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31.5.13

Crítica: Além da Escuridão - Star Trek

ALÉM DA ESCURIDÃO – STAR TREK
Star Trek Into Darkness

Estados Unidos, 2013 – 132 minutos
Ação/ Ficção Científica

Direção:
J.J Abrams

Roteiro:
Roberto Orci, Alex Kurtzman, Damon Lindelof

Elenco: 
Chris Pine, Zachary Quinto, Zoe Saldana, Karl Urban, Simon Pegg, John Cho, Benedict Cumberbatch

O recomeço de Star Trek nos cinemas tem praticamente os mesmos motivos que o da franquia 007: ambos atingiam um público de maior idade e fadados à canseira, precisavam de uma remodelagem que agradasse um público maior, se adaptasse ao mercado de hoje e conseguisse manter os fãs dos originais dentro desta jornada. Apesar de extremamente bem sucedidos, os longas do espião britânico tiveram inspirações notórias em uma década tomada por terrorismo, conspirações e ameaças globais. Sendo assim, o trabalho de J.J Abrams no primeiro reboot de Star Trek era exemplar e muito empolgante, apesar de ter sacrificado um bom vilão para desenvolver e “apresentar” os iconográficos personagens ao novo público. Agora em Além da Escuridão – Star Trek (título irritamente mal formulado para o Brasil), o criador de Lost se redime e constrói um vilão tão divertido e ameaçador em uma versão oposta, mas igualmente poderosa ao Coringa, de Christopher Nolan. E podem dar todos os créditos a Benedict Cumberbatch.

Após uma missão em que expõe indevidamente a Enterprise para salvar Spock, Kirk perde a posição de capitão e consequentemente sua nave. Após um atentado em uma base da organização em Londres, os comandantes e superiores da Frota Estrelar descobrem que o ato vem de alguém de dentro, que logo identificado pelo nome de John Harrison, uma criatura altamente violenta disposta a se vingar a qualquer custo, colocando letalmente toda a tripulação de Kirk que é reorganizada em uma nova missão que tem como objetivo eliminar o sujeito.

Assim como no filme anterior, as menções a outros filmes antigos da franquia são feitos, entretanto, como se especulava, uma inspiração maior (mas não remake) vem de “A Ira de Khan”. E a essa altura, não seria mais novidade para ninguém que J.J Abrams colocaria Cumberbatch para viver um dos maiores vilões da franquia. Diferentemente de Nero (vivido por Eric Bana), cuja motivação e história não eram das mais atraentes, a remodulação de Khan feita pelo diretor impressiona. A comparação com a criatura doentia vivida por Heath Ledger em Batman: O Cavaleiro das Trevas é feita pela maneira manipuladora e incorruptível que ambos os personagens se motivam. Apesar das motivações se dividirem em extremos opostos, a forma indestrutível e inabalável com a qual eles são construídos os colocam próximos de certa maneira. E do mesmo jeito que Ledger foi fundamental para a encanação do palhaço, o protagonista da série Sherlock Holmes modula maravilhosamente esta criatura complexa. Difícil não perceber a veracidade da performance do ator britânico perante ao resto do elenco que continua muito competente. Novamente lembramos da película de Nolan, quando Ledger tomou o lugar de Bale, mesmo sendo o antagonista. Mas aqui, Abrams se contem e apesar de ter excelentes aparições e um ótimo tempo em tela, a permanência do Coringa era bem mais predominante.

As competências de J.J vão muito além de Khan, entregando tudo o que se espera de uma continuação de um blockbuster deste nível. Os roteiristas construíram uma história amplamente superior à primeira, envolvendo uma ameaça muito maior, mas sem cair no maior erro de Hollywood que é esquecer-se de desenvolver a história (que aqui é ótima, interessante e envolvente), colocando os personagens em segundo plano para abrir intermináveis sequências de efeitos especiais. Não que Além da Escuridão – Star Trek negue um segundo sequer de momentos eletrizantes de efeitos especiais (maravilhosamente bem construídos), mas realmente há uma motivação para as intensas sequências de ação. Não são meras desculpas para encher as telas.

No quesito técnico, Abrams finalmente conseguiu encontrar um equilíbrio entre “marca registrada” e objetividade que seus flares trazem. A fotografia possui inúmeros deles durante toda a projeção, mas com muito mais foco que Super 8, por exemplo, que chegava a irritar tamanha quantidade clarões e borrões durante o filme. O diretor de Missão Impossível 3 também não decepciona na sua primeira utilização do 3-D. Com uma fotografia impecavelmente construída, a tecnologia se beneficia da super exposição e de uma profundidade ainda difícil de se encontrar em um formato cada vez mais utilizado em longas deste porte. Com certeza, a experiência é ampliada positivamente e só induz ainda mais a imaginação do telespectador com o todo.

Com um humor mais contido (realmente necessário) que o anterior, mantendo todos os acertos (a trilha sonora de Giacchino continua esplendida) e consertando os erros do primeiro, Além da Escuridão – Star Trek rompe a maldição das continuações hollywoodianas e entra para uma pequena lista onde o segundo capitulo é superior ao primeiro. E prepare-se, a nova jornada do Capitão Kirk está de tirar o fôlego!

Nota: 10/10


30.5.13

Crítica: A Jovem Rainha Vitória

A JOVEM RAINHA VITÓRIA
Young Victoria

Inglaterra, EUA, 2009 - 105 minutos.
Romance

Direção:
Jean-Marc Vallée

Roteiro:
Julian Fellowes

Elenco:
Emily Blunt, Rupert Friend, Paul Bettany, Miranda Richardson, Jim Broadbent, Thomas Kretschmann, Mark Strong, Jesper Christensen, Harriet Walter, Jeanette Hain, Julian Glover

Muitas sonham ter o poder de ser rainha um dia, sem imaginar a força política e restritiva que a posição privilegiada tem. Os encantos de terem todos aos pés e ter seus pedidos atendidos por servos 24 horas por dia à disposição têm altos custos e sacrifícios. Para desmistificar a posição ao público feminino, o canadense Jean-Marc Vallée constrói um retrato do reinado da Rainha Vitória em moldes reais do fantasioso filme com Anne Hathaway, O Diário da Princesa, sem apelar para um drama exagerado demais.

A história começa retratar desde a infância de Vitória, que sofria com as rigorosas regras da mãe e de seu conselheiro Sir. Conroy (Mark Strong). Quando seu tio, o rei Guilherme IV morre, começa uma manipulação para que a garota assine a regência, alegando incapacidade de reinar por seu jovem demais. Decidida, a garota se recusa e logo se torna rainha, tendo que arcar com suas obrigações sem a certeza de que está preparada. Para aproveitar da inexperiência da garota, o rei Leopoldo (Thomas Krestchmann) envia seu sobrinho Alberto (Rupert Friend) para seduzir Vitória e influenciar em suas decisões. O plano sai pela culatra quando os dois começam viver um romance de verdade.

Apesar de ter feito muito em seu reinado, o maior de uma rainha inglesa até hoje, as questões políticas ficam em segundo plano aqui. O roteiro simples é construído de forma que o tema serve como uma base construtiva da personalidade da protagonista e não como lição de história. Dentro das paranoias de sua obsessiva mãe, Vitória passou uma infância repleta de restrições anormais até mesmo para a época. Com medo de que a garota fosse vítima da ambição de alguém em roubar seu lugar de direito, a garota tinha que descer as escadas acompanhada e segurando a mão de sua serva, toda a comida que queria era experimentada por um empregado para ter certeza que não estava envenenada e nunca, jamais, deixava os portões do palácio. E isso se estendeu até a maior idade. Toda essa superproteção acabou deixando a jovem inexperiente e inocente sobre as decisões que deveria tomar futuramente. Em uma época que a burocracia reinava e a falsidade era praticamente um pré-requisito para as pessoas que cercavam os reis e rainhas, Vitória se via em um mar de solidão, cercada pela incerteza de suas próprias decisões.

Com um roteiro modesto, as técnicas de Vallée elevam A Jovem Rainha Vitória. A começar pela fotografia que carrega uma belíssima iluminação e interessantes ângulos, entretanto, é a direção de arte que rouba o fôlego. Um impressionante e maravilhoso trabalho de ambientação é feito, com detalhes ricamente expostos, encantando pelo bom gosto e precisamente capturados. Não parando por aí, o figurino espanta bela perfeição do design e acabamento. A qualidade fica evidente a cada cena e aparenta não ter sido economizado um centavo sequer para que isso ficasse evidente. A trilha sonora composta por Ilan Eshkeri é bonita e muito delicada, servindo perfeitamente ao propósito do longa.

A ideia de apresentar a película como um romance e não uma biografia política ao todo, é um tanto quanto inusitada, porém, compreensível. A maioria dos casamentos, se não todos eles, eram previamente arranjados nessas posições devido a inúmeros interesses entre as famílias, com intenções de aumentarem seus poderes. Até onde se sabe, o único casamento a quebrar esta regra foi o de Vitória, onde a jovem realmente se casou por amor.

Outro acerto do diretor canadense fica na direção de atores e escolha de elenco. Emily Blunt parece encantar naturalmente e será fácil sua conexão com o público feminino, assim como Rupert Friend como Albert. Todo o elenco secundário composto por Paul Bettany, Miranda Richardson, Jim Broadbent e Mark Strong tem ótimas presenças de cenas e colaboram muito para a fluidez do filme.

Mostrando que a vida de rainha não é a aparentada em longas como O Diário da Princesa, A Jovem Rainha Vitória conta com a herança europeia de possuir toda a calma do mundo para contar suas histórias, que neste caso, conta com um ótimo elenco, excelente técnica e um roteiro que, pela simplicidade, peca em não explorar mais do que o amor de uma rainha que teve inúmeros feitos. Mas mesmo assim, um romance verdadeiro que entrou para a história.


Nota: 7,5/10

27.5.13

Crítica: Napola - Antes da Queda

NAPOLA – ANTES DA QUEDA
Napola – Elite für den Führer

Alemanha, 2004 – 115 minutos
Drama/ Guerra/ Esporte

Direção:
Dennis Gansel

Roteiro:
Dennis Gansel, Maggie Peren

Elenco:
Max Riemelt, Tom Schilling, Jonas Jägermeyr, Martin Goeres


A maioria dos filmes que retratam a época do nazismo já começam com todos os elementos e detalhes que o mundo ficou sabendo a partir dos planos diabólicos de Hitler. Uma visão que normalmente explica a alienação feita pelo Terceiro Heich, mas não mostra além de palavras quais eram as visões que os cidadãos alemães tinham sobre o nazismo. Sendo assim, nada melhor que um alemão para fazer isso, aí entra Dennis Gansel e seu Napola – Antes da Queda.

A trama já começa no meio da guerra, 1942, com o jovem boxeador Friedrich Wiemer, filho de uma família simples e trabalhadora bem contrária às alienações de Hitler. Quando o jovem é visto por um dos superiores de uma das escolas de educação do ditador lutando em um ringue, ele é convidado a ir para Napola para receber os treinamentos oferecidos para os filhos da alta sociedade alemã. Vendo tudo como uma grande oportunidade de crescimento, Friedrich falsifica a assinatura do pai e embarca para a escola. Com o passar do tempo, o jovem vai descobrir as atrocidades e alienações do nazismo.

Tendo referências nos contos do avô que era um dos professores em uma das escolas de Hitler, Napola – Antes da Queda pode causar certo estranhamento aos desavisados pela visão dada por Gansel que, muito inteligente, constrói um roteiro consistente e observador de toda a ditadura sem, de fato, ser apelativo ou mostrar o que todos estão cansados de saber. O longa percorre entrelinhas, mas com muita profundidade as loucuras incentivadas pelas escolas do Führer. Mais do que isso, crava o roteiro na falta de expressão e a inocência de crianças submetidas a atrocidades e alienações perturbadoras a fim de seguir um conceito suicida e repugnante.

O diretor alemão também abre espaço para um relacionamento incomum entre Friedrich (Max Riemelt) e Albrecht (Tom Schilling). De um lado temos o boxeador de família humilde e de outro temos um jovem rico, de uma família muito poderosa, que ama escrever e não acredita nem um pouco na violência. A relação de Albrecht com seu pai que sequer leu um de seus textos ou poesias deixa bem claro, junto do discurso de um de seus professores, que estão em uma época em que as palavras de nada valem e que a nação precisa de ações. Assim as palavras do jovem ecoam entre as nevascas do rigoroso inverno alemão e só afeta quem deveria quando ele decide dizer o que realmente pensa. É entre a punição e as desgraças que a afeição entre os jovens começa aparecer.

Como todo bom diretor europeu, Gansel não tem pressa em narrar Napola – Antes da Queda e utiliza sabiamente de uma fotografia bela, atuações muito tocantes, uma ambientação convincente e uma trilha sonora delicada, as marcas que o nazismo vai deixando conforme penetra em mentes puras e vulneráveis seus horrores e, acima de tudo, a frieza com que eram tratados, pratica não exclusiva apenas aos não puros, como Hitler definia sua criação. Dentro de um show de monstruosidades, uma história de amor restrita é minuciosamente implantada e grandiosamente apreciada.

Nota: 8,5/10



26.5.13

Crítica: Os Sonhadores

OS SONHADORES
The dreamers

Itália/França/Reino Unido/EUA – 115 minutos
Drama

Diretor: 
Bernardo Bertolucci

Roteirista: 
Gilbert Adair

Elenco: 
Michael Pitt, Louis Garrel, Eva Green, Anna Chancellor e Robin Renucci

É difícil expressar o significado e o poder da arte dentro da vida, mas por sua definição ela tem como objetivo expressar, questionar, inspirar, refletir (entre outras coisas maravilhosas) a visão de um artista perante a um tema ou vários ao mesmo tempo, moldada sobre um meio (cinema, pintura, música...) fazendo arrancar de nós os mais complexos sentimentos e pensamentos. Dentro destes conceitos, posso dizer que Os Sonhadores de Bernardo Bertolucci é uma obra-prima junto de um conjunto de artes dificilmente vistas no cinema, com uma provocação tão polêmica quanto suas imagens.

O longa conta a história de Matthew, um jovem americano que vai fazer intercâmbio na França para aprender mais sobre a língua e fugir da Guerra do Vietnã. Apaixonado por cinema, ele sempre comparece as sessões de clássicos junto de um grupo denominado “Fanáticos por cinema” na cinemateca de Paris. Após a demissão do diretor e fundador do local, os estudantes criam protestos para reivindicar a causa. Em meio ao confronto com a polícia, o jovem conhece Isabelle (Eva Green) e Theo (Louis Garrel) dois irmãos que compartilham gostos muito semelhantes aos dele. Não demora muito para os três ficarem amigos e Matthew conhecer a intimidade dos irmãos, que vai muito além do companheirismo.

Para apreciar Os Sonhadores é necessária, assim como toda pura arte, muita mente aberta. As provocações do diretor italiano ultrapassam o ousado roteiro e penetram em uma fotografia sem qualquer pudor ou restrição, formada por ângulos nada convencionais. A mistura da provocação com a sensualidade beiram limites extremos. Juntos de uma clara homenagem ao cinema e toda forma de cultura possível. A cada suposição imaginativa do trio vem carregada de referências culturais. Sejam as conexões com clássicos filmes, da qual Bertolucci faz questão de incorporar na edição, acompanhada da trilha sonora formada por clássicos da época como The Doors, Bob Dylan e Jimi Hendrix. A ambientação do longa literalmente respira arte. Sejam nos inúmeros quadros e fotografias que decoram o imundo apartamento dos irmãos, cenário praticamente absoluto da película, ou pelo estilo de vida que a própria Paris levava (e de certa forma ainda leva até hoje).

O diretor italiano também aproveita para usar o roteiro para questionar e refletir em afiados diálogos, assuntos como a política (na qual a época ultrapassava praticamente uma revolução com os protestos da população em Maio de 1968), moral, estilo de vida e o existencialismo. O incesto vivido por Isabelle e Theo é formado por uma estranha e inocente conexão de dois indivíduos que parecem a divisão abstrata de uma alma em dois corpos, o que faz com o que o telespectador consiga enxergar aquilo de forma menos agressiva, principalmente nas cenas de intensa nudez. O convite para Matthew em conhecer todo aquele universo é restrito primeiramente para que Bertolucci consiga encaixar o público dentro de sua obra. Uma vez introduzido, o público, assim como o jovem, se envolve em mundo isolado de qualquer restrição ou interferência da sociedade. Dentro disso, o italiano não poupa Os Sonhadores de expor um estilo de vida instintivamente inconsequente, imprudente e incrivelmente inspirador. Mais que isso, perigosamente sedutor.

Ao fim, após tanto discutir com Theo sobre as atitudes que nós como cidadãos deveríamos tomar, ao invés de só falar, finalmente Matthew consegue extrair uma atitude do irmão de Isabelle. Muito diferente do que ele esperava. Mas quem pode culpar um homem de lutar pelo o que acha certo enquanto todos dizem que ele está errado?  Matthew então o deixa ir. Sob “Non, Je Ne Regrette Rien”  de Piaf, os créditos descem inversamente, colaborando para cada verso (e significado) da música. Dentro de tanto, a frase de Igor Stravinsky ecoa “Se tudo fosse permitido, eu me sentiria perdido num abismo de liberdade.”.


Nota: 9,5/10

25.5.13

Crítica: Porto Seguro

UM PORTO SEGURO
Safe Haven

EUA, 2013 - 115 minutos
Drama / Romance

Direção:
Lasse Hallström

Roteiro:
Leslie Bohem, Dana Stevens, Nicholas Sparks (romance)

Elenco:
Julianne Hough, Josh Duhamel, David Lyons, Mimi Kirkland, Noah Lomax, Cobie Smulders, Robin Mullins


As fãs de Nicholas Sparks batem o pé e juram de pés juntos que os livros do escritor galanteador não são todos iguais. Mas a pura realidade é que, além das obras possuírem capas descaradamente iguais, a frágil, porém, imbatível (comercialmente) estrutura se repete até não poder mais. Não é diferente aqui na adaptação de Um Porto Seguro.

Na previsível trama, uma jovem foge da cena de um crime que aparentemente cometeu e abriga-se em Southport, escondendo de todos seu passado. Tentando reconstruir sua vida, Katie logo conhecerá Alex, um viúvo com dois filhos da qual se apaixonará.

É com dificuldade que tento resumir a trama sem dar qualquer tipo de spoiler. Não que eles sejam, de fato, surpreendentes no longa que, de tão previsível, é possível entrever e encaixar todas as peças em menos de 5 minutos. Literalmente. Desconsiderando, é claro, que o público-alvo do filme sequer se importa com isso. Mas para manter o mínimo de integridade ou graça de Um Porto Seguro, prefiro me conter.

A película é, como dito anteriormente, montada sobre moldes da fábrica Sparks que, por sinal, faz muito dinheiro. Tanto, que o escritor abriu sua própria produtora para produzir as adaptações de seus próprios livros. Esperto, não? O mesmo não pode se dizer as desiludidas e melosas moças que leem suas obras e não parecem se enjoar de comprar o mesmo conteúdo, sobre nomes e situações diferentes. Às vezes, vírgulas mudam, e elas encaram com relevância tão notável ao ponto de enxergar uma reinvenção naquilo. Todo o contexto indigesto de tão clichê em pleno século XXI, não chega a ser tão ingrato quanto os livros de Stephenie Meyer, que definitivamente fazem questionar o Q.I e o bom senso humano de quem compra seus livros ou no caso das aberrações escritas por E.L James (da qual me recuso a denominar “livros”), que abandonam qualquer dignidade.

Dentro da mesmice, o diretor sueco Lasse Hallström nada faz para mudar o quadro. Pelo contrário, repete as mesmas besteiras de Querido John (outro livro de Spark que também foi dirigido por ele), como também mantém Josh Duhamel e Julianne Hough como bonecos de cera que, literalmente, seguem toda uma cartilha de expressões minuciosamente pensadas para tirar suspiro das mais desesperadas. Sem contar o exagerado trabalho de maquiagem que Hough é submetida. Em nenhum momento do longa, seja debaixo de chuva, dormindo, ou suada, sequer notamos qualquer olheira ou deformidade em uma pele tão impecável quanto falsa. Mostrando um desejo compulsivo das leitoras de Spark (e consequentemente de suas adaptações) em se adentrarem em um mundo longe da realidade. Tão frágil e mentiroso quanto a trama deste filme.


Nota: 3,5/10

24.5.13

Crítica: Terapia de Risco

TERAPIA DE RISCO
Side Effects

EUA, 2013 - 106 minutos
Suspense

Direção: 
Steven Soderbergh

Roteiro: 
Scott Z. Burns

Elenco:
Jude Law, Rooney Mara, Chaning Tatum, Catherine Zeta-Jones, Polly Draper, Vinessa Shaw


Poucos diretores atualmente têm talento para inversão de gêneros ou uma boa mescla deles dentro de um único filme. É comum ver como resultados o extremismo de tons, a falta de um roteiro e uma direção que consiga esta transição de forma crível e sutil. Defeitos bem longe de Soderbergh e seu Terapia de Risco que, entre uma crítica à indústria farmacêutica e um thriller instante, faz um dos melhores filmes do ano até o momento.

Na trama somos apresentados a Emily (Rooney Mara), uma jovem mulher que aguarda seu marido (Channing Tattum) sair da cadeia após fazer negociações ilegais envolvendo a bolsa de valores. Quando ele finalmente sai, ela inesperadamente entra em um estado de ansiedade e depressão. Após um estranho acidente de carro, ela é abordada pelo psiquiatra Dr. Banks, que logo entende o verdadeiro sentido do acidente. Propondo terapia sob um coquetel de medicamentos que parece não fazer efeito, o psiquiatra aceita expô-la a um novo antidepressivo que acaba de chegar ao mercado. Os efeitos do remédio logo começam aparecer e, consequentemente, seus efeitos colaterais. Quando Emily mata alguém, sob misteriosas circunstâncias, a dúvida sobre os verdadeiros efeitos colaterais do remédio entram em jogo.

As técnicas usadas por Soderbergh para manipular o telespectador não são totalmente originais (lembram, vagamente, as técnicas usadas no francês Dentro da Casa), porém, possuem peculiaridades ímpares do diretor. O roteiro bem inscrito amarra todas as pontas e não escapa ao público mais atento as surpresas e competências do diretor em manipular sob ferramentas críveis e inteligentes.

A princípio, Steven apresenta um drama com tendências melancólicas. Sob uma fotografia cinzenta e sombria, bem semelhante ao seu outro filme Contágio, o diretor americano vai explorando o universo de uma pessoa problemática que não consegue lidar com uma depressão que parece a isolar cada vez mais (boa parte do tempo, os ângulos desfocam o rosto de terceiros ou os cortam dentro do possível). A palheta de cores só destaca as cores vivas dos anúncios e dos frascos de remédios que pintam uma solução bonita para seu público-alvo. Quando Emily começa a ser afetada positivamente pela nova medicação, Soderbergh é sábio em não mudar o tom de cores, mantendo firmemente os ambientes frios e sombrios, afinal, estes mesmos medicamentos vão reverter esta situação e colocar o longa dentro de outro tom que exige uma técnica igualmente eficaz. A trilha sonora calma, porém, perturbadoramente maliciosa orquestra e faz uma ligação perfeita com o thriller que o longa irá adotar.

Aí, Terapia de Risco saí do contexto analítico para se tornar um mix de conspirações doentias. O que pode decepcionar o telespectador que esperava um frenesi parecido com Réquiem Para Um Sonho de Aronofsky. Nada disso, a película vai se aprofundando nas verdades por trás das motivações de uma pessoa que facilmente se passa como normal, enquanto encontra motivos inconscientes para destruir a vida de pessoas a sua volta, sem qualquer remorso e com um egoísmo fora do comum a fim de tentar consertar a sua própria. Expor esta linha de pensamento em junção à crítica a indústria farmacêutica, mostra o quão vulneráveis pessoas problemáticas (e inevitavelmente a sociedade) estão. Quando alguém toma um remédio, vê nele a cura, o que nem sempre acontece. Os efeitos colaterais são tão violentos que podem levar esta mesma pessoa a se tornar mais doente do que estava, sendo obrigada a tomar outros remédios para conter os efeitos negativos de um, da qual este novo também tem, precisando assim de outro e outro e assim sucessivamente. 

Para encarnar os protagonistas principais, a competente direção de atores conta com um ótimo Jude Law (com um sotaque adorável) vivendo o psiquiatra, uma surpreendente Rooney Mara, atriz que ascendeu em 2010 em A Rede Social e vem dominando todos os projetos que vêm participando e uma diabólica Catherine Zeta-Jones encarnada na Dr. Siebert.

Sem apelar para o exagero e mantendo a coerência durante todo seu tempo, Terapia de Risco se mostra com uma verossimilhança à nossa realidade cheia escândalos cada vez mais bizarros que a insana ideia do longa pode não ser tão louca assim.

Nota: 9/10

23.5.13

Crítica: The Big Bang Theory (6ª Temporada)

The Big Bang Theory (6ª Temporada)

Série de TV/ Comédia
2012/ 2013 - Estados Unidos, 504 minutos

Criador: Chuck Lorre, Bill Prady

Elenco: Johnny Galecki, Jim Parsons, Kaley Cuoco,
Mayim Bialik, Kunal Nayyar, Simon Helberg, Melissa Rauch


O problema mais comum das séries televisivas é, independente do gênero, atingir o cansaço e a fadiga do telespectador com situações repetitivas e sem qualquer acréscimo ao material que vai perdendo sua áurea até perder audiência o suficiente para ser cancelado. The Big Bang Theory está chegando ao fim de sua sexta temporada e mostra como a criação de Chuck Lorre, que pareceu antiquada e não comercial para os executivos em seu lançamento há 6 anos atrás, é uma fábrica de boas reinvenções e de alto retorno financeiro.

A trama segue a simplicidade das temporadas anteriores, acompanhando o cotidiano do elenco principal. O sucesso do vigor da série consiste basicamente em explorar o universo criado e não apostar nas mesmas piadas de sempre. Isso, claro, mantendo a (ótima) personalidade dos protagonistas. É divertida a forma como Lorre retrata problemas sociais relativamente sérios com bom senso de humor e sutiliza, sem apelar exageradamente para o pastelão a fim de arrancar a todo custo riso da plateia. As situações são naturalmente divertidas e mérito, mais que justo, para o esplendoroso elenco. A interação de todos os atores é excelente e conduz o atento roteiro a retirar as melhores sacadas deles. Por falar em roteiro, alguns diálogos desta temporada atingem graus épicos. Com certeza, a fórmula-chave do sucesso da série. Entretanto, ainda é difícil Jim Parsons não roubar as cenas que está presente e a decisão dos criadores de colocarem  Mayim Bialik (Amy Farrah Fowler) como  apoio de elenco para o ator é excepcional. Aliás, a personagem recebeu uma ótima (e merecida) ampliação em seu tempo de tela. Suas falas, expressões e sacadas são impagáveis.

A única (incômoda) ressalva da temporada fica com a inclusão da personagem Lucy (vivida por Kate Micucci). Na tentativa de atender ao pedido do público em dar uma namorada para Raj, a série investe um tempo grande em tela para uma relação que não agrada. As situações vividas pela personagem são tão constrangedoras e problemáticas que não conseguem comprar o público e desperdiça tempo dos rápidos 20 minutos de cada episódio. Felizmente nada que comprometa a diversão geral da série.

Seguindo uma formula de sucesso, sabendo se reinventar sem, de fato, mudar e com um excelente elenco de ótima entrosação, The Big Bang Theory está longe de dar sinais de cansaço e se manter esta linha, o público está mais que garantido.


Nota: 9/10

17.5.13

Crítica: Arrow


ARROW

2012/2013, Estados Unidos – 966 minutos
Série de televisão

Direção:
Guy Norman Bee, John Behring, Kenneth Fink, Michael Schultz, Nick Copus, Eagle Egilsson

Roteiro:
Greg Berlanti, Marc Guggeneheim, Andrew Kreisberg, Lana Cho, Wendy Mericle, Beth Schwartz, Ben Sokolowsi, Moira Kirland, Geoff Johns, Jake Coburn, Drew Z. Greenberg

Elenco:
Stephen Amell, Katie Cassidy, Colin Donnell, David Ramsey, Willa Holland

Começou querendo agradar o público mais do que devia. Rapidamente, os criadores estabilizaram a temporada e a qualidade foi apenas melhorando. Entre diversão e um bom roteiro, Arrow concluiu sua primeira temporada agora no último dia 15 (Maio). Com um season finale eletrizante, a série deixa na medida certa a expectativa para os fãs aguardarem a segunda temporada.

Em uma viagem de barco, o milionário playboy Oliver Queen sofre um acidente de barco e passa cinco anos perdido em uma ilha. Transformado por tudo o que passou lá, o jovem decide lutar com suas próprias mãos contra o crime e a corrupção, cumprindo o último desejo de seu pai antes de morrer.

A série começa sob o passado sombrio de um legado desgasto: Smallville. Com medo de que o público imaginasse que Arrow fosse seguir exatamente os mesmos caminhos cansativos da série do superman, os produtores executivos logo se precipitarem em (tentar) encher os olhos e mente do público na abertura do seriado. Entre efeitos especiais de segunda linha, uma edição pavorosa e um resumo quase completo de mais da metade da temporada, Arrow quase deu com os burros n’água. A realidade é que o único elemento vivo que remete a antiga série é a casa vivida pela família Queen, cujo cenário foi reaproveitado da mansão dos Luthor a fim de manter os custos da nova produção baixos.

Terminado a paranoia dos executivos, a série começa a se desenvolver. Baseada nos quadrinhos do Arqueiro Verde, tal titulo poderia ser alterado para “inspirado”. Vendo que Arrow apropria-se de elementos básicos do núcleo central e seus personagens, o seriado televisivo toma novos rumos em relação seu material original, estabelecendo também um tom mais pesado, com uma visão bem interessante do personagem. Visto que a mera coincidência, de fato, não é verdade quando dizemos que Arqueiro Verde lembra um primo mais simples do Batman, afinal, os quadrinhos do capuz verde foram originados de uma inspiração ao homem-morcego (Ambos milionários que decidem combater o crime de suas cidades fictícias, com seus ajudantes e seus apetrechos tecnológicos. Até seus amores Laurel e Rachel são personagens muito parecidos), junto do montante explosivo da trilogia de Christopher Nolan e a nova linha que a DC está dando aos seus personagens nas telas, a proposta de seguir um seriado mais sombrio e pé no chão pareceu bem apropriado. E realmente foi.

Dentro destas propostas, Arrow sabe se virar muito bem, começando pelo seu protagonista vivido por Stephen Amell. Ator até então sem nada de muito relevante na carreira, consegue segurar com muita vontade seu personagem e suas transformações. Diferente do que acontece a vários personagens deste propósito de mudanças, seja em seriados ou cinema, em que ele passa de babaca para uma pessoa racional e respeitosa nem sempre é comprada pelo público pela falta de intensidade do ator. Não é o caso aqui. O fator beleza física (que é usada aqui constantemente sem, inacreditavelmente, molestar a credibilidade do personagem) é usado com extrema frequência para suprir este déficit em atores de segunda. Neste caso, com Amell é diferente, pois ajuda construir (e desconstruir, conforme o roteiro se desenvolve) a imagem que se tem do personagem. Realmente o telespectador sente a mudança do caráter de Oliver e não finge em acreditar, como acontece na grande maioria das vezes. Diferente, por exemplo, de Roy Harper (vivido por Colton Haynes), paquera da irmã de Queen, cuja mudança realmente não convence e fica visível o apelo físico (e sensual) para que o telespectador não note isso.

Para não avançar com a história de maneira complexa, e que não comprometa a audiência dos telespectadores que assistem o seriado apenas pela diversão, sem acompanhar tudo, de fato, os produtores seguem a famosa cartilha de desenvolver uma micro história por episódio que, no fim, se unem e montam toda a série. Isso funciona muito bem aqui porque o roteiro aborda um assassino da lista do arqueiro por episódio, e isso se torna bem funcional, além de suprir as necessidades comerciais do seriado. Mas a negatividade do formato se expõe quando Arrow necessita de um pouco mais vínculos permanentes com o público.

De roteiro bem redondinho, com personagens interessantes, cenas divertidas e uma abordagem sóbria que parece nunca pesar a mão, a série consegue abranger um público relativamente grande, já que não apela para nada que possa comprometê-la comercialmente. Nada que deturpe a boa criação e diversão que a série propõe ao telespectador, que devem aguardar ansiosos os novos episódios do capuz verde.

Nota: 8/10

14.5.13

Crítica: Uma Ladra Sem Limites



UMA LADRA SEM LIMITES
Identity Thief

2013, EUA - 111 minutos
Comédia

Direção:
Seth Gordon

Roteiro:
Craig Mazin

Elenco:
Jason Bateman, Melissa McCarthy, Robert Patrick, Amanda Peet, Genesis Rodriguez, T.I., Morris Chestnut, John Cho, Jon Favreau, Eric Stonestreet, Jonathan Banks

O gênero comédia anda sofrendo em Hollywood. A falta de criatividade e de inteligência dos roteiros cada vez mais insossos serve de palco para shows de histerismos, situações forçadas e bullying em cima de estereótipos clichês. Uma Ladra Sem Limites se encaixa em todos os exemplos com pouquíssimo êxito em seus propósitos, que se segura em Melissa McCarthy para não afundar no fiasco total.

Sandy Patterson (vivido por Jason Bateman) é um cara comum, cuja vida reflete o sonho americano. Em um dia qualquer, Sandy cai em golpe via telefone e tem seu cartão clonado por uma mulher problemática a fim de resolver seus problemas financeiros. Se passando pelo dono do cartão já que aproveita o nome feminino do homem, ela estoura todos os limites de crédito. Quando Patterson se vê enrolado por estes problemas que também ameaçam seu emprego, ele é obrigado a ir atrás da mulher e fazê-la se admitir culpada.

Depois do divertido “Quero Matar Meu Chefe”, esperava-se que Seth Gordon entendesse o espírito inovador do gênero e não retornasse à estaca zero, como as besteiras produzidas por ele em comédias indigeríveis como Surpresas do Amor. A lição de moral que Uma Ladra Sem Limites quer transmitir beira, se não é, um absurdo. Gordon utiliza de todos os clichês mais usados e cansativos do meio (a mulher gorda folgada e problemática que é ridicularizada, e o cara comum e perfeito que sofre nas mãos de terceiros, principalmente no trabalho, por sua passividade) para, através do problema causado pela mulher, obrigá-los a conviver juntos por um tempo e compreender os dramas vividos por ambas as partes e suas motivações. Não bastasse tratar o telespectador como idiota, o drama empregue no longa é carregado e forçado demais. Se é que alguém pode ser envolvido por tal situação e acreditar que realmente uma pessoa que é roubada, agredida, envolvida em um confronto de acerto de contas com traficantes, entre outras inúmeras ocorrências originadas de uma pessoa de caráter repulsivo, por fim, ainda querer se tornar amiga da pessoa e tudo o que se tem direito no fim dos episódios de Teletubbies.

Mesmo que ignorássemos todos os absurdos do roteiro e víssemos Uma Ladra Sem Limites como diversão, ainda sim seriamos decepcionados. Como dito, o papel vívido por Melissa McCarthy não beira o total desastre pela competência pessoal e esforçada (levianamente) da atriz, que possui muito mais êxito no engraçado Missão Madrinha de Casamento. Jason Bateman vive aqui exatamente o mesmo personagem que viveu no longa anterior do diretor, Quero Matar Meu Chefe, apenas com propósitos diferentes, o que não empolga. Se não bastassem as incompetências de direção e roteiro, o longa é provido de falhas técnicas. Note a sequência Sandy encontra Diana pela primeira vez e começa a segui-la com um carro alugado. Percebendo que está sendo seguida, a mulher freia o carro com tudo, amassando ligeiramente o carro do homem. Após um conflito de agressões físicas, Diana foge com o carro de Sandy, que aparece intacto. A sequência em que o homem é atacado por uma cobra e espancado com um bastão pegando fogo e não aparece com uma queimadura sequer ou qualquer indício da mesma. Pior que isso, nada acontece a ele, mostrando a falta de verossimilhança do diretor.

A verdade é que nos últimos anos, o cinema vem sofrendo com a falta de boas comédias. Entre besteiróis e comédias estúpidas, dá para contar nos dedos as comédias inovadoras e divertidas dos últimos 5/10 anos. E, com certeza, Uma Ladra Sem Limites não se encontra na lista.

Nota: 3,5/10


8.5.13

Crítica: Adeus, Minha Rainha


ADEUS, MINHA RAINHA
Les adieux à la reine

França, 2012 – 100 minutos.
História/Drama

Direção:
Benoît Jacquot

Roteiro:
Benoît Jacquot, Gilles Taurand, Chantal Thomas    
                        
Elenco:
Léa Seydoux, Diane Kruger, Virginie Ledoyen, Noémie Lvovsky, Xavier Beauvois

Maria Antonieta viveu uma curta e conturbada vida. Odiada pelos franceses por seu casamento arranjado com Luís XVI a fim de consolidar laços entre dois inimigos históricos e influenciar as decisões do rei a favor da Áustria. Não bastasse isso, em meio à crise financeira, Antonieta gastava rios de dinheiro com seu estilo de vida luxuoso e altamente abundante. A fervorosa rainha também era acusada por alguns estudiosos a ter influencia direta na decisão da Revolução Francesa. E é dentro deste período determinante para o país que Benoît Jacquot inicia Adeus, Minha Rainha. Embora muitos dizerem que Antonieta fez tudo por merecer seu destino, o diretor francês mostra como ela foi vitima de suas próprias manias e condenada a ter sua vida manipulada em um jogo de interesses.

A trama apresenta a pacata Versalhes vivendo uma vida muito diferente da conturbada Paris. Entre extravagâncias, festas e luxo, a cidade se distancia da realidade que a França se encontra. Quando é anunciada a tomada de Bastilha, nobres e servos se apavoram para deixar a cidade, principalmente após correr uma lista com mais de 200 nomes que os revolucionários apontam que devem morrer. Diante a situação, o rei prepara-se para deixar Versalhes, logo após iria Maria Antonieta. Porém, a rainha está mais preocupada em salvar a duquesa Gabrielle de Polignac, a qual nutra uma afeição maior que amizade, nem que para isso ela seja obrigada a usar sua maior arma: a sedução.

Para fugir das abordagens já criadas da personagem e para conseguir atingir o telespectador de outra maneira, Jacquot utiliza a leitora de Antonieta, Sidonie Laborde (vivida por Léa Seydoux) para fazer a transição entre a vida da rainha e a do resto dos empregados. Invejada pela preferência de Maria em relação aos outros empregados, Laborde é obrigada a fingir ódio a sua senhora enquanto nutre um amor platônico por ela. É através dela que vemos as extravagâncias de Antonieta, suas crises histéricas, assim como sua passividade dentro de uma vida moldada pela manipulação.

Para viver a personagem, o diretor francês escala a excelente Diane Kruger, que executa um ótimo trabalho. Sua interação com Seydoux é empolgante e muito ajuda o elenco secundário competente.  A direção de arte capta com beleza e precisão a ambientação, os luxuosos figurinos e maquiagens, fotografados em uma palheta de cores vivas e intensas. A trilha sonora esperta, orquestra muito bem as mudanças de tom que o longa vai atravessando ao longo de seus 100 minutos.

O que Adeus, Minha Rainha mostra de fato, são as atitudes que Antonieta é obrigada a tomar, em prol das manipulações. Seu contido romance com Polignac é mais do que especulações entre os subordinados. Tornam-se visíveis quando a situação em Versalhes aperta. Benoît mostra as insatisfações da geniosa rainha em nutrição ao seu estilo de vida. Estilo que levou muito mais que um dinheiro que a França não tinha: sua vida. Apesar de manter uma relação respeitosa com o rei, da qual possuía dois filhos com ele, é claramente perceptível o quão distantes eles eram. Há uma cena em que Antonieta questiona Luís XVI se era a primeira vez que ele entrara em seu quarto e o mesmo responde que sim. Dentro de suas insatisfações, a inocente Sidonie não compreende realmente o que sua madame sente por ela. Ora são melhores amigas, outra Maria nem olha em sua cara e faz questão de abusar das formalidades da época. Porém, para salvar sua amada, L'Autre-chienne (como era chamada pelos franceses) mostrará que neste mundo de egos e poder, sobrevivem os mais fortes, nem que para isso ela precise sacrificar a sua mais leal serva.

Adeus, Minha Rainha perde um pouco de impacto no final por não fechar completamente sua história, que se preocupa em explicar-se ao telespectador antes do longa começar, e fica vago ao final da projeção, deixando apenas os mais conhecidos de história saber o fim que levou a iconográfica rainha.

Nota: 8/10

7.5.13

Crítica: Camille Claudel, 1915


CAMILLE CLAUDEL, 1915

França, 2013 – 95 minutos.
Biografia/ Drama

Direção:
Bruno Dumont

Roteiro: 
Bruno Dumont

Elenco: 
Juliette Binoche, Jean-Luc Vincent, Emmanuel Kauffman, Marion Keller

A escultora francesa tem sua trajetória de vida moldada superficialmente à de Edith Piaf. Ambas extremamente talentosas, cuja vida pessoal absurdamente turbulenta, foi suficiente para desestabilizá-las. Apesar de tudo, as francesas se mantinham em um porto seguro: os amores de suas vidas. Quando Marcel morreu em um acidente de avião, a vida de Piaf foi abaixo, aliada ao seu estilo de vida exagerado. O mesmo acontece com Claudel que, rejeitada por seu amor, emerge dentro de suas próprias paranoias e loucuras. E é exatamente aqui que começa Camille Claudel, 1915.

Após seu surto total, a escultora é levada para o manicômio Ville-Evrard. Quando a 1ª Guerra Mundial explode, Camille é transferida para Villeneuve-lès-Avignon até o fim de sua vida. O longa é  baseado nas cartas entre a escultora e seu irmão Paul, junto de seus registros médicos.

A abordagem de Bruno Dumont é desestereotipar a loucura de Claudel. Embora tivesse um gênio difícil, portadora de esquizofrenia, assim como suas crises de surto, o que mais vemos é a escultora francesa tentando entender como realmente chegou aquele lugar, assim como a falta de notícias de sua família e falta de interesse de seus chegados em ajuda-la a sair daquele terrível lugar. Em um local de difícil acesso e distante das cidades, a grande maioria dos internados possuem graves doenças mentais mostrando extrema instabilidade emocional, até mesmo física, e a dificuldade de Camille de se adaptar a um lugar socialmente infernal, infinitamente solitária e envolvida em seus campos de distorção da realidade.

Para atingir com sucesso seus propósitos, o diretor francês retira do longa qualquer trilha sonora. Utiliza maravilhosamente dos sons emitidos do ambiente para mostrar o quão enlouquecida Camille se sente. A fotografia lindamente opaca é dona de planos longos e em sua grande maioria feitos à mão. Muito ajuda a precisa edição. Porém, quem carrega o longa é Juliette Binoche. A atriz sabe incorporar a escultora magnificamente bem, sem exageros, e comove o telespectador com sua imensa (e aparente) dor diante a situação que se encontra, assim como também é obrigada a estagnar seu talento. Delicada, Binoche expõe sensivelmente a fragilidade de Camille, seu intenso tédio e a depressão de passar décadas trancafiada e desperdiçando seu dom.

 Sábio, Dumont responde tão silenciosamente ao público quanto a pergunta do médico ao irmão de Claudel, se realmente a internação após anos e sinais visíveis de melhora eram realmente necessárias. O silêncio do irmão permanece, assim como o talento da escultora que morreu sendo obrigada a negar ao mundo seu dom.

Nota: 8/10

4.5.13

Crítica: Em Transe


EM TRANSE
Trance

Reino Unido, 2013 - 101 minutos.
Suspense/ Thriller

Direção:
Danny Boyle

Roteiro:
Joe Ahearme, John Hodge

Elenco:
James McAvoy, Vincent Cassel, Rosario Dawson, Matt Cross, Wahab Sheikh, Danny Sapani, Tuppence Middleton

Apesar de achar Danny Boyle um ótimo diretor, confesso que de alguma forma o considero superestimado. Embora possua um estilo próprio de narrativa e de entregar ótimos filmes, boa parte deles apresentam defeitos e não se completam totalmente por motivos diversos. Não é diferente em “Em Transe”. Com um roteiro demasiadamente confuso, Boyle tenta ganhar o telespectador da forma mais rasteira e previsível dentro deste gênero: reviravoltas.

Na trama, acompanhamos um assaltante (James McAvoy) de obras de arte que dá um golpe errado. Quando ele leva uma pancada na cabeça e acorda com amnésia, começa a ser pressionado por sua própria quadrilha, que contrata uma hipnotizadora para descobrir aonde foram parar as obras de arte que ele escondeu.

O roteiro pode aparentar mais inovador do que ele realmente é para o público menos avisado. Com toques de “Amnésia” e “A Origem” de Christopher Nolan, o texto também busca levemente um frenesi de “Clube da Luta” de David Fincher. Mesmo não sendo totalmente novo, o diretor inglês personaliza tudo ao seu estilo próprio. Acompanhado dos excelentes Vincent Cassel, James McAvoy, e uma competente Rosario Dawson assim como um bom elenco de apoio, o diretor de Quem Quer Ser um Milionário constrói uma trama inteligente e muito envolvente ao público. Assim como no recente “Dentro da Casa”, Boyle emerge o telespectador de forma que mal consegue se distinguir a realidade da ficção e conduz quem assiste a entrar em um divertido e surreal jogo de adivinhações para tentar entender o que realmente aconteceu. Mérito ao excelente trabalho de fotografia e edição.

Os problemas entram a partir do terceiro ato do longa. Na tentativa de parecer complexo e inovador, Em Transe vai modificando seu desfecho a cada nova informação para gerar uma sensação de surpresa na mente do telespectador. Com várias reviravoltas, a confusão é iminente à cabeça de quem assiste. Mais do que isso, destrói o primeiro e segundo ato, apresentando furos na real motivação de um dos personagens principais (para não gerar spoilers), ignorando também a falta de necessidade das situações extremas chegadas, alimentadas por uma vingança direcionada apenas a um personagem, onde outros são eliminados de forma impulsiva.

Diferentemente dos filmes citados anteriormente, o filme de Danny Boyle cria um impasse em querer ser mais complexo do que realmente é. Neste jogo divertido, nada se torna no fim memorável. Pelo contrário, ao fim da projeção, é uma questão de minutos para se esquecer de tudo o que foi visto durante os 101 minutos. E nesta indesejada despretensão, a força de “Em Transe” vai embora e a superestimação do diretor aumenta.

Nota: 7/10