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4.7.13

Crítica: O Homem de Aço

O HOMEM DE AÇO
Man of Steel

Ação/ Drama/ Aventura
Estados Unidos, Canadá, Reino Unido – 143 minutos.

Direção:
Zack Snyder

Roteiro:
David S. Goyer, Christopher Nolan

Elenco:
Henry Cavill, Amy Adams, Michael Shannon, Russell Crowe, Kevin Costner, Diane Lane, Laurence Fishburne



Quando assisti Watchmen pela primeira vez, além de ter ficado encantado com a adaptação da obra-prima de Alan Moore, Zack Snyder havia conseguido explorar com complexidade um homem que era considerado um Deus pelos seres humanos e sentia-se infinitamente solitário em um planeta da qual os padrões e motivações pareciam não fazer mais o menor sentido, além dele próprio ser usado como uma arma pelo governo. Apesar das diferenças entre Dr. Manhattan e Superman, o diretor de 300 parecia compreender todo o conjunto de ideias e poder de um personagem desta magnitude e desde aquela época imaginei que ele seria o diretor ideal para um novo filme do cânone dos quadrinhos. 

O trabalho deste diretor com forte personalidade e audaciosamente corajoso possui dentro de Hollywood uma controvérsia letal para uma carreira de sucesso: instabilidade financeira. Apesar de ser uma das melhores adaptações de todos os tempos, Watchmen foi um fracasso de bilheteria. Sucker Punch, seu primeiro roteiro original já que todos seus outros filmes eram adaptações de algum romance, também não foi bem e tirou Snyder de papel visionário para um diretor não confiável para executivos que precisam de retorno financeiro. Apenas 300 fez uma bilheteria respeitosa, mas a facilidade de identificação do público e as inovações que o longa deu ao gênero são tão explicitas que respondem seu sucesso.

Já Christopher Nolan é o oposto. Com uma carreira curta, encontrou o ponto exato do comercialmente viável junto da arte como poucos diretores no cinema conseguem fazer desde o principio da mídia. Depois de Batman Begins, Nolan alavancou sua carreira de forma impressionante. A cada filme que lançava, sua bilheteria era gigantesca fazendo com que ele colocasse respeito entre os executivos ao ponto de mandar e desmandar em todos os seus projetos. Diante do sucesso de tudo em que põe a mão, os investidores parecem cegos a acreditar no seu poder de agradar o publico, ser bem recebido pela crítica e ainda fazer muito dinheiro.

Nestes dois controversos pontos, sempre havia imaginado um longa que fosse dirigido e produzido por estes dois diretores que, apesar de terem técnicas e ideais bem diferentes de fazer cinema, é um dos casos em que as diferenças são positivas e se constrói um projeto com o que há de melhor. Snyder com a fantasia e Nolan com a sobriedade. Depois de tanta injustiça financeira, me pareceu uma excelente oportunidade para Zack receber uma espécie de consultoria de um diretor que encontrou o caminho certo para agradar a todos, a fim de auxilia-lo a dirigir seus projetos com mais sabedoria e não se tornar um diretor cuja carreira é manipulada por executivos, algo extremamente comum em Hollywood. Como sonho pessoal, adoraria que este encontro houvesse acontecido no primeiro e tão esperado filme da Liga da Justiça. Mas não há como não ficar satisfeito com esta união em O Homem de Aço.

O personagem foi injustiçado em 2006 em Superman – O Retorno, um resgate nostálgico do ícone que parece não ter sido bem compreendido por um público que estava começando a receber naquela época o começo da sobriedade de filmes fictícios mais sérios e o tom do longa de Brian Singer talvez não fosse o esperado, além de outros problemas que seu filme carrega. Mas com toda esta rejeição, nada mais justo que a dupla de diretores (com Nolan entrando como produtor), junto do roteirista David S. Goyer corressem de tudo o que havia sido feito para trazer outro tom, outra perspectiva de história, com modificações, sem esquecer os princípios da criação do primogênito dos super-heróis.

Falando em princípios de criação, isso é algo que não falta em O Homem de Aço. O reflexo de Jesus Cristo aparece mais do que evidente no longa. Quando o personagem foi criado na época da Grande Depressão, o intuito era que ele se tornasse um símbolo de esperança para os americanos. A união de bondade, poder, bravura de um ser superior com um semblante humano. Que fosse capaz de se sacrificar em prol dos outros. Nada mais inspirador que Cristo. Há inúmeras cenas no longa, inclusive a própria idade do personagem (33 anos), que refletem estes ideais. Nada parecido com o que já havia sido criado e que filosofa com certo ar contemplativo do roteiro e uma poderosa fotografia.

A trama em si não foge muito do que se conhece do personagem. Com Krypton instável e com um eminente fim do planeta, Jor-El (Russell Crowe) decide enviar seu filho para a Terra. Antes do colapso, o planeta é surpreendido pela traição do General Zod (Michael Shannon), que mata seus governantes para executar seu plano de criar uma nova Krypton com uma raça de povos elitizados, já que no planeta acredita-se que todos os nascentes já nascem destinados a algo, onde os bebes são gerados em uma máquina e não por gravidez natural. Condenado por traição, o general junto de seus comparsas são enviados para a Zona Fantasma.

Na Terra, Kal-El é acolhido por Martha e Jonathan Kent (vividos por Diane Lane e Kevin Costner, respectivamente) e durante seu crescimento, vai tentando se adaptar a sociedade e a seus poderes que vão aumentando com o tempo. Quando adulto, decide deixar a fazenda e percorrer o mundo a fim de tentar entender melhor a si mesmo. Não demora muito para que General Zod descubra o paradeiro de Kal-El e peça sua redenção em troca de não atacar a Terra.

O roteiro de Goyer, que tem a mão de Christopher Nolan, dão (interessantes) explicações sobre os poderes adquiridos pelo personagem. Como se esperava, e é de praxe nos projetos do diretor da trilogia Batman, tudo tem um funcionamento bem crível, por mais fantasioso que tudo seja. A engenharia de Krypton é belamente composta por maquinários e um design bastante envolvente, original e complexo. Uma forma muito interessante de expor ao telespectador os limites que o universo estabelece a si próprio, nunca parecendo uma criação desenvolvida apenas para encher os olhos, sem qualquer pensamento sobre funcionamento. O texto também dá maior seriedade ao tom do longa em relação ao seu anterior, sem ser sombrio demais. Embora a película seja provida de poucos alívios cômicos (bem-vindos), que no geral, não parecem fazer falta. A construção da história talvez incomode (não incomodou a mim, pelo contrário) os mais puritanos fãs. Como dito anteriormente, ela estabelece outros meios de ligar diversos pontos da história de forma diferente do original, mas assim como a mudança do final de Watchmen, a ideia é muito acertada, sem perder os efeitos principais. Entretanto, o texto escorrega algumas vezes (principalmente nas falas do General Zod) em querer explicar demais o que está se enxergando nas telas. Mas nada muito preocupante.

A direção de Zack Snyder, por outro lado, mudou o contexto. O conhecidíssimo slow-motion usado em seus filmes abre espaço para uma aceleração impressionante de ação, nunca usada antes pelo diretor. Sua fotografia continua com uma incontestável beleza e precisão, mas valorizando a naturalidade e não a construção gráfica das ambientações como em seus três longas anteriores. Muito colaborativa também é a trilha sonora de Hans Zimmer, que esquece a iconográfica trilha de John Williams, e contrasta uma contemplativa e, quando necessária, frenética sonoplastia que se enquadra perfeitamente no filme. Embora haja por instinto, uma espera das tão conhecidas batidas da trilha original.

Uma das reclamações ao longa de 2006 era a ausência de ação. O Superman aparecia mais tempo apanhando do que lutando, segundo o grande público. Snyder se encarregou de trazer aqui um das ações mais frenéticas, explosivas e grandiosas dos últimos tempos, fazendo inveja até em Michael Bay. Diferente do diretor de Transformers que utiliza da megalomania pra esconder seus péssimos roteiros e desenfrear uma ação sem qualquer condução coerente, a ação de O Homem de Aço, embora necessária em um blockbuster desta magnitude, tem motivos para acontecer e, principalmente, razões para as proporções que cria, afinal, vemos a luta de dois seres altamente poderosos em um planeta infinitamente mais frágil. E ela é muito empolgante, como pouco se vê nos blockbusters atuais. Os efeitos especiais impressionam pela qualidade, em especial, o voo do Superman que assusta pelo realismo. Papel crucial dentro deste quesito tem a fotografia que consegue orquestrar tudo de forma esplêndida e gloriosa, sem nunca perder o foco e a intenção das sequências que, apesar de frenéticas, não são confusas. A escolha pelo 3-D convertido é infeliz e mostra-se uma necessidade financeira e não artística.

Dentro de tantos acertos, o maior deles, porém, é a escolha do elenco. Desde o elenco secundário, os personagens são muito bem caracterizados. Kevin Costner e Diane Lane como Jonathan e Martha Kent são ótimos, assim como Amy Adams como Lois Lane e Russell Crowe como Jor-El. Michael Shannon incorpora o vilão Zod com o tom ideal e parecendo uma ameaça muito maior que o ultrapassado Lex Luthor. Mesmo com um ótimo elenco de apoio, Henry Cavill se destaca no papel iconográfico. Com a ajuda do roteiro, o ator soube renovar o personagem, conseguindo transmitir bondade sem parecer bobo, ser carismático e envolvente, que faz com que o telespectador compre a ideia de um Superman mais tangível e esta é uma característica fundamental para a nova empreitada do personagem. A ótima reformulação do uniforme contribui positivamente para exterminar a imagem ultrapassada que havia do cânone.

Com o fim da trilogia do Batman, um Lanterna Verde pavoroso e Superman – O Retorno sendo um fracasso nas bilheterias, O Homem de Aço é o primeiro grande passo da DC dentro dos cinemas, principalmente se ela quiser ter qualquer chance de competição com o universo que a Marvel já está bem estabelecido. Mas com a excelente execução do novo filme deste personagem que há anos precisava de uma renovação, a concorrência deve preparar suas armas, porque se Liga da Justiça vir com o poder do novo longa de Zack Snyder, a coisa vai ficar complicada para a Marvel.


Nota: 9/10

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