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3.1.14

Crítica: O Hobbit: A Desolação de Smaug

O HOBBIT: A DESOLAÇÃO DE SMAUG
The Hobbit: The Desolation of Smaug

Aventura/ Fantasia
Nova Zelândia, 2013 – 161 Minutos.

Direção:
Peter Jackson

Roteiro:
Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson

Elenco:
Martin Freeman, Ian Mckellen, Richard Armitage, Ken Scott, William Kircher, Benedict Cumberbach, Orlando Bloom, Cate Blanchett, Luke Evans

De tudo o que já havia sido comentado e questionado em minha crítica da primeira parte da futura trilogia, O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, adaptação do romance ambientado no universo do consagrado O Senhor dos Anéis, também escrito por J. R. R. Tolkien, dirigido novamente pelo neozelandês Peter Jackson, confirma todas as suposições, antes meros incômodos, que agora se tornaram fatos. O Hobbit: A Desolação de Smaug brilha nas telas com seus efeitos especiais esplendorosos, sua direção de arte magnífica e seus atores empenhados, entretanto, amarga dolorosamente um roteiro excessivo e disperso, em uma edição visivelmente incapaz de cortar o menor take filmado.

A tal necessidade que Jackson apontou no inicio do projeto em transformar o livro minúsculo de Tolkien em uma trilogia, mostra agora com clareza a sua ambição cega em manter a sua fortuna (uma das maiores de Hollywood, onde também é dono de uma das maiores indústrias de efeitos especiais do mundo) intacta, depois que quase afundou a Universal, em 2005, com seu estrondoso e caríssimo King Kong e a má recepção de Um Olhar no Paraíso. A verdade é que desde o fim da trilogia do anel, Jackson não havia dirigido um projeto que pudesse fazer jus ou se nivelar as suas adaptações premiadíssimas do universo da Terra Média. É claro que nenhum executivo iria se opor a ideia depois de O Senhor dos Anéis render bilhões de dólares, pelo contrário, enrolar o expectador para arrancar cada centavo dos mesmos é o objetivo de quem vive exclusivamente das gigantescas bilheterias hollywoodianas. O que denuncia a ganância do neozelandês, são as desculpas para a concretização, diga-se de passagem, totalmente desnecessárias para a execução de três filmes, com aproximadamente, três horas de duração cada. Em resumo, são quase nove horas para contar um livro de menos de 300 páginas (a maioria das edições são 298 páginas, que podem alterar para mais ou menos, conforme a publicação).

Como já dito anteriormente, enquanto a característica dos bons diretores europeus consiste em aproveitar a simplicidade de muitos roteiros para contar de maneira calma, porém, extremamente pertinente à obra, com riqueza seus detalhes, com espaço para filosofias, metáforas e simbolismos impressionantes e altamente bem-vindos que dão complexidade à película, Jackson enrola o expectador comum (que vai se cansando lentamente com o filme) com belos cenários e sequências que, de um lado para o outro, uma montanha de falas e discussões, não chega a lugar nenhum. Claro, os únicos que não vêem que A Desolação de Smaug é uma grande “encheção” de linguiça, são os fãs xiitas que, cegos pela adoração ao universo de Tolkien, enxergam tudo com nostalgia a trilogia que os abandonou, há dez anos.

Enquanto isso, Bilbo bolseiro (Martin Freeman) e sua trupe caminham (lentamente) em direção à Montanha Solitária com o objetivo de recuperar a Pedra de Arken e fazer com que Thorin (Richard Armitage) obtenha respeito dos anões e retorne a sua posição de rei. Entretanto, o artefato está escondido nos tesouros do temido dragão Smaug (caracterizado por Benedict Cumberbach), cuja lenda conta com a aniquilação de povoados inteiros. Em meio à jornada, Gandalf (Ian Mckellen) se vê obrigado a desvendar uma força sombria que começa a despertar na Terra Média.

Apesar de a ação despertar com mais rapidez que no longa anterior, A Desolação de Smaug demora para engrenar. Há excesso de sequências, que individualmente, entretém o público por suas instantâneas diversões, mas, rapidamente, não é difícil perceber que a primeira hora que se foi, e pouco acrescentou ao roteiro. Infelizmente isso acontece até o fim da projeção. Jackson parece confiar demais na tendência de divisão de obras em tela, o que é completamente justo quando temos material necessário para isso, como a divisão do último livro de Harry Potter. Afinal, estamos falando da maior franquia de todos os tempos e existe uma expectativa gigantesca para sua conclusão. Há diversos arcos para se fechar, tudo em um tempo hábil para que nada seja enfiado goela abaixo de quem assiste.

                Aqui, somos levados de um lado para o outro, em edições errôneas em não saber quando cortar cenas e sequências para otimizar o material. Isso acontece porque há nove horas para contar uma história que facilmente poderia ser reduzida para três, três horas e meia de projeção. O tal Smaug, personagem citado no subtítulo, aparece somente no fim do segundo ato e, apesar da bela caracterização de Benedict Cumberbach (o destaque de 2013), sofre por não poder fazer muito em cena, já que o diretor neozelandês quer que paguemos outro ingresso para descobrir a força da lendária história do feroz dragão. Pela sorte da qualidade do material que adapta, junto dos excelentes atores que formam o elenco (sem exceção), Jackson consegue criar expectativa o suficiente para fazer quem já viu as primeiras duas partes de sua trilogia, tenha vontade de concluí-la.

                Falando assim, parece que tudo nessa continuação está perdida, mas não é verdade. O humor da película foi aprimorado e seu tom se aproxima ainda mais de O Senhor dos Anéis. Há sequências interessantíssimas (mesmo que não acrescentem nada ao filme), como a empolgante fuga dos anões pelos barris, onde Jackson filma tudo em um plano sequência tão inspirado quanto As Aventuras de Tintim, de Steven Spielberg. Entretanto, o mérito do diretor neozelandês é maior, já que Spielberg orquestrou tudo através de uma animação e não utilizou atores reais como acontece aqui. O uso do 3-D é falho e não existe uma fotografia adequada para sua execução. Sequer há uma preocupação muito grande com o formato, além de arremessar coisas contra quem assiste, um erro primário e imperdoável vindo de um artista tão perfeccionista em suas imagens. Parece outra engambelação para encarecer os preços dos ingressos.

                Por fim, O Hobbit: A Desolação de Smaug lembra as grandes novelas do horário das nove. Existe uma expectativa criada para o público e uma data para o grande espetáculo acontecer, só que até lá, as emissoras enrolam durante toda a semana para revelar, nos cinco minutos finais do último episódio, o que de fato irá ocorrer. E se nas novelas o telespectador tem que esperar até a segunda-feira para acompanhar o desfecho, aqui o expectador terá que desembolsar mais um ingresso e aguardar até novembro de 2014 para concluir o que poderia ter terminado há um ano. Peter Jackson e os executivos agradecem.

Nota: 5,5/10


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