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4.7.13

Crítica: Notas Sobre um Escândalo

NOTAS SOBRE UM ESCÂNDALO
Notes on a Scandal

Reino Unido, 2006 - 92 minutos.
Drama

Direção:
Richard Eyre

Roteiro:
Zoë Heller (romance) e Patrick Marber

Elenco:
Judi Dench, Cate Blanchett, Tom Georgeson, Andrew Simpson, Bill Nighy, Max Lewis, Juno Temple

Por mais polêmica que seja a história de Notas Sobre um Escândalo, nada consegue abafar a estupenda atuação da trinca composta por Judi Dench, Cate Blanchett e Bill Nighy incorporados em uma história medianamente previsível, que comporta o telespectador a uma manipulação quase teatral da narrativa e que conduz excepcionalmente bem a película de Richard Eyre.

Na adaptação do romance de Zoe Heller conhecemos Barbara (Dench), uma professora solitária e de poucos amigos que leciona em uma escola no subúrbio de Londres. Ao conhecer a nova professora de artes, Sheba (Blanchett), ela logo começa a se interessar em se aproximar da pessoa que todos consideram adorável. Aproveitando todas as oportunidades possíveis, Barbara logo vai se adentrando na vida de Sheba e de sua família. Após um incidente, ela descobre que sua nova amiga de meia-idade, casada e com dois filhos está tendo um caso com um aluno de 15 anos. Considerando em tirar proveito de toda a situação, Barbara decide manter segredo do adultério enquanto manipula secretamente a desesperada novata. Entretanto, torna-se apenas uma questão de tempo para que a história caía na boca de alguém e a situação fique incontrolável.

Como mencionado, o bom roteiro do longa possuí proporções limitadas e não é muito difícil imaginar o desdobramento de Notas Sobre um Escândalo. No entanto, dentro de seu pequeno universo, avança minuciosamente entre as complexidades de cada personagem, principalmente por conta da ótima narrativa que o telespectador é conduzido pelo ponto de vista da analítica e perversa protagonista. Junto dela, a sensacional trilha sonora de Philip Glass dá o tom perfeito dos intensos sentimentos que vão percorrendo a tela e, de certa forma, antevendo ao público o decorrer das cenas, provando que o diretor inglês parece não se importar com o tom previsível da história e sim, em explorar com complexidade os personagens.

O roteiro não enfatiza com vulgaridade e não faz sensacionalismo da pedofilia cometida por Sheba. Ao contrário, tenta mostrar a fragilidade de um casamento que se sustentou de uma paixão colegial que acabou tirando sua liberdade para ser esposa e mãe de dois filhos, um deles com necessidades especiais. A vontade impulsiva da doce professora é de libertar seu lado caótico que parece ter sido domado pelas circunstâncias em que sua vida rumou e que era naturalmente de sua personalidade. Por outro lado, a solitária professora amarga a incompreensão de não ser amada. A manipulação da qual ela submete as pessoas a sua volta vem de uma clara necessidade de demonstrar a si própria o quão sagaz ela é quando, na verdade, sofre pela vulnerabilidade de sua própria solidão. Um pequeno gesto alheio é interpretado de tantas formas inimagináveis, enfatizando a sua desesperadora necessidade de manter alguém ao seu lado, por mais imorais que sejam as circunstâncias.

Para trabalhar uma história como esta Eyre se encarregou de trazer a excelência britânica e uma poderosa australiana para dar conta de seus papéis. É impressionante o poder dominante de Judi Dench em todo seu tempo em tela. Ela consegue passar uma vulnerabilidade física e esconder a astúcia perversa da personagem. Cate Blanchett consegue esconder sua imponência de forma bastante eficiente para encarnar a confusa e doce Sheba, entretanto, sabe despedaçar a mesma imagem e mostrar o talentoso monstro que tem dentro de si e em seu excepcional timbre de voz. E falando em imponência de voz, não é novidade o poder de Bill Nighy neste quesito. Apesar de possuir menor relevância e menor tempo em tela, o britânico sabe como poucos impressionar o telespectador por seu talento instintivo e, quando há espaço, poderosíssimo.

Se Notas Sobre um Escândalo não traz uma trama das mais inovadoras e surpreendentes, garante seu público com o talento inquestionável de seu elenco, uma trilha sonora irretocável que proporciona poderosos e memoráveis momentos. Não há como não ficar imóvel na sequência em que Sheba, totalmente descontrolada, se atira contra os fotógrafos e expõe sua imagem a fim de punir a si mesmo pela atrocidade que fez. Só ela seria suficiente para o longa de Richard Eyre valer a pena.


Nota: 8/10

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