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20.11.13

Crítica: Blue Jasmine

BLUE JASMINE

Estados Unidos, 2013 – 98 minutos.
Comédia/ Drama

Direção:
Woody Allen

Roteiro:
Woody Allen

Elenco:
Cate Blanchett, Alec Baldwin, Sally Hawkins, Joy Carlin, Peter Sarsgaard


E dizia o velho ditado: “Gente pobre se acostuma rapidamente à riqueza. Agora quando a situação é contrária...”. Pode até parecer preconceito, mas não é. Já pude comprovar de perto as duas situações deste ditado popular. Apesar dos pesares, desengonçadamente ou não, pessoas de baixa renda conseguem gradativamente se acostumar com a chegada abundante de dinheiro, mesmo não o desejando. Isso já não acontece com os ricos por natureza. Às vezes, a situação pode ser tão extrema que o individuo pode entrar em depressão profunda e enlouquecer. É o caso em Blue Jasmine, protagonista-titulo do novo filme de Woody Allen.

Sem grandes rodeios, a trama já começa nos baixos da personagem. Casada com um homem milionário, Jasmine largou a faculdade para se dedicar a sua vida amorosa. Quando a conseguiu, viveu o longo de sua vida sem se preocupar em qualquer esforço que não o de escolher as melhores roupas, dar as melhores festas e comprar tudo o que sempre sonhou. Quando isso chega ao fim do dia para a noite, a realidade da protagonista é forte demais para ela.

Por mais que se esforce, Jasmine simplesmente não consegue engolir a sua nova vida. É visível em suas expressões que não é apenas a falta do dinheiro que ela repudia, mas a situação geral seja ela pessoal ou social. O simples fato de estar rodeada de atenção, mesmo que mergulhada na falsidade, a entretinha o suficiente para não encarar seu próprio vazio, e as verdades que odeia em si mesma e é incapaz de admitir.

Woody Allen constrói um estudo complexo e profundo da personagem e, como de praxe em suas protagonistas, Jasmine é um respiro inspirado deste visionário diretor. Talvez seja o maior deles, em anos. Em contrapartida, não deixa expressar seu ódio pelas peculiaridades que próprio criou. Para isso, coloca a protagonista para encarar sua irmã cafona, Ginger, que simboliza fisicamente tudo o que a ex-milionária quer apagar de sua vida e memória e não pode. O contentamento da irmã com uma vida simples revolta Jasmine e gera uma incompreensão causada pela criação de sua mãe adotiva, que sempre fez questão de deixar claro que seus “genes” eram melhores que o da irmã e por isso ela teria uma vida melhor. O que aumenta sua sensação de incredulidade perante a sua nova realidade.

Como de praxe, é na abordagem narrativa que Allen conquista o público, tornando suas histórias simples, inesquecíveis. A cada instante, Blue Jasmine faz com que o expectador crie uma antipatia com a protagonista, mas, ao mesmo tempo, brinca com suas peculiaridades, dando uma aproximação inusitada com que assiste. A trilha sonora, assim como em Vicky Cristina Barcelona (e diversos outros filmes dele), a música tema é repetida inúmeras vezes para introduzir e manter o público sempre no tom necessário.

O bom gosto do diretor de Meia-Noite Em Paris se espalha para a excelente fotografia, o irretocável figurino (amantes da moda delirarão com todas as maisons usadas pela personagem), a narrativa que mescla constantemente o real com o flashbacks, não criando uma sensação desagradável do longa não caminhar, mas para, precisamente, fazer o expectador refletir sobre o universo e caráter da protagonista, dando uma boa noção de comparativo e julgamento a tudo o que se analisa em tela. É como se houvesse um psicólogo no meio do filme conduzindo-nos, entrelinhas, a situação agravante da distorção da realidade de Jasmine.

Esta é protagonizada delirantemente por Cate Blanchett, no melhor momento de sua carreira. Ela consegue, sem grandes esforços, dar a complexidade necessária para a personagem. Utiliza de seu natural carisma e o reverte em uma antipatia absurdamente deliciosa de se presenciar, garantindo um humor seco e inteligente, na medida certa. A beleza da atriz, junto de sua postura descomunal, consegue transpor toda a sofisticação e elegância de Jasmine e fazer facilmente o expectador acreditar no deslocamento dela perante o mundo que é obrigada a conviver. Indicação ao Oscar se mostra mais do que necessária aqui. O resto do elenco também caminha muito bem: Sally Hawkins transmite a inocência e alegria de Ginger sem grandes esforços, assim como Alec Baldwin, em poucas aparições, convence de sua falta de caráter sem precisar falar uma palavra sequer.

Blue Jasmine expressa a metáfora de seu próprio nome. Da imensa tristeza, depressão e inconformismo da protagonista perante a inevitável e talvez irreparável pobreza em se encontra. Mais do que isso, o desespero da ex-milionária em não poder mais pagar a sua falsa felicidade e manter seu mundo de vidro intacto. E se Woody Allen disse um dia, “O dinheiro não dá a felicidade, mas tem uma sensação tão parecida, que precisa um especialista muito avançado para verificar a diferença.", agora fez questão de ilustrar isso. Bom ano para o cinema, este 2013. Bom ano.


Nota: 10/10

2 comentários:

  1. Esse filme é fabuloso. Woody mais uma vez realiza um filme onde suas personagens femininas se destacam de modo impressionante. Cate está ótima!

    abraço

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  2. Também adorei o filme. Cate domina de maneira impressionante e divertida.

    Abraço

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