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29.6.13

Crítica: Um Lugar Qualquer

UM LUGAR QUALQUER
Somewhere

Estados Unidos, 2010 - 98 minutos
Comédia / Drama

Direção:
Sofia Coppola

Roteiro:
Sofia Coppola

Elenco:
Stephen Dorff, Elle Fanning, Chris Pontius, Karissa Shannon, Kristina Shannon, Laura Chiatti, Michelle Monaghan

A vida dos artistas de Hollywood parecem perfeitas aos olhos de muita gente. Muita festa, muito dinheiro, se tem tudo o que quer, na hora que quer, do jeito que quer. Bajulada por inúmeros assistentes que cuidam de todos os detalhes de sua vida pessoal e profissional, fazendo que com você apenas tenha o trabalho de aproveitar toda esta áurea exclusiva que poucas criaturas na Terra são capazes de se dar ao luxo. A verdade é que, por mais tentador que este estilo de vida possa parecer, a pergunta que vem logo a mente é: Até quando isso será o suficiente? É aqui que Sofia Coppola entra com seu magnífico Um Lugar Qualquer.

Na simples história, conhecemos Johnny Marco (Stephen Dorff), um poderoso ator de Hollywood completamente entediado com a vida luxuriante que leva. Johnny não sabe mais sequer distinguir um dia de outro, as pessoas que conhecem, as mulheres que leva para a cama, ou quem entra ou saí de seu quarto alugado no Chateau Marmont, um iconográfico hotel em Los Angeles conhecido pela flexibilidade com o estilo de vida exagerado de seus hóspedes. Quando ele é obrigado a passar uma temporada com sua filha de 11 anos enquanto a mãe da garota viaja, o ator começa resgatar os prazeres da vida e reavaliar a sua própria.

Sofia Coppola mostra que, embora carregue um sobrenome poderoso, seu talento é marcado por seus próprios feitos. A direção de Um Lugar Qualquer é perfeita. Sofia consegue transmitir de inúmeras formas ao telespectador o quão solitário e depressivo Johnny se sente. A começar pela fantástica fotografia que se recusa a registrar as entradas dos inúmeros locais que o astro frequenta a fim de mostrar o quão imparcial e comum aquilo é dentro de sua rotina e como todos os lugares aparentam ser o mesmo para ele. Capta os comuns afazeres do artista com os mesmos ângulos, reforçando a ideia monótona que tudo aquilo é. A ausência quase que total da trilha sonora abre um gigantesco espaço para que o telespectador jogue de seu consenso qualquer glamour ou pré-conceitos idealizados de uma pessoa tão poderosa que vive parasitamente perdida e passiva frente toda a sua vida.

A abertura do longa simboliza muito bem o quão redundante o cotidiano de Johnny é. Câmera imóvel, captura por diversas vezes a Ferrari do ator andando em círculos, cansando o telespectador que assiste a sequência para fazê-lo sentir na pele a sensação de tédio que é carregada pelo protagonista. A sequência em que estão fazendo um molde de sua cabeça, da qual ele é obrigado a ficar imóvel com a cabeça coberta por uma massa, que apenas abre um espaço para as narinas, simboliza metaforicamente a solidão do personagem em meio a tantas pessoas.

Apesar de mostrar a reconexão de Johnny à vida, Sofia não faz qualquer questão de enfatizar as redescobertas do protagonista com clichês batidos do gênero. Esta transgressão é feita de forma extremamente sutil e imperfeita, dando uma poderosa verossimilhança a Um Lugar Qualquer. Não há ápices e clímax, é apenas a história de um sujeito se redescobrindo. O que faz do longa uma experiência única por contradizer até mesmo os padrões de um drama do gênero. É também brilhante atuação de Stephen Dorff como Johnny, que apesar de ser um personagem passivo e deprimido, exibe um carisma grandioso e cativante, fundamental para a conexão com o público. Luminosa também é Elle Fanning como Cleo, a filha do ator. É impressionante como a garota vai iluminando os dias de seu pai, completamente a par de sua vida, e o vai satisfazendo com sua presença e o encantando com as mais simples atitudes.

Infelizmente Um Lugar Qualquer não é uma experiência para todos. Muitos não compreenderão os métodos de Sofia e sucumbirão na crença de que o longa não passa de uma monotonia vazia e sem sentido (se o final do filme parecer vago, reflita-o melhor). Uma pena. Mas para os privilegiados, desfrutem desta encantadora e delicada obra que reforça o talento genuíno de sua criadora.


Nota: 10/10

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