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6.4.13

Crítica: Dentro da Casa


DENTRO DA CASA
Dans la maison

França, 2012 - 105 minutos
Drama/ Thriller 

Direção:
François Ozon

Roteiro:
Juan Mayorga, François Ozon

Elenco:
Fabrice Luchini, Ernst Umhauer, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner


Não há nada mais feliz para um cinéfilo descobrir, por acaso, uma obra subestimada e desconhecida dos grandes circuitos comerciais hollywoodianos. Sendo assim, não poderia ter ficado mais satisfeito em ter descoberto Dentro da Casa, de François Ozon. Sob incontáveis competências, o longa mostra a força da manipulação e da obsessão  humana em distorcer a realidade vivida por uma mais atrativa.

Na intrigante trama, conhecemos Claude, um rapaz de 16 anos consegue entrar na casa de um colega de sua aula de literatura e resolve escrever sobre o fato no seu trabalho de francês. Animado com o dom natural do aluno e o progresso do seu trabalho, seu professor volta a apreciar a função de educador dos jovens. Entretanto, a invasão do aluno vai desencadear uma série de eventos incontroláveis.

A primeira vista, o longa de Ozon lembra uma junção muito bem sucedida de “A Vida dos Outros” (confira a crítica aqui), “Instinto Selvagem” e “Segundas Intenções”. Mas a uma segunda análise, é visível a força que Dentro da Casa possuí ao caminhar com suas próprias pernas. Conforme o garoto vai aparecendo com novos “capítulos” de sua jornada na casa de seu colega, é impressionante como o roteiro consegue expor com extrema precisão a visão analítica de Claude e fazer de ordinários personagens, interessantes e instigantes. À medida que a ousadia do aluno se estende, o professor e o telespectador são tragados pelo campo de distorção da realidade criada pelo rapaz. Há certos momentos, que não se consegue distinguir a realidade da ficção. Para colaborar com a sensação de êxtase, o diretor francês utiliza a própria narrativa do longa para induzir a ficção criada pelo protagonista e já a esta hora, incentivada pelo professor amargurado.

Muito mais que trazer um roteiro intrigante, François mostra a infelicidade que seus personagens vivem em suas vidas amarguradas. Olhar aleatoriamente para uma família comum, que vivem vidas normais, de rotinas sem qualquer anormalidade aparentemente, podem e devem esconder mais do que aparentam. Afinal, ninguém pode viver de maneira tão insossa sem esconder outro lado, acredita o aluno, cuja vida repudia e o professor amargurado com seu fracasso na literatura como escritor e que, hipnotizado pela capacidade de Claude em manipular personagens tão desinteressantes em uma historia, de fato, interessante e profunda, necessita ser levada até o fim, onde a certo ponto, pouco importa as consequências.

Ao fim de toda a desgraça cometida pelo perverso aluno, o mesmo pede permissão para sentar-se junto do professor em um banco de praça. Diante de destruição feita pelos dois, Claude observa a discussão de duas mulheres na sacada de um apartamento.  Meio a situação, ambos começam a imaginar o porquê de toda aquela briga e uma forma de conseguir, de algum jeito, se infiltrar na vida destas mulheres. O professor ri e diz: “Provavelmente elas não precisem de ajuda com a matemática” (a forma como Claude conseguiu de infiltrar na casa de seu colega). O garoto olha pra ele e diz: “Em algum momento, seja matemática ou qualquer outra coisa, elas precisarão de ajuda. Todo mundo precisa”. O simples ato da maldade se encontrando na necessidade humana do próximo.

Instigante, provocativo e inteligente, Dentro da Casa é um achado maravilhoso, que merece ser divulgado e visto. Em tempos que secretárias são seduzidas por milionários sadomasoquistas, o mais doentio dos clichês, ainda funciona muito melhor.

Nota: 9/10

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