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26.7.13

Crítica: Réquiem Para um Sonho

RÉQUIEM PARA UM SONHO
Requiem for a Dream

Drama
Estados Unidos, 2000 – 102 minutos.

Direção:
Darren Aronofsky

Roteiro:
Hubert Shelby Jr., Darren Aronofsky

Elenco:
Jared Leto, Jennifer Connelly, Marlon Wayans, Ellen Burstyn, Christopher McDonald, Louise Lasser

Existem muitos filmes que retratam a decadência de usuários de drogas que vão sendo consumidos, pouco a pouco, pelos seus incontroláveis vícios, entretanto, nenhum deles pode ser comparado a Réquiem Para um Sonho. Abusando da crítica aos padrões sociais, o famoso sonho americano, e o péssimo sistema de saúde público do país, Darren Aronofsky faz jus ao nome de sua película e traduz de forma perturbadora a prece mortal dos sonhos de seus protagonistas.

A trama propositalmente simples envolve quatro indivíduos: a aposentada e viúva Sara Goldfarb, que vive com seu único filho, usuário de drogas, Harry, que não pensa duas vezes em vender a televisão de casa, o único entretenimento de sua mãe (que sempre a recompra), para sustentar seu vício, junto de seu amigo Tyrone e sua namorada Marion. Cansados de serem meros usuários de drogas, os três jovens decidem montar um sistema de tráfico para juntar algum dinheiro para colocar em prática seus sonhos. Enquanto isso, a solitária mãe de Harry recebe uma carta de uma emissora para participar de seu programa preferido. Alucinada por tal fato, a viúva quer retornar aos seus dias de glória e parecer encantadora na televisão, e depois de ser encorajada por uma vizinha, vai ao médico para receber uma receita de remédios para emagrecer. Conforme os planos dos quatro não vão seguindo o rumo planejado, o desespero vai tomando conta de cada um deles que vão se trancafiando em um mundo longe da realidade ameaçando não apenas os sonhos, mas suas próprias vidas.

Quando cito que a trama é propositalmente simples, é porque Aronofsky manipula o espectador exatamente através deste princípio. Em nenhum momento quem está assistindo consegue imaginar os extremos que o longa vai alcançar, não apenas dando excelência ao excepcional roteiro, mas criando verossimilhança com a própria realidade de seus protagonistas. Para fazer com que o contexto seja crível, a simplicidade é empregue para conduzir um espetáculo frenético e intenso através dos pequenos mundinhos que os personagens vivem.  Sair abalado depois de assistir Réquiem Para um Sonho não é uma opção.

Ao seu conhecido estilo fantástico, Darren quer fazer com que o espectador sinta na pele todos os sentimentos de seus protagonistas e isso inclui, audaciosamente, “dopar” a quem assiste com uma técnica poucas vezes vista com tanta perfeição no cinema. A cada droga ingerida pelos personagens, a câmera as enfatizam, sempre no mesmo ângulo, e os mesmos sons, repetindo isso com certa frequência a fazer com que o público consiga sentir com certa tangência dos efeitos sentidos pelos protagonistas. O mesmo é feito com monótona rotina de Sara, que basicamente limpa a casa e assiste televisão o dia todo. A técnica é uma execução extremamente precisa que cria um vínculo incomum e poderoso entre o espectador e os personagens.

E por mais polêmicas que sejam, as intenções de Aronofsky logo contradizem o sentimento emocional que cria para mostrar o lado obscuro e as consequências das péssimas escolhas de seus protagonistas. É impossível depois de ter atingido tal vinculo, o público não ir, aos poucos, caindo de forma transtornada e perturbada nas inúmeras desgraças decorrentes no filme. Após nos viciar em uma técnica que lembra uma lavagem cerebral, ele decide então retirar a quem assiste de seu estado dormente. De forma quase sádica (mas que vai muito além), a sequência frenética, deturpada e conturbada do terceiro ato pode beirar o insuportável para o espectador mais sensível. Gostando ou não da sensação obtida por ela, Aronofsky consegue até a contragosto fazer o público voltar a si e enxergar toda a situação agora pela visão real, causando um sentimento amargo de prepotência pelo sofrimento de seus protagonistas.

Muito longe de ficar em uma técnica incrível, o diretor de Pi faz uma crítica severa a diversas situações, como citadas anteriormente. Sara, por exemplo, sequer é olhada pelo médico que receita os comprimidos de emagrecimento, mesmo quando volta ao mesmo doutor e diz estar sentindo certos efeitos colaterais pelo comprimido, o que, aliado a exclusão do rosto do médico, remete claramente uma situação eventualmente comum do sistema horrível de saúde americana. O mesmo pode ser visto quando Harry e Tyrone estão sendo “examinados” pelo médico da prisão onde estão que, além de não encarar a fila de presos a sua frente, restringe-se a perguntar se os mesmos estão ouvindo ou vendo-o. O que só muda após o guarda do seu lado ver o braço quase podre de Harry, devido a uma inflamação pelo uso contínuo de seringas.

Para mostrar a falsidade dos padrões do tal almejado sonho americano, Darren utiliza personagens que mesmo se envolvendo em terríveis situações, não possui índole ruim e fazem o mais próximo das possibilidades que enxergam como alternativas. Exemplo claro dessa situação é a sequência onde Harry e Tyrone estão em uma lanchonete da qual um guarda senta ao lado deles e o filho de Sara começa a olhar para a arma do policial e imaginadamente, a retira do case e quando o espectador imagina que ele atirará contra o homem, ele começa a brincar com o objeto, jogando a arma por cima do policial para Tyrone, na típica brincadeira do “bobinho”. Enquanto a doçura de Marion e a bondade de Sara dispensam este tipo de apresentação.

Os padrões parecem cercar os personagens pela essência da própria cultura americana: é o programa de televisão de Sara que irradia falsa felicidade, as promessas de uma vida de sucesso cercada de muito dinheiro, a rebelde jovem (pelo menos acha) que não recebe atenção dos pais, o rebaixamento dos negros que sucedem de promessas para dar a volta por cima, porém, tudo dentro de uma cerca inocência no olhar de pessoas que parecem ou se comportam como se não tivessem escolhas para o estilo de vida que seguem.

A construção mais simbólica de todos os acontecimentos, entretanto, fica com as ilusões deturpadas de Sara sobre o universo do programa que assiste estar dominando a sua vida. Há uma sequência em particular que, literalmente, traduz este ponto de vista fazendo com que o apresentador e toda equipe do programa invadam o apartamento da aposentada. A cena é perturbadora e memorável, pois invoca descontroladamente e controversamente os sentimentos de veneração de Sara sobre aquele mundo que tanto adora, mostrando como aquilo vai consumindo-a.

Réquiem Para um Sonho por trás de sua “simples” trama  (que conta com um elenco impecável, onde até mesmo  Marlon Wayans, único papel decente de sua decadente carreira, consegue convencer com precisão seu personagem) explora de forma simbólica, perturbadora e inesquecível tudo o que retrata. Esqueça qualquer filme do gênero, o longa de Darren Aronofsky quebra todos os paradigmas estabelecidos. E se o poder incontestável (e doloroso) da película pudesse servir como parâmetro para viciados em drogas, por exemplo, com certeza os fariam refletir o que fazem com suas vidas, porque sem qualquer sombra de dúvidas, o restante de nós ficará conturbado por um bom tempo por esta obra-prima magnífica.


Nota: 10/10

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