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12.1.13

Crítica: A Viagem



A VIAGEM
Cloud Atlas 

EUA, Alemanha , 2012 - 163 min.
Drama / Fantasia / Ficção científica

Direção:
Andy Wachowski, Lana Wachowski, Tom Tykwer

Roteiro:
Andy Wachowski, Lana Wachowski, Tom Tykwer

Elenco:
Tom Hanks, Halle Berry, Hugh Grant, Susan Sarandon, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Ben Whishaw, Keith David, David Gyasi, Zhou Xun, Doona Bae


Não é de hoje que a situação dos Irmãos Wachowski (Matrix, V de Vingança) se encontra bem delicada. Isso porque seus últimos filmes deveram (e muito) um retorno financeiro. Dentro de um mercado que sobrevive de investidores a cada longa produzido, isso é catastrófico. Não importa o quão bom seja o filme, se ele não for lucrativo, a credibilidade dos diretores afunda frente aos estúdios. Diante disso, Lana e Larry Wachowski, junto de Tom Tykwer, tinham a difícil missão de reverter tudo isso com A Viagem. Apesar de todos os méritos do longa, a recepção não poderia ter sido pior. É mais do que declarado, que agora, os Wachowski entraram em um futuro incerto, assim como retrata seu filme.

Na complexa trama, que consiste em contar seis diferentes histórias em seis diferentes épocas, desde 1849 (em uma história de escravatura) até milhões de anos no futuro, 106 anos depois de um evento chamado A Queda, passando por 1946 (no pós-guerra inglês, em uma história sobre um amor homossexual proibido e a criação de uma obra-prima musical), 1973 (com uma investigação jornalística sobre usinas nucleares em São Francisco), 2012 (com uma engraçadíssima comédia britânica sobre um grupo de velhinhos tentando fugir de uma casa de repouso) e, enfim, 2144 (em Nova Seul, em uma ficção científica cyber punk com uma empregada fabricada de uma cadeia de restaurantes tornando-se a líder de uma revolução). Tudo ali, uma hora, incrivelmente, irá se conectar. Assim como já previa o cartaz.

Antes de descrever os inúmeros acertos dos realizadores no projeto, já antecipo a resposta de uma pergunta que qualquer um faria: "Tudo isso não é confuso demais?". Sim, de fato, é. A edição dos três diretores não é precisa, neste aspecto. A conexão "filme" e "telespectador" demora demais para ocorrer. Com uma extensa história, que é cortada aleatoriamente na primeira hora, ficamos à mercê da construção de personagens e de ambientações espetaculares sem compreender, afinal, o que tudo aquilo quer dizer. Felizmente a situação muda e uma vez conectado, A Viagem dará ao público jus ao titulo que recebeu.

A intenção do longa, de longe e com outros conceitos, lembra Árvore da Vida, de Terrence Mallick. Semelhante ao longa de Mallick, os realizadores pulam de épocas distintas para transpor mensagem superior e filosófica, que aqui, vem do romance de Don Mitchell, Cloud Atlas. Entre inúmeras questões, sejam elas: poder, amor, humanidade, religião (aqui, há uma interessantíssima alusão metafórica da visão humana sobre Jesus Cristo), fé, ganância, crueldade, entre muitas outras, os Wachowski mostram, sob uma visão bastante peculiar, como o passado, presente e futuro da humanidade é reflexo dos mesmos acertos e erros, indiferente da época que se passam. Mais do que isso: a vida que você constrói hoje, boa ou ruim, será de certa forma, compensada por tudo o que cometeu. Afinal, como dizia Freud, toda ação possui uma reação. Dentro disso, A Viagem trabalha, de forma instigante, a teoria do caos.

Para retratar toda esta montanha de assuntos, os diretores trouxeram Tom Hanks, Halle Berry, Hugh Grant, Susan Sarandon, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Ben Whishaw, Keith David, David Gyasi, Zhou Xun, Doona Bae, todos excelentes em seus receptivos papeis. Em mérito ao grandioso elenco, o roteiro possui espaço para explorar todos eles, em longos 172 minutos, em suas inúmeras versões e personagens, nas diferentes épocas. Tudo chega a espantar (positivamente) pelo resultado.

Cada universo e época criada transpõem originalidade (em especial, a excepcional Nova Seul) e para alivio de público, é competente e marcante o suficiente para que, após um tempo, o público sabia que época o longa está, apenas pela personalidade de cada lugar.

Em quesitos técnicos, Cloud Atlas dispõe da melhor fase dos irmãos Wachowski. Fotografia, trilha sonora, figurino, ambientação, efeitos especiais, maquiagem revelam extremo bom gosto, aliado ao estilo sanguinolento e ao mesmo tempo belo de direção (coisa rara), fazem do longa, em questões plásticas, um dos mais belos de suas carreiras.

Ao fim, em meio a tantas histórias, A Viagem mostra que, não importa a época em que vivemos, sempre haverá quem quer fazer o bem e quem se opõe a ele. A questão é: você está preparado para fazer a coisa certa?

Nota: 8/10


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