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25.8.13

Crítica: True Blood (6ª Temporada)

TRUE BLOOD (6ª Temporada)

Estados Unidos, 2013 – 600 minutos aprox.
Drama/ Fantasia/ Mistério - Série de televisão

Criação: Alan Ball

Roteiro: Alan Ball, Charlaine Harris, Alexander Woo, Brian Buckner, Raelle Tucker

Elenco: Anna Paquin, Stephen Moyer, Sam Trammell, Ryan Kwanten, Rutina Wesley, Chris Bauer, Nelsan Ellis, Carrie Preston, Alexander Skarsgård, Joe Manganiello

Ufa! Respiração começa a voltar ao normal depois do season finale da 6ª temporada de True Blood. Este ano a série ficou com 2 episódios a menos por conta da gravidez de Anna Paquin, mas não menos empolgante. Entre o resgate dos primórdios da criação de Alan Ball, um roteiro divertido e cativante, a série vampiresca volta a fazer uma ácida e verdadeira crítica social a meio as iconográficas cenas de sexo e o tom trash tão característicos da obra.

A trama começa exatamente onde a 5ª temporada acabou. Bill bebe o sangue de Lilith e se transforma em algo do qual ele mesmo não consegue entender. Com sua evolução rara de poderes nunca vista antes em outros vampiros é o ponto-chave para que outrem o chame de Deus, pois até o futuro, de certa forma, ele consegue prever. Entretanto, toda esta ascensão tem um inimigo imprevisível: instabilidade.

Enquanto Sookie tenta novamente restabelecer sua vida fora de toda a loucura de vampiros e fadas, ela conhece um homem misterioso da qual se sente atraída. Embora queira ficar longe de problemas, a meia-fada terá que encarar uma realidade nada esquecível: o governo decide criar um campo de concentração para estudar os vampiros e, com o passar do tempo, encontrar a melhor forma de exterminá-los e com a falta do Tru Blood, a sede dos vampiros instabiliza as noites de todos, o que contribui para uma aceitação geral dos planos, mesmo que ele seja parcialmente distorcido para a grande população, tudo comandado sob ajuda da fanática religiosa Sarah (que está de volta e interpretada perfeitamente insuportável por Anna Camp), da qual Sookie terá que decidir se participará ou não do resgate que pode significar a vida ou a morte verdadeira de todos os seus amigos vampiros e a contaminação de toda a espécie.

O temor que todos tinham sobre Ball sair do comando da série foi leviano. True Blood recebe um ar de inovação em seu sexto ano com sacadas muito interessantes e divertidas. Consegue retornar a sua origem mais simplista, mesmo que o roteiro tenha, entrelinhas, uma história praticamente global. Mesmo assim, o resultado, para o bem da série, não é megalomaníaco. A técnica é quase semelhante a que Lars Von Trier conseguiu em Melancolia: retratar eventos grandiosos em “segundo” plano e não desfocar todo o universo existente. Os episódios, de modo geral, ganham pontos pela boa estrutura de núcleos da trama central e subtramas que são distribuídos de modo preciso. Embora a subtrama de Sam Merlotte em constante fuga da alcateia de Alcides tenha mais atenção do que o necessário. Felizmente alguém teve o bom senso e não deixou que isso fosse estendido até o último episodio, o que causaria um desperdício muito grande de tempo em um seriado que, curto por natureza, sofre excepcionalmente este ano com a falta de mais episódios. Outro escorregão do roteiro fica pela indecisão dos roteiristas com o grande personagem desta temporada: Warlow (interpretado por Robert Kazinsky). Muito foi prometido durante a temporada, principalmente no excelente quarto episódio e o personagem teve uma resolução infeliz e fraca para toda a expectativa que foi criada. Teve um desenvolvimento grande, cativou o público e saiu de cena de forma errônea. Com certeza, foi o tendão de Aquiles deste ano.

Erros e focos desnecessários à parte, True Blood volta a questionar a moral humana de forma intensa e polêmica. Os roteiristas foram espertos em fragilizar os vampiros nesta temporada para maximizar os questionamentos feitos durante este sexto ano. Embora seja compreensível o medo pela vulnerabilidade de ser ameaçados por seres mais fortes e sugares de sangue, a solução para conter os vampiros é doentia. Novamente há reflexões sobre o valor de uma vida, mesmo que seja a de outra espécie.  A coisa se polemiza radicalmente quando a fanática religiosa Sarah decide executar barbaridades contra os imortais justificando suas atitudes pela “vontade de Deus”. Suas cenas são o grande alto desta sexta temporada, da qual a personagem ao mesmo tempo em que consegue ser divertida e insuportavelmente irritante, espanta o telespectador pela sua falta de decência moral. Vão bem mais além, em uma das melhores cenas de toda a série em seus seis anos de existência, quando coloca a prostituta Pam para ser interrogada no campo de concentração por um psicólogo humano. Ali, a vampira é questionada pela falta de transparência dos sentimentos da sua espécie e logo rebate a falsidade e a leviandade da expressão dos sentimentos humanos. Enquanto nós prometemos algo pela eternidade, na qual são raramente cumpridos, os vampiros só prometem quando realmente vão cumprir e não se apegam em sentimentos autodestrutivos de forma banal para gerar a piedade de outras pessoas e viver se lamentando durante toda sua existência. Quando estão realmente tristes, choram de verdade e não fingem. Um verdadeiro tapa na cara da sociedade hipócrita em que vivemos.

Com excelentes e rápidos episódios, a 6ª temporada de True Blood mal acabou e já deixa um gosto de saudades que só será suprida no meio de 2014. O temor de que a série poderia estar perdendo sua personalidade tão ímpar e audaciosa que cativou e dividiu a opinião do público veio novamente mostrar que tem muito ainda a exibir e, com certeza, não faltará contexto para a sétima temporada que promete... E muito.

Nota: 8,9/10


11.8.13

Crítica: Círculo de Fogo

CÍRCULO DE FOGO
Pacific Rim

EUA , 2013 - 131 minutos
Ação / Ficção científica

Direção:
Guillermo Del Toro

Roteiro:
Travis Beacham, Guillermo Del Toro

Elenco:
Charlie Hunnam, Rinko Kikuchi, Idris Elba, Charlie Day, Max Martini, Burn Gorman, Rob Kazinsky, Ron Perlman, Clifton Collins Jr.

Há não muito tempo atrás me lembro de ter ficado extremamente empolgado com o filme B de Joss Whedon, O Segredo da Cabana, por chegar mansamente aos cinemas, como qualquer outro filme do saturado gênero, e acabou se mostrando uma homenagem surtada e divertidíssima dos filmes de terror dos anos 80 e 90. Era tão improvável que atualmente em Hollywood alguém pudesse deixar de encarar tão a sério os filmes que produz, para embarcar em um entretenimento descaradamente empolgante e descartável. Pois bem, se Whedon fez muitos pirarem com sua absurda mistura de filmes de terror B que hoje são mais que cultuados, mal eles podem esperar para ver o que Guillermo Del Toro preparou em Círculo de Fogo.

A simples trama é mais do que objetiva. Próximo a 2020, a Terra começa a ser invadida por criaturas gigantescas denominadas “Kaiju” (que em japonês significa besta ou animal incomum) e sua destruição é tão letal que em pouco tempo o fim do mundo é dado como certo. Para tentar conter todo o caos, os governos se reúnem para construir robôs igualmente enormes chamados de Jaegers, comandados internamente por dois soldados intercalados a uma “neuroconexão” capaz de ligar os dois humanos cerebralmente à gigantesca máquina.

Muitos talvez tenham a impressão, a uma primeira vista, que Del Toro utilizou do sucesso da franquia Transformers para emplacar seu projeto. E, com certeza, essa é a maior ofensa que alguém pode fazer ao mexicano. Círculo de Fogo está anos-luz à franquia de Michael Bay por um motivo muito mais do que lógico: diferentemente de Bay, o diretor de O Labirinto do Fauno jamais tenta se levar a sério. Com exceção ao primeiro filme dos robôs da Hasbro, a franquia em geral abusa da boa vontade do espectador com um insuportável e ininterrupto show de efeitos especiais implausíveis principalmente porque seu maior objetivo é encobrir toda a desgraça ocasionada por péssimos roteiros, uma direção desastrosa e ridícula, repleta de piadas sem contexto e forçadamente chatas, capaz de expurgar a competência até mesmo de Shia Labouf.

Mesmo nas técnicas, os longas são totalmente distintos. Com uma edição confusa e vertiginosa, Bay é incapaz de usar a criatividade em sua fotografia para emergir seu público a entender as gigantescas dimensões que cria de outra forma que não seja explosões e destruições. Por outro lado, Del Toro é competente e inteligente em manipular a fotografia (que acompanha uma maravilhosa palheta de cores saturadas) de maneira que torne toda a situação, mesmo sem se levar a sério, tangível e com proporções realmente ameaçadoras. Exemplo claro fica com o foco das criaturas ou robôs que praticamente nunca aparecem por inteiro nas cenas. Pedaços de ambos sempre estão tomando as cenas com uma mixagem e efeitos sonoros altamente eficazes que conseguem transmitir em todos os sentidos as proporções da criação de Del Toro. Coisa que o diretor de Transformers é incapaz. Foca-se tanto em sequências grandiosas de lutas que esquece do básico na hora de filmar.

Se o diretor de Pearl Harbor foi incapaz de dar a sua franquia de robôs um tom nostálgico aos fãs do material original, os espectadores adultos de Círculo de Fogo podem vibrar durante os 131 minutos da película. O mexicano faz uma homenagem quase que romântica aos filmes e seriados de monstros japoneses mais consagrados da história do gênero. Criaturas que consomem cidades, robôs comandados manualmente por humanos, que carregam mísseis no tórax, espadas nas mãos e, de quebra, dão socos potencializados por foguetes. O filme não poupa uma diversão de dimensões grandiosas, mas também não se prende diretamente em suas sequências de ação. Del Toro é incapaz de deixar seu despretensioso longa sem um desenvolvimento apaixonadamente feliz que, infelizmente, escorrega por vezes em querer dar mais profundidade do que o projeto realmente se propõe. Nada comprometedor, mas que se demonstram desnecessários em um roteiro que tem como sua prioridade uma empolgante nostalgia.

É até compreensível as medidas tomadas pelo mexicano. Em uma mente tão criativa e magnífica como a dele, sente-se um leve desconforto de sua parte em não dar ao roteiro algo inovador e personalizado tão característicos e admiráveis em suas obras. Nesse quesito, Del Toro não erra a jogada de conectar os humanos aos robôs, que é genial, porém, perde sua força quando se aproveita desta sacada para desenvolver seus personagens que são recheados de clichês previsíveis. Claro que a proposta de Círculo de Fogo está distante da inovação, mas toda a empolgante e divertida nostalgia que se propõe (e cumpre com louvor) poderia vir com um roteiro que não dependesse tanto de artefatos e subtramas tão ultrapassadas para um projeto tão competente quanto esse. Entretanto, nada é capaz de tirar a graça da película.


Nota: 8/10

4.8.13

Crítica: O Labirinto do Fauno

O LABIRINTO DO FAUNO
El Laberinto del Fauno

México/Espanha/EUA, 2006 - 112 minutos.
Drama / Fantasia

Direção:
Guillermo del Toro

Roteiro:
Guillermo del Toro

Elenco:
Ivana Baquero, Doug Jones, Sergi López, Ariadna Gil, Maribel Verdú, Álex Angulo, Roger Casamajor, César Vea, Federico Luppi, Manolo Solo

Por mais estranho que possa soar, O Labirinto do Fauno tem algo em comum com Bastardos Inglórios. Assim como Tarantino, o talentosíssimo Guillermo del Toro já havia embarcado em excelentes projetos antes deste conto de ninar de terror, e assim como o diretor de Pulp Fiction: Tempos de Violência, o diretor mexicano foi evoluindo suas peculiaridades e formas de direção até atingir a união e sincronia perfeita entre personalidade e arte. Ambos os filmes por mais distantes que sejam, controversamente, dividem o ápice de dois diretores que, sem sombra de dúvidas, farão muita falta quando levantarem para sempre de suas cadeiras. E assim como Bastardos Inglórios é a obra-prima de Tarantino, O Labirinto do Fauno é o maior e excepcional marco na carreira de del Toro.

No criativo roteiro, voltamos na época do fascismo espanhol, em 1944, com uma garotinha e sua mãe indo para o interior do país para se encontrar com o impiedoso e brutal Coronel Vidal. Tentando escapar da dura realidade de ver sua mãe prestes a se casar com um homem nada confiável, além da situação infeliz e dominadora em que se encontra, Ofelia embarca em um mundo fantasioso da qual ela deverá passar por três diferentes tarefas que poderão custar sua vida e das pessoas a sua volta em troca de voltar para o verdadeiro mundo da qual pertence, revelado por um instigante e misterioso fauno.

Com sua técnica absurdamente cativante, desde a encantadora trilha sonora, o impecável trabalho de direção de arte, ambientação, maquiagem e efeitos visuais são enquadrados maravilhosamente por uma fotografia lindíssima e acolhedora, de forma a agarrar firmemente o espectador dentro do universo criado, como se o excepcional roteiro não fosse preciso o suficiente para isso. E tentando esquecer toda a perfeita execução do texto e sua criatividade incontestável, a direção de del Toro reluz como diamantes recém-polidos tamanha imersão e profundidade dada a quem assiste a sua cativante história.

O Labirinto do Fauno transcende a barreira dos gêneros, da imaginação, para tornar a experiência do público única. É de se emocionar a inocência e pureza de Ofelia (protagonizada belamente por Ivana Baquero) perante o nojento mundo da qual vive. As tarefas pelas quais a garota deverá passar ultrapassam, sem quaisquer dúvidas, a mera intenção de aventura ou pretexto para gerar ação na película e entrega, com certa complexidade, uma personalização de caráter da protagonista perante as suas escolhas. Os simbolismos de cada missão são quase bíblicos, tamanha as lições de moral que involuntariamente acabam atingindo o espectador e o faz questionar o deplorável e instintivo ato de autodestruição do ser humano dentro do nosso próprio mundo. A falta de crença dos adultos no longa referente as fantasias que os rodeiam mostram, maravilhosamente, como nascemos com absolutamente tudo o que precisamos, perfeitamente capazes de praticar a bondade e amar tudo o que nos cerca, entretanto, vamos encarando a suja e perversa realidade dos homens fazendo com que toda nossa pureza vá se perdendo conforme vamos crescendo. Isso é retratado com tamanha delicadeza e, ao mesmo tempo, brutalidade em seu contraste (fantasia e guerra), que a película atinge o espectador, seja ele quem for, a se convencer plenamente da obra-prima exibida durante os 118 minutos de projeção.

É até irônico ou injusto sequer mencionar o que direi, mas M. Night Shyamalan tentou fazer um “conto de ninar de terror”, como ele mesmo denominou, basicamente com as mesmas fórmulas do longa de del Toro em A Dama na Água. É claro que não é preciso dizer que enquanto o mexicano construiu a sua maior obra-prima deste então, o indiano torturou o público com um pavoroso e incoerente filme que manchou a brilhante carreira de Paul Giamatti. Só por isso ele deveria ser preso. Revolta a parte, O Labirinto do Fauno é um convite esplendoroso e único para conhecer o talento de um dos melhores diretores atuais e um dos projetos mais fabulosos da última década.

Nota: 10/10