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21.7.13

Crítica: Sangue Negro

SANGUE NEGRO
There Will Be Blood

Estados Unidos, 2007 - 158 minutos.
Drama

Direção:
Paul Thomas Anderson

Roteiro:
Paul Thomas Anderson, Upton Sinclair (livro)

Elenco:
Daniel Day-Lewis, Paul Dano, Kevin J. O'Connor, Dillon Freasier, Ciarán Hinds, David Willis

Já em sua abertura, Sangue Negro resume o caráter do personagem principal em uma sequência magnífica de um pouco mais de cinco minutos sem qualquer dialogo: no meio de um deserto, em uma cidade remota nos EUA, Daniel Plainview está dentro de um buraco de garimpo tentando insistentemente achar algo de valioso em meio a um pedregulho. Quando consegue achar prata, o garimpeiro ao tentar subir para superfície através do claustrofóbico espaço pela qual desceu, parte da escada se rompe e ele fratura as pernas. Agonizando ao chão, Plainview em nenhum momento se preocupa com o fato de estar mobilizado dentro de um buraco sozinho no fim do mundo, mas de poder perder a prata que conseguiu. Sob uma trilha sonora poderosíssima e agonizante, aliado a uma iluminação pesada e obscura, a cena tem como por objetivo alertar ao espectador toda a incessante e desenfreada ganância de Daniel, sob uma personalidade antissocial e solitária, caracterizadas por uma natureza de alguém que quer muito mais do que dinheiro: poder. Mais que antecipar o acidente de Daniel, a trilha sonora de Jonny Greenwood já nos prepara sobre todas as intermináveis atrocidades que até então pacata Califórnia irá passar nas mãos do garimpeiro que conseguirá se tornar, ao longo de três décadas, um dos maiores magnatas do petróleo nos EUA.

À medida que avança com sucesso a exploração do petróleo, Daniel é surpreendido pela visita de um jovem que garante ter a localização de uma região com grande quantidade de petróleo em troca de quinhentos dólares. Após certa negociação, Plainview fecha acordo, onde mal sabe ele que lá estará o sucesso e a ruína de sua pessoa como ser humano: a quantidade de petróleo suposta pelo jovem que fora abordado é infinitamente maior ao que se pensava, mas ao mesmo tempo, lá encontrará um inimigo que, igual a ele, busca o poder e o conflito entre ambos, será eminente e surpreendentemente magnífico de se acompanhar.

Paul Thomas Anderson sabe explorar com extremo louvor cada situação que o personagem passa, mais do que isso, deixa claro ao espectador a frieza do ex-garimpeiro perante o mundo: durante sua jornada a conquista do petróleo, inúmeros acidentes acontecem e diversos trabalhadores morrem vitimas da amadora estrutura de trabalho de Daniel, que não sente qualquer ressentimento pela situação. Diante um acidente, seu afilhado HW, criança que é acolhida pelo personagem na intenção persuadir famílias na compra de terras para exploração, é atingido por uma explosão e tem a perda completa da audição. A partir daí, a única conexão de Plainview com o mundo, que não seja o que ele próprio criou internamente, acabará e o personagem cairá de vez em uma psicótica e perturbada mente. O titulo original “There Will Be Blood” (Haverá sangue) é mais que perfeito pra ilustrar toda a condição que este poderosíssimo longa expõe seus personagens. Já o titulo no Brasil também se mostra grato em fazer uma metáfora muito interessante com a maldade do protagonista e o petróleo que o cerca durante todas as inúmeras desgraças ocorrentes.

Como dito brevemente, o mercenário protagonista encontra um rival a sua altura, mas diferente dos demais, em que ele simplesmente os tirava de circulação como bem entendia, Eli é um pregador fervoroso da qual toda a simples comunidade aonde vivem adora. A personalidade de Daniel, por mais autodestrutiva que seja, consegue captar a falsidade imposta pelo seu oponente utilizando a religião para dominar todos a sua volta. Por ironia ou não, é o que causa uma profunda revolta no protagonista que parece ficar incrédulo com as jogadas do jovem pastor, já consegue sentir e admitir pra si próprio sua monstruosa ambição e poder de domínio, enquanto Eli cria uma grande mentira para viver de sua própria hipocrisia. Plainview até tenta fingidamente entrar neste jogo, mas é incapaz mesmo que queira (a cena da falsa redenção do personagem na igreja é simplesmente impagável), o que faz acreditar que, por mais baixas que sejam suas atitudes (e elas não são poucas), ele tem a dignidade de suportar o peso de suas imoralidades, por mais deploráveis que sejam. E por sua própria contradição, é a relação mais próxima que tem com outro ser humano que não seu afilhado que ele manda para longe ainda pequeno. O terceiro ato da película traz o ápice deste conflito com extrema sabedoria, perfeição e uma pitada sádica de vingança, fazendo Sangue Negro ser ainda mais épico do que já era desde sua introdução.

Em toda a sua execução, seja em roteiro ou a primorosa técnica, o filme de Anderson é irrepreensível. Aquelas poucas obras-primas que têm o poder incontestável de se tornar irretocável pelo brilhantismo que se cria e, obviamente, seus atores têm mais do que merecidos méritos, em especial, o poderoso Daniel Day-Lewis. Não há apenas um segundo qualquer que o ator não tome e domine as cenas com uma intensidade e precisão fora da normalidade. É um dos raros casos que se percebe que o artista nasceu para aquele papel e sua conquista pelo Oscar de melhor ator é muito mais que justa. Era obrigatória. Assim como todo cinéfilo deve ver esta obra-prima que irradia a beleza e talento nato de se fazer o melhor que o cinema, atual ou antigo, possa oferecer.


Nota: 10/10

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