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26.4.13

Crítica: Homem de Ferro 3


HOMEM DE FERRO 3
Iron Man 3

EUA, 2013 - 130 minutos.
Ação / Ficção científica

Direção:
Shane Black

Roteiro:
Shane Black, Drew Pearce

Elenco:
Robert Downey Jr., Guy Pearce, Ben Kingsley, Gwyneth Paltrow, Rebecca Hall, Paul Bettany, Don Cheadle, Jon Favreau, William Sadler, James Badge Dale, Stan Lee

Quando o primeiro Homem de Ferro estreou em 2008, muitos (inclusive eu) ficaram surpresos com a qualidade do longa que vinha com força despretensiosa para os não leitores de quadrinhos. Além do acerto da obra, ali estava o total ressurgimento de Robert Downey Jr e sua encarnação em Tony Stark é mais do que excelente. É impar. A continuação também foi bem divertida, porém perdida em certos momentos por enfatizar demais as bebedeiras e não desenvolver o roteiro da forma devida. Neste meio tempo, a Marvel colocava em pratica a todo o vapor o plano de desenvolver todos os super-heróis para Os Vingadores. Para apresentar realmente todos os personagens em filmes solos, a produtora deu prazos extremamente específicos e curtos para os diretores, que trabalhavam também em conjunto para construir um grande arco que serviria como entrada para a união de todos os super-heróis. Houve boatos que Jon Favreau, diretor dos dois primeiros filmes, não gostou muito da interferência da produtora no processo criativo do segundo longa e pouco tempo depois de seu lançamento, Favreau deixou o posto alegando estar precisando de novas motivações. Desculpa comum em Hollywood quando alguém quer deixar um projeto. Pois bem, aqui entra Shane Black, que havia dirigido Downey Jr. em Beijos e Tiros para encerrar o arco da trilogia. Ou melhor, assim se esperava. Homem de Ferro 3 é tratado como mais um filme dentro da saga de Tony Stark e se desenvolve como uma continuação despretensiosa, sem qualquer preocupação com o que foi criado nos longas anteriores. O maior pesadelo para um fã de um personagem é vê-lo sendo tratado superficialmente ou ver sua história sendo deturpada perante as telas. Infelizmente parte disso torna-se realidade aqui.

Na trama, Stark vive perturbado desde os eventos de Nova York, em Os Vingadores. Simplesmente não aceita o fato de ser apenas uma “máquina” perante deuses e aliens e enxerga isso como uma ameaça, principalmente por talvez ser incapaz de defender as pessoas que ama. Quando ondas de terrorismo começam a surgir denominadas pelo terrorista Mandarim, Tony decide encarar a briga para o lado pessoal e logo começa a colocar todos a sua volta em grande perigo. Logo se percebe que seu passado novamente ameaça-lo.

Black mostra-se um diretor bem mais firme nas sequências de ação que Favreau. Estão muito mais empolgantes, envolventes e divertidas. O uso do 3-D é feito com precisão e explora as camadas externas e de profundidade de maneira interessante. Tecnicamente, Homem de Ferro 3 não tem problemas. E realmente não deveria. Pelo contrário, ele tem obrigação de ser excelente e justificar seu orçamento de 200 milhões de dólares. Os atores se mostram envolventes e em sintonia, com Robert Downey Jr. engolindo as cenas, como de (bom) costume. Mérito também neste quesito para Guy Pearce e Ben Kingsley como Mandarim.

Diferentemente de Favreau, o diretor de Beijos e Tiros decide retratar um Tony Stark mais humano e tangível. Para isso, boas sequências durante o filme são com o personagem fora de sua armadura e sendo perturbado por suas obsessões e preocupações. O perigo que ronda o excêntrico bilionário aparenta ser mais real e letal. Quando Mandarim decide entrar em cena, Black apresenta uma parte política do universo do personagem não explorada anteriormente e ao mesmo tempo, outra mais fantasiosa. Mas infelizmente logo chegam os problemas no roteiro e eles são muitos.

Para não parecer pesado demais, como de praxe, os alívios cômicos são intensificados forçadamente durante toda a película. Diferentemente dos anteriores que possuíam um humor divertido e cabível para determinados momentos, o diretor americano decide aqui implementá-lo a todo instante. Quando o filme apresenta um tom mais sombrio, vem uma piada em seguida. Quando começa a retratar política, vem outra. Nos momentos de drama, mais uma remessa de piadas. A demasia é tanta que força o telespectador a ficar de fora do universo e encarar tudo como diversão. O clímax do longa, mesmo no terceiro ato, é desfeito com o encaixe insuportável deste alivio cômico desnecessário. Mesmo Downey Jr. sendo divertidíssimo, é intragável a decisão. E não para por aqui. O roteiro apresenta furos violentos no arco dramático da franquia (excepcionalmente com o primeiro), ignorando o que foi criado anteriormente. A retirada do reator do peito do bilionário é só a ponta do iceberg (para não dar mais spoilers).

Para aparentar maior que o antecessor (mania típica de Hollywood), Shane teve a terrível ideia de utilizar dois vilões e uni-los para tudo parecer mais megalomaníaco do que é. Nesta infeliz decisão, deturpa violentamente um dos maiores vilões dos quadrinhos do gênio bilionário: Mandarim. A utilização do personagem no longa a princípio é interessante, logo se percebe que tudo vai tomando um caminho muito distante do esperado. Os fãs certamente vão se decepcionar com a manipulação tediosa e medíocre dada ao vilão. Pior que isso, novamente entra em contradição com o que estabeleceu no primeiro longa. Simplesmente impossível acreditar que ninguém percebeu as incoerências no roteiro em relação à franquia. Decepcionante.

Chegando ao fim de forma triste e inconclusiva, que além de não fechar o arco criado no primeiro longa (mesmo que não seja o último longa do personagem, o fechamento de um arco não significa a conclusão de uma franquia), desconstrói boas sacadas dos anteriores, sem mencionar a história, é claro. A aparência de Homem de Ferro 3 é a de um blockbuster feito sem o entusiasmo do primeiro e com a confiança de que a boa aceitação do público seja o suficiente para um bom retorno financeiro (a quantidade exagerada e sem motivos das variações das armaduras mostram claramente a necessidade de se vender bonecos). E para isso, nem sempre o conteúdo precisa ser tão bom quanto o anunciado, principalmente quando se dirige para uma massa que senta no cinema para assistir shows de efeitos especiais. 

Nota: 5,7/10

[Ps: O filme possui cenas pós-créditos] 

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