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16.11.13

Crítica: Jogos Vorazes: Em Chamas

JOGOS VORAZES: EM CHAMAS 
Hunger Games - Catching Fire

Estados Unidos, 2013 - 146 min.
Ficção científica

Direção: 
Francis Lawrence

Roteiro: 
Simon Beaufoy, Michael Arndt

Elenco: 
Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Elizabeth Banks, Woody Harrelson, Donald Sutherland, Philip Seymour Hoffman, Stanley Tucci, Liam Hemsworth, Willow Shields, Elizabeth Banks, Lenny Kravitz, Jeffrey Wright, Amanda Plummer, Sam Claflin, Toby Jones, Jena Malone, Megan Hayes 


Já subindo os créditos de Jogos Vorazes: Em Chamas, fui abordado por uma crise paradoxal: a todo instante, o longa tenta desesperadamente escancarar para nossa sociedade através da fantasia, que a realidade da protagonista Katniss Everdeen, de fato, não está tão longe assim da nossa. Pessoas fúteis e alienadas, sustentadas pela luxuria e exuberância irracional, da qual tentam esconder a superficialidade e mediocridade de suas vidas. Um governo corrupto, que utiliza da mídia e de seu entretenimento para tentar comprar o povo de que tudo anda na mais perfeita ordem. Enquanto uns vivem no extremo luxo, outros se deparam com a mais miserável das pobrezas. E por mais evidente que isso esteja em tela, o que motiva a grande maioria massiva de entrar nas salas para ver a película de Francis Lawrence são os tais jogos vorazes. Quanta ironia. E cegueira.

Esta continuação sequer respira e começa praticamente onde parou no primeiro filme. Katniss tenta retomar a sua vida como antigamente, mesmo sabendo que isso será um objetivo quase impossível. Por mais esforço que faça, o presidente Snow está decidido da sua letal ameaça para o governo da Capital. Os eventos do 74º Jogos Vorazes acabou acendendo uma esperança nos distritos e Everdeen se tornou uma imagem de coragem e audácia. Temendo uma revolução, Snow decide ser radical e convocar o 3º Massacre Quartenário, que acontece a cada 25 anos, onde reúne todos os vencedores dos anos anteriores e os levam para uma arena ainda mais letal, colocando Katniss para lutar novamente por sua vida e de Peeta Mellark, enquanto os dois vivem um relacionamento instável e confuso.

O folgado orçamento que saiu de 70 para 140 milhões fez bem ao visual de Em Chamas. É nítida a melhoria dos efeitos especiais e a franquia saiu de uma produção grande B para um verdadeiro blockbuster. Entretanto, com um orçamento maior, Lawrence se mostra preguiçoso no quesito fotografia, já que o baixo financiamento fez com que o primeiro diretor se desdobrasse com soluções magníficas para esconder a brutalidade dos jogos. Sai aqui a criativa câmera na mão, para entrar os grandes trilhos, padrões de Hollywood. Tal troca fez a franquia perder um pouco sua verossimilhança e violência, entretanto, tudo é um pouco equilibrado com maquiagens e efeitos especiais mais precisos, uma palheta de cores mais sombrias e um roteiro mais audacioso. Mas, apesar disso, se sente falta do sangue que o primeiro longa exibia sem ser exagerado demais, onde aqui, dá pra contar nos dedos as cenas em aparece. O problema se agrava quando o diretor opta por dirigir cenas violentas de frente e não entrelinhas como Gary Ross fazia.

Apesar de algumas decepções técnicas, o roteiro de Simon Beaufoy e Michael Arndt compensa o show gráfico. Embora tenha que, obrigatoriamente, retornar aos jogos do titulo, o texto se desenrola de maneira que o espectador se convence da necessidade de repetir o que havia acontecido no primeiro filme. Geralmente esta é uma das decisões mais errôneas de franquias de Hollywood, que consistem em repetir o que deu certo anteriormente e aumentar de forma desnecessária toda a ação para convencer o público que continuações devem ter tudo em dobro. Bobagem. Inclusive, Em Chamas se desenrola, grande parte de sua trama, em sequências calmas e pouco parece se importar em criar um show pirotécnico, mesmo que muitos estejam ali só para ver isso. Admirável.

O bom elenco do primeiro filme retorna e aqui ganha reforços excelentes, como o aclamado Phillip Seymour Hoffman. Os personagens secundários ganham imensa força pela competência de Stanley Tucci, mais caricato, impossível, Elizabeth Banks, que conseguiu aumentar a força da perua Effie, Woody Harrelson, surpreendentemente flexível em um papel que transita entre o sério e o pastelão, Donald Sutherland enche as telas com sua voz imponente e sua imagem fria na medida certa. Já no elenco principal, Liam Hemsworth não consegue convencer em seu papel sofrido, que parece pouco fazer falta no filme, por mais que o diretor tente engrenar o personagem. Josh Hutcherson esbanja seu natural carisma que, sem muito esforço, consegue dar a Peeta o tom perfeito que o personagem necessita. Mas, como não poderia ser por menos, é Jennifer Lawrence que segura o filme. Atualmente não existe uma atriz jovem tão durona quanto Lawrence. Seu naturalismo e simplicidade consegue convencer a quem assiste, transmite uma força incrível como guerreira, sem cair no clichezão sexual tão presente em Hollywood, que desmoraliza qualquer personagem que tente se levar a sério.

Embora os méritos de Jogos Vorazes: Em Chamas não seja poucos, dificilmente a massa conseguirá aproveitar o poder deste projeto tão audacioso quanto V de Vingança. Como dizia o pai de Eve no longa dos Washovsky, “Artistas criam mentiras para falar a verdade", mas infelizmente a sociedade hoje é tão cega quanto a que caminha na Capital, tão repudiada por Katniss. Quem sabe um dia teremos um povo disposto a abandonar o “pão e circo". Quem sabe.

Nota: 9/10

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