeiro explora toda a ideia da produção anterior e acrescenta outros elementos para justificar o longa metragem. Mas o fato de manter a simplicidade no roteiro dá a liberdade suficiente para o Ribeiro explorar toda a linguagem de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho de forma muito cativante, profunda e admirável.

O tratamento a questão da homossexualidade nas descobertas da sexualidade dos adolescentes é feita de forma extremamente natural e delicada. Esperto, o diretor sabe que a motivação da sua história não é buscar polêmica no tema ou escandalizar a relação de Leo e Gabriel, como fez, por exemplo, o muito mal sucedido Do Começo Ao Fim. O foco é a descoberta e os difíceis caminhos que os adolescentes têm que encontrar para enfrentar essa delicada época, ainda mais considerando a cegueira de Leo. O fato desta relação ser gay fica em segundo plano, o que amplia a legitimidade dos sentimentos dos personagens, expondo de forma muito bela os verdadeiros pilares de uma relação, principalmente porque o protagonista se apaixona por outros instintos que não a visão, e Daniel sabe demonstrar isso com muito carinho.

Com um tom leve e até um pouco despretensioso, o longa carrega o espectador para um universo delicioso de se acompanhar. Dada à graciosidade do trio principal (Ghilherme Lobo está ótimo em todos os aspectos, assim como Tess Amorin, entretanto, é Fabio Audi que encanta o público, seja pelo seu charme, seu aparente conforto no papel ou pela sua visível capacidade de improviso que faz com que o texto da película flua de forma ainda mais interessante), a excelente trilha sonora, que oscila muito bem entre Belle & Sebastian e Arvo Pärt, ou ótima linguagem visual, muito distante de grande parte das produções nacionais. Impressiona ainda pelo fato do projeto ser tão pequeno, mas ter um tratamento impecável.


Os memoráveis 95 minutos de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho me fizeram lembrar, por diversos motivos, por mais diferentes que sejam, Deixa Ela Entrar, do sueco Thomas Alfredson. Utilizam de elementos e roteiro muito distintos, mas a essência da descoberta da sexualidade, o relacionamento de duas pessoas com necessidades diferentes, mas que conseguem encontrar entre elas um campo seguro, com uma conexão impressionantemente cativante e ímpar, de um amor quase inexplicável. Só a comparação com essa obra-prima, já mostra o orgulho que Daniel Ribeiro nos dá pela excelente luz que talvez possamos caminhar o nosso cinema comercial, merecedor de todos os prêmios que vêm recebendo. Não deixe de conferir!

Nota: 9/10

7.4.14

The Walking Dead (4ª Temporada)

THE WALKING DEAD

Estados Unidos, 2014 – 672 min. (aprox.)
Drama – Série de TV

Roteiro:
Scott Gimple

Elenco: 
Andrew Lincoln, Sarah Wayne Callies, Laurie Holden, Steven Yeun, Chandler Riggs, Norman Reedus, Melissa McBride, Lauren Cohan, Scott Wilson, Emily Kinney, Michael Rooker, Danai Gurira, David Morrissey


Após o final polêmico da terceira temporada, ninguém sabia ao certo o futuro de The Walking Dead. A série criada por Frank Darabont passou ao longo dos anos trocando de mãos para tentar encontrar seu porto seguro. Desde o começo, o que não faltou foram conflitos e até o próprio Darabont deixou a adaptação das HQ’s de Robert Kirkman, causando desespero nos produtores executivos já que a série, apesar de instável, não parou de bater recordes de audiência, portanto, nada mais preocupante do que não encontrar o rumo certo de um material com extremo potencial e um caminho para se seguir. Após uma excepcional quarta temporada, os executivos de um dos seriados mais assistidos de todos os tempos podem deitar tranquilamente em suas camas, pois o tom ideal foi encontrado para a série, que sem grandes dificuldades, atingiu seu ápice este ano.

A trama continua exatamente onde parou. Rick tenta reconstruir uma vida pacifica dentro da prisão com seus novos moradores, mas tentando evitar a violência do mundo fora das grades, para se dedicar ao cultivo. Quando tudo aparenta estar calmo e em paz, uma misteriosa e mortal doença aparece e começa a ameaçar a vida de todos ali. Um conjunto acontecimentos e atitudes estranhas dentro do local fazem o grupo ficar à espreita e suspeitando que alguém anda alimentando os zumbis. Para piorar, o recuo do Governador à armadilha que foi lhe montada anteriormente parece não surtir mais efeito, fazendo com que ele busque um grupo de refugiados para manipulá-los e buscar vingança.

A entrada de novos produtores mais sábios e com bom senso fez com que todos admitissem os erros cometidos na temporada anterior. Senso assim, a história entre Rick e o Governador que deveria ter se encerrado lá atrás e que não se encerrou de fato, não poderia tomar toda esta quarta temporada. Mas também seria impossível ignorar o que havia sido feito, muito menos prosseguir com o seriado sem dar uma resolução plausível a tudo o que aconteceu. A primeira parte desta quarta temporada resgata os bons elementos do terceiro ano e adiciona muita criatividade, profundidade e reflexão em todo o material. O contágio na prisão, por exemplo, foi uma saída excelente que os produtores encontraram de evoluir The Walking Dead a um patamar que ele poucas vezes, se é que conseguiu atingir alguma vez: intangibilidade. Sempre houve muito físico no material e esse novo elemento acrescentou um desespero ainda não abordado dentro da série e tudo é desenvolvido com muita maturidade.

Com um roteiro muito mais maciço, complexo e com uma abordagem excepcional, os produtores deste quarto ano mostram competência e constroem um belíssimo arco dramático durante toda a série, avançando com muita precisão os mistérios que envolvem esse ano, assim como a rixa entre o Governador e Rick, sem aumentar mais elementos dentro da história, que sabe o tempo todo o foco do que se precisa apresentar. Senso assim, quando realmente chega a hora do confronto este mocinho e bandido, The Walking Dead consegue transmitir cada angustia dos personagens que estão no meio daquela guerra, dando muito sentimento para o telespectador, ao invés de apagar fogo com copo d´água, como foi feito anteriormente. Faz quase o público esquecer a frustração que todos ficaram com o fim da terceira temporada.

E quando todos acharam que a série ia caminhar para a mesmice ou sofrer novamente com problemas de roteiro, uma vez que desenrolou o que parecia o “gran finale” já no meio deste ano, os produtores mostraram que escondiam as melhores cartas para o final e, a partir de seu meio para frente, choca o telespectador com o melhor que pode apresentar. Não caí na fraqueza de querer acelerar toda a trama para ganhar quem assiste na violência gratuita e no entretenimento barato e mostra extrema disposição para desenvolver todos os personagens com excelente abertura, sem exceção. É incrível e muito gratificante ver como a série consegue entender a explosão de drama que criou durante tanto tempo, e abre espaço para os protagonistas irem se descobrindo em seus interiores e resgatando com que havia sido esquecido há tanto tempo. A coisa é levada tão a sério que em diversos episódios, Rick sequer aparece em telas e isso amplia com sutileza e atenção as perspectivas de todo o seriado.

Para revelar tudo o que tem a mostrar, The Walking Dead novamente não poupa o telespectador e o choca com brutalidade em diversas cenas. Há no mínimo duas que assombram e perturbam a quem assiste de maneira nunca vista antes e isso parece ser impossível de se imaginar, principalmente para uma série com tanta violência gráfica. Pois bem, prepare-se para muito tormento moral e fortes emoções.

Revivendo as melhores sacadas criativas, explorando novos elementos sem entrar em conflito ou incoerência com que já havia criado e proporcionando cenas épicas, esta quarta temporada aponta um marco de estabilidade de tom para a série, que pareceu se encaixar perfeitamente agora. Ah, e o final da temporada? Os produtores não foram apressados e esperaram o momento certo, da maneira correta, para deixar a todos contando os dias para o quinto ano. Outubro nunca pareceu tão longe.


Nota: 10/10