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27.1.13

Crítica: As Aventuras de Pi


AS AVENTURAS DE PI
The Life of Pi


Estados Unidos, Taiwan, 2012 - 127 min.
Aventura / Drama


Direção: 
Ang Lee

Roteiro:
David Magee


Elenco:
Suraj Sharma, Irrfan Khan, Tabu, Adil Hussain, Gerard Depardieu, Rafe Spall


* Indicado ao Oscar 2013

Ang Lee é um diretor cujas competências e qualidades ultrapassam gêneros, tornando-se incrivelmente flexível. De super-herói para um romance homossexual, da espionagem chinesa para Woodstock, são exemplos desta habilidade em citação aos seus 4 últimos trabalhos. Agora Lee adapta o livro de Yann Martel “The Life of Pi”. Através de simbolismos e metáforas indianas, o diretor taiwanês concebe As Aventuras de Pi sobre fé, religião e vida.

A adaptação conta a história de um garoto indiano que está mudando com sua família para o Canadá em busca de melhores oportunidades de trabalho. De navio, a família leva consigo alguns dos animais que possuíam em seu zoológico de seu país de origem. Diante uma terrível tempestade, o navio afunda levando Pi a permanecer em um bote salva-vidas com uma zebra, um orangotango, uma hiena e um tigre. Através da narração do próprio garoto já bem mais velho, vamos conhecendo detalhes junto de um escrito cético que foi persuadido por um familiar de Pi a conhecê-lo para provar a existência de Deus.

Para que o protagonista tivesse intensa interação com os animais, em especial o tigre, Ang Lee se apodera de uma computação gráfica extremamente eficaz. Mesmo sabendo que na vida real a interação com o animal seria praticamente impossível, Lee consegue executa-la em CGI de forma que o telespectador esqueça completamente após um tempo que o animal, de fato, não é real. Precisa, a fotografia capta com competência aos ambientes de cena (que utilizam com precisão elementos indianos, sem exagerar), sequências de ação, dialogo e interações. Só peca quando força, através da perfeição, deixar o longa artisticamente espiritual com uma palheta de cores que artificializam determinadas cenas. Erro cometido com bastante frequência em “Um Olhar do Paraíso”, de Peter Jackson. Em algumas escolhas criativas, o diretor taiwanês faz As Aventuras de Pi lembrar o mundo de Pandora, em Avatar. Quando o garoto consegue chegar a uma exótica ilha, ao anoitecer, é inegável a semelhança com a película de James Cameron, apesar da adaptação não ser, nem de longe, uma cópia do filme de 2009.

O diretor de O Segredo de Brokeback Mountain espelha todas as abordagens de “The Life of Pi” nos animais que cercam o garoto, reforçando a força no núcleo central através da cultura indiana e seu misticismo. O tigre, por exemplo, representa todas as dificuldades que o garoto precisará enfrentar e não apenas livrar-se, como se adaptar a elas. Em cima do naufrágio, testa a fé de uma pessoa confusa sobre o que realmente acreditar. Entre simbolismo e metáforas indianas faz, acima de tudo, apologia da fé. Acreditar em Deus, possuir fé além do retorno recebido ou de ter compreendido as verdadeiras razões do criador do universo sobre nossas vidas, pois no fim, ele sabe o que faz. E independente da sua crença, faça o melhor que puder fazer, para você ou para os outros, um dia, terá sua recompensa.

A adaptação de Ang Lee ao conceituado livro demonstra todo o respeito exigido pela obra. Anteriormente ao longa entrar em produção, M. Night Shayamalan havia cogitado para dirigir o filme e, felizmente, isso não aconteceu. E acho que não é necessário justificar isso, A Vila, Dama na Água, Fim dos Tempos e O Último Mestre do Ar dizem por si próprios. 

Nota: 8,8/10

23.1.13

Crítica: Indomável Sonhadora


INDOMÁVEL SONHADORA
Beasts of the Southern Wild


Estados Unidos, 2012 - 93 minutos
Fantasia


Direção: 
Benh Zeitlin

Roteiro:
Lucy Alibar e Benh Zeitlin

Elenco: 
Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Lowell Landes, Pamela Harper, Gina Montana, Henry D. Coleman

* Indicado ao Oscar 2013


É cada vez mais raro dentro do cinema um diretor desconhecido e novato abraçar seu primeiro projeto e logo de cara, obter extremo sucesso. A última vez que me lembro, no momento, de uma situação parecida foi com Neill Blomkamp e seu Distrito 9, que obteve ajuda do gigante Peter Jackson. Aqui, o estreante Benh Zeitlin teve um baixíssimo orçamento de uma produtora também novata em produções cinematográficas, a Court 13 Pictures. Para completar, os protagonistas da longa, Quvenzhané Wallis e Dwight Henry estreiam aqui em suas carreiras como atores. O Resultado tinha tudo para ser negativo e amador, no entanto, Indomável Sonhadora é um espetáculo de competências e criticas contra a sociedade.

A história conta a história de Hushpuppy (Quvenzhané Wallis) e seu pai Wink (Dwight Henry) que vivem em um local denominado "A banheira", uma espécie de ilha que fora cercada pelas cidades ao seu redor devido o derretimento das calotas polares que ameaçam, em qualquer instante, deixar o local submerso. À medida que Wink fica doente, corre-se contra o tempo para ensinar a garota de 6 anos a sobreviver naquele local.

Logo de cara entendemos que o longa faz uma gritante referência ao furacão Katrina e sua imensa devastação. Zeitlin criou alguns anos a produtora do longa para promover o cinema independente em Nova Orleans depois da passagem do Katrina. A inspiração da "Banheira" remete-se a uma ilha próximo à Louisiana e que, a cada dia que se passa, desaparece um pedaço pelo mar que a consome e iguais aos teimosos moradores da "banheira", os habitantes da Isle de Jean Charles também resistem violentamente a abandonar o local. A ambientação quase pós-apocalíptica e perturbadora, encara o sofrimento dos habitantes de Nova Orleans quando o furação destruiu tudo. De certa forma, também questiona a relutação destas pessoas em deixar um local condenado. E é quando Behn atinge o telespectador.

Para a sociedade, os habitantes da "banheira" vivem uma vida miserável e desgraçada, de uma possível morte eminente, sem qualquer tipo de infraestrutura. Para a população do local, morar adentro aos muros que separam eles das cidades, é viver condenadamente presos a padrões e modos inaceitáveis, a seu ponto de vista. Considerando toda a nossa sociedade, cada vez mais cruel e violenta, os desastres, a extrema pobreza e o modo de enxergar destas pessoas ficam mais compreensíveis e instáveis em nós.

Para a realização deste difícil trabalho, Zeitlin conta com a excepcionalidade dos atores protagonistas. É surpreendente a performance de ambos. Quvenzhané Wallis atinge um nível incomum e raro de atuação para a sua idade. De um brutal convencimento. Sua performance equivale a de Abigail Breslin e Hailee Steinfeld em Pequena Miss Sunshine e Bravura Indômita, respectivamente. A fotografia inquieta do diretor alcança com êxito o realismo necessário do projeto e sabe, também, ser bela quando necessário.

Sem apelar para um dramalhão sem fim, o estreante diretor vai conduzindo a história sobre a narrativa e pensamentos da pequena garota. Em cima dela, constrói uma bela fabula para introduzir o telespectador a dois pontos de vista que devem ser compreendidos e relevados de maneiras diferentes. O que é real e o que, de fato, é imaginário e ilusório. Quando Wink promete a garota, ser rainha do local onde moram, é como se a garota fosse rainha de um castelo de ar. Afinal, a cada momento que passa, a "banheira" morre aos poucos. Ao encontrar uma gigantesca fera em um momento crucial da trama, Hushpuppy para de correr e os encara. Ali fica bem claro que todos os problemas daquele lugar devem ser batidos de frente, se quiserem viver lá. Não há ilusões, se não há esperança.

Sob uma relação violenta e conturbada com o pai, Hushpuppy entende o amor de Wink. São suas feras selvagens se trombando de igual. E aí, Indomável Sonhadora mostra a força de uma relação longe de rótulos e estereótipos, que exige incondicionalmente de um sentimento de vive no coração até dos mais brutais, o amor. 


Nota: 8,7/10


20.1.13

Crítica: Django Livre

DJANGO LIVRE
Django Unchained 

EUA , 2012 - 165 min. 
Faroeste

Direção: 
Quentin Tarantino

Roteiro: 
Quentin Tarantino

Elenco: 
Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson, Zoë Bell, Kerry Williams, James Remar

* Indicado ao Oscar 2013
  
Em 2009, quando Quentin Tarantino nos entregou Bastardos Inglórios, estávamos diante de um dos maiores jovens clássicos do cinema. A maior obra-prima deste diretor talentosíssimo retrava os horrores do nazismo sob seu olhar criativo e em cima de tamanhas atrocidades, preparava um delicioso plano de vingança contra os homens de Hitler. Em Django Livre, uma espécie de continuação e o segundo filme de uma possível trilogia, segundo o próprio diretor, segue os moldes de Bastardos Inglórios, mas dentro de outra terrível época: a escravatura. Divertidíssimo, afiado e surtado, o novo longa de Tarantino é um espetáculo imperdível, no entanto, incapaz de atingir a epicidade do tenente Aldo Raine e seus doentios soldados.

A trama retrocede o nazismo e volta para a escravatura. No sul dos Estados Unidos, onde a escravidão era ainda mais violenta Django (Jamie Foxx) é liberto pelo caçador de recompensas Dr. Schultz (Christoph Waltz). Em busca de vingança e procurando resgatar sua esposa, o escravo acompanha o alemão em sua jornada entre as fazendas do Texas e Mississipi até as terras de Candyland, do monstruoso fazendeiro Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), onde se encontra a esposa de Django.

Contido no longa dos nazistas no aspecto “sangue”, Tarantino se redime aqui em um espetáculo sanguinolento, característica registrada do diretor. A edição de som é audaciosa: de opera à rap, inúmeras músicas são adicionadas e trocadas durante o filme em uma questão de curtos takes. O mais impressionante é que em boa parte do tempo, o ritmo e contexto da trilha mudam radicalmente. Incrivelmente, isto funciona extremamente bem. Assim como a fotografia granulada e os closes violentamente forçados, dando o tom trash necessário exigido pelo roteiro. É a reencarnação dos clássicos filmes “B” de Tarantino, que sabiamente entendeu que não funcionariam em Bastardos Inglórios e que aqui cai como uma luva.

Outra característica de Quentin é o roteiro e Django Livre não faz por menos. Diálogos afiadíssimos, situações excelentes e uma construção de arco dramático admirável. É impressionante e extremamente louvável como o diretor consegue pular de extremos, sem prejudicar o clima da película. Tarantino compreende a seriedade do tema retratado e sabe ser sério quando necessário. Adiciona elementos clássicos da época e não polpa o telespectador (como nunca o fez) em presenciar o que muitos negros foram obrigados a passar naquela época. Ao mesmo tempo, saí destas cenas e volta ao clima trash/humor sem qualquer problema e intacto. Gênio.

Em Bastardos Inglórios, muito da potência do longa vinha dos atores. Em Django Livre, não é diferente. Christoph Waltz deixa coronel Hans Landa de lado e, ironicamente, faz o papel de um carismático e bondoso homem. Admirável como o ator austríaco consegue transformar todas as repulsivas características do seu papel nazista no filme anterior, para algo com que o público consiga se conectar com muita precisão. Jamie Foxx também não faz por menos no papel de Django. A química entre ele e Waltz é alucinante. O destaque, porém, vem de Leonardo DiCaprio e de um surpreendente Samuel L. Jackson.  Incrível a transformação de DiCaprio desde Titanic. A força que o ator fez para que sua carreira não vivesse à sombra do iconográfico Jack é admirável. Aqui, chega ao ápice de sua carreira e seus olhos a cada close, mostram a permanente mudança. Monstruoso e doentio, seu personagem é um poço de explorações que o ator sabe usar esplendorosamente. Já Samuel L. Jackson, que vive o empregado de Candie, em sua fazenda no Mississipi, é um espetáculo à parte. Fazia anos que L. Jackson não embarcava em um personagem tão divertido e memorável que conseguisse, de fato, fazer jus ao seu talento. É o personagem mais revoltante de toda a película e que traz os pontos altos do longa.

Retratando os horrores da escravatura, Tarantino consegue adicionar ao meio do caos narrativo que cria, pequenos detalhes culturais que fazem a experiência de Django ser ainda mais rica. É a mitologia romântica alemã, a minuciosa diferença cultural que abrange os personagens, principalmente entre Schultz (alemão) e Candie (sul dos Estados Unidos), que vem de situações extremamente simples, mas imprescindíveis, como o aperto de mão forçado pelo sulista. É Tarantino sendo Tarantino, em um subgênero que ele mesmo criou.

Django Livre é espetacular e obrigatório para os fãs do diretor. Mas atingir a perfeição de Bastardos Inglórios, não será um feito construído do dia para a noite. 

Nota: 9,2/10

19.1.13

Crítica: Amor


AMOR
Amour 

Áustria, 2012 - 125 min.
Drama

Direção:
Michael Haneke

Roteiro:
Michael Haneke

Elenco:
Emmanuelle Riva, Jean-Louis Trintignant, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud

* Indicado ao Oscar 2013

Michael Haneke, assim como Lars von Trier, faz parte de uma pequena lista de diretores que conseguem extrair de, aparentemente, pequenos projetos, um vasto campo de reflexão, sentimentos, de maneira maciça e permanente na mente do telespectador. Diferente do diretor dinamarquês, Haneke utiliza simbolismos e metáforas mais próximas à visão da realidade, permitindo que o público se conecte assombrosamente com suas obras. Em Amor, o diretor austríaco concede a sua visão perante o fim da vida. Em um misto de silencio e angustia, ele nos conduz a uma eminência que prova que nem todos os rodeios podem nos preparar para a morte.

Na película conhecemos Georges e Anne, um casal de músicos idosos que, aposentados, desfrutam da velhice.  Um dia, repentinamente, Anne sofre um derrame que lentamente vai destruindo a vida do casal.

Desde a abertura, até o último take, Haneke é perfeito em todas as suas escolhas. A fotografia, ambientação, trilha sonora (ou a ausência dela), os closes, iluminação são de extremo bom gosto e precisão para contextualizar todo seu trabalho. A inteligente abertura demonstra a força de todo o arco dramático que é construído durante a película, assim como von Trier fez em Melancolia. Já as atuações de Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant são simplesmente indescritíveis.  Desde a incorporação dos personagens, interação e minuciosas expressões que exploram, gloriosamente, cada sentimento, seja de amor ou dor, que ambos passam desde a primeira sequencia do longa até o fim. Absurdamente soberbo, encantador e memorável.

A direção de Haneke é um universo à parte.  Desde a sutileza do diretor em deixar imóvel a câmera para a plateia no começo do filme, mostrando delicada e respeitosamente a expressão do público e importância do discurso que antecede a apresentação do concerto diante da arte e a experiência única que só pode ser sentida pelas pessoas que, de fato, estão presente no momento, até a combinação visual e sonora para demonstrar friamente (mesmo que, em todo o tempo, utilize uma ambientação aconchegante) ao telespectador a vida de duas pessoas, que se amaram durante décadas, criaram um lugar no mundo que pudessem viver sob seus gostos, e com a aproximação da morte, tudo começa a parecer histórico demais e antiquado. É o tempo mostrando a força de uma nova geração se aproximando e apagando, involuntariamente, a antiga.  Quando tudo se vai, olhar para cada parede do aconchegante e espaçoso apartamento do casal é ver a exposição de toda uma adorável vida que foi reduzida a lembranças. 

Amor em todos os momentos se declara, sutilmente, como uma obra-prima.  Uma silenciosa e triste viagem entre o fim da vida e a morte, orquestrada de forma majestosa por um dos melhores diretores da atualidade.

Nota: 10/10

17.1.13

Crítica: O Voo


O VOO
Flight

Estados Unidos, 2013 - 138 min.
Drama

Diretor:
Robert Zemeckis

Roteiro:
John Gatins

Elenco:
Denzel Washington, Kelly Reilly, Dom Cheadle, Bruce Greenwood

* Indicado ao Oscar 2013

Após uma longa jornada, não tão bem sucedida em animações, Robert Zemeckis volta aos live-actions com O Voo. Mais que retornar bem sucedido, o diretor de "De Volta para o Futuro" faz um elogiável e impressionante estudo sobre moral e justiça.

Na trama, somos apresentados à Whip Whitaker (Denzel Washington), um alcoólatra piloto de voos comerciais que, durante um voo de rotina, o avião sofre um grave problema técnico, condenando eminentemente a tribulação. Após milagrosamente conseguir pousar a aeronave com mínimos danos possíveis, Whitaker é considerado um herói. Durante uma investigação interna, é descoberto que Whip consumiu álcool antes do voo, comprometendo não apenas o ato de heroísmo denominado, mas sua liberdade.

Sem priorizar o desastre em si, Zemeckis decide em construir, profundamente, Whitaker. Com uma vida cheia de amarguras, Whip deposita toda a sua energia consumindo álcool e drogas. Principalmente pelo casamento mal sucedido, e por consequência, o afastamento de seu filho. Dentre inúmeras tentativas de parar com os vícios, a situação piora gradualmente. Apesar de tudo, é um homem integro. Tão integro, que dúvida de si próprio, mesmo tentando se convencer do contrário, de que todo o acidente foi amenizado por sua causa. Ninguém melhor que Denzel Washington poderia ter sido escolhido para o papel. Sem fazer nada parecer forçado ou clichê, suas expressões transpõem, maravilhosa e sutilmente, todas as características descritas anteriormente. Mesmo que o papel de bêbado seja, em si, utilizado em centenas e diversos filmes e personagens diferentes, Washington sabe caracterizar minuciosamente seu personagem. Impressiona, dramaturgicamente, quando consegue focar tudo em apenas um olhar. É como se seus olhos traduzissem toda sua inocência e sofrimento, ao mesmo tempo. Com uma fotografia que utiliza uma palheta fria e levemente sombria durante os momentos de embriaguez, sua desenvoltura beira a perfeição. Segue também, com muita competência, Dom Cheadle no elenco secundário.

O Voo atinge os limites de um homem confuso, entre fazer o que é certo ou a benefício próprio. O certo equivale a uma punição desnecessária e deixar de fazê-lo, significa ser injusto. Imoral. Seria fácil para o público determinar uma posição diante esta situação, se não tivesse um excepcional homem que salvou a vida de 95 pessoas, o inegável e penetrante carisma de Denzel Washington como barreira.

O retorno de Robert Zemeckis não poderia ter sido mais certeiro.

Nota: 8,8/10

Crítica: O Lado Bom da Vida


O LADO BOM DA VIDA
Silver Linings Playbook

Estados Unidos, 2012 - 120 min.
Comédia / Drama

Direção:
David O. Russell

Roteiro:
David O. Russell

Elenco:
Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Chris Tucker, Julia Stiles, Shea Whigham, Anupam Kher, Jacki Weaver, Dash Mihok

* Indicado ao Oscar 2013

Difícil trabalho os diretores possuem. Primeiro, porque nem sempre é possível trazer algo realmente inovador dentro de um filme. Segundo, porque ainda mais difícil, é retratar um longa simples, de maneira magnífica. Coisa rara, na verdade. Nisso, Marc Webber se destacou, com 500 Dias com ela. E o trabalho de David O Russell agora, em O Lado Bom da Vida, repete a formula de Webber, transpondo uma simples e conhecida história, de maneira magnificamente única, precisa e que conta, exclusivamente, com a excelência de seus atores. Competente, O. Russel extraí a melhor atuação da carreira de Bradley Cooper.

A história retrata Pat (Cooper), um homem que sofre de distúrbio de bipolaridade, e um dia, perde toda a sua vida indo parar em um hospital psiquiátrico por quase ter matado o amante de sua esposa, em um acesso de raiva. Com ordem de restrição à esposa, ele volta a morar na casa dos pais para tentar recompor sua vida e assim, ter sua esposa de volta. Em um jantar familiar na casa de um amigo, Pat conhece Tiffany (Jennifer Lawrence), uma jovem perturbada e deprimida pela repentina e absurda morte de seu marido. Entre uma discussão e outra, ambos enxergam a possibilidade de superarem seus problemas com mútua ajuda.

De trama simples, o diretor americano concentra-se basicamente em uma edição veloz, diálogos afiadíssimos, atuações e personagens maravilhosos e totalmente conectados. Sem ser deprimido demais, David sabe incluir um sutil humor em situações delicadíssimas, que em uma ocasião real beiraria o trágico, que aqui, são retratadas com um bom senso de humor, sem nunca parecer exagerado. Consegue expor todas as consequências da doença do personagem principal, sem ser deprimido demais. Para conectar o telespectador à Pat, O. Russel casualmente utiliza de uma narrativa que retrata toda a situação decorrente em diversas partes do longa, através da visão do personagem, fazendo com que o público compreenda, as vezes, as bizarrices cometidas pelo protagonista.

Mas tudo seria inválido se não contasse com atuações brilhantes. A interação entre Bradley Cooper e Jennifer Lawrance é maravilhosa e divertidíssima. Muito ajuda também o elenco secundário, como Robert De Niro, como um pai obsessivo-compulsivo de Pat e Chris Tucker, como o amigo louco que frequentemente foge da clínica psiquiátrica. Quando o diretor decide colocar todos em cena de uma só vez, atinge o ápice da película. É um show de grandes. E o enquadramento de David capta com perfeição toda esta exalação.

O Lado Bom da Vida quer nos passar superação. Superação não de apenas conseguir seguir em frente, mas de entender que o que era bom antigamente, nem sempre é o melhor para nós agora. Que por mais feia e terrível que a situação esteja, uma coisa é certa: nada acontece por acaso. Basta você estar disposto a olhar atentamente o que está ao seu redor.

Nota: 8,5/10

12.1.13

Crítica: A Viagem



A VIAGEM
Cloud Atlas 

EUA, Alemanha , 2012 - 163 min.
Drama / Fantasia / Ficção científica

Direção:
Andy Wachowski, Lana Wachowski, Tom Tykwer

Roteiro:
Andy Wachowski, Lana Wachowski, Tom Tykwer

Elenco:
Tom Hanks, Halle Berry, Hugh Grant, Susan Sarandon, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Ben Whishaw, Keith David, David Gyasi, Zhou Xun, Doona Bae


Não é de hoje que a situação dos Irmãos Wachowski (Matrix, V de Vingança) se encontra bem delicada. Isso porque seus últimos filmes deveram (e muito) um retorno financeiro. Dentro de um mercado que sobrevive de investidores a cada longa produzido, isso é catastrófico. Não importa o quão bom seja o filme, se ele não for lucrativo, a credibilidade dos diretores afunda frente aos estúdios. Diante disso, Lana e Larry Wachowski, junto de Tom Tykwer, tinham a difícil missão de reverter tudo isso com A Viagem. Apesar de todos os méritos do longa, a recepção não poderia ter sido pior. É mais do que declarado, que agora, os Wachowski entraram em um futuro incerto, assim como retrata seu filme.

Na complexa trama, que consiste em contar seis diferentes histórias em seis diferentes épocas, desde 1849 (em uma história de escravatura) até milhões de anos no futuro, 106 anos depois de um evento chamado A Queda, passando por 1946 (no pós-guerra inglês, em uma história sobre um amor homossexual proibido e a criação de uma obra-prima musical), 1973 (com uma investigação jornalística sobre usinas nucleares em São Francisco), 2012 (com uma engraçadíssima comédia britânica sobre um grupo de velhinhos tentando fugir de uma casa de repouso) e, enfim, 2144 (em Nova Seul, em uma ficção científica cyber punk com uma empregada fabricada de uma cadeia de restaurantes tornando-se a líder de uma revolução). Tudo ali, uma hora, incrivelmente, irá se conectar. Assim como já previa o cartaz.

Antes de descrever os inúmeros acertos dos realizadores no projeto, já antecipo a resposta de uma pergunta que qualquer um faria: "Tudo isso não é confuso demais?". Sim, de fato, é. A edição dos três diretores não é precisa, neste aspecto. A conexão "filme" e "telespectador" demora demais para ocorrer. Com uma extensa história, que é cortada aleatoriamente na primeira hora, ficamos à mercê da construção de personagens e de ambientações espetaculares sem compreender, afinal, o que tudo aquilo quer dizer. Felizmente a situação muda e uma vez conectado, A Viagem dará ao público jus ao titulo que recebeu.

A intenção do longa, de longe e com outros conceitos, lembra Árvore da Vida, de Terrence Mallick. Semelhante ao longa de Mallick, os realizadores pulam de épocas distintas para transpor mensagem superior e filosófica, que aqui, vem do romance de Don Mitchell, Cloud Atlas. Entre inúmeras questões, sejam elas: poder, amor, humanidade, religião (aqui, há uma interessantíssima alusão metafórica da visão humana sobre Jesus Cristo), fé, ganância, crueldade, entre muitas outras, os Wachowski mostram, sob uma visão bastante peculiar, como o passado, presente e futuro da humanidade é reflexo dos mesmos acertos e erros, indiferente da época que se passam. Mais do que isso: a vida que você constrói hoje, boa ou ruim, será de certa forma, compensada por tudo o que cometeu. Afinal, como dizia Freud, toda ação possui uma reação. Dentro disso, A Viagem trabalha, de forma instigante, a teoria do caos.

Para retratar toda esta montanha de assuntos, os diretores trouxeram Tom Hanks, Halle Berry, Hugh Grant, Susan Sarandon, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Ben Whishaw, Keith David, David Gyasi, Zhou Xun, Doona Bae, todos excelentes em seus receptivos papeis. Em mérito ao grandioso elenco, o roteiro possui espaço para explorar todos eles, em longos 172 minutos, em suas inúmeras versões e personagens, nas diferentes épocas. Tudo chega a espantar (positivamente) pelo resultado.

Cada universo e época criada transpõem originalidade (em especial, a excepcional Nova Seul) e para alivio de público, é competente e marcante o suficiente para que, após um tempo, o público sabia que época o longa está, apenas pela personalidade de cada lugar.

Em quesitos técnicos, Cloud Atlas dispõe da melhor fase dos irmãos Wachowski. Fotografia, trilha sonora, figurino, ambientação, efeitos especiais, maquiagem revelam extremo bom gosto, aliado ao estilo sanguinolento e ao mesmo tempo belo de direção (coisa rara), fazem do longa, em questões plásticas, um dos mais belos de suas carreiras.

Ao fim, em meio a tantas histórias, A Viagem mostra que, não importa a época em que vivemos, sempre haverá quem quer fazer o bem e quem se opõe a ele. A questão é: você está preparado para fazer a coisa certa?

Nota: 8/10


10.1.13

Crítica: O Impossível

O IMPOSSÍVEL
The Impossible 

Espanha, 2012 - 107 min. 
Drama / Suspense

Direção: 
Juan Antonio Bayona

Roteiro: 
Sergio G. Sánchez

Elenco: 
Ewan McGregor, Naomi Watts, Geraldine Chaplin, Marta Etura, Tom Holland, Sönke Möhring, Oaklee Pendergast, Samuel Joslin

Em 2004, não houve ninguém que não tenha se emocionado com a tragédia que atingiu o oceano Índico um dia após o Natal. Foram 226.306 mil vítimas. Uma das maiores catástrofes naturais da história. Juan Antonio Bayona retrata toda a dor, caos e sofrimento das pessoas que estavam lá em “O Impossível”. Tocante, sensível e incrivelmente humano, o longa do diretor espanhol é um símbolo de esperança em um mundo cada vez mais indiferente ao próximo.

Para a condução da história, Bayona adapta o livro de Maria Belon (que tem o sobrenome trocado no filme), sobrevivente e protagonista do longa (vivida maravilhosamente por Naomi Watts), cuja a família é arrastada (e defasada violentamente) pela gigantesca onda e, diante do caos, tentam sobreviver.

A direção de Juan Antonio é inteligente em não criar diversos protagonistas para retratar amplamente toda a situação ocorrida e assim sendo, se perder no mal desenvolvimento de personagens. Através da família Bennett, o diretor busca conduzir o telespectador sob tomadas magníficas a tragédia que os cercam, mas esperto, sabe explorar tomadas abrangentes, que não faça o público esquecer que a película não fala apenas de uma família e sim, de toda a tragédia. Mas como a utiliza em situações e símbolos de todo o ocorrido, explora, impiedosamente às vezes, os atores para a extração mais refinada o possível de suas atuações para passar, em suas expressões, todo o pavoroso evento. O elenco está simplesmente irretocável. Impossível não se comover.

Obviamente que, em uma situação devastadora como essa, as gigantescas ondas são apenas o inicio do sofrimento e atento disso, Bayona conduz o público através de visões diferentes entre os membros da família Bennett para enriquecer sua obra e fazer com que o telespectador, através de inúmeras situações, tenha maior acontecimento das consequências do desastre natural. Em extrema competência, a cada tomada que avança, Juan se aprofunda humanamente e a emoção perante toda a destruição é eminente. E o diretor espanhol mostra-se inquietamente frio em não poupar o público de cenas torturantes de se presenciar, mas que retrata com extremo realismo (alias, a maquiagem do longa é absolutamente real e tão competente que torna-se quase tangível toda a dor e sofrimento dos personagens) o perturbador tsunami.

Com técnicas irrepreensíveis em geral, como a intensa (e extraordinária) cena em que o hotel da família é atingido pela primeira onda, e uma direção precisa e sensível, Bayona se faz questionar afinal a escolha do elenco, que apesar de extremamente competente em geral, deturpa levemente os protagonistas do acontecimento. Espanhóis, de nada lembram o elenco britânico, e de fato é questionável, pois os nomes típicos do país espanhol pouco convencem aos sotaques ingleses. Nada que tire a força da película, de fato.

Apesar da intensa cobertura jornalística na época, nenhuma reportagem consegue fazer as pessoas compreendem a brutalidade do ocorrido em 26 de Dezembro de 2004. Mas Juan Antonio Bayona consegue, através desta obra absolutamente tocante, fazer com que o telespectador sinta na pele a dor da destruição e quando ela ocorre, os padrões sociais simplesmente desabam e toca o lado mais profundo de cada ser humano, cada vez mais esquecido hoje em dia. 

Nota: 9,5/10


Crítica: O Hobbit - Uma Jornada Inesperada


O HOBBIT - UMA JORNADA INESPERADA
The Hobbit - An Unexpected Journey 

Nova Zelândia, Estados Unidos, 2012 - 169 min. 
Fantasia

Direção: 
Peter Jackson

Roteiro: 
Peter Jackson, Fran Walsh, Philippa Boyens, Guillermo del Toro

Elenco: 
Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage, James Nesbitt, Adam Brown, Aidan Turner, Dean O'Gorman, Graham McTavish, John Callen, Stephen Hunter, Mark Hadlow, Manu Bennett, Peter Hambleton, Ken Stott, Jed Brophy, William Kircher, Jeffrey Thomas, Mike Mizrahi, Cate Blanchett, Hugo Weaving, Elijah Wood, Andy Serkis, Sylvester McCoy, Lee Pace, Bret McKenzie, Barry Humphries, Benedict Cumberbatch

Peter Jackson tem uma característica muito comum entre os diretores europeus, mas que é um tanto incomum entre os americanos, em especiais, os que produzem filmes de grandes produções: obsessão por detalhes. Esta obsessão, de fato, já lhe proporcionou bens e males: A trilogia de Senhor dos Anéis e Um Olhar do Paraíso. Diferente dos diretores europeus, a riqueza de detalhes de Jackson, apesar de rica, nem sempre acrescenta algo ao núcleo central da trama e o último filme citado é um exemplo bem claro disso. E, felizmente e infelizmente, O Hobbit se beneficia e sofre ao mesmo tempo com isso.

A história é paralela e de certa forma, um prelúdio da famosa trilogia de Tolkien, onde Bilbo Bolseiro é convidado pelo mago Gandalf, a embarcar em uma aventura junto do rei Thorin mais uma dúzia de anões que tem como objetivo resgatar Erebor de um dragão. No entanto, à medida que avançam, outros inimigos se mostrarão tão mortais o quanto.

O longa, assim como todos os outros do diretor neozelandês se beneficia de um admirável cuidado e meticuloso trabalho com efeitos especiais, fotografia, trilha sonora, maquiagem, design de produção e ambientação. Nisso, O Hobbit é praticamente irretocável. No entanto, o roteiro que teve como objetivo desde o princípio expandir o livro original em detalhes abusa excessivamente nesta expansão, que aliado a um elenco primário não tão interessante (os anões sem grande desenvolvimento, são praticamente descartáveis), faz com que a película perca a força.

A falha de Jackson é deixar o roteiro excessivamente dispersivo e que prioriza por demais tramas paralelas ao núcleo central. Há incontáveis cenas que não acrescentam absolutamente nada a trama. Mas que, por ironia, funcionam de forma excelente individualmente. Não seriam talvez tão incômodas, no entanto, se o longa não se sustentasse nesta abordagem como sua narrativa, ao longo de seus 169 minutos.

Tudo isso talvez não se transponha tão descaradamente para os fãs ou para o público mais massivo, principalmente pelo fato de que, como já dito, as cenas funcionam muito bem individualmente, assim como também, se beneficia de um elenco secundário ótimo (os reis elfos, e o admirável Andy Sacks como Gollum), o esforçado Martin Freeman novamente como o Bilbo e o sempre competente Ian Mckellen, além de todas as outras competências de Peter Jackson, que fazem com que O Hobbit seja uma viagem nostálgica aos fãs de Senhor dos Anéis e divertida ao resto do público. 

Se não tivesse sofrido com tantos problemas em sua pré-produção, o longa teria sido dirigido por Guillermo Del Toro, que possivelmente teria se encarregado de uma execução mais acertada. Resta saber agora, se a adaptação de Jackson terá força para mais dois longas já que, claramente, Uma Jornada Inesperada mostra-se impreciso, de fato.

Nota: 7,3/10

Crítica: Na Estrada


NA ESTRADA
On the Road 

França/Reino Unido/EUA/Brasil , 2012 - 137 min. 
Aventura / Drama

Direção: 
Walter Salles

Roteiro: 
Jose Rivera (roteiro), Jack Kerouac (livro)

Elenco: 
Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Viggo Mortensen, Kirsten Dunst, Amy Adams, Steve Buscemi, Elizabeth Moss, Terrence Howard, Alice Braga, Tom Sturridge, Sam Riley

A ousadia de Walter Salles em querer adaptar o considerado maior clássico da geração Beat é semelhante a de quando Zack Snyder decidiu levar Watchmen às telonas, considerado pela crítica a melhor HQ de todos os tempos. E diferente de Zack, Salles decide não seguir com tanta fidelidade o material original, mas transpõe a essência de Pé na estrada (título do livro no Brasil - On The Road) e coloca em contrapartida, a implacável amizade entre Jack Kerouac (autor do livro) e Neal Cassady, ambos considerados praticamente heróis na década de 50, influenciando toda a contracultura americana e inspirando clássicos como Beatles e Bob Dylan. No entanto, o diretor brasileiro preocupou-se excessivamente em expôr a intensa e louca jornada dos amigos durante três anos, mas esquece, no fundo, de mostrar a verdadeira inspiração e força da amizade dos dois, algo que encantou toda a legião dos fãs do mega clássico ainda consagrado depois de mais de 50 anos.

Há um momento do longa, onde ambos os personagens, após uma intensa euforia de danças e amassos em uma festa descansam encostados em um carro na rua, onde Dean (nome fictício de Neal no livro) olha para Sal (Jack) e diz: “Faz tempo que não conversamos de verdade”. De fato. Salles se encarrega de mostrar entre atitudes e ações, todas as loucuras que carregam a amizade de ambos, mas, talvez na consideração de que a maioria dos telespectadores sejam fãs do livro, não desenvolve diálogos que consigam realmente convencer o público que existe uma intensa conexão entre os personagens, pois ao longo de 137 minutos, a relação baseia-se em drogas, sexo, fetiche e curtição. O longa só não perde totalmente seu propósito, apesar de não conseguir inspirar igual à obra original, pela infinita qualidade do diretor numa elogiável direção de atores, além de uma trilha sonora empolgante e uma fotografia belíssima (tão bela, que consegue fazer Kristen Stewart ficar interessante). Por falar em atores, o brasileiro coleciona aqui nomes de respeito: Amy Adams, Viggo Mortensen, Kirsten Dunst, Sam Riley. E consegue ótima interação entre eles. Tamanha a competência, que conseguiu extrair de Kristen Stewart uma atuação realmente encantadora e tão rara, que não consigo me lembrar de outro filme que tenha feito que não tivesse com as mesmas expressões (apáticas) de sempre. Mas quem rouba as cenas são um impressionante Garrett Hedlund que nem de longe lembra aquele garoto confuso de Tron: O Legado. A todo instante o público é contagiado pela sua intensa energia e empolgação, tamanha, que compreende-se, em partes, por que Walter Salles confiou tanto que Na Estrada fosse um longa de imagens e experiências.

Elas, sobretudo, pouco colaboram para o verdadeiro retrato de inspiração da geração Beat, que motivada pela contracultura da liberdade de expressão, anticomunistas e, sobretudo, assim como o clássico, despertou nas pessoas a vontade de ser livre, de tomar experiências únicas e viver uma vida intensa. Mas como contrapartida, Jack Kerouac e Neal Cassady pagaram prematura e amargamente o preço de seus estilos de vida.

Nota: 6,5/10

Crítica: Busca Implacável 2


BUSCA IMPLACÁVEL 2
Taken 2 

França, 2012 - 91 min. 
Ação

Direção: 
Olivier Megaton

Roteiro: 
Luc Besson, Robert Mark Kamen

Elenco: 
Liam Neeson, Maggie Grace, Rade Sherbedgia, Famke Janssen

Quando o produtor Luc Besson lançou Busca Implacável em 2008, ninguém esperava, inclusive os executivos, que o longa tivesse o sucesso que teve. Inclusive, apenas quase um ano após sua estreia na França que o filme foi lançado nos EUA, desempenhando milhões de dólares em um projeto incrivelmente simples e barato. É claro que aos olhos dos executivos, “Taken” merecia uma continuação. Aqui, Pierre Morel deixa a direção e entra Oliver Megaton e Besson permanece como produtor e roteirista. Muito criticado pela ganância de uma desnecessária continuação, Busca Implacável 2 incrivelmente surpreende, não por ser uma obra-prima, mas, apesar das inúmeras improbabilidades, Megaton e o produtor francês fogem do que atinge a maioria das sequências de películas de ação: falta de roteiro.

Na continuação, após salvar sua filha Kim (Maggie Grace) de traficantes de mulheres em Paris, o agente aposentado da CIA Bryan Mills (Liam Neeson) resolveu tirar férias ao lado da ex-esposa Lenore (Famke Janssen) em Istambul, na Turquia. O que ele não esperava era que o pai de um dos sequestradores resolvesse se vingar pelo que aconteceu com o filho, sequestrando Bryan e Lenore durante a viagem. Agora ele precisa contar com a ajuda de Kim para que possa escapar.

Mérito de Megaton em não jogar os personagens nas mesmas situações do longa anterior, mais que isso, o diretor mantém bom desenvolvimento entre os protagonistas e preocupa-se em construir, mesmo que simplificadamente, uma história com o qual o telespectador possa acompanhar e digerir todas as intensas sequências de ação posteriormente. Aqui, o histórico eletrizante de ação de Luc colabora para criar sequências mais reais sem apelar muito para a fantasia ou deixar a continuação megalomaníaca demais. Erro extremamente comum em continuações. 

É interessante ver que há inúmeros filmes em que muito do sucesso do protagonista dependem mais do que uma boa atuação, dependem exclusivamente e unicamente de um ator. Foi assim com Salt, que teve Angelina Jolie. Ultravioleta e Mila Jovovich, aqui Bryan Mills não teria nenhuma credibilidade se não fosse a epicidade de Liam Neeson no papel. Qualquer outro ator não conseguiria suportar a necessidade do personagem, principalmente em momentos que o público precisa crer na incrível habilidade do aposentado em façanhas impossíveis na mente de uma pessoa comum. Sendo assim, é um fato mais que verídico que Busca Implacável 2 se sustenta em Liam Neeson, mesmo que o longa desfrute de outras boas competências. 

Surpreendendo por não cair em erros comuns em continuações, o longa do produtor Luc Besson prende atenção do público do começo ao fim, mesmo que sua história não seja totalmente original ou crivelmente provável. Mas perto da infinita ambição dos executivos em produzir continuações a todos os custos, mérito ao produtor francês e Oliver Megaton.

Nota: 7/10

Crítica: Frost/Nixon


FROST/NIXON

Estados Unidos, 2009 - 122 min. 
Drama

Direção: 
Ron Howard

Roteiro: 
Peter Morgan

Elenco: 
Frank Langella, Michael Sheen, Kevin Bacon, Sam Rockwell, Matthew Macfadyen, Oliver Platt, Rebecca Hall, Toby Jones

Quando Richard Nixon decidiu renunciar o cargo de presidente dos EUA depois das atrocidades cometidas por ele, a primeira reação do povo americano foi de revolta. Sim, revolta. Pois saberiam que com a renúncia, Nixon ficaria impune por tudo o que cometeu. Sendo assim, David Frost, um jornalista e repórter famoso por seus programas despretensiosos em Londres e Austrália, decide por conta própria organizar uma entrevista com o ex-presidente. Esta entrevista, no fim, se tornou o maior pico de audiência da história jornalística televisiva dos Estados Unidos. Mas, mais do que aproveitar a oportunidade de desmascarar novamente um dos presidentes mais (se não o mais) repudiado de toda a história política americana, Ron Howard mostra em Frost/Nixon, um homem que acima de tudo o que fez, certo ou errado, era alvo de seu próprio... complexo de inferioridade. 

Durante o longa, acompanhamos desde a renúncia de Nixon, até os maiores detalhes dos bastidores da entrevista, as pesquisas feitas, as improvisações e tudo o que foi necessário para uma das maiores entrevistas da história. Tudo isso sob retratos documentados sobre pessoas que fizeram parte de todo o processo de filmagens, uma entrevista que durou 8 horas, filmadas em 4 dias, com duas horas cada. O longa poderia parecer um sonolento monólogo sobre política, mas não, muito pelo contrário, Howard mostra extrema precisão em tomadas e closes, aliadas a magnífica trilha sonora de Hans Zimmer, constrói cada bloco da entrevista em um crescimento constante de tensão. Ao último bloco, o telespectador sente todo o fardo carregado por Frost e toda sua responsabilidade de desmascarar o ex-presidente em vídeo que, em breve, estaria na casa de cada americano.

Esta é a típica obra-prima que se sustenta pela maior e mais precisa forma de se fazer um filme: atuação, roteiro e direção. Qualquer outra coisa aqui, apesar de excepcionalmente bem produzida, fica em segundo plano. Se bem que, aqui, mesmo com um Ron Howard muito competente (o que nem sempre é assim), Michael Sheen sensacionalmente encantador, como de costume, é Frank Langella que, no ápice de sua performance, esmaga qualquer outro individuo que tente se destacar. O ator americano simplesmente incorpora Nixon. Seu timbre de voz é trabalhado de maneira sutil, porém, magnífica. Tamanha precisão consegue explorar pontos extremos de seu personagem, ora preconceituoso, ganancioso, dono de uma lábia tão astuta e perversa, que consegue fazer seus inimigos mais ardilosos, simplesmente cederem diante a sua prepotente presença. Ora encarna um Nixon insatisfeito diante o sistema. Sistema social. Há um cena, uma das melhores do longa, em que o ex-presidente liga para Frost pouco antes da última entrevista para uma conversa despretensiosa que, no fim, revela o complexo de alguém que almeja ser aceito, de todas as formas possíveis. Após ver todo o histórico de David, Richard conta que o sucesso da entrevista, é muito mais que revelações. É um duelo. Afinal, ambos são rejeitados de certa forma, cada um a sua maneira, pela sociedade. E o vencedor desfrutará, ao menos, momentaneamente, ser isento desta rejeição. E de fato, o que vemos durante o terceiro ato, é um duelo de titãs. Mas ao fim, o que atingem de maior vitória, é o rosto de uma pessoa envergonhada por tudo o que fez. E nesta hora, Ron Howard é impiedoso. É extremamente visível o constrangimento e o desconforto do ex-presidente diante um close-up que é cruel em segui-lo a cada movimento de esquiva da câmera. Simplesmente memorável. E nesta hora, nada mais resume a situação do que o clichê “Uma imagem vale mais que mil palavras”.

Frost/Nixon apenas não é irretocável por um exagero documental e didático, em determinadas partes, que sente uma necessidade leviana por explicar demais o que se vê em tela, de expressões e situações que são perfeitamente claras ao telespectador atento, mas nada é claro, tira o mérito desta obra magnífica e obrigatória. 

Nota: 9,4/10

Crítica: A Vida dos Outros


A VIDA DOS OUTROS
Das Leben der Anderen 

Alemanha, 2006 - 134 min.
Drama

Direção: 
Florian Henckel von Donnersmarck

Roteiro: 
Florian Henckel von Donnersmarck

Elenco: 
Ulrich Mühe, Sebastian Koch, Martina Gedeck, Ulrich Tukur, Thomas Thieme

Em cerca de um século, a Alemanha viveu tempos negros. O nazismo foi o mais inesquecível deles, porém, apenas o início de um regime que duraria cerca de 50 anos. De um lado havia a Alemanha ocidental, que possuía governantes sobre a democracia do povo, em outro, oriental, um governo totalitário que sofria com uma influência altíssima da antiga União Soviética, e não muito distante do nazismo em alguns aspectos, o regime oriental controlava rigorosamente a expressão democrática e a concordância com outro regime era considerado crime contra o governo que, rapidamente, encarregava de eliminar o individuo que tentasse persuadir de certa forma a população. Dentre esta tensa relação começa o primeiro longa de Florian Henckel Von Donnesmarck, A Vida dos Outros.

O longa conta a história de Georg Dreyman, um escritor que é considerado uma ameaça pelo governo oriental devido a sua obras consideradas polêmicas e influentes. Mas antes de tomar medidas drásticas sobre o escritor, o governo decide controlar durante um ano toda a vida de Dreyman, através de um monitoramento intensivo feito por Gerd Wiesler, um dos melhores espiões do regime. Conforme o monitoramento vai procedendo, Wiesler começa a viver literalmente as intensidades da vida do escritor e todo o seu calculado e frio método, do qual se orgulha cegamente, começa a desmoronar e logo se questionar se realmente está do lado certo.

Sabiamente, von Donnesmarck divide o longa em duas narrativas diferentes para que, em contrapartida, faça que o telespectador viva as emoções sentidas por Wiesler e George, respectivamente. Do primeiro ato ao meio do segundo, seguimos o espião e desde a primeira cena do longa, o diretor alemão propõe a expôr seu caráter: em um interrogatório, o agente sem conseguir qualquer informação, começa a torturar o homem interrogado com uma arma letal, porém, imperceptível a maioria das pessoas... o tempo. A paciência de Wiesler chega a causar pavor até mesmo nos próprios governantes. Já aposentado da espionagem, se torna professor e conta meticulosa e orgulhosamente seus métodos aos alunos. Durante o mesmo interrogatório que acompanhamos e que está sendo explicado em aula, um dos alunos questiona o professor após horas do mesmo procedimento: “Nós já estamos a horas escutando a mesma conversa e a mesma história. Qual é o objetivo disso?”. O ex-agente o olha friamente e diz: “Durante todas as horas, o homem contou a mesma história alegando ser inocente. Contou os mesmos detalhes, sem mudar sequer uma vírgula. Uma pessoa inocente ficaria revoltada, tentaria contar a mesma história com outros palavras sem mudar o acontecimento. Um mentiroso tenta manter a calma e conta seguidamente a mesma história sem mudar uma palavra sequer.”. Fato comprovado. Após intensas horas sem conseguir ao menos dormir, o interrogado quase em choque por ser forçado a ficar acordado e sentado enquanto não consegue mais pensar em uma palavra sequer devido à interferência que o cérebro sofre pela pressão e necessidade de dormir, o homem, enfim, acaba contando a verdade. Mostrando intensa frieza e crueldade, Wiesler é o espião ideal para passar um ano escutando a vida de outra pessoa. E Florian somente muda a perspectiva de sua narrativa quando entende a necessidade que o telespectador tem de enxergar o que realmente Georg está passando, para assim então, concluir com muita precisão o terceiro ato. Sacada de gênio.

Composto por um roteiro de diálogos e situações inteligentes, uma fotografia e ambientação excelente, aliado a atores talentosos, em especial, o ótimo Ulrich Mühe que consegue, com uma sutileza, transpor com muita profundamente todos os aspectos e mudanças do caráter e vida de Wiesler, (Uma pena que o ator tenha morrido logo após o longa ter ganhado um Oscar e não ter recebido atenção merecida por seu excepcional desempenho), A Vida dos Outros consegue conduzir o telespectador dentro de uma guerra encoberta sobre um governo doentemente silencioso e preciso ao praticar qualquer atrocidade que fosse necessária para que seu regime não fosse ameaçado. Sobretudo, mostra a integridade de um homem que superou suas próprias alienações e contribuiu para que a tirania, da qual apoiava e contribuía, caísse.

Nota: 9/10

Crítica: Extermínio 2


EXTERMÍNIO 2
28 Weeks Later 

Inglaterra, 2007 - 99 min.
Ação / Ficção científica / Terror

Direção: 
Juan Carlos Fresnadillo

Roteiro: 
Rowan Joffe, Juan Carlos Fresnadillo, Jesús Olmo e Enrique López Lavigne

Elenco: 
Robert Carlyle, Rose Byrne, Catherine McCormack, Harold Perrineau, Imogen Poots, Garfield Morgan e Mackintosh Muggleton

Raríssimo no cinema, hoje em dia, sequências que conseguem realmente serem superiores aos seus originais. Felizmente aqui, Juan Carlos Fresnadillo mostra que fez a lição de casa e supriu em Extermínio 2 (28 Weeks Later) com competência o que faltava ao anterior. De quebra, mudou a narrativa do longa, aproveitando os clichês do gênero para mostrar mais uma vez, a necessidade da autodestruição. 

Quase seis meses após o primeiro longa, a infecção na Inglaterra chega ao fim fazendo com que o governo americano decida repovoar todo o país. Porém, diante a uma situação inesperada, uma nova infecção ressurge e ameaça novamente espalhar o caos.
A sequência de abertura do diretor espanhol é magnífica e extremamente competente em preparar o telespectador para o novo clima do longa. Espertamente, começa-o em melancolia progressiva e o corta violentamente com uma impiedosa chacina em uma família refugiada. Ainda o faz sob extrema repulsa de sanguinolentas contaminações e deixa outra questão que irá pender durante metade da projeção. Uma intensa sequência que consegue adaptar o público para o que virá.

O longa, antes de mais nada, se apoia em certos clichês dentro do gênero para reforçar a mensagem que Boyle havia transmitido ao longa anterior, clichês, diga-se de passagem, reproduzidos com muita precisão. Fresnadillo é sábio em utilizar o que já é conhecido dentro do gênero com certa moderação, pois no momento que necessita de criatividade e personalidade, o diretor espanhol não faz feio. Há, pelo menos, duas sequências na película que provam isso inquestionavelmente: o caos dentro da sala de contensão com milhares de pessoas presas e a cena em que, desesperados, os protagonistas são obrigados a entrar no túnel do metro, sem qualquer luz, em meio de incontáveis cadáveres, sob apenas a visão noturna de um rifle. Memoráveis cenas.

Quando o Juan Carlos decide que a povoação da Inglaterra será feita por distritos, e que apenas um deles começará o trabalho da repovoação, novamente somos arremessados à solidão. Mas nem o medo do retorno do caos, coisa questionada no meio do filme, é o suficiente para que os seres humanos deixem de cometer os mesmos erros. Claro instinto. O que Fresnadillo faz é maximizar e dar mais potência ao que Danny Boyle criou, mas isso sem parecer mais do mesmo. Em nenhum momento o diretor espanhol utiliza das mesmas situações anteriores para recriar a mesma sensação. Pelo contrário, termina de dizer que, apesar de buscarmos a sobrevivência, é através dela que cometemos as piores atrocidades. É um erro atrás do outro. Todos eles poderiam ser perfeitamente evitáveis, mas nunca os são. 

Só resta ao final de tudo mostrar que nós merecemos e devemos nos contentar com a autodestruição, pois é a única maneira que temos de nos vingarmos de nós mesmos. Juan Carlos perde apenas uma oportunidade durante ao longa que seria fazer menção a ironia dos EUA, país colonizado pela Inglaterra, estar agora colonizando seu país originário. Nada que uma bem-vinda sequência não possa suprir. 

Nota: 8,8/10

Crítica: Extermínio


EXTERMÍNIO
28 days later

Inglaterra, 2002 - 112 min.
Suspense/terror  

Direção:
Danny Boyle

Roteiro: 
Alex Garland 

Elenco:
Cillian Murphy, Naomie Harris, Noah Huntley, Christopher Dunne, Emma Hitching, Alexander Delamere, Kim McGarrity, Brendan Gleeson, Megan Burns, Luke Mably, Stuart McQuarrie, Ricci Harnett, Christopher Eccleston

Talvez por ter demorado dez anos para ver Extermínio (28 Days Later) e neste meio tempo ter assistido outras influências dentro do gênero, sendo a maior delas atualmente, The Walking Dead, há questões que o longa de Danny Boyle peca por não aproveitar tão bem o impacto que cria, mas ao fim, utiliza de sua arte para mostrar muito mais que zumbis e sangue, mas uma sociedade a motivada por instintos.

A sequência inicial mostra um grupo de ecologistas invadindo um laboratório de testes científicos para soltar macacos cobaias. Sem saber o real motivo que os animais estão presos, o grupo libera os animais que rapidamente começam a contaminar violentamente todos dentro da sala. O vírus é rápido, progressivo e transgride brutalmente o laboratório infectando toda a Inglaterra em 28 dias. Logo somos apresentados a Jim, um rapaz que estava em coma em um dos hospitais da cidade, se depara dentro de uma desolada Londres e logo perceberá que o local sofreu muito mais que o extermínio da população e sim continua com seus infectados.

Atualmente temos com frequência tomadas de cidades desoladas, como o próprio The Walking Dead e Eu Sou A Lenda, mas é admirável ver o impacto que o inglês consegue produzir em filmar Londres completamente vazia e solitária. Muito ajuda também a fotografia crua e takes “hand-cam” (câmera na mão) que contribui para o choque realista. Mas do que trabalhar as situações comuns dentro do gênero, Boyle decide retratar da solidão humana, da falta de esperança, da nossa própria autodestruição. É através de Jim (protagonizado com muita competência por Cilliam Murphy) e suas descobertas que vamos compreendendo a dor de alguém que acorda e se encontra sem absolutamente nada. Por outro lado, temos uma cidade em perfeita paz que apenas é perturbada por humanos e nem sempre os infectados. A necessidade de confiar no desconhecido ou mesmo de afeição, sabendo que há qualquer momento poderá deixá-lo ou pior: ser obrigado a matá-lo. É o extremo da autodestruição. Não muito distante da nossa realidade. “Certos fins não justificam os meios”, essa frase expõe o que soldados, em busca de sobreviventes, cometem quando se deparam que a resistência ao caos é inútil se não há como reconstruir e como instinto, o homem tenta fazer a força, a violência e esboça no rosto muito mais que vontade de repovoar: saciar o prazer próprio. Como desde o princípio dos tempos.

Em direção, Danny Boyle acerta em retratar temas com profundidade, mas peca, principalmente em primeira parte da película, por ser passivo dentro de sua proposta. Pelo fato também, de não aproveitar ótimas situações que são sugeridas através do núcleo central, como paranoia e medo do contágio, que só parece prestar a atenção em uma sequência, interessantíssima por sinal, em que um dos antagonistas é infectado por uma gota de sangue caída de um cadáver diretamente em seus olhos. Ineficaz também se mostra em algumas sequências de ação, que talvez tenha sigo inevitável devido ao baixo orçamento, mas que pioram pelos intensos cortes.

Contudo, Extermínio se expõe bravamente por quebrar as barreiras do gênero, contar com atores muito bons e ir além de intensas sequências de explosões de vísceras e trazer um pouco de reflexão na, cada vez mais superficial, Hollywood. Paul W.S Anderson e seus Resident Evil´s que o diga.

Nota: 7,7/10