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19.1.14

Crítica: Gravidade

GRAVIDADE
Gravity

EUA, Inglaterra, 2013 - 90 minutos
Ficção científica

Direção:
Alfonso Cuarón

Roteiro:
Alfonso Cuarón, Jonás Cuarón

Elenco:
Sandra Bullock, George Clooney, Eric Michels, Basher Savage, Paul Sharma

* Indicado ao Oscar 2014

               Alfonso Cuarón é um dos poucos diretores em Hollywood atualmente que possui uma flexibilidade impressionante em seus projetos. Sair de um drama fantasioso (A Princesinha), para uma das maiores franquias de todos os tempos (Harry Potter), depois pular para um drama pós-apocalíptico assustadoramente pessimista (Filhos da Esperança) não é fácil. O diretor mexicano prova agora com Gravidade que, além também saber dirigir uma belíssima ficção cientifica, é capaz de entregar ao cinema uma das melhores experiências deste consagrado gênero, sendo comparado até ao icônico, 2001: Uma Odisseia no Espaço.

             A trama, simples de tudo, é enganosamente despretensiosa. Uma vez que Cuarón se aproveita dessa simplicidade para produzir seu irretocável espetáculo. Nela, acompanhamos Ryan Stone (Sandra Bullock) uma engenheira médica reparando um satélite no espaço com o veterano cientista Matt Kowalski (George Clooney). Em meio ao trabalho, ambos são surpreendidos com uma chuva de destroços que, além de cancelar a missão, atinge letalmente o veiculo espacial em que estavam, matando todos a bordo e deixando os dois lutando pela vida à deriva no espaço.

             Antes de falar sobre a irrepreensível e sublime técnica de Gravidade, é importante deixar bem claro que o maior triunfo de Cuarón é saber manipular o expectador da melhor forma possível. O subgênero “survivor” (lutar pela vida) geralmente se depara com duas grandes montanhas capazes de fazer com que qualquer filme, por melhores que sejam as intenções, percam radicalmente seus potenciais. A primeira delas é perspectiva. Este tipo de projeção só consegue transmitir tensão, angustia e desespero, independente de seu universo ou ambientação, sejam eles na água (Mar Aberto), na floresta (A Bruxa de Blair), em um prédio ([REC]), quando a perspectiva de toda a película se mantém o tempo todo com seu protagonista e/ou na ambientação que se propõe o projeto. Quando o diretor inventa de mostrar a perspectiva de fora da ambientação da “sobrevivência”, o público tem tempo para relaxar e analisar a situação de “fora”, fazendo com que as cenas percam seu impacto, uma vez que a claustrofobia e os outros sentimentos se perdem. Exemplo recente é Demônio, de M. Night Shayamalan, que propõem um “survivor” dentro de um elevador, mas mediante a fraqueza do diretor indiano que é incapaz de segurar o roteiro dentro da ambientação proposta, o longa perdeu imensa força que poderia ter tido. A segunda delas é o ritmo. Mesmo quando o realizador consegue manter a perspectiva dentro do que propõe, por consequência, um por maiores problemas deste tipo de projeto é o ritmo, uma vez que a câmera permanece o tempo todo com o protagonista, o que pode causar problemas para manter a intensidade do roteiro e comprometer o resultado final.

              Entretanto, nada disso acontece com Gravidade. Quatro anos e meio de produção, mais conselhos de grandes diretores como James Cameron e David Fincher, foram mais que suficientes para Alfonso saber exatamente como fazer seu projeto andar da melhor forma possível. O roteiro é engenhosamente sem grandes complexidades e quando a película consegue driblar com louvor os problemas característicos do gênero, o mexicano se depara com um problema jamais encontrado com tanta força no cinema: ambientação. Como produzir uma película que passa todo o seu tempo no espaço, sem de fato, por razões obvias, conseguir filmar nele? Para isso ele se viu obrigado a produzir ambientações inéditas, até mesmo uma caixa sem gravidade, para poder dar verossimilhança à Gravidade. O resultado chega a ser assustadoramente realista.

               Com a produção gráfica perfeita em mãos, tudo é maravilhosamente orquestrado com uma edição perfeccionista, uma fotografia inteligentíssima, que sabe exatamente quando dar ao expectador a dimensão do problema que os personagens enfrentam (o titulo da película é mais que sugestivo) e ao mesmo tempo, fecha sabiamente suas lentes que mantém com glória a tensão e ritmo de todo o filme, e proporciona também outra agonia além da falta da gravidade, que são os momentos em que os protagonistas estão desesperadamente em busca do menor objetivo intacto para se segurarem e não serem arremessados para o vazio. Para completar a oscilação das imagens, o mexicano constrói uma das melhores mixagens de som da história do cinema. Aproveita o perturbador silêncio do espaço, junto a impactante trilha de Steven Price, para oscilar também a trilha sonora de Gravidade. É uma mescla impressionante de som e imagem poucas vezes tão bem alcançadas. Como se não bastasse a absurda experiência que proporciona, Cuarón ainda eleva sua obra-prima com um 3-D absolutamente encantador, jogando a quem assiste para dentro das telas de forma única e lindíssima.

               Não bastasse tanta precisão, o pequeno elenco não poderia ser melhor. Clooney sabe dar na medida certa o carisma que Kowalski precisa e Sandra Bullock, em um dos melhores papéis de sua carreira, consegue agarrar o público e fazermo-nos sentir, quase que literalmente, todos os temores de Ryan. Um papel incrivelmente difícil, uma vez que a atriz tem quase tudo contra a seu favor (o capacete e traje de astronauta que dispersa a expressão corporal e facial da personagem). Porém, após uma cena em que Bullock, sem querer, está ouvindo o latido de um cachorro pelo rádio transmissor e automaticamente consegue sentir a brutalidade da distância em que está da Terra e de toda a humanidade, é o suficiente para tornar sua atuação inquestionável.

               Brilhante do começo ao fim, Gravidade é uma daquelas experiências em que devem ser presenciadas a qualquer custo. E se a desculpa para ainda não ter conferido essa obra-prima é porque não gosta de “filmes no espaço”, é bom rever seus conceitos, porque Alfonso Cuarón acaba de reinventar este gênero com tanta força, quanto à de Kubrick, em 1969.


Nota:10/10

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