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20.3.14

Crítica: Ninfomaníaca - Volume II

NINFOMANÍACA - VOLUME II
Nymphomaniac - Volume II

Dinamarca / Alemanha / França / Bélgica / Reino Unido, 2014 - 123 minutos
Drama

Direção:
Lars von Trier

Roteiro:
Lars von Trier

Elenco:
Charlotte Gainsbourg, Stacy Martin, Stellan Skarsgård, Shia LaBeouf, Jamie Bell, Mia Goth, Willem Dafoe, Michael Pass, Jean-Marc Barr, Ananya Berg


Um pouco mais de dois meses após o lançamento da primeira parte do polêmico projeto de Lars von Trier, Ninfomaníaca – Volume II chega aos cinemas brasileiros praticamente no mesmo tempo em que choca o mundo, principalmente a Europa, com o desfecho de sua película. Para isso, von Trier cria um ensaio de uma mulher inesgotavelmente sexual, em meio a uma sociedade hipócrita, machista, julgadora e contraditória. Isso sem, é claro, deixar de utilizar de seus próprios pensamentos, manipulações e genialidades para criar o próprio mundo que vive e flertar com o espectador, enquanto se delicia masoquistamente com suas agonias.

Essa segunda parte começa exatamente aonde o anterior terminou. Joe confirma a sua insensibilidade perante o prazer sexual e, em estado de fúria, vai à busca de diversos métodos para tentar reverter esse quadro e possuir comando de seu próprio corpo. Na medida em que a sua vida sexual aflora ainda de forma mais perversa, Joe deixa Jerôme de lado, assim como seu próprio filho que vem a ter posteriormente, para embarcar em uma vida perigosa e sem limites e tentar extrair de si própria, um pouco de sentimento.  

Esse volume dois marca uma mudança muito clara na narrativa em relação à primeira parte. Enquanto víamos uma Joe jovem curiosa, cheia de si, manipuladora e insensível, os acontecimentos finais do volume I nitidamente afetam a protagonista e aquele estado de busca divertida por prazer, se transforma em um problema desesperadamente incontrolável e autodestrutivo, da qual Joe não enxerga mais diversão e sim um método escravo da qual se impõe a sobreviver. Nesta busca por descoberta e recuperação, o diretor dinamarquês expõe a personagem e exibe ao público, as mais diferentes e doentias formas de prazer. Entre algumas das cenas mais notáveis, algumas delas são protagonizadas por K (Jamie Bell), um masoquista friamente calculista e perturbado. Prato cheio para Lars, é claro. Assim como a bizarra cena de uma tentativa de ménage à trois, da qual Joe tenta fazer sexo com dois africanos, sem qualquer modo de  comunicação, já que não consegue entender uma palavra do que eles estão dizendo. A percepção da protagonista em descobrir “novas” tentativas de prazer são maneiras metafóricas de von Trier em escancarar a visceral personalidade de Joe, assim como abrir um inimaginável cenário para os diálogos entre a ninfomaníaca e Seligman, o homem que a retira do beco, e questionar além dos instintos da protagonista, o mundo que eles e nós vivemos.

Entre os dois se concentram as melhores partes do longa. É impressionante como o texto do dinamarquês é tão envolvente e complexo, que seu polêmico visual, seja por exibir pênis eretos, vaginas com ferida ou uma excitação doentia que se remete a pedofilia (há uma conversa interessantíssima sobre o assunto, questionando a capacidade do ser humano de conter suas vontades e instintos para fazer o que é certo ou parece certo, pelo menos) entre outros pontos, parece surtir efeito ameno perto excepcional roteiro que Ninfomaníaca – Volume II possui. E é aqui que ele ganha o espectador. Além de todas as teorias que cria na primeira parte, Lars consegue expor outras no mesmo nível, venham elas do músico Beethoven, do neurologista Freud ou mesmo do romancista Thomas Mann. A pedofilia como citada anteriormente ganha um cenário reflexivo. Assim como em Anticristo, Lars volta a questionar o papel da mulher dentro da sociedade, mas foca um lado um pouco distante da sua obra anterior: a repressão do feminismo atual. A hipocrisia da sociedade perante as atitudes de Joe, por exemplo, são questionadas por Seligman, se tudo o que ela fez, não seria bem aceito se ela fosse um homem. Não deixa de falar também da incoerência do politicamente correto dentro do mundo em que vivemos. Na película, a passagem mostra de forma clara a necessidade da mulher em se comportar como um ser inferior ao homem, sendo essa, alvo de intolerância de atitudes consideradas “condenáveis”, sejam elas por ações ou mesmo palavras “indigestas” e “incômodas” para boa parte da sociedade, enquanto essa, às escondidas, não se importa de agir de forma questionável, contanto que a mesma seja camuflada para amenizar o impacto da imagem representativa à pessoa ligada aquela ação ou palavras. Além de claramente ser outro ponto de reflexão sobre Joe, o diretor dinamarquês faz uma referência a si mesmo, no caso de 2011, no lançamento de Melancolia, quando foi mal interpretado e acusado de apoiar o nazismo e fora expulso do Festival de Cannes. De quebra e sem dó, crítica o falso moralismo social, já que von Trier anunciou que faria um filme pornô e a divulgação de Ninfomaníaca sugeria mais sexo do que de fato possui, e esses fatos levaram uma multidão que sequer conhece o seu trabalho e não se importaram de ir assistir ao longa, uma vez que este parecia se fantasiar com arte, quando é justamente o contrário. Ponto para o dinamarquês.

Essa segunda parte pode aparentar mais monótona que a primeira, mas é apenas um equivoco, já que na verdade, o amadurecimento da personagem transforma a narrativa e a sua maneira de conduzir o longa. Nesse aspecto, lembra a diferença entre os dois “Kill Bill”, onde a segunda parte é muito mais “pé no chão” que a primeira. Não é uma questão de qual parte é melhor e sim o porquê desta mudança de perspectiva. E aqui ela é indispensável para o diretor de Dogville dar o drama necessário que a protagonista necessita. Há momentos que,raros em sua carreira, von Trier parece que não sabe exatamente qual caminho irá concluir a obra por conta da quantidade de conteúdo que Ninfomaníaca se dispõe a discutir. Aliás, flerta por duas vezes com Anticristo, recriando cenas do longa de 2009, em uma maneira clara de completar de forma oposta e curiosa, seu raciocínio no filme anterior. Felizmente quem ganha é o espectador, já que o polêmico artista parece sair de sua zona de conforto e desafiar a si próprio.

Como comentado na crítica da primeira parte, a técnica excepcional do diretor, esteta ao extremo, impacta o público de maneira totalmente precisa e deslumbrante. A pouca trilha sonora interage perfeitamente com o silêncio imprescindível do projeto. Há apenas uma cena em que se questiona uma falha técnica de continuação, que não darei detalhes para não dar spoilers, mas que passará invisível para muitos, não consegue fazer o filme perder seu impacto. O elogiadíssimo elenco da primeira parte recebe outros excelentes atores de apoio, como o veterano dos trabalhos do diretor, William Dafoe e o novato e assustador, Jamie Bell. Charlotte Gainsbourg logo assume o papel da fase adulta de Joe e, devota, entrega-se cegamente à personagem. É incrível o trabalho desta atriz francesa que parece não medir esforços para captar toda a atenção do público e, sem piedade, nos manipular em cada aventura doentia da ninfomaníaca.

Sem criar muitas reviravoltas e no tom pessimista de sempre, o diretor dinamarquês termina Ninfomaníaca – Volume II de forma que, a primeira vista, vai parecer despretensiosa para muitos. Mas, na verdade, escancara de forma ainda mais perversa a hipocrisia da sociedade, sua injustiça que, moldada pelo machismo, julga o ser feminismo como objetivo de desvio moral, na condenação mais falsa possível. E toda essa falsidade, é o desfecho perfeito que Lars von Trier encontra para mostrar que a manipulação de palavras e boas intenções, como dizia o velho ditado, o inferno está cheio. E se a exposição de sentimentos tão pessoais e perturbadores de uma pessoa que é incapaz de encontrar paz de espírito por uma obsessão (até a religião é intrigantemente questionada neste aspecto) à falta de prazer em uma das práticas mais naturais de relacionamento entre dois corpos, que leva Joe a autodestruição permanente, remetendo ao constante sofrimento, é incapaz de comover outro ser humano, o que somos como sociedade?



Nota: 9,3/10

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