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13.10.13

Crítica: Bling Ring - A Gangue de Hollywood

BLING RING - A GANGUE DE HOLLYWOOD
Bling Ring

Estados Unidos, 2013 - 90 minutos
Drama

Direção:
Sofia Coppola

Roteiro:
Sofia Coppola

Elenco:
Katie Chang, Israel Broussard, Emma Watson, Claire Julien, Taissa Farmiga, Leslie Mann

Bêbada e drogada, sob a direção de um gigantesco utilitário luxuoso visivelmente desproporcional a condutora, uma das personagens principais canta descontroladamente ao volante “Viver rápido, morrer jovem. Garotas más são boas nisso. Viver rápido, morrer jovem”. Em uma questão de segundos a garota se envolve em um violento acidente de carro. Ali não há dúvida do que Bling Ring: A Gangue de Hollywood quer dizer: excessos, irresponsabilidade e despeito. Aqui Sofia Coppola saí elegantemente do maravilhoso Um Lugar Qualquer, onde contava a vida monótona de um grande ator de Hollywood para mostrar o outro lado da moeda: os que querem a todos os custos serem famosos. E faz isso com muita competência.

A história incrivelmente baseada em fatos reais, narra a vida de um grupo de jovens de classe média alta de um dos bairros mais badalados e glamorosos da Califórnia que invadiram por diversas vezes as mansões de grandes famosos e roubavam roupas, joias e relógios caríssimos por pura diversão. Inevitavelmente, logo alguém dá falta dos objetos e rapidamente os jovens começam a ser alvo da polícia.

Sem meios termos, Coppola consegue transmitir com muita precisão o mundo fútil da qual os jovens tentam desesperadamente fazer parte: festas regadas a muita bebida alcoólica, cocaína, pessoas externamente maravilhosas sem qualquer conteúdo moral e intelectual, esperando as oportunidades certas para estarem na mídia. Ser e estar são os principais intuitos daquele universo que parece querer recriar no mundo real, o que fantasiam nas produções hollywoodianas não muito longe dali. A mensagem da diretora vai bem além quando um dos personagens em um dos diversos momentos estúpidos que protagonizam grita “Isso aqui é a América”. Claro, Sofia escancara sem pudor a falsidade do tal sonho americano.

Coppola consegue entrelinhas dar ao expectador um estudo complexo da má estrutura e valores das famílias destes jovens. Brinca com as estranhezas das religiões que envolvem artistas de Hollywood (a mãe de duas personagens reflete toda a sua filosofia de vida e da sua família no livro “O Segredo”), que simplesmente vira referência a elas porque aquilo está na moda. Como dito, a questão é ser e estar.

Há pelo menos 3 momentos épicos que dramatizam de forma revoltante a hipocrisia e absurdo, o extremo superficialismo que cerca os personagens: prestes a ser presa, Nicki (protagonizada por Emma Watson que, por sinal, rouba as cenas que aparece com seu extremo cinismo) está em frente de uma assistente social disposta a ouvir seu depoimento sobre os diversos roubos que cometeu. Enquanto a garota tenta livrar sua pele com uma das mentiras mais cínicas de todos os tempos, sua mãe a interrompe por diversas vezes, tentando dramatizar ainda mais a história, a fim de ganhar mais atenção que a filha como se aquilo fosse um grande reality show. A mesma personagem caminha para seu julgamento como se estivesse em um desfile de moda, em postura perfeita. Para, vira, olha para as câmeras e completa seu cinismo com “Obrigado por vocês estarem respeitando a privacidade de nossa família. Esse é um momento muito difícil para nós”. Nem é preciso ter um olhar muito atento para ver o prazer da garota em estar cercada pelos flashes, mesmo que o momento seja catastrófico. Mas para fechar com chave de ouro e colocar quem assiste em estado de incredulidade é sua entrevista para um programa de televisão, da qual dramatiza de forma repulsiva e asquerosa, seus “difíceis” dias na cadeia junto de Lindsay Lohan, que foi roubada por ela e, ironicamente ou não, também foi presa por estar dirigindo bêbada pela enésima vez. Depois de uma história pra deixar qualquer um admirado com a falta de pudor da personagem, a mesma finaliza a entrevista fazendo propaganda de seu site que, segundo ela própria, conta com detalhes seus dias ao lado de Lindsay. É a típica situação que a diretora atinge seu ápice onde nenhuma palavra a mais é capaz de narrar o que está estampado nas telas.

Muito técnica, Coppola abusa de uma fotografia incrível, que eleva a precisão de seu longa anterior, e consegue transpor todo o mundo luxuoso da qual os personagens circulam de maneira muito tangível, utilizando de uma câmera aparentemente amadora, que funciona perfeitamente com sua proposta de flexibilizar visualmente este universo de maneira muito crível. O mesmo pode se dizer da trilha sonora, a excelente edição e a escala de elenco que, sem exceção, caracterizam muito bem seus personagens.

Esperta, Sofia revelou desde o inicio que a aparência dos personagens, nomes e referências, não seriam parecidos com do grupo original para não dar mais mídia para essas pessoas. Algo que realmente deve ter irritado os jovens mimados, já que seria a oportunidade perfeita de tornarem o tão precioso sonho de serem famosos em realidade. Mais claro que a futilidade e superficialidade, Coppola mostra que somente estar perto de criaturas tão insatisfeitas com sua realidade e, ao mesmo tempo, incrivelmente persuasivas e manipuladoras, é tão letal quanto ser uma delas. Porque sem pensar duas vezes, você será usado impiedosamente para que elas consigam o que querem.


Nota: 8/10

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