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8.12.13

Crítica: Carrie - A Estranha

CARRIE - A ESTRANHA
Carrie

Estados Unidos, 2013 - 100 minutos
Terror

Direção:
Kimberly Peirce

Roteiro:
Lawrence D. Cohen, Roberto Aguirre-Sacasa

Elenco:
Chloë Grace Moretz, Julianne Moore, Gabriella Wilde, Portia Doubleday, Ansel Elgort, Judy Greer, Alex Russel

Apesar da saturação de remakes de clássicos na última década, é ainda compreensível uma nova refilmagem do ícone do terror setentista, dirigido por Brian De Palma, Carrie – A Estranha, principalmente pelo ápice da superficialidade/ futilidade que os adolescentes de hoje conseguiram atingir sem grandes esforços e uma das forças do original vinha exatamente deste infeliz feito. Sendo assim, a história da garota ridicularizada pelos demais colegas de escola teria força o suficiente para ser tão competente quanto o longa de 1976 e atingir seu ápice de forma louvável e memorável. Mas não é o que acontece aqui. A nova adaptação do romance de Stephen King, comandada desta vez por Kimberly Peirce, do premiado Meninos Não Choram, é incapaz de dar espaço a personagem-título para honrar o subtítulo que o longa leva em terras brasileiras, onde valoriza entrelinhas a natural beleza de Chloë Moretz e faz expectador que assiste pela primeira vez este clássico ficar confuso e o veterano irritado.

Na conhecida trama, Carrie é criada de forma isolada e anormal por sua fanática e psicótica mãe religiosa, Margaret (Julianne Moore). Na volta de uma aula de educação física, Carrie passa pelo constrangimento de ter, sem saber sequer o que era, sua primeira menstruação no vestiário no meio de diversas garotas. Assustada e achando estar doente, ela pede ajuda das demais, que a ridicularizam, a humilham e, decorrente a raiva, percebe ter poderes telecinéticos. Em crise de consciência, Sue Snell (Gabriela Wilde) se sente mal por ter participado do ocorrido, onde decide sacrificar sua noite do tão esperado baile de formatura e pede para seu namorado Tommy Ross (Ansel Elgort) que convide Carrie e garanta uma noite inesquecível à garota. Entretanto, uma armadilha é montada no evento, onde ela é novamente humilhada em público, despertando a ira dos poderes recém-descobertos da adolescente.

O roteiro é enfadonho por querer seguir a risca tudo o que foi já foi criado anteriormente, mostrando claro despreparado e receio de Kimberly em lidar com um material tão cultuado. Com uma seleção de atores fracos, com exceção a esforçada Moretz, que não consegue em nenhum momento se conectar com a personagem que vive, o texto só consegue se sobressair e prender o público quando a irreparável Julianne Moore está em cena. Surtada de forma amedrontadora, a atriz é o ponto alto da película e carrega todo o elenco nas costas. Aliás, se algo dá medo nessa nova adaptação de Carrie – A Estranha, é Margaret. As clássicas falas da personagem permanecem aqui e devem garantir ao expectador veterano um pouco de prazer neste remake.

Ao invés de aproveitar a época fútil e de ostentação dos jovens de hoje para criar metáforas e simbolismos, Peirce abraça a ignorância deste público e transforma Carrie em uma personagem pouco crível para o expectador que se permite refletir com mais sabedoria. A começar pela escolha de Chloë que, incontestavelmente, é uma boa atriz. Entretanto, por mais esforçada que a garota seja, o papel não é para ela. Sua beleza, aqui, é um problema. A diretora, para piorar, é incapaz de deixar a atriz realmente esquisita fisicamente, apelando para fracos trabalhos de figurino e maquiagem que, em momentos e outros, mostram erros de continuidade e, num piscar de olhos, o cabelo espigado de Carrie está naturalmente liso. A diretora parece ter medo de estragar a estética de Moretz e não conseguir conexão com o público jovem atual. Nesta infeliz escolha, todo o esforço da atriz é em vão e a todo instante o espectador fica incomodado pela forma caricata que a personagem é caracterizada e mesmo involuntária, possui ainda certo teor sexual, perdendo qualquer verossimilhança com a criação de Stephen King.

Sem uma direção de atores decente e transições mal formuladas, Carrie – A Estranha parece desde o inicio se preparar para mostrar ao público, o espetáculo que virá quando a protagonista se enfurecer no baile em que será humilhada. Quando isso de fato acontece, Kimberly tenta superexpor os eventos da história original de forma forçada e exagerada. Exemplo claro disso é que, quando o balde de sangue de porco é jogado em Carrie, a diretora repete, em diferentes focos de cena, pelo menos, três vezes a sequência para tentar mostrar a quem assiste o impacto daquele momento, mostrando que Peirce parece não acreditar na competência de sua própria direção durante toda a projeção e se sente na obrigação de enfatizar a quem assiste que, a partir daquele momento, toda a espera para a “ação”, de fato, chegou. Lamentável.  Principalmente para quem viu o original e sabe que, apesar das excelentes sequências de ação do original, não é na correria que Carrie – A Estranha ganha seus fãs. E sem saber como prolongar a pouca ação da história, a diretora decide utilizar um fraco slow motion na película, a fim de garantir um pouco de prazer ao público que comprou seu ingresso esperando ver chacinas épicas em tela. Aqui, percebe-se claramente que nem Kimberly ou mesmo o novo potencial público do filme compreendem o horror impactante causado pela personagem-título criado por King.

Por fim, resta a película a terrível sombra da incompetência comum em remakes e faz novamente nos questionarmos. Afinal, por que é tão difícil reconstruir um clássico? Poderíamos até culpar Kimberly Peirce, mas David Fincher também errou a mão em sua versão americana de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres. O que será então? Maldição?

Nota: 4/10