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2.2.13

Crítica: Os Miseráveis


OS MISERÁVEIS
Les Misérables

Reino Unido , 2012 - 158 min.
Musical

Direção:
Tom Hooper

Roteiro:
William Nicholson

Elenco:
Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Sacha Baron Cohen, Helena Bonham Carter, Eddie Redmayne, Aaron Tveit, Samantha Barks, Daniel Huttlestone

* Indicado ao Oscar 2013

O trabalho do diretor que decide adaptar uma obra consagrada em outros meios, como livros ou quadrinhos, tem a difícil, quase que impossível tarefa de construir uma obra que faça jus à original. Além disso, deve estar preparado para todos os tipos de críticas de fãs xiitas e a falta de força do núcleo da adaptação referente ao inspirado.  Aqui, Tom Hooper decide fazer uma mais uma adaptação do consagrado e ícone de Victor Hugo, Os Miseráveis. Diferente de Zack Snyder, que foi criticado injustamente por alguns críticos, Hooper merece todas as críticas negativas que vem recebendo.

A história passa-se na França do século XIX entre duas grandes batalhas: a Batalha de Waterloo (1815) e os motins de junho de 1832. Conhecemos Jean Valjean (Hugh Jackman), um condenado que é colocado em liberdade depois de 19 anos servindo as gales após ter roubado um pão. Sob um péssimo registro documental, o homem possui problemas em encontrar um novo emprego. Quando é pego roubando novamente, é salvo por um bondoso padre na tentativa de fazer Valjean se redimir por seus pecados. Envergonhado por suas ações, o ex-condenado reaparece oito anos depois como prefeito em Montreuil, uma cidade no extremo sul da França, dono também de uma fábrica. Depois de descobrir que uma das suas funcionárias é demitida de suas instalações e sofre com extrema miséria e imparcialidade de uma cruel sociedade, Jean promete cuidar da pequena Cosette (Isabelle Allen e posteriormente Amanda Seyfried), filha de Fantine (Anne Hathaway) deixada na casa de um casal mais do que suspeito. Quando é desmascarado por Javert sobre sua falsa identidade, Valjean foge constantemente com a garota em busca de uma vida de paz.

Com um elenco extremamente competente e cativante, é praticamente impossível criticar Les Misérables na dramaturgia dos atores em transpor com máxima competência o sofrimento que os personagens são impostos. Competente também é a ambientação e figurino que, minuciosos, transmite cenários ricos e muita beleza, mesmo na miséria. O roteiro é esperto e assertivo na maioria das músicas cantadas pelos personagens, que contam com performances excelentes e surpreendentes. Tudo pendia para que o longa atingisse um grau de excelência, se não fosse uma tenebrosa direção de fotografia que insiste, irritantemente, em forçar o telespectador a todo instante, de forma clichê e, as vezes, até caricata que beira ao ridículo. Mais que isso, conturba a narrativa do filme.

O diretor inglês parece que simplesmente não tem a mínima noção de filmar. Para demonstrar (algumas vezes de forma grotesca) a miséria e a pobreza vivida pela época, Hooper utiliza ininterruptos e incessantes closes que, por horas, atingem limites alarmantes de falta de técnica, como preencher a tela com super closes dos rostos dos atores sem obter clímax necessário para isso, e utilizar de lentes grande-angulares que deformam o rosto dos personagens, em especial, de Anne Hathaway. Há, no mínimo, duas sequências em que as lentes são utilizadas para reforçar (como se o rosto, figurino e a própria sequência) a tristeza vivida por Fantine que consegue deixar a cabeça da atriz desproporcional a seu pequeno corpo e a situação agrava quando o diretor decide subir a câmera e captar um angulo superior. Trabalho amador. A limitada técnica de Hooper ainda restringe o público de conhecer atentadamente o belo trabalho de ambientação construído pela direção de arte ou mesmo, solucionar pequenos impasses narrativos através de jogadas de câmera, como o irretocável Haneke faz. Exemplo da sequência em que Marius (vivido por Eddie Redmayne) volta ao local onde havia escapado com vida de uma chacina feita por oficiais no intuito de eliminar os anarquistas. Ao invés de utilizar a fotografia para expressar os sentimentos do personagem, o diretor mantém o close e faz com que Marius cante seus sentimentos, cena que rapidamente teria mais efeito e não envolveria o público em um roteiro que não exibe apenas maravilhosos diálogos em tom musical, mas conta com excessivos detalhamentos (mastigados) que incomodam dentro de um filme deste nível. Sem contar a incapacidade critica de Tom em utilizar ângulos que não tornem as tomadas em close todas parecidas ou até mesmo iguais. Inúmeras vezes o diretor se limita em filmar os atores de baixo para cima e focar toda a música cantada por eles e fazer o desvio de cenas com tomadas superiores e força os competentes atores a se rebaixarem em sua medíocre e passada técnica de personagens tristes que cantam para o céu esperando uma intervenção divina. Como se não fosse forçado o bastante, parece que houve um pedido para que as legendas do filme fossem jogadas para os cantos da tela para não interferirem nas tomadas, deixando-as ainda mais infelizes. Dentro disso, o filme foge do desastre pela extrema competência vinda de Hugh Jackman, Russel Crowe, Anne Hathaway (que apesar de todos os elogios possuí uma aparição menor do que o reconhecimento feito nas premiações), o ótimo elenco secundário, contando com os divertidíssimos Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter que amenizam o palco de lamentações construído pelo diretor.

Inúmeros elementos ótimos, como a própria fonte da adaptação, os atores, uma ambientação sensacional e bela, Os Miseráveis sofre um impacto frontal com a falta de capacidade de um diretor em compreender a necessidade de uma execução competente na fotografia para estabelecer uma comunicação e uma narrativa mais astuta e precisa, fazendo toda a narrativa fluir. O fato do longa estar concorrendo a inúmeras categorias no Oscar, inclusive de melhor filme, mesmo possuindo uma autodestrutiva e imperdoável fotografia, mostra como os membros da academia possuem uma queda cega por musicais, sejam eles quais forem.

Nota: 6,8/10

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