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13.1.14

Crítica: Ninfomaníaca - Volume I

NINFOMANÍACA – VOLUME I
Nymphomaniac - Volume I

Dinamarca / Alemanha / França / Bélgica / Reino Unido, 2013 - 118 minutos

Drama

Direção:
Lars von Trier

Roteiro:
Lars von Trier

Elenco:
Charlotte Gainsbourg, Stacy Martin, Stellan Skarsgård, Uma Thurman, Christian Slater, Connie Nielsen, Shia LaBeouf

               Antes de começar a falar propriamente dito da primeira parte de Ninfomaníaca, o novo polêmico filme de Lars von Trier, existe a necessidade de desmistificar alguns fatos. O primeiro deles é o marketing do filme. A equipe responsável pela divulgação se apropriou junto da necessidade de retorno financeiro, ao humor negro e controverso do diretor dinamarquês em afirmar que ele dirigiria seu primeiro filme pornô, para fazer propagandas polêmicas que aguçassem os leigos. O segundo é obvio, mas parece não ser para os que caíram de gaiato em toda a polêmica campanha de divulgação. Esperar que Von Trier se rebaixasse a pornografia é como esperar que Mozart fizesse um funk carioca, se ainda estivesse vivo.

              Em Anticristo e Melancolia, Lars explora suas protagonistas a questionarem a natureza, o sentido da vida, a existência da paz ou da felicidade e os próprios instintos humanos. Em conturbadas conclusões, o perturbado diretor a cada longa vai construindo uma versão mais cruel, sólida e inevitavelmente pessimista do mundo em que vivemos. Em Ninfomaníaca, Von Trier expele do expectador o pouco que lhe restava: o amor.

              O longa conta a trama de Joe (Charlotte Gainsbourg), que é encontrada ferida em um beco por um velho chamado Seligman (Stellan Skarsgård). Exigindo que não chamasse a polícia ou ambulância, a ninfomaníaca é levada pelo senhor em seu apartamento. Enquanto Joe se recupera, narra sua luxuriante história de vida para Seligman, que fica cada vez mais surpreso e interessado em suas confissões.

             “O amor distorce”, afirma a protagonista ninfomaníaca que, junto de um grupo de outras garotas, busca um insaciável prazer e controle sobre o sexo, dominando todos os homens que veem a sua frente. Entretanto, a fala de Joe logo ilustrará a sua insuportável realidade: é enjaulada como um animal por seus próprios instintos. Dito isso, Von Trier utiliza do sexo como as exatas de matemática. Existe uma formula para o estimulo, uma para o interesse, outra para provocação e outra para a vontade. É um filme de sensações. O diretor dinamarquês ainda dá o prazer de explorar a mente de quem assiste com metáforas e simbolismos mais tangíveis para sua proposta como a proporção áurea, teorias matemáticas de Fibonacci ou mesmo com a polifonia de Bach que, em todas, mas principalmente nesta última, é exposta de maneira brilhante.

               Como não poderia ser diferente, Lars inevitavelmente assemelha o instinto do sexo humano ao animal. A irracionalidade humana em seu comportamento é comparada os animais que chamamos de irracionais. E se eles são irracionais, o que de fato somos? Von Trier responde da forma mais fria possível através de Joe: “O amor distorce”. Sim, a realidade. A realidade da desculpa perante o desejo, e nele, a ninfomaníaca é incapaz de não se sentir só, uma vez que não consegue esboçar mais que a indiferença perante aos que te cercam. A tragicômica sequência em que um de seus amantes decide abandonar sua família e esta aparece no apartamento de Joe, onde Mrs. H, (O diretor dinamarquês acerta em mostrar a indiferença da protagonista em nomear boa parte dos personagens com apenas uma letra aleatória, como se a mesma não fosse importante), interpretada irreconhecivelmente por Uma Thurman, leva seus três filhos a conhecer o apartamento e a vida que seu pai trocou para viver com uma promiscua. Esta frisa após o conto que não sentiu nada depois deste capitulo.

              Este episódio também ilustra o poder da mulher em dominar e também fingir. Mesmo que Joe afirme que a maldade e perversidade se resumem a si própria e não aos demais, é impossível deixar de refletir ali sobre o controle da mulher perante o homem, mesmo que no fundo as propostas de Ninfomaníaca não sejam essas, uma vez que o desejo esteja presente durante toda a película.

              Em sua inconfundível e impecável técnica, o diretor dinamarquês otimiza com perfeição as sensações de sua película em uma fotografia irrepreensível, assim como a trilha sonora chocante e brusca (é cortada a todo instante e quebra o simbólico vazio com um rock alemão pesadíssimo) e sua audaciosa edição. Sua direção artística ganha grandiosos méritos com a escala de seu excelente elenco. Destaque para a sempre excepcional Charlotte Gainsbourg, Christian Slater e Stacy Martin. O trabalho estreante de Martin é arrasador e não poderia ter ingresso melhor na sua carreira de atriz com um papel tão desafiador e complexo. A única ressalta para o filme, positiva de cerca forma, é que facilmente a versão sem cortes poderia ter sido exibida, uma vez que essa versão de duas horas é incrivelmente rápida e interessante ao ponto de estimular o espectador a prosseguir com a história por mais tempo. Se possível, é recomendado assistir a versão estendida.

               Na agonia da solidão e dos insaciáveis desejos, a nova protagonista de Von Trier sofre assim como as suas demais personagens principais que, sempre em busca de um sentido para algo, se chocam inconsolavelmente com amargos destinos ou são obrigadas a encarar uma realidade nada digerível. Em Ninfomaníaca, Joe vive o paradoxo entre o desejo, o sofrimento e a sensação de estar enjaulada em um mundo onde nada parece ser saciável, nem mesmo o tal amor. E neste ponto final, Lars instiga o expectador a aguardar a segunda parte da concepção de obra. Que março chegue logo.


Nota: 9,3/10

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