Procure uma crítica

8.7.13

Crítica: Distrito 9

DISTRITO 9
District 9

África do Sul / Nova Zelândia, 2009 - 112 minutos
Ação / Ficção científica

Direção:
Neill Blomkamp

Roteiro:
Neill Blomkamp, Terri Tatchell

Elenco:
Sharlto Copley, Jason Cope, David James


Não é difícil entender o porquê de Peter Jackson ter ficado impressionado com um dos curtas do sul-africano novato Neill Blomkamp e decidiu assim financiar o primeiro filme deste diretor sem grande currículo que veio para balançar Hollywood. Distrito 9, sem dó, bate na cara do telespectador e mostra o quão preconceituosa, ambiciosa e perversa a raça humana é.

Da inspiração de seu curta “Alive in Joburg”, o roteiro escritor por Blomkamp narra em tom documental a chegada de uma nave alienígena, no começo dos anos 80, a Joanesburgo que sequer faz qualquer contato. Parada a mais de três meses, o governo local decide intervir e abordar a nave, onde encontram cerca de um milhão de alienígenas em situações deploráveis e inabitáveis. Após descobrirem que o objeto pousou por uma falha mecânica, o governo decide construir uma espécie de acampamento de refugiados para tentar abrigar em melhores condições esta espécie desconhecida. Décadas se passam e o local se transforma em uma favela repugnante, dominada por uma altíssima taxa de violência, tráfico e abuso contra os residentes.

Com o aumento da invasão dos alienígenas em locais proibidos da cidade em busca de alimentação e o temor da população, o governo decide deslocar todo este conglomerado de aliens para outro distrito bem longe da cidade. Para fazer este delicado serviço o agente da MNU (fabricante de armas), Wikus van der Merwe, é promovido para liderar o comboio da operação. Durante a inspeção de um barraco suspeito por ilegalidades, Wikus acaba acidentalmente sendo exposto a um líquido desconhecido que começa a trazer efeitos colaterais drásticos e fazer do agente uma arma valiosa para o comando de tecnologias alienígenas que funcionam apenas com identificação biométrica.

Com um roteiro magnificamente bem explorado, o diretor sul-africano utiliza da estética documental para conseguir extrair todos os campos e perguntas que o excelente texto proporciona. Com este ótimo dinamismo da técnica, ele consegue transmitir com muita precisão ao telespectador as questões sociais, religiosas, éticas, morais e interessantes governamentais atrás de todo este excepcional acontecimento, através de entrevistas com a população local em forma de reportagem televisiva com agentes da MNU, traficantes que tentam vender comida para os aliens em troca de suas tecnologias, quando não mesmo os matam e removem pedaços para que o chefe do tráfico coma na crendice religiosa de que consumindo parte daquilo, ele conseguirá obter seu poder. E isso é só o começo.

Distrito 9 vai muito além do que este subgênero já havia explorado em outras diversas películas para passar uma mensagem muito poderosa. Aqui, os camarões (como a população os chamam) possuem um papel simbólico e até metafórico dos problemas sociais que o mundo todo tem e a coisa em um todo parece ser evitada ou diminuída, parecendo que elas têm menor interesse para a sociedade do que outras questões. Utilizam-se os aliens, mas eles facilmente poderiam ser substituídos por negros, palestinos, muçulmanos, entre outras raças e etnias que sofrem com preconceito. Aqui a espécie alienígena abre parâmetro para diálogos mais abertos e pesados de todos os lados, sejam eles governamentais ou populacionais, mostrando uma frieza absurda a tentar trazer um pouco de dignidade a uma espécie que sofre por não poder voltar para a sua terra natal e todos preferem fingir esquecer que eles existem. Estas situações lhe parecem familiares?

Além da crítica social do longa de Blomkamp, as marcas da violência empregue em todo momento contra as criaturas pacificas que, mesmo superiores fisicamente, pouco retaliam o que os seres humanos fazem a ela, outra ironia imposta na película, é que quando um de nós saí dos padrões impostos por nossa própria sociedade, ela como um todo vira as costas para este indivíduo que recebe suporte de quem mais repudiou levianamente. Pois aqui, os camarões possuem muito mais sentimentos que os seres humanos e o amargo deixado por toda esta ácida e deplorável situação no telespectador é reflexo do que temos hoje.

Com excelente ritmo do inicio ao fim, repleto de técnicas espetaculares, principalmente considerando o apertadíssimo orçamento de 25 milhões de dólares, extremamente bem aproveitado, não deixa uma vírgula sequer de efeitos ingratos e amadores. Um roteiro sensacional, que sabe proporcionar na medida certa até ao telespectador menos atento aos textos dos filmes que assiste uma experiência de reflexão impressionante da crítica que propõe. A atuação do principiante Sharlto Copley como protagonista é uma gratíssima surpresa e, com certeza, um ator a se acompanhar daqui para frente.


Distrito 9 tem o poder de mexer com cada pessoa que o assiste e nos fazer questionar, afinal, quem somos nós e o que fazemos dentro desta sociedade?

Nota: 9,3/10


Nenhum comentário:

Postar um comentário

(Comentários de baixo calão serão moderados e excluídos)