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11.8.13

Crítica: Círculo de Fogo

CÍRCULO DE FOGO
Pacific Rim

EUA , 2013 - 131 minutos
Ação / Ficção científica

Direção:
Guillermo Del Toro

Roteiro:
Travis Beacham, Guillermo Del Toro

Elenco:
Charlie Hunnam, Rinko Kikuchi, Idris Elba, Charlie Day, Max Martini, Burn Gorman, Rob Kazinsky, Ron Perlman, Clifton Collins Jr.

Há não muito tempo atrás me lembro de ter ficado extremamente empolgado com o filme B de Joss Whedon, O Segredo da Cabana, por chegar mansamente aos cinemas, como qualquer outro filme do saturado gênero, e acabou se mostrando uma homenagem surtada e divertidíssima dos filmes de terror dos anos 80 e 90. Era tão improvável que atualmente em Hollywood alguém pudesse deixar de encarar tão a sério os filmes que produz, para embarcar em um entretenimento descaradamente empolgante e descartável. Pois bem, se Whedon fez muitos pirarem com sua absurda mistura de filmes de terror B que hoje são mais que cultuados, mal eles podem esperar para ver o que Guillermo Del Toro preparou em Círculo de Fogo.

A simples trama é mais do que objetiva. Próximo a 2020, a Terra começa a ser invadida por criaturas gigantescas denominadas “Kaiju” (que em japonês significa besta ou animal incomum) e sua destruição é tão letal que em pouco tempo o fim do mundo é dado como certo. Para tentar conter todo o caos, os governos se reúnem para construir robôs igualmente enormes chamados de Jaegers, comandados internamente por dois soldados intercalados a uma “neuroconexão” capaz de ligar os dois humanos cerebralmente à gigantesca máquina.

Muitos talvez tenham a impressão, a uma primeira vista, que Del Toro utilizou do sucesso da franquia Transformers para emplacar seu projeto. E, com certeza, essa é a maior ofensa que alguém pode fazer ao mexicano. Círculo de Fogo está anos-luz à franquia de Michael Bay por um motivo muito mais do que lógico: diferentemente de Bay, o diretor de O Labirinto do Fauno jamais tenta se levar a sério. Com exceção ao primeiro filme dos robôs da Hasbro, a franquia em geral abusa da boa vontade do espectador com um insuportável e ininterrupto show de efeitos especiais implausíveis principalmente porque seu maior objetivo é encobrir toda a desgraça ocasionada por péssimos roteiros, uma direção desastrosa e ridícula, repleta de piadas sem contexto e forçadamente chatas, capaz de expurgar a competência até mesmo de Shia Labouf.

Mesmo nas técnicas, os longas são totalmente distintos. Com uma edição confusa e vertiginosa, Bay é incapaz de usar a criatividade em sua fotografia para emergir seu público a entender as gigantescas dimensões que cria de outra forma que não seja explosões e destruições. Por outro lado, Del Toro é competente e inteligente em manipular a fotografia (que acompanha uma maravilhosa palheta de cores saturadas) de maneira que torne toda a situação, mesmo sem se levar a sério, tangível e com proporções realmente ameaçadoras. Exemplo claro fica com o foco das criaturas ou robôs que praticamente nunca aparecem por inteiro nas cenas. Pedaços de ambos sempre estão tomando as cenas com uma mixagem e efeitos sonoros altamente eficazes que conseguem transmitir em todos os sentidos as proporções da criação de Del Toro. Coisa que o diretor de Transformers é incapaz. Foca-se tanto em sequências grandiosas de lutas que esquece do básico na hora de filmar.

Se o diretor de Pearl Harbor foi incapaz de dar a sua franquia de robôs um tom nostálgico aos fãs do material original, os espectadores adultos de Círculo de Fogo podem vibrar durante os 131 minutos da película. O mexicano faz uma homenagem quase que romântica aos filmes e seriados de monstros japoneses mais consagrados da história do gênero. Criaturas que consomem cidades, robôs comandados manualmente por humanos, que carregam mísseis no tórax, espadas nas mãos e, de quebra, dão socos potencializados por foguetes. O filme não poupa uma diversão de dimensões grandiosas, mas também não se prende diretamente em suas sequências de ação. Del Toro é incapaz de deixar seu despretensioso longa sem um desenvolvimento apaixonadamente feliz que, infelizmente, escorrega por vezes em querer dar mais profundidade do que o projeto realmente se propõe. Nada comprometedor, mas que se demonstram desnecessários em um roteiro que tem como sua prioridade uma empolgante nostalgia.

É até compreensível as medidas tomadas pelo mexicano. Em uma mente tão criativa e magnífica como a dele, sente-se um leve desconforto de sua parte em não dar ao roteiro algo inovador e personalizado tão característicos e admiráveis em suas obras. Nesse quesito, Del Toro não erra a jogada de conectar os humanos aos robôs, que é genial, porém, perde sua força quando se aproveita desta sacada para desenvolver seus personagens que são recheados de clichês previsíveis. Claro que a proposta de Círculo de Fogo está distante da inovação, mas toda a empolgante e divertida nostalgia que se propõe (e cumpre com louvor) poderia vir com um roteiro que não dependesse tanto de artefatos e subtramas tão ultrapassadas para um projeto tão competente quanto esse. Entretanto, nada é capaz de tirar a graça da película.


Nota: 8/10

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