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30.6.13

Crítica: Guerra Mundial Z

GUERRA MUNDIAL Z
World War Z

Estados Unidos, 2013 - 116 minutos
Ação / Horror

Direção: 
Marc Forster

Roteiro: 
Matthew Michael Carnahan, Drew Goddard, Damon Lindelof, J. Michael Straczynski, Max Brooks (livro)

Elenco: 
Brad Pitt, Mireille Enos, Daniella Kertesz, James Badge Dale, Fana Mokoena, Ludi Boeken, Elyes Gabel, Pierfrancesco Favino, Peter Capaldi


Para a quantidade de problemas que Guerra Mundial Z teve antes de seu lançamento, onde houve inúmeras refilmagens e reestruturações de roteiro, é um feito raro neste tipo de ocasião que o longa tenha sobrevivido a mão de tantas pessoas e tenha chego aos cinemas com a integridade esperada pelo diretor Marc Foster. Mas como não poderia ser diferente, o resultado sofre pelos remendos e o tom forçado de comercialização para a baixa censura.

A película começa apresentando Gerry (Brad Pitt), um ex-agente da ONU, que é obrigado a retornar ao seu cargo quando uma epidemia desconhecida começa a se alastrar por todo o planeta, transformando as pessoas em zumbis velozes que disseminam o contágio rapidamente, em troca da família receber a segurança de militares que tentam ajudar um cientista a descobrir uma cura para conter o caos.

A história não é original, entretanto, Foster busca dar um olhar analítico aos absurdos montantes de zumbis que desolam os locais em que atacam em poucos minutos. Uma critica ao capitalismo e seus excessos, a medida que mostra que o crescimento exagerado da população é a causa contraditória para seu próprio extermínio. Isso é enfatizado também da forma violenta como os zumbis vão destruindo em forma de uma massa caótica e não visa a estranheza da contaminação em si, embora ela tenha relativa importância no enredo.

Por melhores que sejam as intenções do diretor e ela tenha boas execuções com um elenco competente e uma boa técnica, Guerra Mundial Z sofre com alguns furos imperdoáveis no roteiro, assim como tenta desesperadamente causar euforia no telespectador com algumas situações exageradas, como a queda violentíssima de um avião e a sobrevivência de seu protagonista. Por mais circunstanciais que parecem diversas sequências, há situações que não são digeríveis. A ausência de sangue para a baixa censura faz falta a medida que o roteiro quer explorar, por exemplo, a sobrevivência de um personagem que tem sua mão decepada e o local mal sangra, exigindo uma vista grossa desnecessária do telespectador dentro de um universo tomado por zumbis violentos. A inevitável comparação com o ótimo Extermínio de Danny Boyle e Contágio de Steven Soderbergh (que parecem junção de ideias para este filme) fazem estas situações ficarem ainda menos aceitáveis.

Embora tantos defeitos, Guerra Mundial Z consegue manter evidentes suas qualidades e um bom nível de entretenimento para o telespectador em busca de diversão. Mas não se engane, nada será lembrado no dia seguinte.

Nota: 6,5/10

29.6.13

Crítica: Um Lugar Qualquer

UM LUGAR QUALQUER
Somewhere

Estados Unidos, 2010 - 98 minutos
Comédia / Drama

Direção:
Sofia Coppola

Roteiro:
Sofia Coppola

Elenco:
Stephen Dorff, Elle Fanning, Chris Pontius, Karissa Shannon, Kristina Shannon, Laura Chiatti, Michelle Monaghan

A vida dos artistas de Hollywood parecem perfeitas aos olhos de muita gente. Muita festa, muito dinheiro, se tem tudo o que quer, na hora que quer, do jeito que quer. Bajulada por inúmeros assistentes que cuidam de todos os detalhes de sua vida pessoal e profissional, fazendo que com você apenas tenha o trabalho de aproveitar toda esta áurea exclusiva que poucas criaturas na Terra são capazes de se dar ao luxo. A verdade é que, por mais tentador que este estilo de vida possa parecer, a pergunta que vem logo a mente é: Até quando isso será o suficiente? É aqui que Sofia Coppola entra com seu magnífico Um Lugar Qualquer.

Na simples história, conhecemos Johnny Marco (Stephen Dorff), um poderoso ator de Hollywood completamente entediado com a vida luxuriante que leva. Johnny não sabe mais sequer distinguir um dia de outro, as pessoas que conhecem, as mulheres que leva para a cama, ou quem entra ou saí de seu quarto alugado no Chateau Marmont, um iconográfico hotel em Los Angeles conhecido pela flexibilidade com o estilo de vida exagerado de seus hóspedes. Quando ele é obrigado a passar uma temporada com sua filha de 11 anos enquanto a mãe da garota viaja, o ator começa resgatar os prazeres da vida e reavaliar a sua própria.

Sofia Coppola mostra que, embora carregue um sobrenome poderoso, seu talento é marcado por seus próprios feitos. A direção de Um Lugar Qualquer é perfeita. Sofia consegue transmitir de inúmeras formas ao telespectador o quão solitário e depressivo Johnny se sente. A começar pela fantástica fotografia que se recusa a registrar as entradas dos inúmeros locais que o astro frequenta a fim de mostrar o quão imparcial e comum aquilo é dentro de sua rotina e como todos os lugares aparentam ser o mesmo para ele. Capta os comuns afazeres do artista com os mesmos ângulos, reforçando a ideia monótona que tudo aquilo é. A ausência quase que total da trilha sonora abre um gigantesco espaço para que o telespectador jogue de seu consenso qualquer glamour ou pré-conceitos idealizados de uma pessoa tão poderosa que vive parasitamente perdida e passiva frente toda a sua vida.

A abertura do longa simboliza muito bem o quão redundante o cotidiano de Johnny é. Câmera imóvel, captura por diversas vezes a Ferrari do ator andando em círculos, cansando o telespectador que assiste a sequência para fazê-lo sentir na pele a sensação de tédio que é carregada pelo protagonista. A sequência em que estão fazendo um molde de sua cabeça, da qual ele é obrigado a ficar imóvel com a cabeça coberta por uma massa, que apenas abre um espaço para as narinas, simboliza metaforicamente a solidão do personagem em meio a tantas pessoas.

Apesar de mostrar a reconexão de Johnny à vida, Sofia não faz qualquer questão de enfatizar as redescobertas do protagonista com clichês batidos do gênero. Esta transgressão é feita de forma extremamente sutil e imperfeita, dando uma poderosa verossimilhança a Um Lugar Qualquer. Não há ápices e clímax, é apenas a história de um sujeito se redescobrindo. O que faz do longa uma experiência única por contradizer até mesmo os padrões de um drama do gênero. É também brilhante atuação de Stephen Dorff como Johnny, que apesar de ser um personagem passivo e deprimido, exibe um carisma grandioso e cativante, fundamental para a conexão com o público. Luminosa também é Elle Fanning como Cleo, a filha do ator. É impressionante como a garota vai iluminando os dias de seu pai, completamente a par de sua vida, e o vai satisfazendo com sua presença e o encantando com as mais simples atitudes.

Infelizmente Um Lugar Qualquer não é uma experiência para todos. Muitos não compreenderão os métodos de Sofia e sucumbirão na crença de que o longa não passa de uma monotonia vazia e sem sentido (se o final do filme parecer vago, reflita-o melhor). Uma pena. Mas para os privilegiados, desfrutem desta encantadora e delicada obra que reforça o talento genuíno de sua criadora.


Nota: 10/10

27.6.13

Crítica: Queime Depois de Ler

QUEIME DEPOIS DE LER
Burn After Reading

Estados Unidos, 2008 – 96 minutos.
Comédia

Direção:
Joel e Ethan Coen

Roteiro:
Joel e Ethan Coen

Elenco:
George Clooney, Frances McDormand, John Malkovich, Brad Pitt, Tilda Swinton, J.K. Simmons, Richard Jenkins, David Rasche, Olek Krupa

Em tempos onde a comédia se transformou em um gênero batido por pastelões e sátiras sem graças, de situações forçadas e irritantemente manipuladas para arrancar, mesmo que a força, um riso amarelo de quem estiver assistindo (vide os filmes do Adam Sandler), é quase uma benção divina o papel de Queime Depois de Ler. Numa mistura de sátira ao gênero de espionagem, com um roteiro afiadíssimo, de uma ironia e um humor negro sem fim, é uma pena que o longa dos Irmãos Coen tenha sido tão mal interpretado por um público cada vez menos interessado em pensar.

Na divertidíssima trama, um agente da CIA (interpretado por John Malkovich) pede demissão após ser exonerado de seu cargo por ser alcoólatra. Sua mulher (Tilda Swinton), uma executiva independente e arrogante, começa a imaginar o que seu marido, com idade já avançada, irá fazer para se manter já que ela mesma não está disposta a banca-lo. Enquanto ela o traí com o marido (vivido por George Clooney) de um casal de amigos, ele escreve um memorando de seu tempo vivido na CIA que por infelizes circunstâncias acaba caindo na mão de dois personais trainers (Frances McDormand e Brad Pitt). Supondo que o material seja de alta confidencialidade, os dois tentam chantagear o ex-agente a pagar uma alta quantia em dinheiro para ter de volta seus “documentos”. Após um confronto físico entre eles, os personais crentes de estarem com a posse de um arquivo altamente poderoso, decidem ir à embaixada russa a fim de conseguir alguma recompensa. Mal sabem eles que o flerte começa a ser levado mais a sério do que o previsto.

Sem em nenhum momento apelar para estupidezes do gênero, a dupla de irmãos divertem o telespectador com inteligência. Na técnica, utilizam de uma fotografia típica de filmes de espionagem, como lentes que simulam satélites, ângulos impessoais (a primeira coisa focada dos agentes são os sapatos), uma trilha sonora inspiradíssima que sabe dar o tom exato do que o longa precisa. É muito interessante como os Coen manipulam o público com certo drama envolvendo os personagens e da maneira registrada deles, os retiram de cena com a maior impessoalidade do mundo, de forma brilhante. Ou a forma como o tom de Queime Depois de Ler vai se intensificando de forma imprevista, tamanho são os (divertidos) absurdos de seu roteiro ou das situações apresentadas. Um humor muito pelicular e admirável de se experimentar.

Nada, no entanto, teria tanta precisão se não fosse pelo elenco extremamente competente que dispensa apresentações. John Malkovich sempre sensacional, Tilda Swinton sendo megera de forma que só ela sabe fazer, um Brad Pitt surtado, George Clooney interpretando um cinquentão em crise da meia idade engraçadíssimo e Frances McDormand ridiculamente perfeita no papel de Linda Litzke.   

Brincando com o gênero de espionagem sem se transformar em um besteirol, Queime Depois de Ler aguça um humor quase instinto na comédia atual pela falta de perspicácia de uma massa que é incapaz de compreender a inteligência de dois diretores tão talentosos e dão espaço para Sandler, Schneider e os irmãos Wayans fazerem a festa.

Nota: 8/10



24.6.13

Crítica: Shame

SHAME

Estados Unidos, 2011 - 101 minutos.
Drama

Direção:
Steve McQueen

Roteiro:
Abi Morgan, Steve McQueen

Elenco:
Michael Fassbender, Carey Mulligan, James Badge Dale, Nicole Beharie, Alex Manette, Robert Montano

É com um vazio vagamente incompreendido que Shame termina a história de um executivo (vivido por Michael Fassbender) viciado em sexo que, sozinho, vive uma vida aparentemente tranquila. É com a chegada repentina de sua irmã Sissy (Carey Mulligan) que este cenário muda radicalmente, encurralando Brandon em seu próprio estilo de vida. Não demora muito para a sensação de incompreensão ir embora e entender que, além de dois personagens autodestrutíveis, moldados por um passado sombrio e nada esclarecedor, o diretor Steve McQueen reflete todo este vazio à maneira fula e banal vivida pela sociedade atual.

O diretor inglês que não perde tempo explora sem qualquer pudor a vida sexual do executivo. Uma compulsão que parece não ter fim, não se limita a seu belo apartamento, como avança para o trabalho, a ida e volta dele pelo metrô, fetiches via internet, banheiros públicos e onde a deturpada imaginação do personagem pode chegar. Mais do que querer mostrar a escravatura de uma pessoa possessiva e doente por sexo, McQueen explora a construção frágil da vida de Brandon que vai desmontando à medida que sua irmã (que é ignorada por ele inúmeras vezes) retorna a sua rotina.

Há uma belíssima cena que transpõe com extrema precisão este sentimento de vulnerabilidade. Enquanto Sissy transforma a agitada “New York, New York”, de Frank Sinatra, em uma melancolia infinita, a moldura criada pelo protagonista vai se dissolvendo quando ele finalmente é pressionado por seus próprios pensamentos, na mentira que vive, a encarar o canto dramático de sua irmã. Representando seu passado, sua irmã gera um incontornável incômodo da qual ele não pode se livrar, como faz com inúmeras garotas de programa que contrata.

Sissy, diferente do irmão que contém a todo o custo a expressão de qualquer sentimento, é motivada por espontâneas e compulsivas emoções. É o retrato contrário ao mesmo problema que aflige ambos os personagens.

A direção de Steve McQueen é poderosa em não poupar o telespectador, dentro de excelentes técnicas, as compulsões e solidão dos personagens. A fotografia sombria, construída por uma bela palheta opaca de cores (que pende para o azul que remete a impessoalidade e tristeza na linguagem das cores), casa perfeitamente com a delicadíssima trilha sonora e planos bem longos. É um lindo trabalho de semióticas da obra-prima que se cria pela arte visual. Por mais competente que seja o ótimo roteiro, são as imagens que falam por Shame.

O trabalho inspiradíssimo de Michael Fassbender é memorável e reflete com extrema sensibilidade as complexidades de seu personagem. Na realidade, desde seu crescimento dentro do mercado cinematográfico, Fassbender vem sendo elogiado pelas suas performances incríveis e em pouco tempo está se tornando um dos melhores atores de sua geração. A atuação do ator germânico faz contraste com a ótima Carey Mulligan. A conexão dos dois em tela é admirável.

Se o flerte recebido por uma mulher no vagão do metrô ao final do longa sugere certa incerteza do futuro do personagem, o olhar devastado de Brandon após a real aceitação das repugnâncias que seu perigoso e perturbado estilo de vida o proporciona, coloca entrelinhas firmes uma mudança obrigatória de estado. Ignorar o passado não é solução de um futuro.


Nota: 9,5/10

21.6.13

Crítica: Sideways - Entre Umas e Outras

SIDEWAYS – ENTRE UMAS E OUTRAS
Sideways

Estados Unidos, 2004 - 123 minutos.
Drama/Comédia

Direção:
Alexander Payne

Roteiro:  
Rex Pickett (livro), Alexander Payne, Jim Taylor

Elenco:
Paul Giamatti, Thomas Haden Church, Virginia Madsen, Sandra Oh, Marylouise Burke, Jessica Hecht, Missy Doty, M.C. Gainey

Há um momento em Sideways – Entre Umas e Outras, onde Miles (Paul Giamatti) e Maya (Virginia Madsen) estão conversando em uma varanda sobre a obcessão do protagonista com os vinhos fabricados com a uva Pinot Noir. Enquanto ele explica a ela as suas razões, constrói ali uma metáfora de si mesmo. Quando questionada por ele sobre a paixão dela por vinho, outra metáfora é exposta sobre a “vida” que a milenar bebida possui desde sua formação, passando pela “espera” e atingindo ápices que, inevitavelmente, acabarão e que cabe a nós perceber a hora certa de aproveitar o que há de melhor. Aqui, Alexandre Payne assina uma direção crua, poética e divertida, fugindo dos clichês road-movies, apresentando sentimentos bem maduros.

Na adaptação do romance de Rex Pickett conhecemos Miles, um professor de colégio depressivo e alcoólatra incapaz de seguir em frente após seu divórcio. Seu melhor amigo Jack (Thomas Haden Church) está para casar e ele decide convidá-lo, como despedida de solteiro, para irem fazer degustações de vinhos nas vinícolas do vale de Santa Inez, na Califórnia. Não demora para que Jack se envolva com Stephanie (Sandra Oh) que, em crise pré-matrimonial, começa pensar em anular o casamento. Enquanto Miles serve de par para Maya, uma garçonete que, assim como ele, é apaixonada por vinhos.

O diretor americano não tenta embelezar o longa com tomadas, ângulos e ambientações primorosas. Neste aspecto, Sideways – Entre Umas e Outras surpreende pela crueza da película e como ela reflete, simbolicamente, a percepção do protagonista à vida. Por outro lado, se mostra astuta por trabalhar as lentes de forma com que elas expressem as embriaguêses dos personagens. Desfocam quando eles ficam bêbados, tremem quando eles estão tentando andar. A trilha sonora é sutil e penetra no longa apenas quando convém.

Como mencionado, o vinho tem uma importância metafórica dentro da película, em explorar o protagonista através de suas perfeitas técnicas de um sommelier, principalmente, com a uva Pinot Noir. Com dificuldade de cultivação, a uva não se adapta a qualquer clima e há necessidade de um cuidado enorme dos cultivadores para que ela cresça da melhor forma possível. Tentando ser escritor, Miles sequer consegue que um de seus livros sejam aceitos pelas editoras, aliado a infelizes e ininterruptos desapontamentos, nutre uma amargura e melancolia que parecem não ter fim. Assim como a metáfora do vinho feita por Maya, a vida do professor parece ter desperdiçado seu ápice e declina para um inevitável e insípido fim.

Para encarnar os personagens, Payne é certeiro em uma escala de elenco formidável. Mas sem grandes dificuldades é Paul Giamatti que se sobressai. Ator de performances irrepreensíveis é com injustiça que ainda não tenha ganhado um Oscar sequer, pois esforço e merecimento não falta.

Sideways – Entre Umas e Outras termina como um drama que tem um senso de humor apuradíssimo, e com o tom que contradiz a tantas garrafas e metáforas sobre vinho. Se uma queda irreparável da bebida é inevitável, porém na vida, nunca e nada é o bastante para que se declare o fim e Alexander Payne sabe demonstrar isso magnificamente bem.


Nota: 8,5/10

19.6.13

Crítica: O Diabo Veste Prada

O DIABO VESTE PRADA
The Devil Wears Prada

Estados Unidos, 2006 - 109 minutos.
Comédia

Direção:
David Frankel

Roteiro:
Aline Brosh McKenna, Don Roos

Elenco: 
Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt, Adrian Grenier, Simon Baker, Daniel Sunjata, Gisele Bündchen, Tracie Thoms, Jaclynn Tiffany Brown

Entrar no mundo na moda é o sonho de milhares de pessoas. Participar de festas sofisticadas com a alta sociedade, ser assediado pelos fotógrafos, estar conectado as principais tendências do mundo pode parecer ser o trabalho aparentemente perfeito. Errado, muito errado. A maioria destes sonhadores não faz a menor ideia do quão complexo é viver dentro de um mundo onde cada dia é uma novidade e se você não souber se adequar a ela, será engolido. Para mostrar um pouco da vida difícil de quem vive por trás dos bastidores de uma das profissões mais glamourosas do mundo, o diretor David Frankel adapta o divertido romance de Lauren Weisberger, O Diabo Veste Prada. Sob uma estrutura já cansada, o longa brilha pelas suntuosas atuações, um roteiro afiado e uma esmagadora Meryl Streep.

Na trama conhecemos Andy, uma jovem jornalista que vai tentar a vida na corrida Nova York. Após ser chamada para fazer entrevista na poderosa Runway, da qual ela sequer tinha conhecimento, é contratada para ser a segunda assistente da editora-chefe da revista, a iconográfica Miranda Priestley (vivida por Meryl Streep). Não demora muito para a inocente jovem descobrir que este não é um trabalho qualquer e que se quiser continuar nele, terá que entrar de corpo e alma.

A técnica de Frankel é adorável. A direção de arte, aliado ao belíssimo trabalho de figurino de Pat Fields, transborda sofisticação e extremo bom gosto. A sutileza em que os ambientes são compostos, assim como seu estereótipo criado como padrão de luxo e beleza atinge uma verossimilhança impressionante com o mundo real da moda. A fotografia muito precisa, capta com muita intensidade tomadas da cidade de Nova York (aliado aos efeitos sonoros que passam ao telespectador o constante movimento da cidade) e da charmosa Paris. A trilha sonora surpreende pela agilidade de pegar no ar as necessidades das cenas e sequências, vinda de artistas como U2, Madonna e Theodore Shapiro.

O roteiro, apesar de caminhar em linhas já conhecidas e não apostar em uma bem-vinda inovação, em sua grande maioria é composto por situações e diálogos afiadíssimos (que trarão graça para os conhecedores do mundo da moda). Ao invés de dar um tom pastelão e forçado, o texto traduz com sutiliza o humor de quem vê o mundo fashion sob olhos leigos. Há certa ridicularização, mas engraçadíssimas em tom inocente da protagonista. É interessante como O Diabo Veste Prada consegue atravessar as roupas em si e mostrar ao telespectador (um pouco, ao menos) o estilo de vida de pessoas que vivem em um mundo à parte da civilização “comum”. Quem já teve alguma experiência com moda, sabe que é um trabalho sugador. Não existe hora para ir embora, dias se tornam noites e vice e versa. As festas são os breaks de descanso para que toda uma equipe corra por mais 6 meses para criar do zero outra coleção que deve estar a altura de elogios e agradar seu criterioso e seleto público-alvo. Devem sempre estar cientes de todas as novidades de todos os ramos, seja arquitetura, música, cinema, entre outras, assim como mergulhar atrás de livros de história em busca de tendências que possam repaginar e trazer novamente à moda. Inocente a pessoa que imagina que o universo vive apenas sob a superficialidade do comercio e estações.

Para dar o tom perfeito à película, o elenco é composto pela ótima Anne Hathaway, uma irritante e engraçada Emily Blunt, um divertidíssimo Stanley Tucci, porém, quem rouba todas as cenas, mais do que o de costume, é Meryl Streep. Seus olhares, a fala mansa e gestos são ímpares e, sem dúvidas, transforma Miranda Priestley em um dos personagens mais incríveis dos últimos anos. É impressionável a presença de cena da atriz que, literalmente, não precisa abrir a boca para contagiar. Sua conexão com Anne Hathaway é enorme e as melhoras cenas do longa ficam por conta dos pedidos inusitados da editora-chefe para sua assistente que não faz a menor ideia de como realizá-los.

Claro que O Diabo Veste Prada não poupa alguns sermões clichês para menininhas que sonham entrar em um mundo de poder, mostrando que o caminho nem sempre é esse. Mas esqueça essas bobagens, Miranda está requisitando a sua presença e precisa ser agora!


Nota: 7,5/10

17.6.13

Crítica: O Labirinto de Kubrick

O LABIRINTO DE KUBRICK 
Room 237

Documentário, 2012 – 102 minutos

Direção:
Rdney Ascher

Elenco:
Bill Blakemore, Geoffrey Cocks, Juli Kearns

Que Stanley Kubrick era um gênio é inquestionável. O diretor americano, conhecido pelo seu perfeccionismo, proporcionou ao cinema obras-primas tão gloriosas, quanto fundamentais para o desenvolvimento e influência da arte, ultrapassando a própria mídia em si, gerando marcos incontestáveis. O que parece até hoje impossível de acontecer, Kubrick realizou: em um período de 12 anos, realizou 4 filmes dos quais, 3 deles, se tornaram 3 dos maiores filmes de todos os tempos, sendo que 2001: Uma Odisseia no Espaço e Laranja Mecânica estão dentro dos 5 maiores marcos da ficção cientifica de todos os tempos.

Em 1980, o mundo era consagrado por O Iluminado, um clássico atualmente, que não foi reconhecido por todos os seus méritos na época. Mesmo sendo considerando muito bom, o longa era questionado se estava à altura das produções de um cineasta de capacidades ilimitáveis. O tempo foi certeiro e deu a obra seu lugar merecido. Agora, o diretor Rodney Ascher assina O Labirinto de Kubrick, para fazer uma amostra profunda e complexa das inúmeras mensagens subliminares contida neste clássico que aterroriza muitos até hoje e parece estar muito além de fazer uma adaptação do clássico de Stephen King.

Através de inúmeras entrevistas, da qual os entrevistados vão expondo suas teorias por trás da película, o documentário trata de embasa-las o tempo todo com as próprias imagens do filme. No começo, o telespectador pode (com certa razão, uma vez que a análise da obra sobreposta de trás para frente junto da mesma seguindo em ordem normal parece ser algo proporcionado por fanatismo) pender a não acreditar em tamanhas crendices, porém, a medida que os fatos vão sendo ligados a outras obras do diretor, seu próprio histórico de vida e acontecimentos históricos importantes, é uma pequena questão de tempo até você se tornar outro teorista por trás de O Iluminado.

É impressionante a quantidade de detalhes encontrados na obra, sejam por falsos erros de continuidade (dos quais Kubrick era incapaz de cometer, ao menos que fosse propositalmente), quadros com metáforas e simbolismos, os incessantes números que em certa cronologia, todos indicam, assim como a própria máquina de escrever de Jack, a referência ao nazismo. Porém, a mais interessante e conspiratória, de certa forma, altamente perturbadora, é a forma como o diretor americano coloca entrelinhas ao público que as imagens que vimos da viagem espacial da Apollo 11 eram puramente fictícias e mostra-se reveladora a própria participação de Kubrick na mentira construída pelo governo americano. São impressionantes os embasamentos feitos através das próprias técnicas do diretor, as mensagens estampadas até mesmo no tapete que Danny brinca momentos antes de uma bola rolar até ele. Não são todos os dias que alguém tem a audácia de tocar em assuntos tão delicados.

Mas do que isso, o documentário mostra, de forma hilária, a resposta do diretor em relação à insatisfação de Stephen King com a adaptação do seu material. Trabalho de gênio. Assim como também mostra a crítica social que O Iluminado faz através de estereótipos e personagens entrelaçados ao simbolismo do próprio papel do homem dentro da sociedade. Muito mais que interessante, é assustador ver a capacidade do diretor em fazer um mundo de ideias e mensagens quase imperceptíveis ao telespectador comum.

O Labirinto de Kubrick é uma oportunidade quase única de proporcionar uma análise profunda e complexa não apenas deste clássico (do qual você sente-se obrigado a assisti-lo novamente para ver tudo o que foi mostrado), mas serve como um delicioso exercício para expandir a mente e explorar ao extremo esta maravilhosa arte que é o cinema.


Nota: 8,5/10

16.6.13

Crítica: Segredos de Sangue

SEGREDOS DE SANGUE
Stoker

Eua / Reino Unido, 2013 - 99 minutos
Suspense

Direção:
Chan-wook Park

Roteiro:
Wentworth Miller, Erin Cressida Wilson

Elenco:
Mia Wasikowska, Nicole Kidman, Matthew Goode, Lucas Till, Jacki Weaver, Alden Ehrenreich, Dermot Mulroney


O cinema asiático possui peculiaridades muito interessantes diante do cinema ocidental. Muitas histórias doentias sob olhares de diretores cujos trabalhos são perturbadores e nem sempre totalmente decifráveis parecem extrair um instinto animalesco preso em cada ser humano, sem grandes problemas. E o resumo de tantas características podem todas ser reflexos do diretor sul-coreano Chan-wook Park, que fez o cinema oriental tomar maiores proporções com sua trilogia visionária da vingança. A vinda deste talentosíssimo diretor para a terra de produções dominadas por executivos ambiciosos causou certo fervor nos fãs que imaginaram até onde o trabalho deste visionário seria atingido. Segredos de Sangue inaugura sua chega a Hollywood tomada por seu estilo recheado de mistérios, porém, com um roteiro que não tem base suficiente para sustentar o que seu cria.

Na história, acompanhamos India (Mia Wasikowska), uma garota misteriosa, que acabou de perder o pai em um acidente violento e está tentando compreender a chegada de seu desconhecido tio Charles (Matthew Goode), que virá a morar com ela e sua mãe Evelyn (vivida por Nicole Kidman). Não demora muito para ela ver com desconfiança as verdadeiras intenções de seu tio e ao mesmo tempo, nutrir uma paixão por ele.

O estilo do sul-coreano emprega toda a película e consegue transmitir com muita precisão um olhar inusitado sob situações comuns em nossa cultura. A palheta de cores da engenhosa fotografia consegue, inusitadamente, unir cores vivas a uma atmosfera sombria sem nunca errar a mão em uma edição ágil e impecável. A trilha sonora sutil abre espaço para envolver o telespectador nos sons transmitidos pelo ambiente. Tudo é feito com tamanha precisão, que há momentos quase palpáveis dos elementos em cena. Impressionante.

Embora tenha uma técnica infalível, a direção de Chan-wook Park vai bem além e embarca o público em sua conhecida mistura de mistérios e tons sexuais, características de seu trabalho. Sua direção de atores é admirável e contribui para expor tudo isso. A intensidade dos olhares transmitidos por Charles é penetrante, com tom sedutor e profundamente manipulador. A doentia conotação sexual do personagem envolve India dentro de um jogo de seduções e superioridade. Tudo parece um despertar instintivo e animalesco de um personagem perturbado por um mundo de padrões, mais preocupados na exposição social de uma situação, do que as reais consequências da mesma, o que desperta e envolve a garota em sentimentos antes resguardados. 

Apesar de possuir o tom perfeito de mistério, o primeiro trabalho de Wentworth Miller (Prison Break) como roteirista falha não fazer jus a toda expectativa que cria. Não há furos, porém, Segredos de Sangue é conduzido por uma técnica inusitada, um trabalho de elenco fantástico (em especial Matthew Goode e Mia Wasikowska), por um diretor conhecido pela sua imprevisibilidade e seus violentos banhos de sangue. Muito mais que gratuitos, fazem uma bela contrapartida a todos os seus elementos e que aqui, resume-se a vagos espirros de sangue.

Mostrando que está longe de ceder seu estilo para agradar a executivos, o diretor de Oldboy precisava ter se arriscado em um roteiro mais corajoso para enfatizar todo o seu inquestionável talento. Mas mesmo assim, Segredos de Sangue merece ser apreciado, pois não são todos os dias que alguém faz o comum parecer realmente diferente e de forma deliciosamente interessante.

Nota: 7/10

15.6.13

Crítica: Depois da Terra

DEPOIS DA TERRA
After Earth

EUA, 2013 - 100 minutos
Ação / Ficção científica

Direção:
M. Night Shyamalan

Roteiro:
M. Night Shyamalan, Gary Whitta, Will Smith

Elenco:
Jaden Smith, Will Smith, Sophie Okonedo, Zoë Kravitz, Glenn Morshower, Sacha Dhawan, Jaden Martin


A ideia de desaprender algo, principalmente quando se é um profissional naquilo que se faz, soa um tanto quanto absurda e esquisita, se não for correlacionada com alguma doença que o torne incapaz. E por mais inusitadas que sejam estas circunstâncias, elas podem realmente acontecer e M. Night Shyamalan é a prova viva e continua deste degenerativo ciclo. Depois da Terra, seu novo filme, avança novamente as barreiras da mediocridade, do insano e gera no telespectador um sentimento bem conhecido de seus últimos trabalhos: incredulidade.

Na trama, por uma série de motivos, a Terra vai reconstruindo todo seu ecossistema de forma com que fique inabitável para os seres humanos, fazendo que com migremos para outro planeta. Lá, o modo de vida apesar de agradável, é afetado por criaturas nativas denominadas “Ursa” que, embora sejam cegas, conseguem rastrear os humanos pelo medo. Para sua última missão, o general Cypher (Will Smith), que é um dos responsáveis pela segurança da população, decide levar seu filho Kitai (Jaden Smith) a fim de terem uma relação mais próxima. No meio do caminho um acidente ocorre, fazendo que a nave despenque na Terra, cuja superfície agora é letal para a vida humana. Com a nave partida e gravemente ferido, o comandante coloca seu filho na missão de encontrar um sinalizador nos destroços da embarcação, enfrentando todas as modificações mortais do planeta.

A começar pelo roteiro que, apesar da interessante premissa (que, de fato, fica apenas nisso), é uma babaquice previsível e com inúmeros furos que não precisam do menor olhar clinico para enxergá-los. O tempo todo, o texto tenta usurpar ideias de inúmeros filmes, porém, por mais ridículo que soe, é no game (assim como a história geral do personagem) de Tarzan, do aposentado Playstation 1, que boa parte da estrutura se sustenta. Há, pelo menos, quatro sequências que são tão parecidas que o indiano deveria ser processado por plágio e por estupidez da obviedade. É claro que tudo é camuflado pela parte sci-fi do longa, mas até ângulos do game são usados. Episódios como Tarzan fugindo dos macacos, pulando da cachoeira e se transformando em um homem (no filme esta transformação é voltada para o caráter do personagem), briga com leopardo, e a própria forma como o garoto que é criado por gorilas escapa da morte é idêntica (dentro da ambientação e proposta da película) a de Kitai. Sim, é pra ficar perplexo com a mediocridade de um diretor que, em menos de 15 anos, saiu da premissa de ser um dos melhores diretores da sua geração para virar um dos piores, se não o mais. É lamentável.

Maravilhoso seria se os problemas de Depois da Terra parassem por aí. A técnica de Shyamalan é pavorosa. O design de produção é tão absurdo que passa da barreira do questionável, numa tentativa extremamente falha, e destrói os limites da própria física, utilizando a própria nave como exemplo, que apesar de inúmeras tecnologias, não possui portas de pressurização, botões com qualquer identificação no painel que lembra um casulo de abelha e usa, acreditem, lonas de plástico para dividir um ambiente do outro. E isso é apenas o começo. A ambientação do longa, seja na Terra (que novamente lembra o game do Tarzan em uma versão pós apocalíptica) ou no planeta onde vivem, ultrapassa o mal gosto e atinge o amadorismo. É de se questionar um orçamento de 130 milhões de dólares e notar que a produção utiliza de pré-moldados de plástico o tempo todo e parece que ninguém está se importando com isso. Nada parece bem produzido. A impressão que se tem é que houve uma greve nos departamentos de design e efeitos especiais e o indiano simplesmente decidiu usar os rascunhos como a versão final de tudo. A trilha mal produzida não sabe se desenvolver e por hora é esquecida quando se convém e praticamente nem se nota sua existência. O que é gravíssimo.

Se uma sucessão de desgraças ininterruptas poderiam ser amenizadas pelo carismático Will Smith, a incompreensível e revoltante direção de atores do diretor de Fim dos Tempos afunda de vez sua oportunidade de não ser um total fiasco. Se Smith, veterano e talentoso, consegue ser aprisionado em uma monotonia sem fim e expressões sem qualquer sentimento (o personagem também não ajuda), quem dirá seu filho. O garoto não demonstra o menor talento para tal, aliado a tenebrosa direção de Shyamalan, a atuação de Jaden leva o telespectador a crises de risos involuntárias tamanho o constrangimento e a vergonha alheia de todos os seus minutos em tela. É sofrível de ver.

Numa tentativa de dar visibilidade ao seu filho, Will Smith procurou a pior pessoa que poderia para transpor seu péssimo roteiro para os cinemas. A única coisa boa de Depois da Terra, é que felizmente não precisamos ter que ver aqui Mark Wahlberg dialogando com uma planta de plástico como em Fim dos Tempos, a fim de tentar entender o porquê a natureza estava se rebelando contra a humanidade. Mas se isso por acaso se tornar verdade, que comece por M. Night Shyamalan, por favor.

Nota: 2,5/10

9.6.13

Crítica: O Grande Gatsby

O GRANDE GATSBY
The Great Gatsby

Austrália/ Estados Unidos, 2013 - 142 minutos.
Drama / Romance

Direção:
Baz Luhrmann

Roteiro:
Baz Luhrmann, Craig Pearce, F. Scott Fitzgerald (novel)

Elenco:
Amitabh Bachchan, Jason Clarke, Elizabeth Debicki, Leonardo DiCaprio, Joel Edgerton, Isla Fisher, Tobey Maguire, Carey Mulligan

Havia uma grande especulação sobre uma nova versão da obra-prima de F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby. Além de ser considerado o segundo maior livro da literatura americana, essa é a quarta tentativa de adaptar o romance para os cinemas, que nunca obteve realmente o sucesso e a grandeza da obra original. O projeto foi idealizado pelo australiano Baz Luhrmann, conhecido pela sua megalomania sem fim em sets grandiosos e sua mania de perfeição. Ao contrário do que o mercado sugere, Luhrmann aparentemente não vive sob pressões dos estúdios e seus filmes são lançados em datas bem distantes um dos outros e sem qualquer parentesco entre eles. O que pode contrastar dois caminhos distintos: não exerce a função de diretor por trabalho e sim por arte ou o estilo do australiano mostra-se suicida em uma Hollywood que busca produção e dinheiro para executivos sedentos.

Transpor uma história que se desenvolve sobre exorbitâncias e exageros por alguém como Baz parece ser uma ótima oportunidade de unir personalidades semelhantes. O diretor de Moulin Rouge não perdeu tempo e foi atrás de maisons como Prada e Tiffany & Co para desenvolver todo o figurino e acessórios do longa. Peças caríssimas, feitas por designers exclusivos que foram muito além de criar algo para ser filmado e sim, contemplado. Muito longe de parar por aí, o australiano buscou o ápice da excelência de arquitetura, design, ambientação para chegar a níveis grotescos das excentricidades e luxurias da obra.

Para não adaptar a mesmice e mostrar, segundo ele próprio, a semelhança entre a época da película e a nossa atual, a trilha sonora de O Grande Gatsby faz uma mescla entre o clássico, jazz e artistas como Jay-Z, Beyoncé, Florence + The Machine, Lana Del Rey, Fergie, entre outros que encontram na divisão de quase um século, a igualdade de exuberâncias, inconsequências, desilusão e sonhos destruídos. O resultado é uma obra muito fiel à dramaturgia, entretanto, capta somente a parte superficial do clássico, sem fincar no telespectador as sujeiras de uma sociedade decadente, vivendo uma falsa ilusão de liberdade e felicidade, enquanto o país caminhava para um poço sombrio e depressivo com a queda da Bolsa de Valores em 1929.

Na história, conhecemos Nick (Tobey Maguire), um jovem que decide arriscar uma carreira no mercado de ações em Wall Street. Alugando uma simples casa em West Egg, não muito longe da cidade de Nova York, ele tem como vizinho, um homem dono de um palácio que toda semana é cheio todo tipo de gente de toda a cidade em festas gigantescas e glamorosas. Todos que frequentam as festas sabem que é o realizador, porém, praticamente ninguém o conhece. Entre inúmeros boatos, Nick logo conhece Gatsby, um ser misterioso da qual parece esconder mais do que gostaria.

Como dito anteriormente, o que não falta a Luhrmann é técnica. Megalomaníaco, o australiano constrói com extremos detalhes de toda a ambientação riquíssima do longa. A fotografia não poupa beleza e precisão, sabendo administrar tudo com elegância e sutileza esperada. Junto de um figurino irreparável, e uma maquiagem delicadíssima, Baz constrói uma orquestra de elementos que sintonizam maravilhosamente bem. Perde seu tom totalmente clássico na trilha sonora atual e audaciosa, algumas vezes.

Melhor que a técnica, é a escolha do elenco. Com exceção a Tobey Maguire que realmente não é digerível, com expressões caricatas e sem convencimento, todo o elenco é memorável. Carey Mulligan vive Daisy de maneira muito satisfatória e dá um tom crível à personagem criada por Fitzgerald, assim como Joel Edgerton como o arrogante Tom Buchanan e Elizabeth Debicki como Jordan Baker. Entretanto, é Leonardo DiCaprio que encarna um Gatsby épico. Seu carisma e talento conseguem transpor toda a personalidade do jovem milionário em todos os momentos.

Partindo para o coração do original, o roteiro de Luhrmann não consegue ir além do arco dramático da clássica história. Dentro dele sabe ser fiel (chegando a diversas vezes utilizar as mesmas frases do livro), embora encontre maneiras visivelmente comerciais para se safar, levianamente, da complexidade de O Grande Gatsby. Muito mais que falar sobre um romance, Fitzgerald mostrava um mundo de sonhos de mentira. A falta de certezas, as obsessões de um homem que construiu um império a fim de sentir-se digno o suficiente de ter alguém que ama, assim como sua desilusão com peculiaridades que dinheiro nenhum no mundo poderia comprar. A solidão de alguém que viveu cercado de diversas pessoas, enquanto vivia o sonho de possuir apenas uma. Uma sociedade desgastada da 1ª Guerra Mundial, que procurava exílio em excessos e luxos vindos de uma cegueira incontrolável de mostrar-se bem, enquanto outra parcela amargava a imundícia e a falta de dignidade da classe trabalhadora. Simbolismos que percorrem as entrelinhas da obra original e que se encontram bem longe do filme do australiano.

Embora utilize de metáforas como a trilha sonora para passar uma mensagem mais abrangente (e comercial) de todo o contexto, é inevitável a falha em ocultar tanto da alma desta obra-prima, assim como sua manipulação nas telas, a parecer que o livro realmente foca todas as festas e a história de Gatsby a fim de contar uma bela história de romance que apenas é uma decorrência e pontos de ligação do clássico, no geral.

Construindo um filme tão instável quanto atraente, Baz Luhrmann adapta O Grande Gatsby de forma estilosa, sem conseguir ultrapassar tanta beleza e perfeição de ambientes e personagens, deixando a mesma superficialidade que tanto criticava F. Scott Fitzgerald em tempos que se precisava de mais verdades e menos falsos moralismos. Todavia, ainda sim há de existir alguém para estragar uma obra como esta por completo.


Nota: 6,8/10


8.6.13

Crítica: Se Beber, Não Case - parte III

SE BEBER, NÃO CASE - parte III
Hangover Part III

EUA, 2013 - 100 minutos.
Ação / Comédia

Direção:
Todd Phillips

Roteiro:
Todd Phillips, Craig Mazin

Elenco:
Bradley Cooper, Ed Helms, Zach Galifianakis, Justin Bartha, Ken Jeong, John Goodman, Melissa McCarthy, Heather Graham, Jeffrey Tambor

Hollywood corre atualmente contra um monstro que ela própria criou. Sobrecarregando inúmeros gêneros com fórmulas que deram certo em filmes considerados originais e que atualmente parece ser um molde padrão para tudo. E dentro da comédia não é diferente. Quando Se Beber, Não Case estreou em 2009, o gênero recebia um respiro das idiotices e besteiróis puramente físicos, que falhavam no básico que se propunham. Com o sucesso do longa, não demorou para que os executivos crescessem os olhos em cima do audacioso longa de Todd Phillips e fazê-lo se tornar uma franquia. A continuação nada mais fez que duplicar o que foi feito no primeiro, perdendo grande parte de sua criatividade que foi coberta por milhões de dólares de um público ansioso para conferir o que viria em seguida.

A princípio parecia que Phillips e os produtores haviam entendido a enxurrada de críticas negativas do segundo longa e decidiram conduzir este terceiro para algo realmente inédito. Infelizmente o que poderia ter sido um frescor e uma renovação para uma fórmula que acabou sido estendida para outros desesperados em fraturar com ela (Projeto X, com a produção do mesmo diretor é uma delas), Se Beber, Não Case - parte III sofre constantemente com uma cegueira gananciosa vinda de executivos egocentricamente cheios de confiança e um diretor que, de uma hora para outra, tornou-se preguiçoso.

Neste terceiro Alan (vivido por Zack Galifianakis) está surtando mais do que o comum, o que acaba preocupando seus familiares e amigos. Decididos em levá-lo para uma intervenção, Doug, Stu e Phil são parados por criminosos no meio da estrada, que obrigam através de um sequestro, a encontrarem Chow, que aplicou um golpe milionário em um traficante que quer a toda custa seu dinheiro de volta. Aqui começa outra jornada do trio.

O novo roteiro tem um trabalho de construir um arco que uni, de certa forma, os dois anteriores a este, colocando este terceiro em um tom de fim de trilogia, o que realmente não deve aconteces se os cofres da Warner Bros. se encherem com este capítulo. O texto redondinho, não sabe nem de longe criar a áurea de seu original. Com passagens forçadas e desinteressantes, é difícil extrair um riso do telespectador, principalmente com a inteligência e vontade do primeiro.

A confiança dos realizadores é tão grande, que já a abertura da película retira este capitulo do tom forasteiro e despretensioso dos anteriores para erroneamente colocá-lo em um tom de epicidade inexistente. Até slow motion e ópera são adicionadas na sequência que, nem de longe, atinge seu propósito. Os atores antes sensacionais aderiram ao modo automático, quando não exagerados e sem graças, incluindo Galifianakis que resume a repetir suas façanhas anteriores.

Chegando como quem não queria nada, entre piadas de humor negro, sátiras inteligentíssimas, atores em excelente conexão e uma direção esperta, Se Beber, Não Case saiu da excelência e astúcia, mesclada com uma originalidade necessária em tempos tão repetitivos para se apunhalar e cair dentro da maldição de Hollywood onde apenas o primeiro realmente presta. Uma pena, pois potencial era o que não faltava.


Nota: 3,5/10

2.6.13

Crítica: What Richard Did

WHAT RICHARD DID

Irlanda, 2012 - 88 minutos
Drama

Direção:
Lenny Abrahamson

Roteiro:
Malcolm Campbell, Kevin Power (novel)

Elenco:
Jack Reynor, Roisin Murphy, Sam Keely, Gavin Drea, Fionn Walton

Um dos piores sentimentos que existe é o de culpa. Culpa que vem carregada de arrependimentos e remorsos. A sensação de impotência é desesperadora. Sob uma perspectiva rara e tocante, o diretor irlandês Lenny Abrahamson constrói What Richard Did, que foi aclamado pela crítica e está sendo considerado o filme irlandês mais importante do século por alguns críticos.

A trama começa mostrando as férias de Richard (Jack Reynor) e de seus amigos que antecedem o inicio da universidade. Ele tem tudo o que um jovem de sua idade gostaria de ter e seu futuro parece promissor. Após um incidente desnecessário, a vida do rapaz se modifica totalmente, afetando todos ao seu redor.

Com um roteiro peculiar e detalhista, o diretor irlandês é feliz em estabelecer todo o universo de Richard, incluindo uma exposição sutil e interessante do caráter e índole do rapaz (que questionará posteriormente). Consegue também fazer uma ótima abordagem jovial sem parecer superficial ou clichê. Pelo contrário, os diálogos junto da surpreendente sinergia entre os atores, colocam What Richard Did em um patamar raro de se ver, transpondo com muita realidade esta passagem crucial para a formação de muitas pessoas, o que acaba criando uma conexão rara de se ver com personagens desta faixa etária. É praticamente impossível não se comover com o sofrimento do jovem.

Com uma palheta de cores sombrias, uma fotografia quase estática e uma ausência quase total de trilha sonora, o filme se aprofunda nas consequências da fatalidade acidental que vai afastando Richard de todos que o conhecem, incluindo sua família, colocando-o em uma solidão e um abismo de incertezas. Qualquer decisão que tome será primordial para seguir com sua vida, e que para isso, ele sabe que precisará de um sacrifício moral se quiser continuar a vivê-la por um segundo errado cometido.

Para lidar com tantos sentimentos, Abrahamson acerta novamente em escalar Jack Reynor para viver o desolado rapaz. Com uma carreira relativamente curta e restritiva (o cinema irlandês não é dos maiores em circuitos comerciais), o talentoso ator sabe incorporar as características do protagonista, passar carisma e charme difíceis de encontrar. Nota-se uma naturalidade incrível na honestidade e na devastação do personagem através da forma com que Reynor se expressa. Sua primeira aparição em um grande filme será na continuação de Transformers (sem data de exibição ainda), que será uma boa oportunidade de alavancar sua promissora carreira.

What Richard Did questiona a moral e a integridade de assumir atos. Porém, abre espaço para uma reflexão indigesta e difícil de chegar a uma conclusão. Você destruiria sua própria vida por um acidente que cometeu?

Nota: 8/10