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26.4.13

Crítica: Homem de Ferro 3


HOMEM DE FERRO 3
Iron Man 3

EUA, 2013 - 130 minutos.
Ação / Ficção científica

Direção:
Shane Black

Roteiro:
Shane Black, Drew Pearce

Elenco:
Robert Downey Jr., Guy Pearce, Ben Kingsley, Gwyneth Paltrow, Rebecca Hall, Paul Bettany, Don Cheadle, Jon Favreau, William Sadler, James Badge Dale, Stan Lee

Quando o primeiro Homem de Ferro estreou em 2008, muitos (inclusive eu) ficaram surpresos com a qualidade do longa que vinha com força despretensiosa para os não leitores de quadrinhos. Além do acerto da obra, ali estava o total ressurgimento de Robert Downey Jr e sua encarnação em Tony Stark é mais do que excelente. É impar. A continuação também foi bem divertida, porém perdida em certos momentos por enfatizar demais as bebedeiras e não desenvolver o roteiro da forma devida. Neste meio tempo, a Marvel colocava em pratica a todo o vapor o plano de desenvolver todos os super-heróis para Os Vingadores. Para apresentar realmente todos os personagens em filmes solos, a produtora deu prazos extremamente específicos e curtos para os diretores, que trabalhavam também em conjunto para construir um grande arco que serviria como entrada para a união de todos os super-heróis. Houve boatos que Jon Favreau, diretor dos dois primeiros filmes, não gostou muito da interferência da produtora no processo criativo do segundo longa e pouco tempo depois de seu lançamento, Favreau deixou o posto alegando estar precisando de novas motivações. Desculpa comum em Hollywood quando alguém quer deixar um projeto. Pois bem, aqui entra Shane Black, que havia dirigido Downey Jr. em Beijos e Tiros para encerrar o arco da trilogia. Ou melhor, assim se esperava. Homem de Ferro 3 é tratado como mais um filme dentro da saga de Tony Stark e se desenvolve como uma continuação despretensiosa, sem qualquer preocupação com o que foi criado nos longas anteriores. O maior pesadelo para um fã de um personagem é vê-lo sendo tratado superficialmente ou ver sua história sendo deturpada perante as telas. Infelizmente parte disso torna-se realidade aqui.

Na trama, Stark vive perturbado desde os eventos de Nova York, em Os Vingadores. Simplesmente não aceita o fato de ser apenas uma “máquina” perante deuses e aliens e enxerga isso como uma ameaça, principalmente por talvez ser incapaz de defender as pessoas que ama. Quando ondas de terrorismo começam a surgir denominadas pelo terrorista Mandarim, Tony decide encarar a briga para o lado pessoal e logo começa a colocar todos a sua volta em grande perigo. Logo se percebe que seu passado novamente ameaça-lo.

Black mostra-se um diretor bem mais firme nas sequências de ação que Favreau. Estão muito mais empolgantes, envolventes e divertidas. O uso do 3-D é feito com precisão e explora as camadas externas e de profundidade de maneira interessante. Tecnicamente, Homem de Ferro 3 não tem problemas. E realmente não deveria. Pelo contrário, ele tem obrigação de ser excelente e justificar seu orçamento de 200 milhões de dólares. Os atores se mostram envolventes e em sintonia, com Robert Downey Jr. engolindo as cenas, como de (bom) costume. Mérito também neste quesito para Guy Pearce e Ben Kingsley como Mandarim.

Diferentemente de Favreau, o diretor de Beijos e Tiros decide retratar um Tony Stark mais humano e tangível. Para isso, boas sequências durante o filme são com o personagem fora de sua armadura e sendo perturbado por suas obsessões e preocupações. O perigo que ronda o excêntrico bilionário aparenta ser mais real e letal. Quando Mandarim decide entrar em cena, Black apresenta uma parte política do universo do personagem não explorada anteriormente e ao mesmo tempo, outra mais fantasiosa. Mas infelizmente logo chegam os problemas no roteiro e eles são muitos.

Para não parecer pesado demais, como de praxe, os alívios cômicos são intensificados forçadamente durante toda a película. Diferentemente dos anteriores que possuíam um humor divertido e cabível para determinados momentos, o diretor americano decide aqui implementá-lo a todo instante. Quando o filme apresenta um tom mais sombrio, vem uma piada em seguida. Quando começa a retratar política, vem outra. Nos momentos de drama, mais uma remessa de piadas. A demasia é tanta que força o telespectador a ficar de fora do universo e encarar tudo como diversão. O clímax do longa, mesmo no terceiro ato, é desfeito com o encaixe insuportável deste alivio cômico desnecessário. Mesmo Downey Jr. sendo divertidíssimo, é intragável a decisão. E não para por aqui. O roteiro apresenta furos violentos no arco dramático da franquia (excepcionalmente com o primeiro), ignorando o que foi criado anteriormente. A retirada do reator do peito do bilionário é só a ponta do iceberg (para não dar mais spoilers).

Para aparentar maior que o antecessor (mania típica de Hollywood), Shane teve a terrível ideia de utilizar dois vilões e uni-los para tudo parecer mais megalomaníaco do que é. Nesta infeliz decisão, deturpa violentamente um dos maiores vilões dos quadrinhos do gênio bilionário: Mandarim. A utilização do personagem no longa a princípio é interessante, logo se percebe que tudo vai tomando um caminho muito distante do esperado. Os fãs certamente vão se decepcionar com a manipulação tediosa e medíocre dada ao vilão. Pior que isso, novamente entra em contradição com o que estabeleceu no primeiro longa. Simplesmente impossível acreditar que ninguém percebeu as incoerências no roteiro em relação à franquia. Decepcionante.

Chegando ao fim de forma triste e inconclusiva, que além de não fechar o arco criado no primeiro longa (mesmo que não seja o último longa do personagem, o fechamento de um arco não significa a conclusão de uma franquia), desconstrói boas sacadas dos anteriores, sem mencionar a história, é claro. A aparência de Homem de Ferro 3 é a de um blockbuster feito sem o entusiasmo do primeiro e com a confiança de que a boa aceitação do público seja o suficiente para um bom retorno financeiro (a quantidade exagerada e sem motivos das variações das armaduras mostram claramente a necessidade de se vender bonecos). E para isso, nem sempre o conteúdo precisa ser tão bom quanto o anunciado, principalmente quando se dirige para uma massa que senta no cinema para assistir shows de efeitos especiais. 

Nota: 5,7/10

[Ps: O filme possui cenas pós-créditos] 

20.4.13

Crítica: A Morte do Demônio


A MORTE DO DEMÔNIO 
Evil Dead

EUA, 2013 - 91 minutos.
Terror

Direção:
Fede Alvarez

Roteiro:
Fede Alvarez, Rodo Sayagues, Diablo Cody

Elenco:
Jane Levy, Lou Taylor Pucci, Shiloh Fernandez, Jessica Lucas, Elizabeth Blackmore, Jim McLarty, Lorenzo Lamas, Rupert Degas, Phoenix Connolly

Quando Sam Raimi dirigiu A Morte do Demônio em 1981, assim como Tarantino, ele consolidou um subgênero dentro de um gênero, onde ele próprio ditava (e dita) as regras. Com a chegada das continuações que passaram do horror trash para o terrir (terror com comédia), Raimi colocou sua quadrilogia como uma das mais cults da história do terror. E anunciar um remodelagem em um material tão adorado pode significar problemas.  Felizmente os produtores do original, junto do próprio diretor, adoraram a ideia do uruguaio Fede Alvarez em voltar à franquia, alterando seu tom. Diferentemente de O Segredo da Cabana, que faz uma (quase) sátira em sua homenagem ao gênero, Alvarez volta às origens, sabendo homenagear seu primogênito a seu modo, utilizando todas as ferramentas possíveis e fazer o telespectador lembrar-se da verdadeira essência do terror. E isso é ótimo.

Na trama, cinco jovens viajam para uma cabana no meio da floresta para ajudar uma de suas amigas a sair do seu envolvimento com as drogas. Não demora muito para um deles encontrar um porão com um livro de rituais satânicos, onde, sem querer, invocam um demônio que condena macabramente a vida de cada um deles.

Sem caminhar rigorosamente a trama do longa original, Alvarez sabe utilizar os principais contextos da franquia sem imitar tudo o que já foi feito. Semelhante ao que JJ. Abrams conseguiu fazer com sua releitura de Star Trek. O tom muda (bem mais sombrio), a motivação dos personagens também, porém, o contexto de tudo permanece intacto. Com tudo bem estabelecido e com atores bem dispostos, A Morte do Demônio começa a sua divertida viagem para resgatar as origens de um gênero mais que saturado. O diretor uruguaio consegue apresentar os elementos clichês, mostrar ao público que a partir daquele momento algo acontecerá e ainda sim, assustar o telespectador. É como se alguém dissesse que vai te dar um susto e ainda sim, você se assustar. Consegue te pregar a mesma peça durante 91 minutos sem fazê-la perder a graça. Para isso, a sua direção de arte junto do roteiro, inspiradíssimos, utiliza das formas mais repugnantes, nojentas, sanguinolentas, bizarras e macabras para amedrontar e divertir o telespectador. Claro que a película não se leva a sério de verdade, apenas não caminha pelo trash tão grosseiramente quanto o de 1981.

Tantos ótimos elementos entram em sintonia com a deliciosa trilha sonora que não permite que quem assista (o filme) tenha um segundo de paz. É interessante ver o controle de Alvarez durante cada absurdo apresentado em tela. Assim como em um túnel de terror de parque de diversões, Fede sabe desenvolver o longa de forma que, conforme avança, um nova surpresa ainda mais macabra se apresentará. Por fim, depois de tantos sustos, a diversão foi garantida e você se lembra rindo do medo que passou. O resgate do terror/horror mais puro e ingênuo que existe.

O único problema deste gênero é, por razões obvias, não estabelecer uma pressão psicológica com público. Simplesmente não existe, apesar da diversão, algo que realmente perturbe. Tudo se resume a parte física da coisa, sem, de fato, entrar na mente de quem assiste. Então o slogan “O Filme Mais Apavorante Que Você Verá Nesta Vida” pode ser considerado, talvez, uma propaganda enganosa. Mas não se engane, A Morte do Demônio é diversão garantida e uma homenagem felicíssima ao original. O melhor túnel do terror desde [REC].

Nota: 8,7/10

[PS: Fique até o final da exibição. Existe uma cena pós-crédito.] 

14.4.13

Crítiica: Oblivion

OBLIVION

EUA, 2013 - 126 minutos.
Ficção científica

Direção: 
Joseph Kosinski

Roteiro: 
Joseph Kosinski, Karl Gajdusek, Michael Arndt

Elenco: 
Tom Cruise, Morgan Freeman, Olga Kurylenko, Andrea Riseborough, Nikolaj Coster-Waldau, Melissa Leo



Há três anos, quando Tron – O Legado estreou, criou-se certa expectativa sobre a estreia também do arquiteto Joseph Kosinski na direção de seu primeiro longa. O universo deslumbrante e empolgante criado por ele mostrava-se inovador também pelo fato de todo o estiloso design composto ser, de fato, funcional. Infelizmente a complexidade visual não foi rebatida à altura pelo roteiro. Agora, em Oblivion, os erros são exatamente os mesmos. Até pior. Se considerarmos que, apesar do roteiro de Tron não ser perfeito e original, não dependia de sugar uma variedade de projetos.

A trama se passa em 2077. Jack Harper (Tom Cruise) é o responsável pela manutenção de equipamentos de segurança em um planeta Terra irreconhecível, visto que a superfície foi destruída devido a confrontos com uma raça alienígena. O que restou da humanidade vive hoje em uma colônia lunar. Jack irá para este local junto de sua namorada e assistente Victoria (Andrea Riseborough) em duas semanas, já que estão perto de terminar seus trabalhos na Terra. Só que, um dia, ele encontra destroços de uma nave que traz uma mulher dentro. Ao conhecê-la, tudo o que Jack sabe até então é posto em dúvida. É o início de uma jornada onde ele precisará descobrir o que realmente aconteceu no passado.

A sinopse já denuncia a falta de criatividade do roteiro. Tudo é irrelevante a princípio pelo trabalho espetacular de direção de arte de Kosinski que faz da ambientação de Oblivion, um universo rico e ímpar. Além da fotografia acertada dentro de uma palheta de cores dessaturada e opaca, o design arquitetônico dos lugares, naves, armamento e todos os outros elementos que completam a ambientação são de extremo bom gosto. A trilha sonora soma pontos neste quesito. Tom Cruise convence como o herói americano, apesar de se mostrar claramente limitado em suas expressões. Cumpre bem também seu papel Riseborough como Victoria, assim como Olga Kurylenko, Morgan Freeman e Nikolaj Coster-Waldau. E para por aqui.

Todo o esforço que o novato diretor tinha para construir Oblivion limita-se novamente em seu visual. O roteiro da película suga diversos pontos de inúmeros filmes do gênero e cria uma salada genérica. Começa-se pela animação Wall-E (Individuo, sozinho, tentando consertar a Terra), A Ilha (Os personagens vivem em uma realidade criada e manipulada, criando objetivos que jamais poderão ser alcançados), Lunar (O astronauta que vive sozinho, a espera do término de seu serviço para ir embora, quando acidentes ocorrem e o fazem questionar todo seu ambiente) e Controle Absoluto. Este último me recuso a citar para não criar spoilers do núcleo central da trama. Mas qualquer um que já viu os longas citados, sabe exatamente o que esperar e não esperar do longa de Joseph Kosinski. Apesar de citar vagamente os plágios do filme, o fiz de forma que mantenha alguma integridade em sua trama. Porque não há, literalmente, um elemento usado no roteiro que seja de caráter original. A cada minuto de Oblivion, a sensação que o telespectador mais antenado terá é de um grande “previously” de boa parte das ficções cientificas criadas nos últimos 10 anos, além de outras referências de clássicos. Uma pena.

Mesmo que tentemos excluir todo o plágio do roteiro, o mesmo é confuso, cheio de furos e com um final mais abstrato do que deveria. Enrosca-se em querer criar reviravoltas e de certa forma, não consegue criar um vinculo entre os personagens e o público, o que deixa ainda menos perceptível as verdadeiras intenções do diretor.

Por fim, assim como Tron – O Legado, o que resta ao telespectador é o espetáculo visual e o deslumbre de uma arquitetura invejável. Infelizmente para Kosinski, isso não é tão eficaz quanto o longa anterior, que pecava pela simplicidade.

Nota: 4,5/10

Crítica: Mama


MAMA

Espanha / Canadá, 2013 - 100 minutos
Terror

Direção:
Andrés Muschietti

Roteiro:
Neil Cross, Andrés Muschietti, Barbara Muschietti

Elenco:
Jessica Chastain, Nikolaj Coster-Waldau, Megan Charpentier, Isabelle Nélisse, Javier Botet, Daniel Kash



O curta Mama parecia intrigante e interessante o suficiente para obter certa repercussão e, na ideia de transformá-lo em longa, atrair o cineasta Guillermo Del Toro para o financiamento do filme. Mas a sensação que temos ao final da película é bem clara: nem tudo precisa de respostas. Neste caso, as respostas ao intrigante curta vêm inspiradas entre os clichês do gênero ou o apoio de outras obras, como O Labirinto do Fauno.

Na trama, um executivo perde a cabeça e comete uma chacina, matando colegas do trabalho e sua esposa. Para não ser preso, ele foge com Victoria e Lilly, suas duas filhas pequenas. Irritado com o questionamento das garotas, o homem perde o controle do carro e cai em uma ribanceira. Desnorteado, o executivo decide se esconder com as garotas em uma cabana abandonada no meio de uma floresta. Arrependido das atrocidades que cometeu, ele decide se matar, deixando as garotas sozinhas naquele lugar. Apenas cinco anos depois, as garotas são encontradas acidentalmente em condições desumanas. Quando questionadas sobre sua sobrevivência, uma das garotas diz terem sido cuidadas por Mama. Indo morar com seu tio Lucas (Nikolaj Coster-Waldau) e sua namorada Annabel (Jessica Chastain), coisas misteriosas começam a acontecer. Quando Lucas sofre um acidente, a namorada de personalidade individualista e forte é obrigada a encarar a situação sozinha e descobrir que não está sozinha com as garotas na casa.

A principio, o roteiro de Muschietti mostra força e instiga Mama. A criatura definitivamente é assombrosa. O jeito animalesco das garotas após cinco anos perdidas em uma floresta, de fato, convencem o telespectador da bizarrice de terem sido cuidadas por um fantasma. A ideia de fazer da película uma fabula que se tornou um conto de horror, é divertida (apesar de já ter sido apresentada no tenebroso “A Dama na água" e no lindíssimo “O Labirinto do Fauno). Sendo assim, forçar a maternidade em uma mulher longe destes instintos, é uma ideia interessante, principalmente se considerarmos o desfecho da história. O problema de Mama começa quando o estreante diretor limita-se a explicar e ampliar seu curta sem acrescenta-lo algo que realmente fuja dos clichês do gênero, aproveitando boa parte dos 100 minutos para tentar amedrontar o telespectador com bobagens manjadas.

Acredite, isso não falta. Temos os truques baratos de câmera, o som explosivo e alarmante para o (falso) elemento surpresa, o efeito “instagram” que predomina nos flashbacks do passado da alma penada. Isso tudo aliado a um roteiro que suga também o terror asiático com suas clássicas historias de fantasmas atormentados e isso fica evidente a cada passo do desfecho. As verdadeiras surpresas da película ficam com o relacionamento (medonho) das garotas com a criatura do título. Porém, ao expor as verdadeiras motivações de Mama, outro filme vem à mente e todo o esforço parece perdido: o recente A Mulher de Preto.

Com uma premissa intrigante, Mama falha em dar vida a um curta sem, impreterivelmente, ter um conteúdo apropriado a premissa que criou. Vagando entre historias e elementos já utilizados em demasia, tudo não torna-se frágil demais pela competência de seu elenco e bons momentos que mescla entre o original e o clichê. Porque se tudo dependesse de seu diretor, Mama despencaria ao fiasco.

Nota: 6/10

7.4.13

Crítica: G.I Joe: Retaliação

G.I JOE: RETALIAÇÃO
G.I. Joe: Retaliation 

EUA , 2013 - 110 minutos.
Ação

Direção: 
Jon M. Chu

Roteiro: 
Rhett Reese, Paul Wernick

Elenco: 
Channing Tatum, Bruce Willis, Dwayne Johnson, Adrianne Palicki, CJ Cotrona, Ray Stevenson, Joseph Mazzello, Ray Park, Walton Goggins, RZA, Arnold Vosloo, Elodie Yung, Byung-hun Lee, Jonathan Pryce, Faran Tahir

Foi uma diferença nada convencional de 4 anos entre um filme e outro. O orçamento caiu de 185 milhões para 130. O elenco da continuação foi praticamente remodulado por completo. Essas entre outras decisões foram as saídas encontradas pelos executivos para não fazer de G.I Joe: Retaliação o fracasso comercial que foi o primeiro. Sim, comercial. Não espere que nenhuma decisão tomada neste filme teve maior comprometimento que o financeiro. O longa foi adiado em quase 10 meses. Surgiram os temerosos boatos que a película passava por refilmagens, além da conversão digital para o 3-D. Ambas as decisões, após o fechamento da pós-produção, podem significar catástrofe.  Ainda mais se considerarmos que os boatos da refilmagem vieram após uma pesquisa que mostrou que todos os filmes que Channing Tatum estreou no último ano se tornaram ótimas bilheterias e a ideia primaria dos produtores era cortar praticamente todo o elenco original, incluindo Tatum. A ideia de reabrir o filme e incluir o ator logo se apresentou bizarra, mas vindo de executivos decididos a ganhar dinheiro a todo custo, esta poderia ser uma possibilidade incrivelmente absurda, que se tornaria real. O resultado do filme é, surpreendentemente, superior ao primeiro que era uma babaquice sem fim. Se os boatos da inclusão de Tatum eram verdadeiros ou não, não podemos afirmar, pois não há qualquer corte durante a projeção que indique tal feito. Mas a decisão normalmente errônea do estúdio em reeditar um filme já fechado, parece ter surtido feito positivo em G.I Joe: Retaliação.

Na rasa trama, os Joes estão em uma missão para o resgate de armamento nuclear quando são violentamente atacados pelas forças de defesas americanas a pedido de Zartan que se passa pelo presidente do país. Desolados, os sobreviventes Roadblock (Dwayne Johnson), Jaye (Adrianne Palicki) e Flint (D.J. Cotrona) vão atrás de ajuda para entender quem está por trás da conspiração. Enquanto isso, Storm Shadow tenta se infiltrar em uma base secreta na Alemanha a fim de libertar Cobra e prosseguirem com o plano de dominar o mundo.

Com a eliminação de praticamente todo o elenco original, o longa também altera seu tom. Deixa-se de lado o apelativo e irritante humor de “A Origem de Cobra”, e constrói-se algo mais sério, sem (tantos) exageros da película anterior que era um (irritante e chato) show de stand-up de Marlon Wayans. Foi retirada também a quantidade exagerada de parafernálias tecnológicas incríveis para se criar um filme mais “pé no chão” e, de certa forma, mais fiel à proposta dos brinquedos baseados. Aqui também saiu Stephen Sommers, (do péssimo Van Helsing – O Caçador de Vampiros e o bobinho A Múmia) e entrou Jon. M Chu (Justin Bieber – Nunca Diga Nunca, Ela Dança, Eu Danço 2) para comandar, na teoria, esta continuação. Na teoria porque, desde o princípio, G.I Joe é um projeto ordenado por seus executivos e a falta de um pulso criativo que “Retaliação” precisava fica gritante a todo instante. Ao menos, todos tiveram o bom senso de não deixar o filme mais insuportável que seu anterior.

Dentro da formula já montada, pouco o diretor tem a acrescentar. Aprimora (com muito menos dinheiro) os efeitos do longa em relação ao anterior, aproveita-se muito bem do carisma de Dwayne Johnson e Bruce Willis para segurar todo o mediano e quase inexpressivo elenco. Apesar do filme contar com personagens interessantes, pouco disso é explorado organicamente no roteiro, abrindo espaço, é claro, para seus visuais. Dentro disso, M. Chu evolui o que já havia sido criado e não deixa a desejar. Mostra um domínio mais inteligente nas sequências de ação que Sommers, mas nada que, de fato, venha a entusiasmar. Com exceção as divertidas sequências entre Storm Shadow e Snake Eyes e a absurda sequência nas montanhas de gelo (que lembram o Tibet e talvez seja). Com uma frequência positiva quase nula, é de parabenizar o trabalho feito no 3-D convertido. Mesmo não possuindo a tridimensionalidade que as câmeras que captam no formato têm, a conversão é feliz e sabe explorar profundidade e aproximação com precisão. Tudo flui dentro de diálogos e situações muito mais divertidas que o anterior.

A verdade é que não dá pra esperar muito de um filme como G.I Joe: Retaliação, a não ser honestidade. Melhor que o primeiro (também não havia como ficar pior), o projeto de aproveita exclusivamente de uma oportunidade de mercado, a emergente indústria de brinquedos que anda tomando Hollywood. Não há nada aqui que marcará a vida de ninguém, mas, pelo menos, não o fará querer arrancar os olhos durante a projeção. Entretenimento descartável.

Nota: 6/10

6.4.13

Crítica: Dentro da Casa


DENTRO DA CASA
Dans la maison

França, 2012 - 105 minutos
Drama/ Thriller 

Direção:
François Ozon

Roteiro:
Juan Mayorga, François Ozon

Elenco:
Fabrice Luchini, Ernst Umhauer, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner


Não há nada mais feliz para um cinéfilo descobrir, por acaso, uma obra subestimada e desconhecida dos grandes circuitos comerciais hollywoodianos. Sendo assim, não poderia ter ficado mais satisfeito em ter descoberto Dentro da Casa, de François Ozon. Sob incontáveis competências, o longa mostra a força da manipulação e da obsessão  humana em distorcer a realidade vivida por uma mais atrativa.

Na intrigante trama, conhecemos Claude, um rapaz de 16 anos consegue entrar na casa de um colega de sua aula de literatura e resolve escrever sobre o fato no seu trabalho de francês. Animado com o dom natural do aluno e o progresso do seu trabalho, seu professor volta a apreciar a função de educador dos jovens. Entretanto, a invasão do aluno vai desencadear uma série de eventos incontroláveis.

A primeira vista, o longa de Ozon lembra uma junção muito bem sucedida de “A Vida dos Outros” (confira a crítica aqui), “Instinto Selvagem” e “Segundas Intenções”. Mas a uma segunda análise, é visível a força que Dentro da Casa possuí ao caminhar com suas próprias pernas. Conforme o garoto vai aparecendo com novos “capítulos” de sua jornada na casa de seu colega, é impressionante como o roteiro consegue expor com extrema precisão a visão analítica de Claude e fazer de ordinários personagens, interessantes e instigantes. À medida que a ousadia do aluno se estende, o professor e o telespectador são tragados pelo campo de distorção da realidade criada pelo rapaz. Há certos momentos, que não se consegue distinguir a realidade da ficção. Para colaborar com a sensação de êxtase, o diretor francês utiliza a própria narrativa do longa para induzir a ficção criada pelo protagonista e já a esta hora, incentivada pelo professor amargurado.

Muito mais que trazer um roteiro intrigante, François mostra a infelicidade que seus personagens vivem em suas vidas amarguradas. Olhar aleatoriamente para uma família comum, que vivem vidas normais, de rotinas sem qualquer anormalidade aparentemente, podem e devem esconder mais do que aparentam. Afinal, ninguém pode viver de maneira tão insossa sem esconder outro lado, acredita o aluno, cuja vida repudia e o professor amargurado com seu fracasso na literatura como escritor e que, hipnotizado pela capacidade de Claude em manipular personagens tão desinteressantes em uma historia, de fato, interessante e profunda, necessita ser levada até o fim, onde a certo ponto, pouco importa as consequências.

Ao fim de toda a desgraça cometida pelo perverso aluno, o mesmo pede permissão para sentar-se junto do professor em um banco de praça. Diante de destruição feita pelos dois, Claude observa a discussão de duas mulheres na sacada de um apartamento.  Meio a situação, ambos começam a imaginar o porquê de toda aquela briga e uma forma de conseguir, de algum jeito, se infiltrar na vida destas mulheres. O professor ri e diz: “Provavelmente elas não precisem de ajuda com a matemática” (a forma como Claude conseguiu de infiltrar na casa de seu colega). O garoto olha pra ele e diz: “Em algum momento, seja matemática ou qualquer outra coisa, elas precisarão de ajuda. Todo mundo precisa”. O simples ato da maldade se encontrando na necessidade humana do próximo.

Instigante, provocativo e inteligente, Dentro da Casa é um achado maravilhoso, que merece ser divulgado e visto. Em tempos que secretárias são seduzidas por milionários sadomasoquistas, o mais doentio dos clichês, ainda funciona muito melhor.

Nota: 9/10

Crítica: Direito de Amar


DIREITO DE AMAR
A Single Man

EUA, 2009 - 101 minutos.
Drama

Direção:
Tom Ford

Roteiro:
Tom Ford, Christopher Isherwood, David Scearce

Elenco:
Colin Firth, Julianne Moore, Nicholas Hoult, Matthew Goode, Jon Kortajarena, Paulette Lamori, Ryan Simpkins, Ginnifer Goodwin

 * Indicado ao Oscar 2010

Raro ver um artista se dar bem longe de sua zona de conforto. Aqui, o estilista Tom Ford deixa as tesouras de lado para embarcar em seu primeiro trabalho como diretor. Excepcionalmente belo e emocionante, Direito de Amar mostra as máscaras que criamos dentro de um mundo vívido de aparências.

A trama, baseada no livro homônimo de Christopher Isherwood, acompanha George, um professor dilacerado pela recente morte de seu parceiro de longa data em um trágico acidente, que não vê mais razão em viver.  Planejando o suicídio, o professor passa o dia executando deveres para deixar tudo o mais perfeito possível após sua morte. Porém, dentro destes processos, alguns momentos mostrarão que talvez a vida ainda possa valer a pena.

O estreante diretor e Colin Firth conseguem expressar em George o verdadeiro sentido da palavra dor. Em uma fotografia absolutamente impecável, uma trilha sonora lindíssima, e uma atuação inspiradora, o personagem é explorado de forma complexa e belamente composto. O elenco secundário não fica por baixo: Julianne Moore, Nicholas Hoult e Matthew Goode dão o suporte mais que necessário para a construção do protagonista.

Apesar de se esperar uma estética estilosa e bela, é surpreendente como a direção de arte orquestrada majestosamente por Tom Ford é eficaz. Interrompe a palheta opaca de cores da fotografia para uma película lindamente vívida quando George se sente vivo e conectado a de alguma forma a outro ser humano e não em sua infinita solidão. Utiliza de closes e tomadas captadas com extrema precisão para tornar tangíveis os sentimentos expressos e flagrados pelo professor. É como se conseguíssemos sentir literalmente o universo a volta de George. Além do, claro, impecável figurino e ambientação. Muito mais que extremo bom gosto, as escolhas do diretor texano são extremamente relevantes para a sua mensagem.

O incansável perfeccionismo do protagonista o lembra do personagem que ele próprio deve aparecer dentro de uma sociedade sessentista preconceituosa. Ao lado, encontra-se sua amiga Charley (Moore em uma beleza descomunal) sempre perfeitamente maquiada e bem vestida, onde se esconde em um rio de infelicidades, onde a idade a faz relembrar do passado com glória e temer a solidão do futuro.

Diante a uma guerra, todos parecem preocupados com a aparência. Não há uma criatura sequer no longa que não esteja esteticamente invejável.  Tamanha beleza externa demonstra instabilidade nas emoções devida à superficialidade humana ou no melhor dos casos, a passividade de um mundo tomado por alienações e excessos. A esta altura Ford questiona: De que importa a beleza externa se, por dentro, não há nada a acrescentar? Em certo momento, Kenny (Hoult) é questionado por George sobre o relacionamento do garoto com uma bela moça da qual anda pela escola. Tímido ele responde que há certos assuntos das quais eles, mesmo sendo “amigos”, não podem conversar. É uma necessidade de ignorar o que se encontra a volta por não saber a resposta ou não ser sociavelmente bem aceito.

Talvez aparente ser incrivelmente belo demais, afinal, é conduzido por uma das pessoas mais influentes da moda atual. Mas a verdade é que, como todo bom diretor, um filme deve levar sua marca e Direito de Amar esbanja o extremo bom gosto de seu realizador e muito mais que isso, é uma obra admirável e surpreendente. 

Nota: 9,5/10

3.4.13

Crítica: The Walking Dead (3ª Temporada)


THE WALKING DEAD

Estados Unidos, 2013 – 720 min. (aprox.)
Drama – Série de TV

Criador da série: Frank Darabont

Roteiro: Frank Darabont, Robert Kirkman (quadrinhos), Charlie Adlard, Tony Moore

Elenco: Andrew Lincoln, Sarah Wayne Callies, Laurie Holden, Steven Yeun, Chandler Riggs, Norman Reedus, Melissa McBride, Lauren Cohan, Scott Wilson, Emily Kinney, Michael Rooker, Danai Gurira, David Morrissey


Após 16 empolgantes e inspirados episódios, The Walking Dead finaliza a terceira temporada. Diferente das duas temporadas anteriores, esta terceira etapa da série dos zumbis contou com um número bem superior de episódios, atingindo recordes de audiência no território americano. A expectativa do confronto de um dos maiores vilões da história criada por Robert Kirkman colaborou para isso. Mas o seriado, de fato, cumpriu com todas as expectativas criadas? Sim, e muito.

Na trama, após o confronto com os errantes na fazenda de Hershel e o desencontro com Andrea na fuja, Rick e o grupo de sobreviventes decidem se instalarem em uma prisão. Com a proteção das grades, o local parece ser ideal para se proteger dentro do mundo dominado por mortos-vivos. Logo descobre-se que não muito longe dali existe uma cidadezinha chamada Woodybury, comandada por um homem intitulado de Governador. À medida que as situações vão surgindo e personagens vão de encontrando, vem à tona que o local vive de aparências e sobre a fragilidade de um homem doentio. Quando Governador acaba descobrindo a existência do grupo de sobreviventes na prisão, sente-se ameaçado e decide então, cravar uma sanguinária guerra onde os errantes parecerão ameaçadas inofensivas.

Os realizadores da série são felicíssimos na criação do roteiro desta terceira temporada. Há, como esperado, o aprimoramento do texto em relação às duas temporadas anteriores. Muito mais do que isso, os criadores enfatizam o ser humano como o maior perigo do mundo. Mesmo em um mundo dominado por mortos-vivos. Utilizam todos os segundos dos episódios para explorar todas as portas possíveis, sem esquecer-se do que foi criado anteriormente. Dá foco para novos personagens com profundidade, sem fazer com que os veteranos percam espaço. Pelo contrário, consegue atingir limites extremos para alguns. Novamente, não poupa os telespectadores, nem mesmo o protagonista, de abater, literalmente, grandes personagens, provocando intensa surpresa e dor. A sensação de que o sofrimento é interminável permanece intacta nesta temporada, sem apelar para o que já havia sido criado.

A série também inova em desestabilizar o protagonista, fazendo com que o telespectador tenha uma sensação interna de caos. Cria verossimilhança, lembrando que Rick não é indestrutível dentro deste mundo caótico. Mas que isso, é incapaz de controlar tudo a sua volta e isso inclui sua própria família, seja sobre suas vidas ou mesmo a saúde mental da mesma, mesmo que isso inclua seu próprio sacrifício.

Dentro de toda a trama criada, The Walking Dead também sabe ser divertido. O aperfeiçoamento dos personagens em relação à defesa contra os zumbis, a própria Michonne, nova personagem que carrega consigo uma espada de samurai, alguns elementos vindo dos quadrinhos como os zumbis da prisão usando proteção de força tática. Impagável.  Há intensas sequências envolvendo o Governador que prendem o público. Não é a toa que a série quebrou recordes de audiência em momentos de suas reviravoltas.

A direção de atores continua sendo extremamente eficaz em manter todo o elenco em sintonia, trazendo ótima interação e performances de todos. Assim como a direção de arte que surpreende novamente pela perfeição da maquiagem criada, a fotografia belamente executada, assim como a ambientação minuciosa e realista.

Os criadores mostram que ouviram algumas reclamações em relação às duas temporadas anteriores e trazem até aqui, a melhor temporada da série. Só não fecha de forma irrepreensível pelo seu season finale que deixa o telespectador com mais perguntas e expectativas do que deveria. Mas nada que perca a força criada nesta terceira temporada e faça os fãs aguardarem a quarta mais que ansiosamente.

Nota: 9,5/10