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11.7.13

Crítica: Oldboy

OLDBOY
“Oldeuboi”

Drama/ Thriller
Corea do Sul, 2003 - 120 minutos.

Direção:
Chan-wook Park

Roteiro:
Jo-yun Hwang, Chun-hyeong Lim, Joon-hyung Lim, Chan-wook Park, Garon Tsuchiya

Elenco:
Min-sik Choi, Ji-tae Yu, Hye-jeong Kang, Dae-han Ji, Dal-su Oh, Byeong-ok Kim, Seung-Shin Lee

O cinema asiático é subestimado em nossas terras preconceituosas e indispostas a compreender uma cultura diferente da ocidental. Obras-primas são meramente diluídas em remakes banais que falham na tentativa de reconstruir tudo o que outro cineasta fez. O próximo da vez será o aclamado Oldboy, de Chan-Wook Park e já posso dizer que, assim como David Fincher sendo um excelente diretor não conseguiu trazer a força do dinamarquês Niels Arden Oplev na versão original de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, Spike Lee muito provavelmente não conseguirá reviver com todo o louvor a adaptação do sul-coreano das HQ’s de Nobuaki Minegishi. Não por falta de competência, mas sim porque é impossível para um americano transmitir com extrema precisão uma cultura que se distancia da nossa como água e óleo.

Lembro-me quando vi um drama chinês tristíssimo chamado Permanent Residence (não há tradução para o português) e fiquei perturbado como o chinês Scud conseguia transmitir a intensa relação entre os protagonistas e mostrar o quão infeliz aquilo tudo era. Um amor não correspondido que lutava com a relutância de um deles (que gostava, mas não conseguia aceitar) e o sofrimento que a situação ia causando em ambos. É uma característica do cinema asiático que aqui é multiplicada por um roteiro extremamente original e completamente desenfreado em ideias doentias e bizarras.

Na adaptação conhecemos o alcoólatra Oh Dae-su que é detido temporariamente após uma bebedeira e é sequestrado misteriosamente no meio da rua, enquanto espera seu amigo usar um telefone público. Em um cativeiro que lembra um hotel barato, ali ele fica por 15 anos. Após quase estar tendo êxito de escapar do local, Dae-su é liberado e acorda na cobertura de um hotel e dentro de uma mala. Perturbado e sendo acusado de assassinar a própria esposa, ele decide se vingar de quem o sequestrou e tenta descobrir o porquê ficou trancafiado durante tanto tempo. Entretanto, conforme vai desvendando os fatos, a realidade vai se mostrando mais perturbadora que poderia se imaginar.

A começar pelo protagonista, vivido intensa e insanamente por Min-sik Choi, é praticamente um universo isolado dentro do longa. A força empregue pelo sul-coreano e sua versatilidade em se adaptar a inúmeras mudanças de humor e sentimentos vividos, impostos e submetidos é arrasadora. O ator consegue expressar com tanta verossimilhança as dores, sofrimentos intensos e devastadores de seu personagem que é impossível o espectador não comprar o poder de cada cena de Oldboy. É quase palpável o quão desesperador e insuportável se torna o mundo para Dae-su conforme é manipulado e humilhado  por Lee Woo-jin (interpretado excepcionalmente por Ji-tae Yu). Sem sombras de dúvidas, sua atuação é memorável e admirável.

Se o material original já é polêmico o suficiente, Chan-wook Park abusa sadicamente do poder de seu audacioso roteiro e inicia uma jornada quase que torturante para público e brutal para seu protagonista. A fotografia não poupa ângulos imaginativos e manipuladores para instigar a imaginação de quem está assistindo todo o show de horror e banhos de sangue capturados de forma bastante crua pelo sul-coreano que aumenta drasticamente o poder de suas cenas. A palheta de cores instável reflete a cultura oriental, principalmente a claustrofobia que os ambientes artificiais transpõem decorrente as construções arquitetônicas de países cuja população é maior do que o próprio país pode conter. A saturação do branco vindo das iluminações destes ambientes beiram o insuportável boa parte das vezes. A trilha sonora inspiradíssima se arrisca com muito êxito em clássicos como Vivaldi, reforçando certo incômodo que a película causa.

Não parando na técnica, Park dilui o roteiro de Oldboy lentamente entre diversas sequências nojentas, bizarras, com uma violência quase interminável e mostra estar se divertindo em implantar certa tosquice, especialmente nas cenas de ação, parecendo uma versão oriental de Quentin Tarantino. Sem se prender na diversão do diretor de Kill Bill, o trash adicionado aqui serve como um respiro ao espectador diante de tudo que se apresentado do roteiro. Este, polêmico (e assertivo) como poucos, não fica no meio termo e avança o sinal vermelho em direção ao insano. Não deverá ser rara a frustração e revolta de certas pessoas com o perturbador desfecho do filme.

Incrivelmente criativo e poderosamente imaginativo, Oldboy entrega ao público uma experiência rara e incomum dentro do cinema. A ousadia do sul-coreano parece ser interminável (e quase irretocável se não fosse um uso levemente exagerado de flashbacks) dentro dos 120 minutos desta obra-prima que é incapaz de deixar ileso o mais cético dos espectadores.


Nota: 9,7/10

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