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24.6.13

Crítica: Shame

SHAME

Estados Unidos, 2011 - 101 minutos.
Drama

Direção:
Steve McQueen

Roteiro:
Abi Morgan, Steve McQueen

Elenco:
Michael Fassbender, Carey Mulligan, James Badge Dale, Nicole Beharie, Alex Manette, Robert Montano

É com um vazio vagamente incompreendido que Shame termina a história de um executivo (vivido por Michael Fassbender) viciado em sexo que, sozinho, vive uma vida aparentemente tranquila. É com a chegada repentina de sua irmã Sissy (Carey Mulligan) que este cenário muda radicalmente, encurralando Brandon em seu próprio estilo de vida. Não demora muito para a sensação de incompreensão ir embora e entender que, além de dois personagens autodestrutíveis, moldados por um passado sombrio e nada esclarecedor, o diretor Steve McQueen reflete todo este vazio à maneira fula e banal vivida pela sociedade atual.

O diretor inglês que não perde tempo explora sem qualquer pudor a vida sexual do executivo. Uma compulsão que parece não ter fim, não se limita a seu belo apartamento, como avança para o trabalho, a ida e volta dele pelo metrô, fetiches via internet, banheiros públicos e onde a deturpada imaginação do personagem pode chegar. Mais do que querer mostrar a escravatura de uma pessoa possessiva e doente por sexo, McQueen explora a construção frágil da vida de Brandon que vai desmontando à medida que sua irmã (que é ignorada por ele inúmeras vezes) retorna a sua rotina.

Há uma belíssima cena que transpõe com extrema precisão este sentimento de vulnerabilidade. Enquanto Sissy transforma a agitada “New York, New York”, de Frank Sinatra, em uma melancolia infinita, a moldura criada pelo protagonista vai se dissolvendo quando ele finalmente é pressionado por seus próprios pensamentos, na mentira que vive, a encarar o canto dramático de sua irmã. Representando seu passado, sua irmã gera um incontornável incômodo da qual ele não pode se livrar, como faz com inúmeras garotas de programa que contrata.

Sissy, diferente do irmão que contém a todo o custo a expressão de qualquer sentimento, é motivada por espontâneas e compulsivas emoções. É o retrato contrário ao mesmo problema que aflige ambos os personagens.

A direção de Steve McQueen é poderosa em não poupar o telespectador, dentro de excelentes técnicas, as compulsões e solidão dos personagens. A fotografia sombria, construída por uma bela palheta opaca de cores (que pende para o azul que remete a impessoalidade e tristeza na linguagem das cores), casa perfeitamente com a delicadíssima trilha sonora e planos bem longos. É um lindo trabalho de semióticas da obra-prima que se cria pela arte visual. Por mais competente que seja o ótimo roteiro, são as imagens que falam por Shame.

O trabalho inspiradíssimo de Michael Fassbender é memorável e reflete com extrema sensibilidade as complexidades de seu personagem. Na realidade, desde seu crescimento dentro do mercado cinematográfico, Fassbender vem sendo elogiado pelas suas performances incríveis e em pouco tempo está se tornando um dos melhores atores de sua geração. A atuação do ator germânico faz contraste com a ótima Carey Mulligan. A conexão dos dois em tela é admirável.

Se o flerte recebido por uma mulher no vagão do metrô ao final do longa sugere certa incerteza do futuro do personagem, o olhar devastado de Brandon após a real aceitação das repugnâncias que seu perigoso e perturbado estilo de vida o proporciona, coloca entrelinhas firmes uma mudança obrigatória de estado. Ignorar o passado não é solução de um futuro.


Nota: 9,5/10

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