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23.2.14

Crítica: Philomena

PHILOMENA
Philomena

Reino Unido, EUA, França, 2013 - 98 minutos
Comédia / Drama

Direção:
Stephen Frears

Roteiro:
Steve Coogan e Jeff Pope

Elenco:
Judi Dench, Steve Coogan, Sophie Kennedy Clark, Michelle Fairley

* Indicado ao Oscar 2014

A igreja católica, como todos bem sabem, passou milênios (e vive até hoje) criando regras e limites para seus fiéis, em contrapartida a livrá-los de uma vida de pecado e receber a graça divina.  Muitas doutrinas empregadas foram e ainda são polêmicas e questionáveis por apresentarem regimentos e até mesmo crime contra a própria humanidade por sua natureza, principalmente quando o assunto é sexualidade. Se ainda hoje o homossexualismo é tratado como um tabu dentro da igreja, há 50 anos, o mundo envolvendo estes cristões era das mulheres indecentes e impuras que caiam em “pecado”, ficando grávidas na adolescência e deserdadas por suas famílias. Este é o caso de Philomena Lee, que foi largada por sua família em um rigoroso convento na Irlanda, onde as “puras” freiras tomaram e venderam seu filho para um casal de norte-americanos e fizeram o possível para que a garota não tivesse o menor rastro de onde seu filho poderia estar. Tudo, claro, sob a acusação de penitência por conta de seus pecados.

Essa delicada e contundente história é transmitida e visionada por Stephen Frears, sob uma perspectiva muito parecida com seu outro filme, indicado ao Oscar em 2007, A Rainha.  Em Philomena, o diretor trabalha a incapacidade dos costumes atuais em não compreender a criação que a geração anterior recebeu. Se no longa que contava o período complicado que Elizabeth II passava por conta da morte da princesa Diana, que se recusou durante um longo período a se manifestar pela tragédia, revoltando a muitos, e fazendo com que o futuro ministro Tony Blair fosse incapaz de entender os reais motivos de tanta indiferença, aqui o recém desempregado jornalista Martin Sixsmith, procurado por Lee para contar a sua história e tentar ajudá-la a encontrar seu filho, também não consegue compreender porque a personagem-título ainda defende cegamente a igreja católica e as freiras do convento em que foi extremamente mal tratada e deixada a deriva da morte em seu parto. Na necessidade de transição entre duas perspectivas diferentes do mundo, sobre essa mesma história, faz com que a direção de Frears não deixe Philomena cair num mundo de clichês e sim, traz complexidade sem apelar para o dramalhão, e ainda consegue estabelecer um humor britânico muito bem vindo à película.

Se de um lado temos a perspectiva mais próxima do público (o jornalista) e outra sobre a história realmente vivida (Philomena), o roteiro do longa consegue fazer com que o expectador crie uma clara e carismática afeição pela protagonista, não apenas pelo seu drama vívido, mas por sua doçura incontestável. Diferentemente da impessoalidade da rainha, Lee é contagiante e mostra uma impressionante mente aberta quando descobre que seu filho Anthony era gay, mesmo sendo criada sob uma cultura ignorante. Aliás, uma das graças do texto de Steve Coogan e Jeff Pope é esse esforço de Philomena a demonstrar “modernidade”, em aceitar sem qualquer problema as condições de seu filho ou mesmo de se conectar com outras culturas (vide a ótima cena em que a protagonista tenta puxar papo com o cozinheiro mexicano) e enxergar o mundo como vive agora de forma muito diferente do que aprendeu há 50 anos sob um regime rigoroso, e mantendo-se calada desde então. Ainda há a antipatia do jornalista com a protagonista, assim como havia em A Rainha, que vai se alterando de maneira muito natural, quando o personagem vai percebendo o abundante amor em que Philomena se baseia para viver a sua vida, nunca condenando ninguém pelas desgraças decorrentes em sua vida, mesmo quando há motivo para isso.

Para viver personagens tão opostos, o diretor inglês acerta perfeitamente a sua escala de elenco. O roteirista Coogan assume aqui o papel do jornalista, transmitindo com uma competência os dilemas de Martin, o elenco secundário também consegue manter o nível de atuação à altura da exigência que se precisa, mas, claro, é Judi Dench que brilha em uma atuação incrivelmente carismática. Atriz inglesa que é conhecida por seus papéis de personagens rígidos, antipáticos e cruéis, se transforma totalmente para viver Philomena, onde seu incrível olhar é penetrante e indescritível como poucos no cinema. Uma das melhores atrizes da história. E sua indicação ao Oscar deste ano, como sempre, é mais do que justa.

Apesar da competência e de sua beleza, Philomena possui uma chance quase nula de ganhar a estatueta de melhor filme este ano, pois, embora nos deparemos com uma história comovente e capaz de fazer uma forte crítica ao catolicismo, não consegue se manter no nível do brilhantismo em que seus concorrentes estão este ano. É um patamar acima e lá, este ano, só tem espaço para obras-primas.

Nota: 8,5/10

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