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17.2.14

Crítica: Ela

ELA
Her

EUA, 2013 - 126 minutos
Romance

Direção:
Spike Jonze

Roteiro:
Spike Jonze

Elenco:
Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Rooney Mara e Amy Adams

* Indicado ao Oscar 2014

Spike Jonze não encabeça a lista das melhores ficções cientificas de todos os tempos, com Quero Ser John Malkovich, de graça. O longa estrelado por John Cusack, Cameron Dias e o próprio John Malkovich é uma obra-prima irretocável, incrivelmente ousada e criativa, com uma crítica sensata sobre a sociedade em que vivemos. Essa exploração social é encontrada em todos os (poucos) filmes do diretor. Não é diferente com Ela, a sua mais nova e contemporânea obra-prima que faz de um poético romance, uma crítica perturbadora a realidade que aparentamos estar perto cada dia mais.

Não se sabe exatamente o ano, apenas que é um futuro não muito distante e a tecnologia avança de maneira a se interagir perfeitamente com os seres humanos. Logo conhecemos o escritor depressivo e solitário Theodore (Joaquim Phoenix), que trabalha em uma empresa responsável por criar cartas emotivas para pessoas incapazes de se expressar. Tendo que lidar com uma não muito bem aceita separação, o escritor amarga os dias trancado em seu apartamento, onde esses parecem não florescer. Certo dia, Theodore vê o anúncio de um sistema operacional totalmente revolucionário que, além de se comunicar de forma realista com os seres humanos, armazena experiência de vida e interage com você exatamente como se estivesse ao lado de outra pessoa. Após comprar o sistema, o escritor começa a viver a vida com a presença de Samantha (narrada por Scarlett Johansson). Surpreso pela perfeição da inteligência artificial, ele logo começa a ter dúvidas de que Samantha possa ou não ter emoções. Não demora muito para ambos começarem um inusitado romance.

Por mais absurdo que o roteiro pareça ser, ele assusta mais pela verossimilhança da nossa realidade do que o romance propriamente dito. O maravilhoso texto escrito por Jonze explora com muita competência as fragilidades humanas, a sociedade moderna e a interação entre o homem e a máquinas. Os diálogos, mais do que necessários, serão cruciais e extremamente bem executados aqui para que Ela consiga atingir com louvor seus propósitos, uma vez que o próprio diretor tenta implantar a dúvida que Theodore tem em relação à Samantha. Será que um ser que é capaz de enxergar tudo o que eu vejo, é incapaz de não sentir o que eu sinto?

Com uma técnica delicadíssima, uma ambientação impressionantemente realista ao nosso provável futuro, a fotografia que parece captar com perfeição as sensações que Theodore tenta transmitir para o sistema e a trilha sonora absolutamente rica e sensível, cheia de personalidade melancólica, que parece ao fundo remeter certa nostalgia das relações humanas de antigamente.

É incapaz de não associar o “zumbinismo” da sociedade futura com a nossa atual. É só trocar o inteligentíssimo programa pelos smartphones de hoje. Pessoas do lado de outras pessoas conhecidas, caminhando de um lado para o outro, sentadas em bares e restaurantes, sentadas dentro de uma sala de cinema e a todo instante, a qualquer momento, estão conectadas alienadamente a um aparelho, enquanto o resto a sua volta parece distante, as pessoas queridas indiferentes e o sabor do mundo parece se resumir ao touchscreen e o barulho de envio de uma mensagem. E neste aspecto, o diretor de Onde Vivem Os Monstros consegue transmitir de forma perturbadora a realidade que será nossa daqui alguns anos.

E sem parecer indiferente, Jonze transmite em Ela, o melhor exemplo que deveríamos tomar. A maneira como ele resolve sua obra, além de incrivelmente madura e nada apelativa, faz o expectador engolir de maneira grosseira e indigesta, o exagero do nosso apego por aparelhos que parecem “solucionar” as nossas vidas. Mas da mesma forma que os índios ficavam iludidos há 500 anos com espelhos, nós ficamos hoje com as vozes e comandos eletrônicos. A maneira em que tocamos em telas parece nos distanciar um pouquinho mais a cada dia do mundo a nossa volta. Afinal, o que estamos fazendo aqui, se não para viver?

Assertiva, a direção de elenco de Spike esbanja carisma em papeis difíceis de transmitir com tamanha sutileza. Destaque para o excelente Joaquim Phoenix e Scarlett Johansson que está surpreendente dando vida ao sistema operacional, conseguindo transmitir com muito esforço os sentimentos que o programa esboçar ter. Memorável. O resto do elenco fica com a sempre ótima Rooney Mara e Amy Adams que, além de estar no Oscar deste ano por Trapaça, ainda tem um papel destaque em Ela.

E se somos condenados a esperar 15 anos para que Jonze consiga ser tão artista quanto foi em Quero Ser John Malkovich, afinal, obras-primas não nascem da noite para o dia... Que assim seja!


Nota: 9,5/10

2 comentários:

  1. Concordo com você, Lucas. "Ela" me deixou com os olhos e ouvidos atentos do começo ao fim. Texto maravilhoso, super bem escrito, inteligente. É antes de tudo um filme pra nos fazer refletir sobre o que estamos fazendo com nossa vida real - aquela que acontece à nossa volta - e o que estamos permitindo que aconteça com nossos sentimentos genuínos e nossas relações com pessoas de corpo e alma.

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  2. Concordo com você, Lucas. "Ela" me deixou com os olhos e ouvidos atentos do começo ao fim. Texto maravilhoso, super bem escrito, inteligente. É antes de tudo um filme pra nos fazer refletir sobre o que estamos fazendo com nossa vida real - aquela que acontece à nossa volta - e o que estamos permitindo que aconteça com nossos sentimentos genuínos e nossas relações com pessoas de corpo e alma.

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