Procure uma crítica

2.3.14

Crítica: Nebraska

NEBRASKA

Estados Unidos, 2013 - 115 minutos
Comédia / Drama

Direção:
Alexander Payne

Roteiro:
Bob Nelson

Elenco:
Bruce Dern, Will Forte, June Squibb, Bob Odenkirk, Stacy Keach, Kevin Kunkel, Rance Howard, Devin Ratray, Angela McEwan

* Indicado ao Oscar 2014

É de Alexander Payne encantar seus espectadores como as histórias mais simples que podem existir. Vide o excelente Sideways – Entre Umas e Outras e o seu mais recente, o excepcional Os Descendentes. Como de praxe, o brilhante estudo de personagens aliado ao roteiro incrivelmente bem escrito que dá aos projetos de Payne uma identidade poucas vezes vistas no cinema americano, da qual o público sente que está acompanhando histórias de pessoas próximas a ele, tamanho carisma e verossimilhança de sua direção. Em Nebraska não é diferente. O diretor retorna a seu estado de origem para contar mais uma fantástica história.

A trama conta a história de Woody (Bruce Dern), um senhor de idade que acredita ter ganho 1 milhão de dólares na loteria depois de ter recebido uma propaganda de uma revista em seu nome. Descrente do aviso de sua família, o homem tenta por diversas vezes sair de casa para ir reclamar seu prêmio na cidade de Lincoln, em Nebraska. Cansado da situação, o filho mais novo de Woody, David (Will Forte) decide então levar seu pai para a tal cidade e tentar acabar com a situação de uma vez por todas. Mas durante o caminho, o reencontro com a família e a volta das suas origens vai transformar a relação deles permanentemente.

A película granulada em preto e branco não está ali à toa. Ela ecoa um passado da qual o protagonista nunca se desgrudou e, ao mesmo tempo, mostra que as suas decisões atuais são consequência ou inconsequência de seus atos há muitos anos atrás. Ainda sim, a bela fotografia monocromática faz com que o espectador abra um espaço entre a realidade atual e a dos personagens, principalmente pela cultura e educação da cidadezinha por onde o longa passa sua maior parte. A trilha sonora country e melancólica oscila perfeitamente o tom de comédia dramática que Nebraska carrega muito bem.

Sem qualquer pressa para desenvolver sua obra, Payne passa 115 minutos construindo personagens tão cativantes e memoráveis que o espectador não possui a menor dificuldade de se adentrar a história. A relação da família é complexa e muito delicada e o diretor americano consegue explorar um a um e fazer com que entendamos as razões de pensamento e personalidade de cada um. A esposa de Woody sempre revoltada com as atitudes do marido, o filho mais velho tentando apoiar a mãe e segurar a racionalidade dentro da família, enquanto Woody e David vivem a emoção de suas inocências que, em diferentes níveis, um compreende a situação do outro, mesmo que seja sua maneira. David entende o desgaste do pai, mas sem tirar a sua parcela de culpa, ao mesmo tempo não sabe se sente pena da mãe pelo passado sofrido que teve por conta das burras de Woody ou fica com raiva por ela parecer nunca gostar de nada.

O fato cômico do protagonista realmente achar que ficou milionário é explorado de maneira hilária e divertidíssima por Payne. A maneira com que o drama da família vai se desenrolando, é engraçado como a cidade para e Woody vira a atenção de todos por “estar voltando à cidade e mostrar que está milionário”, como diz uma das moradoras do local. Essa mescla dá um ritmo impressionante a Nebraska e o faz tão competente e interessante quanto às outras películas do diretor. É quase impossível não se ter carisma pelos personagens, principalmente Woody, interpretando magnificamente por Bruce Dern. O restante do elenco, outra característica de Payne, é escolhido de maneira extremamente condizente com as necessidades do longa e são igualmente fundamentais.

Sem possuir qualquer reviravolta ou mesmo necessidade de mostrar redenção, Nebraska cativa o público a cada instante pela impressionante conexão que Alexander Payne consegue transmitir para quem assiste suas obras. E se o longa, assim como Philomena, não é páreo para ganhar o Oscar este ano, não é por falta de brilhantismo do seu realizador.

Nota: 9/10

Um comentário:

(Comentários de baixo calão serão moderados e excluídos)