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24.2.14

Crítica: 12 Anos de Escravidão

12 ANOS DE ESCRAVIDÃO

12 Years a Slave 

EUA, 2013 - 133 minutos.
Drama

Direção: 
Steve McQueen

Roteiro: 
John Ridley

Elenco: 
Chiwetel Ejiofor, Benedict Cumberbatch, Brad Pitt, Michael Fassbender, Paul Dano, Quvenzhané Wallis, Sarah Paulson, Paul Giamatti, Garret Dillahunt, Michael K. Williams, Taran Killam, Alfre Woodard, Lupita Nyong'o

* Indicado ao Oscar 2014

“Levou um século para vermos o impacto do chicote em um corpo nu”, disse David Thompson, para a revista New Republic sobre o novo filme de Steve McQueen, 12 Anos de Escravidão. Na verdade é muito mais. Demorou um século para nós compreendermos da maneira mais cruel e sádica possível, o que é extrair até a última gota de dignidade de um ser humano para compreender quase que de forma tangível o que significou a escravidão, um dos maiores afrontes da sociedade desde que nos entendemos por civilizados. Para conseguir tal feito, o novo trabalho do diretor de Shame, avança o sinal do brilhantismo e, ao mesmo tempo, dos escrúpulos para entregar uma obra mais do que inesquecível: necessária.

Desde 2006, quando assisti pela primeira vez o excelente Voo 93, de Paul Greengrass, que não me revoltava tanto com uma película quanto agora. Ver tantas pessoas serem maltratadas por uma violência totalmente gratuita não é algo fácil de digerir, mas aqui o recado de McQueen vai muito além de mostrar a violência da escravatura no sul dos Estados Unidos no século 19. 12 Anos de Escravidão é uma pancada violenta e marcante para enxergarmos este monstruoso acontecimento histórico da maneira mais clara possível.

A película adapta a biografia de Solomon Northup, um negro que vivia livremente com sua família em Nova York, onde fora sequestrado por dois músicos brancos que lhe ofereceram uma parceria irrecusável para que Northup se apresentasse junto da dupla. Foi vendido para o mercado de escravos, comprado por Edwin Epps, um senhor com uma grandiosa plantação de algodão no sul dos Estados Unidos. Sem quaisquer possibilidades de objeção as suas condições, o músico ali viveu 12 desgraçados anos como um escravo, assim como o título revela. 

No terceiro longa do diretor inglês, a crueza característica de seus trabalhos anteriores permanece de maneira extremamente sabia aqui. O longa não retrata nada de forma piegas ou força um dramalhão desnecessário apenas para emocionar o espectador, pelo contrário, 12 Anos de Escravidão emociona e perturba a quem assiste pela perspectiva brutal a uma clara realidade dos acontecimentos daquela época. Época aonde os seres humanos era tratados piores do que animais, mortos de forma chocante, apanhavam de forma indescritivelmente perversa e sádica, saciando uma vontade incompreensível de ódio e desmerecimento. Onde mulheres eram estupradas nojentamente e sequer podiam procurar ajuda, pois seus “donos” estavam no direito de fazer com elas o que bem entendiam. Com uma história macabramente extraordinária quanto essa, é mais do que desnecessário forçar o drama. Os acontecimentos já foram dramáticos o suficiente para revoltar o mais sangue frio dos expectadores. 

Com um horror atrás do outro, Steve consegue fazer a transição perfeita para as telas que se exige do personagem, deixando de ser um músico para ser um legítimo escravo. A descaracterização física e psicológica do protagonista é assustadora a cada minuto (ele é obrigado a fingir que não sabe ler ou escrever, sob penitência de morte e ainda atender por um nome que não é dele) e conforme vai adentrando a rotina horrorosa de seus companheiros, vai sofrendo de maneira tão intensa e insuportável, que aquela raiva e revolta geradora de justiça e vingança, é esmagada pelo desespero e o medo constante de passar o resto da vida vivência sob condições doentias e muito mais que desumanas. É impossível não compartilhar do sentimento de Solomon, assim como dos outros escravos, de estar tão desgraçado em uma vida cruel e sofredora, que qualquer opção de felicidade ou alívio de tanto sofrimento é o suficiente para arriscar qualquer coisa. E por mais raiva que o protagonista sinta de um dos escravos que o abandona quando é resgatado por seu verdadeiro “amo”, ele sabe que é impossível julgar um ser humano tão desesperado por paz, por mais curta e mentirosa que ela possa ser. 

Para ilustrar da pior maneira os sentimentos citados acima, McQueen filma uma sequência ininterrupta entre Northup, Epps e Patsey, a escrava considerada uma “deusa” pelo seu senhor, já que ela faz uma colheita muito acima de qualquer outro em suas plantações. Essa é alvo de estupros violentos constantes, assim como é alvo mortal da ciumenta esposa de seu dono. Quando abandona por algum tempo a fazenda e aceita de gratidão um sabonete de outro fazendeiro, Patsey recebe a fúria insaciável de Edwin, quando ela o confronta e joga em sua cara que, apesar de ser a melhor colhedora entre os escravos, não recebe o menor dos agradecimentos e ainda é obrigada a conviver em condições tão insuportáveis, que sequer aguenta seu próprio odor. Sem pensar duas vezes Epps chicoteia tão ferozmente sua mucama, que quem assiste é obrigado a respirar lentamente e lembrar que a cena, por mais revoltante que seja, aconteceu há mais de 100 anos atrás. E ainda, mesmo assim, é impossível não se abalar pela insana brutalidade da qual a escrava é submetida. 12 Anos de Escravidão também exige muito do bom estado espiritual do público, que é incapaz de não sair abalado depois da projeção. 

E por mais físico que o longa de McQueen aparente ser, o verdadeiro destroço daquela terrível época se encontra dentro das mentes e corações de quem é submetido a tanta tortura. A falta de esperança e expectativa de vida da qual os escravos tem que encarar vale mais que as chicotadas que levam, pois essas cicatrizam, enquanto a dor da perda permanente de um filho ou de uma família inteira, é irreparável.

Para expor com tanta precisão e tanta riqueza de detalhes, sejam eles visuais ou emocionais, o diretor inglês conta com uma fotografia irretocável, uma trilha sonora poderosa, que lembra a de Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson e um elenco arrebatador. Todos, sem exceção, se esforçam igualmente para transcender 12 Anos de Escravidão para outro patamar. Sendo assim, é difícil mensurar competência dentro de um elenco tão impressionante, quando se tem Benedict Cumberbatch, Paul Giamatti (doentio ao máximo), Paul Dano e Brad Pitt. Mas assim sim, é impossível não dar os devidos créditos a excelente Lupita Nyong’o, que demonstra uma sensibilidade e delicadeza absurda em meio a tanta desgraça, Michael Fassbender que encarna o demônio em forma de gente, brilhante e revoltantemente detestável e, claro, Chiwetel Ejiofor em uma atuação indescritivelmente emocionante, envolvente e poderosa, dando a força perfeita necessária para este extraordinário papel.

O Oscar tem um histórico muito grande de dar o prêmio mais importante do cinema para filmes das quais muitos julgam não merecedor, mas este ano, o primeiro que acusar o novo filme de Steve McQueen de não merecer a possível estatueta que levará no dia 02 de Março, deve rever seus conceitos sobre o que é cinema. 12 Anos de Escravidão é mais do que um filme, é uma obra-prima imensurável, em que poucas às vezes me faltam palavras para descrever uma experiência tão memorável e única quanto essa. 

Nota: 10/10

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