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1.11.13

Crítica: Obsessão

OBSESSÃO
The Paperboy

Estados Unidos, 2012 – 107 minutos.
Thriller, Drama

Direção:
Lee Daniels

Roteiro:
Peter Dexter (adaptação), Peter Dexter (romance) e Lee Daniels

Elenco:
Zac Efron, Nicole Kidman, Matthew McConaughey, John Cusack, David Oyelowo, Macy Gray, Scott Glenn

Depois de uma péssima estreia no cinema, com o chato “Matadores de Aluguel”, assisti o segundo filme de Lee Daniels, “Preciosa – Uma História de Esperança”, de maneira meio despretensiosa, considerando o destaque que veio a receber posteriormente no Oscar. Não é preciso muito tempo para se comover e revoltar com a vida miserável da garota obesa, negra, em um universo altamente preconceituoso, onde era estuprada por seu próprio pai, com o consenso de sua monstruosa mãe. E são dentro destes ideais que Daniels constrói Obsessão, que dividiu a crítica no festival em que estreou e vem ainda mais dividindo o público por onde passa e não é difícil entender o porquê. Sem qualquer escrúpulos ou pudor, o longa é quase perturbador tamanha sua crueza em que o diretor revela a preconceituosa e louca Flórida, no final dos anos 60.

A trama é bem genérica. O jornalista Ward (Matthew McConaughey) retorna a sua cidadezinha no interior sulista americano para investir e descobrir se a prisão do condenado Hillary Van Wetter (John Cusack) é ou não injusta, onde o mesmo será levado à morte pelo assassinato de um detetive conhecido. Com a ajuda de seu jovem irmão Jack (Zac Efron), que se apaixona instantaneamente por Charlotte Bless (Nicole Kidman), uma mulher misteriosa que possui informações valiosas sobre o detento, Ward logo terá que encarar um estranho triângulo amoroso para tentar entender os fatos mal encaixados em que Hillary se meteu.

O roteiro escrito por Peter Dexter, baseado em seu próprio livro, que conta com a colaboração de Lee, é tão insano, quanto lógico para a época que Obsessão se ambienta. O texto impressiona, assim como todo o resto, pela maneira crua que consegue abordar sua história e personagens. A fotografia belíssima da película, dessaturada e granulada na medida certa, se aliam perfeitamente ao universo retro da época, que recentemente estamparam a moda do “candy color” nas grifes mais luxuosas do mundo. O mundo realmente dá voltas.  A edição muito precisa, sugere em certos momentos, como nas cenas de sexo brutais entre Charlotte e Hilary, entre um frame e outro, o instinto animalesco e praticamente irracional com quais os personagens se relacionam. Tudo de maneira explicita e degradante.

Os traços preconceituosos do longa poderiam facilmente lembrar “Preciosa”, principalmente por sua narrativa composta por uma negra sofrida, humilhada por seus patrões de pele clara e praticamente tratada como capacho. Entretanto, Daniels não se apela ao sentimentalismo das situações e sim na autodestruição dos personagens em uma época onde tudo parecia ser possível ou feito, rodeados de rebeldes em uma das regiões mais insanas dos EUA. Sendo assim, é fácil se chocar com as bizarrices apresentadas no filme. Neste quesito, Daniels faz lembrar o cultuado seriado de Alan Ball, True Blood.

É quase impossível o espectador não ficar constrangido com épicas e absurdas cenas, como a que Charlotte vê pela primeira vez Hilary. Enquanto Ward tenta entrevista-lo para conseguir informações que possam ajudar em sua soltura, o prisioneiro começa uma simulação altamente vulgar, quase doentia, de um sexo oral que resulta em uma ejaculação espontânea por parte de Wetter, filmada sem pudor por Lee. Há outras inúmeras que envolvem uma violência de absurda verossimilhança que impactam sem grandes problemas a quem assiste, ou a intensa nojeira que parece fazer parte do cotidiano dos personagens. Contudo, nada supera a cena protagonizada por Bless e Jack, onde depois de uma discussão, o garoto vai nadar para espairecer a cabeça e esbarra em diversas águas-vivas, que queimam diversas partes de seu corpo. Após uma situação tão ridícula e cômica quanto o acontecimento a seguir, Charlotte descaradamente urina em Jack por todo o seu corpo, na tentativa de amenizar suas feridas. É a típica cena em que as aspirantes fãs de Zac Efron perdem completamente a ideia de estar indo ver suas típicas comédias românticas e, de repente, estão motivadas a abandonar as salas de cinema (o que, de fato, está acontecendo nos cinemas brasileiros).

Toda a precisão técnica do diretor de nada adiantaria se não conseguisse arrancar atuações espetaculares de seu elenco. Efron parece que finalmente conseguiu se encontrar como ator e se esforça bastante para acompanhar a ferocidade do resto do elenco. Matthew McConaughey repete sua especialidade em papéis extravagantes, lembrando muito sua performance no longa de Steven Soderbergh, “Magic Mike”. Já David Oyelowo vive na medida certa o negro que tenta sobreviver a todo custo dentro de um mundo da qual é excluído, tentando mostrar adaptação e profissionalismo exagerados no intuito de convencer pela sua competência. Pequeno, mas merecido destaque, fica por conta de Macy Gray, cujo papel não acrescenta muito à película, mas agrada pela delicadeza da atriz. John Cusack finalmente saiu do automático e traz uma das melhores atuações de sua carreira, vivendo o psicótico e imprevisível prisioneiro. É impossível não se sentir intimidado com suas expressões perturbadoras. Mas quem realmente rouba todas as cenas que protagoniza é Nicole Kidman em, de longe, sua melhor atuação desde “Dogville”, de Lars von Trier. Vulgar, sexy, desmiolada, impulsiva e levemente inocente, sua personagem é um furacão ambulante que simplesmente vai desmoronando (e encantando) a todos que a rodeiam. Kidman atinge um dos pontos altos de sua carreira.

Com um tom acertadamente despretensioso, Obsessão sabe envolver o expectador de maneira impactante, mesmo que sua trama não seja de uma inovação absurda. O que, neste caso, é bastante irrelevante pela força que apresenta todo o universo dos personagens, sabendo cruzar a linha da crítica social e o divertimento que consegue causar ao mesmo tempo. Muito parecido neste quesito com o já citado “True Blood”. Mas se a série de Alan Ball sempre dividiu seu público por suas cenas desconcertantes e polêmicas, o longa de Lee Daniels é capaz de tornar a experiência de sua projeção a beira do insuportável para muita gente. Não que isso tire a força de uma obra que consegue unir sexo brutal a imagens de animais e fazer tudo isso parecer estranhamente lógico... E épico.


Nota: 8/10

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