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3.11.13

Crítica: Capitão Phillips

CAPITÃO PHILLIPS
Captain Phillips

Malta, 2013 – 134 minutos
Drama/ Suspense

Direção:
Paul Greengrass

Roteiro:
Billy Ray (adaptação), Richard Phillips (biografia)

Elenco: 
Tom Hanks, Barkhad Abdi, Barkhad Abdirahman, Faysal Ahmed, Mahat M. Ali

* Indicado ao Oscar 2014

Lembro-me como se fosse ontem o dia em que assisti Voo 93, de Paul Greengrass. Diferente do filme piegas protagonizado por Nicolas Cage, a abordagem do diretor da trilogia Bourne era tão realista e envolvente, que me deixou poucas vezes tão revoltado vendo um filme. Comecei a ver o longa deitado em minha cama, terminei-o de pé, em cima da mesma, gritando revoltadamente para a tela, como se pudesse intervir no trágico final destas heroicas pessoas que se sacrificaram por um bem maior. Pois bem, agora Greengrass chega com sua adaptação do romance de Richard PhIllips, Capitão Phillips. Tenso do começo ao fim, o longa toma proporções descomunais com uma direção tão impressionante quanto à atuação de Tom Hanks, que deve receber, se não ganhar, o Oscar de melhor ator no próximo ano. 

A biografia assim como a película conta a história real do personagem título que, em 2009, foi sequestrado enquanto comandava um transporte de navio em uma região da África por violentos piratas somalis em busca de fortunas.

Tanto em roteiro, quanto na parte técnica, o primeiro e começo do segundo ato de Capitão Phillips lembram demais Voo 93. A câmera na mão, palhetas sombrias e granuladas, trazendo a verossimilhança típica do diretor, apresentando closes claustrofóbicos e rápidos movimentos de cena, acrescentados ao roteiro, que apresenta de forma muito semelhante ao longa de 2006 os personagens e suas motivações, dando um palco bem abrangente e complexo para se trabalhar durante toda a película. Mesmo se tratando de suas histórias de grande patriotismo americano, muito acertadamente Paul sabe jogar suas peças de maneira que não torna sua obra em um clichê cafona típico de Michael Bay. Tudo esta ali de forma tão sutil e interessante, que convence o espectador que o comportamento realmente se remete à cultura americana, sem transformar Capitão Phillips (ou Voo 93) em um show de “papagaiagens” patrocinadas pelo governo. Quando o diretor britânico sente que sugou tudo o que poderia de seu filme de 2006 de maneira que não prejudicasse a incrível história que tem em mãos, muito menos parecesse uma grande compilação, Greengrass movimenta ao sentido oposto seu projeto, que vai aos poucos se distanciando do conforto do qual estabeleceu.

Aqui, Tom Hanks que já segurava Capitão Phillips com seu brilhantismo que estava apagado há muito tempo, carrega nas costas todo o drama que o roteiro vai exigindo, atingindo proporções incômodas para quem assiste. Com um elenco secundário desconhecido (mesma coisa feita em Voo 93), Hanks abre um buraco gigantesco entre os demais atores, enquanto chega um dos ápices de sua carreira. Entretanto, é impossível tirar o mérito do elenco secundário, do qual o britânico pegou atores (se realmente são, é algo a se discutir) totalmente novatos para viver os violentos piratas, que espantam a todo instante pelo pavor que causam somente com seus olhares. O realismo é tamanho, aliada a genialidade da direção, que a tensão da película muitas vezes beira ao insuportável.

A simplicidade do roteiro jamais fica evidente perante a direção deste artista memorável. Sobra-lhe ainda um tempo para criticar as relações de países ricos contra países inferiores, onde a ajuda que aparece com frequência nas mídias, parece tampar verdadeiros propósitos por trás desta ação. Tudo composto entrelinhas para tentar dar ao público um consenso de reflexão sobre a crueldade que se vê nas telas. Todavia, é impossível dar qualquer típico de crédito a criaturas tão desumanas, mesmo que a vida desgraçada da qual foram condenados, não lhes ofereçam o básico.

Sem apelar para o sentimentalismo barato muito comum neste tipo de filme, Capitão Phillips segura seus 134 minutos com uma força impressionante, sem perder em nenhum instante seu ritmo ou interesse. E se tudo ainda fosse ineficaz em seu propósito, o longa já teria incrível mérito pela excelência de Tom Hanks que, se não ganhar, será indicado com toda certeza ao maior prêmio existente do cinema.

Nota: 10/10

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