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16.2.14

Crítica: Trapaça

TRAPAÇA
American Hustle

EUA, 2013 - 138 minutos
Comédia / Policial

Direção:
David O. Russell

Roteiro:
David O. Russell

Elenco:
Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Jeremy Renner, Louis C.K., Alessandro Nivola

* Indicado ao Oscar 2014

Nos últimos três anos, David O. Russel fez a proeza virar três vezes todos os olhos de uma academia tradicional e imprevisível de maneira surpreendente. Em 2011, O Vencedor arrancou 7 indicações ao Oscar. Em 2012, foram 8 para O Lado Bom da Vida. E agora com Trapaça, o diretor atingiu o patamar de 10 indicações nas principais categorias, coisa que não era vista desde 1981, com Reds. Apesar de a crítica americana ter sido unânime a excelência do novo longa de O. Russel, aqui no Brasil a crítica se dividiu e atacou o filme por seu único ponto fraco, que de qualquer forma não justifica tanta negatividade: ritmo.

O roteiro afiado e engenhoso mescla uma história real dos anos 70, quando a polícia americana queria descobrir más condutas dentro da política e para pegar diversos membros no flagrante. Inventou um xeque para negociações de ofertas de dinheiro e aproveitou a prisão do malandro Melvin Weinberg e o utilizando como isca e inteligência para liderar essa operação. No entanto, no filme, a história acaba envolvendo a perigosa máfia de cassinos, onde uma grande confusão é gerada, colocando a vida de todos em risco.

As alegações feitas por Trapaça se parecer muito com um filme de Martin Scorsese são verdadeiras. O próprio roteiro, assim como a história é conduzida, lembra muito características do consagrado diretor de Os Bons Companheiros. Entretanto, há diversas escolhas na película, como a absurdamente exagerada (porém muito funcional para o filme) direção de arte, distante do estilo de Scorsese. Embora seja impossível não notar algumas lições de O Lobo de Wall Street no novo filme de O. Russel. A grande influência de Martin para a geração de David traduz seu tributo ao genial diretor de A Invenção de Hugo Cabret. Mas ainda sim, é curioso ver que os dois lutarão pelo Oscar este ano, na ironia de que, enquanto um faz tributo a um mentor, esse mentor foi muito observado por ter deixado um pouco seu próprio estilo no seu novo filme com Leonardo DiCaprio. Ano curioso esse.

Em Trapaça, os personagens parecem que estão se reerguendo do terrível legado de Nixon e o tal sonho americano parece se exalar mais do que nunca. Porém, nessa recomposição de vida, duas distorções são muito claras: o exagero e a ilusão. O cafoníssimo e terrível figurino ilustra a soberba de precisar se aparecer mais do que de fato é. E nessa empreitada, os personagens constroem ilusões para enganar aos outros e a si mesmos. Parece uma questão de sobrevivência, mas na verdade é a desculpa que todos usam para lidar com a instabilidade nacional. O tempo todo O. Russel estabelece essa ligação confusa, bipolar e contraditória de Irving Rosenfeld, Richie DiMaso, Sydney Prosser e Rosalyn Rosenfeld.

O longa abre com Irving (vivido sensacionalmente por Christian Bale) tentando bolar um penteado esquisito para tampar uma calvície impossível de ser disfarçada. A atitude não engana a ninguém, assim como a de Richie (interpretado por um ótimo Bradley Cooper) de querer parecer um tira superinteligente numa tentativa de se afirmar para a mãe, mas é incapaz de ter a percepção básica para a profissão e ter paciência para analisar uma história por completo antes de julgá-la (seu chefe passa a película tentando lhe contar uma história, da qual é interrompida o tempo inteiro e jamais se chega a uma conclusão). Já Sydney (Amy Adams em excelente caracterização) utiliza da sua beleza e cria um sotaque britânico para parecer de origem sofisticada e aristocrata e Rosalyn (Jeniffer Lawrence novamente arranca a atenção nas cenas em que protagoniza) parece estar o tempo toda preparada para uma festa de gala, enquanto se demonstra ser instável e louca. Tudo na verdade é uma grande fachada que serve para, antes de tudo, iludir a eles mesmos. O mundo real não aparenta ser uma opção para os personagens e o diretor americano sabe trabalhar perfeitamente esse aspecto. A direção de elenco é sabidamente forçada para dar o tom quase caricato que os personagens merecem.

Além do excelente trabalho de direção de arte e elenco, a técnica de O. Russel é acertada e novamente é comparada a de Scorsese. Entretanto, por mais feliz que Trapaça seja em sua execução, sendo pelos excepcionais atores, o roteiro inteligente, com ótimas sacadas, ou uma direção precisa, existe um arrastamento de ritmo a partir do segundo ato que perde um pouco a ânsia da proposta mais dinâmica que a primeira metade sugere, nada que de fato estrague a graça do longa ou o faça parecer menos relevante. Acredite, só o esforço do elenco aqui já vale o ingresso.

Nota: 9/10


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