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9.6.13

Crítica: O Grande Gatsby

O GRANDE GATSBY
The Great Gatsby

Austrália/ Estados Unidos, 2013 - 142 minutos.
Drama / Romance

Direção:
Baz Luhrmann

Roteiro:
Baz Luhrmann, Craig Pearce, F. Scott Fitzgerald (novel)

Elenco:
Amitabh Bachchan, Jason Clarke, Elizabeth Debicki, Leonardo DiCaprio, Joel Edgerton, Isla Fisher, Tobey Maguire, Carey Mulligan

Havia uma grande especulação sobre uma nova versão da obra-prima de F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby. Além de ser considerado o segundo maior livro da literatura americana, essa é a quarta tentativa de adaptar o romance para os cinemas, que nunca obteve realmente o sucesso e a grandeza da obra original. O projeto foi idealizado pelo australiano Baz Luhrmann, conhecido pela sua megalomania sem fim em sets grandiosos e sua mania de perfeição. Ao contrário do que o mercado sugere, Luhrmann aparentemente não vive sob pressões dos estúdios e seus filmes são lançados em datas bem distantes um dos outros e sem qualquer parentesco entre eles. O que pode contrastar dois caminhos distintos: não exerce a função de diretor por trabalho e sim por arte ou o estilo do australiano mostra-se suicida em uma Hollywood que busca produção e dinheiro para executivos sedentos.

Transpor uma história que se desenvolve sobre exorbitâncias e exageros por alguém como Baz parece ser uma ótima oportunidade de unir personalidades semelhantes. O diretor de Moulin Rouge não perdeu tempo e foi atrás de maisons como Prada e Tiffany & Co para desenvolver todo o figurino e acessórios do longa. Peças caríssimas, feitas por designers exclusivos que foram muito além de criar algo para ser filmado e sim, contemplado. Muito longe de parar por aí, o australiano buscou o ápice da excelência de arquitetura, design, ambientação para chegar a níveis grotescos das excentricidades e luxurias da obra.

Para não adaptar a mesmice e mostrar, segundo ele próprio, a semelhança entre a época da película e a nossa atual, a trilha sonora de O Grande Gatsby faz uma mescla entre o clássico, jazz e artistas como Jay-Z, Beyoncé, Florence + The Machine, Lana Del Rey, Fergie, entre outros que encontram na divisão de quase um século, a igualdade de exuberâncias, inconsequências, desilusão e sonhos destruídos. O resultado é uma obra muito fiel à dramaturgia, entretanto, capta somente a parte superficial do clássico, sem fincar no telespectador as sujeiras de uma sociedade decadente, vivendo uma falsa ilusão de liberdade e felicidade, enquanto o país caminhava para um poço sombrio e depressivo com a queda da Bolsa de Valores em 1929.

Na história, conhecemos Nick (Tobey Maguire), um jovem que decide arriscar uma carreira no mercado de ações em Wall Street. Alugando uma simples casa em West Egg, não muito longe da cidade de Nova York, ele tem como vizinho, um homem dono de um palácio que toda semana é cheio todo tipo de gente de toda a cidade em festas gigantescas e glamorosas. Todos que frequentam as festas sabem que é o realizador, porém, praticamente ninguém o conhece. Entre inúmeros boatos, Nick logo conhece Gatsby, um ser misterioso da qual parece esconder mais do que gostaria.

Como dito anteriormente, o que não falta a Luhrmann é técnica. Megalomaníaco, o australiano constrói com extremos detalhes de toda a ambientação riquíssima do longa. A fotografia não poupa beleza e precisão, sabendo administrar tudo com elegância e sutileza esperada. Junto de um figurino irreparável, e uma maquiagem delicadíssima, Baz constrói uma orquestra de elementos que sintonizam maravilhosamente bem. Perde seu tom totalmente clássico na trilha sonora atual e audaciosa, algumas vezes.

Melhor que a técnica, é a escolha do elenco. Com exceção a Tobey Maguire que realmente não é digerível, com expressões caricatas e sem convencimento, todo o elenco é memorável. Carey Mulligan vive Daisy de maneira muito satisfatória e dá um tom crível à personagem criada por Fitzgerald, assim como Joel Edgerton como o arrogante Tom Buchanan e Elizabeth Debicki como Jordan Baker. Entretanto, é Leonardo DiCaprio que encarna um Gatsby épico. Seu carisma e talento conseguem transpor toda a personalidade do jovem milionário em todos os momentos.

Partindo para o coração do original, o roteiro de Luhrmann não consegue ir além do arco dramático da clássica história. Dentro dele sabe ser fiel (chegando a diversas vezes utilizar as mesmas frases do livro), embora encontre maneiras visivelmente comerciais para se safar, levianamente, da complexidade de O Grande Gatsby. Muito mais que falar sobre um romance, Fitzgerald mostrava um mundo de sonhos de mentira. A falta de certezas, as obsessões de um homem que construiu um império a fim de sentir-se digno o suficiente de ter alguém que ama, assim como sua desilusão com peculiaridades que dinheiro nenhum no mundo poderia comprar. A solidão de alguém que viveu cercado de diversas pessoas, enquanto vivia o sonho de possuir apenas uma. Uma sociedade desgastada da 1ª Guerra Mundial, que procurava exílio em excessos e luxos vindos de uma cegueira incontrolável de mostrar-se bem, enquanto outra parcela amargava a imundícia e a falta de dignidade da classe trabalhadora. Simbolismos que percorrem as entrelinhas da obra original e que se encontram bem longe do filme do australiano.

Embora utilize de metáforas como a trilha sonora para passar uma mensagem mais abrangente (e comercial) de todo o contexto, é inevitável a falha em ocultar tanto da alma desta obra-prima, assim como sua manipulação nas telas, a parecer que o livro realmente foca todas as festas e a história de Gatsby a fim de contar uma bela história de romance que apenas é uma decorrência e pontos de ligação do clássico, no geral.

Construindo um filme tão instável quanto atraente, Baz Luhrmann adapta O Grande Gatsby de forma estilosa, sem conseguir ultrapassar tanta beleza e perfeição de ambientes e personagens, deixando a mesma superficialidade que tanto criticava F. Scott Fitzgerald em tempos que se precisava de mais verdades e menos falsos moralismos. Todavia, ainda sim há de existir alguém para estragar uma obra como esta por completo.


Nota: 6,8/10


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