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8.9.13

Crítica: Jobs

JOBS

EUA, 2013 - 128 min.
Biografia

Direção:
Joshua Michael Stern

Roteiro:
Matt Whiteley

Elenco:
Ashton Kutcher, Dermot Mulroney, Josh Gad, Lukas Haas, Matthew Modine, J.K. Simmons, Victor Rasuk

Acho que não é preciso contestar a genialidade de Steve Jobs. Artista zen, revolucionário, um verdadeiro visionário que conduziu todo o mercado tecnológico a um futuro cheio de desafios que sempre foi instigado por sua mania obsessiva compulsiva pelo perfeccionismo, design funcional e seu próprio campo de distorção da realidade. Pode parecer excêntrico afirmar, mas apesar de nunca ter conhecido Jobs pessoalmente, minha identificação com seu modo de pensar sempre foi muito grande. Estudar este visionário por um ano e ler sua maravilhosa biografia escrita por Walter Isaacson me fez perceber o quão incrível e contraditório este mesmo poderia ser. E sem sombra de dúvidas, isto foi o ingrediente principal que o fez passar por uma avalanche de problemas e sair de todos da melhor maneira possível. Bipolaridade pessoal e profissional.

Quando anunciaram que David Fincher faria um filme sobre o Facebook, todos riram. Pareceu uma ótima sacada mercadológica já que a rede social se encontrava em gritante crescimento e a tendência de nerds crescia a todo instante. Felizmente o resultado foi muito além e A Rede Social, com certeza, é um dos melhores filmes deste fantástico diretor. Mas infelizmente a ótima sacada de Fincher não foi o suficiente para que o diretor Joshua Michael Stern entendesse que quando se faz biografias de pessoas do patamar de Zuckerberg e Steve Jobs, analisá-los com profundidade é um passo extremamente crucial para que a obra ganhe as devidas proporções, uma vez que estes são motivados e incomuns exclusivamente pelo seu modo de pensar, seu estilo de vida e uma influência totalmente pessoal que acabou, controversamente, se tornando indústrias bilionárias e valiosíssimas. Jobs (o título no Brasil perdeu a sacada do “j” em minúsculo para lembrar os “i”s dos produtos da marca) fracassa violentamente em não transpor para quem assiste as verdadeiras motivações de um homem que por si só, era um mar de complexidades por seu mix de sentimentos distintos, bons ou ruins, que alteravam radicalmente qualquer coisa que ele tocava e, em pinceladas fúteis e superficiais, remetem todo o brilhantismo deste gênio a uma loucura inexplicável de uma juventude incompreensível que, em um uso casual de drogas, não foi perdida pela sua visão de um futuro revolucionário enquanto estava chapado.

A trama se restringe a resumir a juventude de Jobs, o começo da Apple e todos os seus problemas pessoais e profissionais que quase levaram a marca à falência e que, inevitavelmente, o levou para a saída temporária dos comandos da própria empresa, até voltar e levar a Apple a ser a empresa mais valiosa do planeta.

Tudo, porém, é feito com muita imprecisão. O roteiro peca violentamente pela falta de coerência narrativa onde, sem qualquer explicação, corta grandes pedaços de sua história de maneira tão grotesca, que Stern parece acreditar levianamente que o espectador é incapaz de perceber que a filha que Jobs tanto renegou por anos, do nada, logo está ao lado de seu pai feliz pela situação, sem qualquer tipo de explicação. Esquecer também de mencionar grande parte da vida pessoal do visionário enquanto foca sem muito contexto o andar rotineiro da Apple, e quando menos se espera, Steve já está com uma aliança de casado na mão, e sequer sua esposa é apresentada uma vez ao público. Coisa de indignar a qualquer um. Para fechar as contradições apresentadas em tela, o longa abre seu prólogo com a apresentação de Jobs em 2001, mostrando ao mundo pela primeira vez o revolucionário ipod. Entretanto, a sequência só serve para forçar o espectador a acreditar na verossimilhança de Ashton Kutcher protagonizando o personagem título, já que sequer a narrativa ou trama chegam em tal ocasião, já que o filme é encerrado antes mesmo dos anos 2000, o que demonstra uma grande falta de planejamento de Joshua em acrescentar a sua película uma abertura insignificante dentro do seu contexto narrativo.

Tentando ainda esquecer tanta incoerência, o diretor peca em não conseguir refinar a atuação de Kutcher, que peca por ser um pouco caricata, mas ao mesmo tempo, consegue segurar o longa do total desastre, assim como todo elenco secundário que se caracteriza bem e espanta pela semelhança com os personagens interpretados. Infelizmente tanto esforço é mal aproveitado com um tom ridiculamente cômico, que muda sem meios termos para um drama pesado e ainda tem tempo de apelar para uma trilha sonora medíocre que tenta convencer o público da epicidade de seu protagonista perante todas as suas contribuições na história tecnológica do mundo, como se isso fosse necessário.

Com uma história bem menor, Fincher provou que a competência de um grande diretor é capaz de dar poder a qualquer projeto e é gritante a todo instante que o que falta a Jobs é um diretor de pulso firme e incrivelmente apaixonado pelo o que faz. Porque um apaixonado entende outro apaixonado e a paixão de Steve Jobs pelo o que se fazia de melhor era tão evidente, que chegava em pedaços em cada caixa composta para seus produtos.

Nota: 3,5/10

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