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8.12.13

Crítica: Carrie - A Estranha

CARRIE - A ESTRANHA
Carrie

Estados Unidos, 2013 - 100 minutos
Terror

Direção:
Kimberly Peirce

Roteiro:
Lawrence D. Cohen, Roberto Aguirre-Sacasa

Elenco:
Chloë Grace Moretz, Julianne Moore, Gabriella Wilde, Portia Doubleday, Ansel Elgort, Judy Greer, Alex Russel

Apesar da saturação de remakes de clássicos na última década, é ainda compreensível uma nova refilmagem do ícone do terror setentista, dirigido por Brian De Palma, Carrie – A Estranha, principalmente pelo ápice da superficialidade/ futilidade que os adolescentes de hoje conseguiram atingir sem grandes esforços e uma das forças do original vinha exatamente deste infeliz feito. Sendo assim, a história da garota ridicularizada pelos demais colegas de escola teria força o suficiente para ser tão competente quanto o longa de 1976 e atingir seu ápice de forma louvável e memorável. Mas não é o que acontece aqui. A nova adaptação do romance de Stephen King, comandada desta vez por Kimberly Peirce, do premiado Meninos Não Choram, é incapaz de dar espaço a personagem-título para honrar o subtítulo que o longa leva em terras brasileiras, onde valoriza entrelinhas a natural beleza de Chloë Moretz e faz expectador que assiste pela primeira vez este clássico ficar confuso e o veterano irritado.

Na conhecida trama, Carrie é criada de forma isolada e anormal por sua fanática e psicótica mãe religiosa, Margaret (Julianne Moore). Na volta de uma aula de educação física, Carrie passa pelo constrangimento de ter, sem saber sequer o que era, sua primeira menstruação no vestiário no meio de diversas garotas. Assustada e achando estar doente, ela pede ajuda das demais, que a ridicularizam, a humilham e, decorrente a raiva, percebe ter poderes telecinéticos. Em crise de consciência, Sue Snell (Gabriela Wilde) se sente mal por ter participado do ocorrido, onde decide sacrificar sua noite do tão esperado baile de formatura e pede para seu namorado Tommy Ross (Ansel Elgort) que convide Carrie e garanta uma noite inesquecível à garota. Entretanto, uma armadilha é montada no evento, onde ela é novamente humilhada em público, despertando a ira dos poderes recém-descobertos da adolescente.

O roteiro é enfadonho por querer seguir a risca tudo o que foi já foi criado anteriormente, mostrando claro despreparado e receio de Kimberly em lidar com um material tão cultuado. Com uma seleção de atores fracos, com exceção a esforçada Moretz, que não consegue em nenhum momento se conectar com a personagem que vive, o texto só consegue se sobressair e prender o público quando a irreparável Julianne Moore está em cena. Surtada de forma amedrontadora, a atriz é o ponto alto da película e carrega todo o elenco nas costas. Aliás, se algo dá medo nessa nova adaptação de Carrie – A Estranha, é Margaret. As clássicas falas da personagem permanecem aqui e devem garantir ao expectador veterano um pouco de prazer neste remake.

Ao invés de aproveitar a época fútil e de ostentação dos jovens de hoje para criar metáforas e simbolismos, Peirce abraça a ignorância deste público e transforma Carrie em uma personagem pouco crível para o expectador que se permite refletir com mais sabedoria. A começar pela escolha de Chloë que, incontestavelmente, é uma boa atriz. Entretanto, por mais esforçada que a garota seja, o papel não é para ela. Sua beleza, aqui, é um problema. A diretora, para piorar, é incapaz de deixar a atriz realmente esquisita fisicamente, apelando para fracos trabalhos de figurino e maquiagem que, em momentos e outros, mostram erros de continuidade e, num piscar de olhos, o cabelo espigado de Carrie está naturalmente liso. A diretora parece ter medo de estragar a estética de Moretz e não conseguir conexão com o público jovem atual. Nesta infeliz escolha, todo o esforço da atriz é em vão e a todo instante o espectador fica incomodado pela forma caricata que a personagem é caracterizada e mesmo involuntária, possui ainda certo teor sexual, perdendo qualquer verossimilhança com a criação de Stephen King.

Sem uma direção de atores decente e transições mal formuladas, Carrie – A Estranha parece desde o inicio se preparar para mostrar ao público, o espetáculo que virá quando a protagonista se enfurecer no baile em que será humilhada. Quando isso de fato acontece, Kimberly tenta superexpor os eventos da história original de forma forçada e exagerada. Exemplo claro disso é que, quando o balde de sangue de porco é jogado em Carrie, a diretora repete, em diferentes focos de cena, pelo menos, três vezes a sequência para tentar mostrar a quem assiste o impacto daquele momento, mostrando que Peirce parece não acreditar na competência de sua própria direção durante toda a projeção e se sente na obrigação de enfatizar a quem assiste que, a partir daquele momento, toda a espera para a “ação”, de fato, chegou. Lamentável.  Principalmente para quem viu o original e sabe que, apesar das excelentes sequências de ação do original, não é na correria que Carrie – A Estranha ganha seus fãs. E sem saber como prolongar a pouca ação da história, a diretora decide utilizar um fraco slow motion na película, a fim de garantir um pouco de prazer ao público que comprou seu ingresso esperando ver chacinas épicas em tela. Aqui, percebe-se claramente que nem Kimberly ou mesmo o novo potencial público do filme compreendem o horror impactante causado pela personagem-título criado por King.

Por fim, resta a película a terrível sombra da incompetência comum em remakes e faz novamente nos questionarmos. Afinal, por que é tão difícil reconstruir um clássico? Poderíamos até culpar Kimberly Peirce, mas David Fincher também errou a mão em sua versão americana de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres. O que será então? Maldição?

Nota: 4/10

20.11.13

Crítica: Blue Jasmine

BLUE JASMINE

Estados Unidos, 2013 – 98 minutos.
Comédia/ Drama

Direção:
Woody Allen

Roteiro:
Woody Allen

Elenco:
Cate Blanchett, Alec Baldwin, Sally Hawkins, Joy Carlin, Peter Sarsgaard


E dizia o velho ditado: “Gente pobre se acostuma rapidamente à riqueza. Agora quando a situação é contrária...”. Pode até parecer preconceito, mas não é. Já pude comprovar de perto as duas situações deste ditado popular. Apesar dos pesares, desengonçadamente ou não, pessoas de baixa renda conseguem gradativamente se acostumar com a chegada abundante de dinheiro, mesmo não o desejando. Isso já não acontece com os ricos por natureza. Às vezes, a situação pode ser tão extrema que o individuo pode entrar em depressão profunda e enlouquecer. É o caso em Blue Jasmine, protagonista-titulo do novo filme de Woody Allen.

Sem grandes rodeios, a trama já começa nos baixos da personagem. Casada com um homem milionário, Jasmine largou a faculdade para se dedicar a sua vida amorosa. Quando a conseguiu, viveu o longo de sua vida sem se preocupar em qualquer esforço que não o de escolher as melhores roupas, dar as melhores festas e comprar tudo o que sempre sonhou. Quando isso chega ao fim do dia para a noite, a realidade da protagonista é forte demais para ela.

Por mais que se esforce, Jasmine simplesmente não consegue engolir a sua nova vida. É visível em suas expressões que não é apenas a falta do dinheiro que ela repudia, mas a situação geral seja ela pessoal ou social. O simples fato de estar rodeada de atenção, mesmo que mergulhada na falsidade, a entretinha o suficiente para não encarar seu próprio vazio, e as verdades que odeia em si mesma e é incapaz de admitir.

Woody Allen constrói um estudo complexo e profundo da personagem e, como de praxe em suas protagonistas, Jasmine é um respiro inspirado deste visionário diretor. Talvez seja o maior deles, em anos. Em contrapartida, não deixa expressar seu ódio pelas peculiaridades que próprio criou. Para isso, coloca a protagonista para encarar sua irmã cafona, Ginger, que simboliza fisicamente tudo o que a ex-milionária quer apagar de sua vida e memória e não pode. O contentamento da irmã com uma vida simples revolta Jasmine e gera uma incompreensão causada pela criação de sua mãe adotiva, que sempre fez questão de deixar claro que seus “genes” eram melhores que o da irmã e por isso ela teria uma vida melhor. O que aumenta sua sensação de incredulidade perante a sua nova realidade.

Como de praxe, é na abordagem narrativa que Allen conquista o público, tornando suas histórias simples, inesquecíveis. A cada instante, Blue Jasmine faz com que o expectador crie uma antipatia com a protagonista, mas, ao mesmo tempo, brinca com suas peculiaridades, dando uma aproximação inusitada com que assiste. A trilha sonora, assim como em Vicky Cristina Barcelona (e diversos outros filmes dele), a música tema é repetida inúmeras vezes para introduzir e manter o público sempre no tom necessário.

O bom gosto do diretor de Meia-Noite Em Paris se espalha para a excelente fotografia, o irretocável figurino (amantes da moda delirarão com todas as maisons usadas pela personagem), a narrativa que mescla constantemente o real com o flashbacks, não criando uma sensação desagradável do longa não caminhar, mas para, precisamente, fazer o expectador refletir sobre o universo e caráter da protagonista, dando uma boa noção de comparativo e julgamento a tudo o que se analisa em tela. É como se houvesse um psicólogo no meio do filme conduzindo-nos, entrelinhas, a situação agravante da distorção da realidade de Jasmine.

Esta é protagonizada delirantemente por Cate Blanchett, no melhor momento de sua carreira. Ela consegue, sem grandes esforços, dar a complexidade necessária para a personagem. Utiliza de seu natural carisma e o reverte em uma antipatia absurdamente deliciosa de se presenciar, garantindo um humor seco e inteligente, na medida certa. A beleza da atriz, junto de sua postura descomunal, consegue transpor toda a sofisticação e elegância de Jasmine e fazer facilmente o expectador acreditar no deslocamento dela perante o mundo que é obrigada a conviver. Indicação ao Oscar se mostra mais do que necessária aqui. O resto do elenco também caminha muito bem: Sally Hawkins transmite a inocência e alegria de Ginger sem grandes esforços, assim como Alec Baldwin, em poucas aparições, convence de sua falta de caráter sem precisar falar uma palavra sequer.

Blue Jasmine expressa a metáfora de seu próprio nome. Da imensa tristeza, depressão e inconformismo da protagonista perante a inevitável e talvez irreparável pobreza em se encontra. Mais do que isso, o desespero da ex-milionária em não poder mais pagar a sua falsa felicidade e manter seu mundo de vidro intacto. E se Woody Allen disse um dia, “O dinheiro não dá a felicidade, mas tem uma sensação tão parecida, que precisa um especialista muito avançado para verificar a diferença.", agora fez questão de ilustrar isso. Bom ano para o cinema, este 2013. Bom ano.


Nota: 10/10

16.11.13

Crítica: Jogos Vorazes: Em Chamas

JOGOS VORAZES: EM CHAMAS 
Hunger Games - Catching Fire

Estados Unidos, 2013 - 146 min.
Ficção científica

Direção: 
Francis Lawrence

Roteiro: 
Simon Beaufoy, Michael Arndt

Elenco: 
Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Elizabeth Banks, Woody Harrelson, Donald Sutherland, Philip Seymour Hoffman, Stanley Tucci, Liam Hemsworth, Willow Shields, Elizabeth Banks, Lenny Kravitz, Jeffrey Wright, Amanda Plummer, Sam Claflin, Toby Jones, Jena Malone, Megan Hayes 


Já subindo os créditos de Jogos Vorazes: Em Chamas, fui abordado por uma crise paradoxal: a todo instante, o longa tenta desesperadamente escancarar para nossa sociedade através da fantasia, que a realidade da protagonista Katniss Everdeen, de fato, não está tão longe assim da nossa. Pessoas fúteis e alienadas, sustentadas pela luxuria e exuberância irracional, da qual tentam esconder a superficialidade e mediocridade de suas vidas. Um governo corrupto, que utiliza da mídia e de seu entretenimento para tentar comprar o povo de que tudo anda na mais perfeita ordem. Enquanto uns vivem no extremo luxo, outros se deparam com a mais miserável das pobrezas. E por mais evidente que isso esteja em tela, o que motiva a grande maioria massiva de entrar nas salas para ver a película de Francis Lawrence são os tais jogos vorazes. Quanta ironia. E cegueira.

Esta continuação sequer respira e começa praticamente onde parou no primeiro filme. Katniss tenta retomar a sua vida como antigamente, mesmo sabendo que isso será um objetivo quase impossível. Por mais esforço que faça, o presidente Snow está decidido da sua letal ameaça para o governo da Capital. Os eventos do 74º Jogos Vorazes acabou acendendo uma esperança nos distritos e Everdeen se tornou uma imagem de coragem e audácia. Temendo uma revolução, Snow decide ser radical e convocar o 3º Massacre Quartenário, que acontece a cada 25 anos, onde reúne todos os vencedores dos anos anteriores e os levam para uma arena ainda mais letal, colocando Katniss para lutar novamente por sua vida e de Peeta Mellark, enquanto os dois vivem um relacionamento instável e confuso.

O folgado orçamento que saiu de 70 para 140 milhões fez bem ao visual de Em Chamas. É nítida a melhoria dos efeitos especiais e a franquia saiu de uma produção grande B para um verdadeiro blockbuster. Entretanto, com um orçamento maior, Lawrence se mostra preguiçoso no quesito fotografia, já que o baixo financiamento fez com que o primeiro diretor se desdobrasse com soluções magníficas para esconder a brutalidade dos jogos. Sai aqui a criativa câmera na mão, para entrar os grandes trilhos, padrões de Hollywood. Tal troca fez a franquia perder um pouco sua verossimilhança e violência, entretanto, tudo é um pouco equilibrado com maquiagens e efeitos especiais mais precisos, uma palheta de cores mais sombrias e um roteiro mais audacioso. Mas, apesar disso, se sente falta do sangue que o primeiro longa exibia sem ser exagerado demais, onde aqui, dá pra contar nos dedos as cenas em aparece. O problema se agrava quando o diretor opta por dirigir cenas violentas de frente e não entrelinhas como Gary Ross fazia.

Apesar de algumas decepções técnicas, o roteiro de Simon Beaufoy e Michael Arndt compensa o show gráfico. Embora tenha que, obrigatoriamente, retornar aos jogos do titulo, o texto se desenrola de maneira que o espectador se convence da necessidade de repetir o que havia acontecido no primeiro filme. Geralmente esta é uma das decisões mais errôneas de franquias de Hollywood, que consistem em repetir o que deu certo anteriormente e aumentar de forma desnecessária toda a ação para convencer o público que continuações devem ter tudo em dobro. Bobagem. Inclusive, Em Chamas se desenrola, grande parte de sua trama, em sequências calmas e pouco parece se importar em criar um show pirotécnico, mesmo que muitos estejam ali só para ver isso. Admirável.

O bom elenco do primeiro filme retorna e aqui ganha reforços excelentes, como o aclamado Phillip Seymour Hoffman. Os personagens secundários ganham imensa força pela competência de Stanley Tucci, mais caricato, impossível, Elizabeth Banks, que conseguiu aumentar a força da perua Effie, Woody Harrelson, surpreendentemente flexível em um papel que transita entre o sério e o pastelão, Donald Sutherland enche as telas com sua voz imponente e sua imagem fria na medida certa. Já no elenco principal, Liam Hemsworth não consegue convencer em seu papel sofrido, que parece pouco fazer falta no filme, por mais que o diretor tente engrenar o personagem. Josh Hutcherson esbanja seu natural carisma que, sem muito esforço, consegue dar a Peeta o tom perfeito que o personagem necessita. Mas, como não poderia ser por menos, é Jennifer Lawrence que segura o filme. Atualmente não existe uma atriz jovem tão durona quanto Lawrence. Seu naturalismo e simplicidade consegue convencer a quem assiste, transmite uma força incrível como guerreira, sem cair no clichezão sexual tão presente em Hollywood, que desmoraliza qualquer personagem que tente se levar a sério.

Embora os méritos de Jogos Vorazes: Em Chamas não seja poucos, dificilmente a massa conseguirá aproveitar o poder deste projeto tão audacioso quanto V de Vingança. Como dizia o pai de Eve no longa dos Washovsky, “Artistas criam mentiras para falar a verdade", mas infelizmente a sociedade hoje é tão cega quanto a que caminha na Capital, tão repudiada por Katniss. Quem sabe um dia teremos um povo disposto a abandonar o “pão e circo". Quem sabe.

Nota: 9/10

3.11.13

Crítica: Capitão Phillips

CAPITÃO PHILLIPS
Captain Phillips

Malta, 2013 – 134 minutos
Drama/ Suspense

Direção:
Paul Greengrass

Roteiro:
Billy Ray (adaptação), Richard Phillips (biografia)

Elenco: 
Tom Hanks, Barkhad Abdi, Barkhad Abdirahman, Faysal Ahmed, Mahat M. Ali

* Indicado ao Oscar 2014

Lembro-me como se fosse ontem o dia em que assisti Voo 93, de Paul Greengrass. Diferente do filme piegas protagonizado por Nicolas Cage, a abordagem do diretor da trilogia Bourne era tão realista e envolvente, que me deixou poucas vezes tão revoltado vendo um filme. Comecei a ver o longa deitado em minha cama, terminei-o de pé, em cima da mesma, gritando revoltadamente para a tela, como se pudesse intervir no trágico final destas heroicas pessoas que se sacrificaram por um bem maior. Pois bem, agora Greengrass chega com sua adaptação do romance de Richard PhIllips, Capitão Phillips. Tenso do começo ao fim, o longa toma proporções descomunais com uma direção tão impressionante quanto à atuação de Tom Hanks, que deve receber, se não ganhar, o Oscar de melhor ator no próximo ano. 

A biografia assim como a película conta a história real do personagem título que, em 2009, foi sequestrado enquanto comandava um transporte de navio em uma região da África por violentos piratas somalis em busca de fortunas.

Tanto em roteiro, quanto na parte técnica, o primeiro e começo do segundo ato de Capitão Phillips lembram demais Voo 93. A câmera na mão, palhetas sombrias e granuladas, trazendo a verossimilhança típica do diretor, apresentando closes claustrofóbicos e rápidos movimentos de cena, acrescentados ao roteiro, que apresenta de forma muito semelhante ao longa de 2006 os personagens e suas motivações, dando um palco bem abrangente e complexo para se trabalhar durante toda a película. Mesmo se tratando de suas histórias de grande patriotismo americano, muito acertadamente Paul sabe jogar suas peças de maneira que não torna sua obra em um clichê cafona típico de Michael Bay. Tudo esta ali de forma tão sutil e interessante, que convence o espectador que o comportamento realmente se remete à cultura americana, sem transformar Capitão Phillips (ou Voo 93) em um show de “papagaiagens” patrocinadas pelo governo. Quando o diretor britânico sente que sugou tudo o que poderia de seu filme de 2006 de maneira que não prejudicasse a incrível história que tem em mãos, muito menos parecesse uma grande compilação, Greengrass movimenta ao sentido oposto seu projeto, que vai aos poucos se distanciando do conforto do qual estabeleceu.

Aqui, Tom Hanks que já segurava Capitão Phillips com seu brilhantismo que estava apagado há muito tempo, carrega nas costas todo o drama que o roteiro vai exigindo, atingindo proporções incômodas para quem assiste. Com um elenco secundário desconhecido (mesma coisa feita em Voo 93), Hanks abre um buraco gigantesco entre os demais atores, enquanto chega um dos ápices de sua carreira. Entretanto, é impossível tirar o mérito do elenco secundário, do qual o britânico pegou atores (se realmente são, é algo a se discutir) totalmente novatos para viver os violentos piratas, que espantam a todo instante pelo pavor que causam somente com seus olhares. O realismo é tamanho, aliada a genialidade da direção, que a tensão da película muitas vezes beira ao insuportável.

A simplicidade do roteiro jamais fica evidente perante a direção deste artista memorável. Sobra-lhe ainda um tempo para criticar as relações de países ricos contra países inferiores, onde a ajuda que aparece com frequência nas mídias, parece tampar verdadeiros propósitos por trás desta ação. Tudo composto entrelinhas para tentar dar ao público um consenso de reflexão sobre a crueldade que se vê nas telas. Todavia, é impossível dar qualquer típico de crédito a criaturas tão desumanas, mesmo que a vida desgraçada da qual foram condenados, não lhes ofereçam o básico.

Sem apelar para o sentimentalismo barato muito comum neste tipo de filme, Capitão Phillips segura seus 134 minutos com uma força impressionante, sem perder em nenhum instante seu ritmo ou interesse. E se tudo ainda fosse ineficaz em seu propósito, o longa já teria incrível mérito pela excelência de Tom Hanks que, se não ganhar, será indicado com toda certeza ao maior prêmio existente do cinema.

Nota: 10/10

1.11.13

Crítica: Obsessão

OBSESSÃO
The Paperboy

Estados Unidos, 2012 – 107 minutos.
Thriller, Drama

Direção:
Lee Daniels

Roteiro:
Peter Dexter (adaptação), Peter Dexter (romance) e Lee Daniels

Elenco:
Zac Efron, Nicole Kidman, Matthew McConaughey, John Cusack, David Oyelowo, Macy Gray, Scott Glenn

Depois de uma péssima estreia no cinema, com o chato “Matadores de Aluguel”, assisti o segundo filme de Lee Daniels, “Preciosa – Uma História de Esperança”, de maneira meio despretensiosa, considerando o destaque que veio a receber posteriormente no Oscar. Não é preciso muito tempo para se comover e revoltar com a vida miserável da garota obesa, negra, em um universo altamente preconceituoso, onde era estuprada por seu próprio pai, com o consenso de sua monstruosa mãe. E são dentro destes ideais que Daniels constrói Obsessão, que dividiu a crítica no festival em que estreou e vem ainda mais dividindo o público por onde passa e não é difícil entender o porquê. Sem qualquer escrúpulos ou pudor, o longa é quase perturbador tamanha sua crueza em que o diretor revela a preconceituosa e louca Flórida, no final dos anos 60.

A trama é bem genérica. O jornalista Ward (Matthew McConaughey) retorna a sua cidadezinha no interior sulista americano para investir e descobrir se a prisão do condenado Hillary Van Wetter (John Cusack) é ou não injusta, onde o mesmo será levado à morte pelo assassinato de um detetive conhecido. Com a ajuda de seu jovem irmão Jack (Zac Efron), que se apaixona instantaneamente por Charlotte Bless (Nicole Kidman), uma mulher misteriosa que possui informações valiosas sobre o detento, Ward logo terá que encarar um estranho triângulo amoroso para tentar entender os fatos mal encaixados em que Hillary se meteu.

O roteiro escrito por Peter Dexter, baseado em seu próprio livro, que conta com a colaboração de Lee, é tão insano, quanto lógico para a época que Obsessão se ambienta. O texto impressiona, assim como todo o resto, pela maneira crua que consegue abordar sua história e personagens. A fotografia belíssima da película, dessaturada e granulada na medida certa, se aliam perfeitamente ao universo retro da época, que recentemente estamparam a moda do “candy color” nas grifes mais luxuosas do mundo. O mundo realmente dá voltas.  A edição muito precisa, sugere em certos momentos, como nas cenas de sexo brutais entre Charlotte e Hilary, entre um frame e outro, o instinto animalesco e praticamente irracional com quais os personagens se relacionam. Tudo de maneira explicita e degradante.

Os traços preconceituosos do longa poderiam facilmente lembrar “Preciosa”, principalmente por sua narrativa composta por uma negra sofrida, humilhada por seus patrões de pele clara e praticamente tratada como capacho. Entretanto, Daniels não se apela ao sentimentalismo das situações e sim na autodestruição dos personagens em uma época onde tudo parecia ser possível ou feito, rodeados de rebeldes em uma das regiões mais insanas dos EUA. Sendo assim, é fácil se chocar com as bizarrices apresentadas no filme. Neste quesito, Daniels faz lembrar o cultuado seriado de Alan Ball, True Blood.

É quase impossível o espectador não ficar constrangido com épicas e absurdas cenas, como a que Charlotte vê pela primeira vez Hilary. Enquanto Ward tenta entrevista-lo para conseguir informações que possam ajudar em sua soltura, o prisioneiro começa uma simulação altamente vulgar, quase doentia, de um sexo oral que resulta em uma ejaculação espontânea por parte de Wetter, filmada sem pudor por Lee. Há outras inúmeras que envolvem uma violência de absurda verossimilhança que impactam sem grandes problemas a quem assiste, ou a intensa nojeira que parece fazer parte do cotidiano dos personagens. Contudo, nada supera a cena protagonizada por Bless e Jack, onde depois de uma discussão, o garoto vai nadar para espairecer a cabeça e esbarra em diversas águas-vivas, que queimam diversas partes de seu corpo. Após uma situação tão ridícula e cômica quanto o acontecimento a seguir, Charlotte descaradamente urina em Jack por todo o seu corpo, na tentativa de amenizar suas feridas. É a típica cena em que as aspirantes fãs de Zac Efron perdem completamente a ideia de estar indo ver suas típicas comédias românticas e, de repente, estão motivadas a abandonar as salas de cinema (o que, de fato, está acontecendo nos cinemas brasileiros).

Toda a precisão técnica do diretor de nada adiantaria se não conseguisse arrancar atuações espetaculares de seu elenco. Efron parece que finalmente conseguiu se encontrar como ator e se esforça bastante para acompanhar a ferocidade do resto do elenco. Matthew McConaughey repete sua especialidade em papéis extravagantes, lembrando muito sua performance no longa de Steven Soderbergh, “Magic Mike”. Já David Oyelowo vive na medida certa o negro que tenta sobreviver a todo custo dentro de um mundo da qual é excluído, tentando mostrar adaptação e profissionalismo exagerados no intuito de convencer pela sua competência. Pequeno, mas merecido destaque, fica por conta de Macy Gray, cujo papel não acrescenta muito à película, mas agrada pela delicadeza da atriz. John Cusack finalmente saiu do automático e traz uma das melhores atuações de sua carreira, vivendo o psicótico e imprevisível prisioneiro. É impossível não se sentir intimidado com suas expressões perturbadoras. Mas quem realmente rouba todas as cenas que protagoniza é Nicole Kidman em, de longe, sua melhor atuação desde “Dogville”, de Lars von Trier. Vulgar, sexy, desmiolada, impulsiva e levemente inocente, sua personagem é um furacão ambulante que simplesmente vai desmoronando (e encantando) a todos que a rodeiam. Kidman atinge um dos pontos altos de sua carreira.

Com um tom acertadamente despretensioso, Obsessão sabe envolver o expectador de maneira impactante, mesmo que sua trama não seja de uma inovação absurda. O que, neste caso, é bastante irrelevante pela força que apresenta todo o universo dos personagens, sabendo cruzar a linha da crítica social e o divertimento que consegue causar ao mesmo tempo. Muito parecido neste quesito com o já citado “True Blood”. Mas se a série de Alan Ball sempre dividiu seu público por suas cenas desconcertantes e polêmicas, o longa de Lee Daniels é capaz de tornar a experiência de sua projeção a beira do insuportável para muita gente. Não que isso tire a força de uma obra que consegue unir sexo brutal a imagens de animais e fazer tudo isso parecer estranhamente lógico... E épico.


Nota: 8/10

21.10.13

Crítica: Os Suspeitos

OS SUSPEITOS
Prisioners

Estados Unidos, 2013 – 153 minutos.
Drama/ Thriller

Direção:
Denis Villeneuve

Roteiro:
Aaron Guzikowski

Elenco:
Hugh Jackman, Terrence Howard, Jake Gyllenhaal, Viola Davis, Maria Bello      

Denis Villeneuve é um diretor com uma carreira relativamente extensa, mas com poucos filmes durante toda sua carreira, que basicamente foi construída por curtas. Ganhou destaque em 2011, no Oscar com “Incêndios”, foi indicado a Melhor Filme Estrangeiro, do qual não ganhou. Villeneuve chega agora com um suspense eletrizante, tenso, inquietante, capaz de revirar sua subestimada carreira e virar alvo do gigante mercado de Hollywood. Só por estes motivos, é fácil indicar Os Suspeitos como melhor filme de sua pequena carreira, mas para o expectador é importante saber que estamos diante de um dos melhores suspenses de investigação dos últimos anos.

A história é bem conhecida. Duas garotinhas são sequestradas misteriosamente enquanto as famílias se divertem dentro de casa. Desesperados, os pais Keller Dover (Hugh Jackman) e Franklin Birch (Terrence Howard) logo procuram a polícia e o detetive Loki (Jake Gyllenhaal) logo encontra um suspeito que se encontrava próximo a possível cena do crime. Sem evidências concretas, o detetive é obrigado a soltar o rapaz, o que revolta Dover que, crente que o garoto sequestrou as meninas, decide raptá-lo para fazer justiças com as próprias mãos e tentar descobrir a todo custo o paradeiro das crianças.

O diretor canadense se mostra altamente capaz de manter o tom de suspense inquietante durante toda a projeção do longa. A começar pelo sequestro das garotas que, diferente do que acontece em diversas películas do gênero, espertamente Villeneuve emite ao expectador o momento do sequestro das meninas. Nem um relance sequer é mostrado, aumentando demasiadamente a conexão de quem assiste ao desespero das famílias envolvidas. A partir daí, é um longo e tenso caminho atrás da verdade que parece realmente que nunca virá à tona. A verossimilhança da direção de Denis, e as excelentes atuações do elenco principal, dão forças extremas à proposta de Os Suspeitos.

Longe de parar na ótima direção e atuação dos protagonistas, as qualidades do filme vão muito além. O roteiro aparentemente clichê e sem inovações, dribla o que o expectador poderia esperar da película por tudo o que já viu em outros do gênero, quando o diretor canadense vai colocando a moral de seus personagens à prova de maneira extrema, sem cair na violência gratuita que muitos utilizam para prender despretensiosamente o público. Questiona até mesmo a humanidade e o senso de justiça de pessoas que sofrem na mão de pessoas doentias. A falta de equilíbrio e descontrole de toda a situação, principalmente pelo fato que, quanto mais dias se passam do momento em que as meninas foram raptadas, evidentemente mais difícil fica para encontrá-las, aumentando o desespero dos personagens em atitudes questionáveis.

A abordagem familiar de Villeneuve é simplesmente comovente. O diretor canadense consegue transmitir com muita verossimilhança o abalo e aflição de quem fica a espera de notícias relevantes e nada pode fazer para minimizar a situação. O filho de Dover simboliza de forma muita concisa o papel de que muitos jovens devem assumir de responsabilidade enquanto seus pais vão caindo em total desequilíbrio com o ocorrido e são obrigados muitas vezes a enfrentar pai e mãe pela cegueira que vai aparecendo penosamente.

 Sem forçar a barra com situações impossíveis ou caracterizar personagens com as soluções desgastantes do gênero, Os Suspeitos merece ser visto e aclamado pela sua maravilhosa direção, atores estupendamente empenhados, destaque para a atuação visceral de Hugh Jackman que há tempos não encarava um papel com tanta devoção. E se a história não aparentar a diferenciação citada anteriormente, espere para ver a força deste filme. De despretensiosa, a carreira de Villeneuve não terá nada daqui para frente.


Nota: 9,5/10

13.10.13

Crítica: Bling Ring - A Gangue de Hollywood

BLING RING - A GANGUE DE HOLLYWOOD
Bling Ring

Estados Unidos, 2013 - 90 minutos
Drama

Direção:
Sofia Coppola

Roteiro:
Sofia Coppola

Elenco:
Katie Chang, Israel Broussard, Emma Watson, Claire Julien, Taissa Farmiga, Leslie Mann

Bêbada e drogada, sob a direção de um gigantesco utilitário luxuoso visivelmente desproporcional a condutora, uma das personagens principais canta descontroladamente ao volante “Viver rápido, morrer jovem. Garotas más são boas nisso. Viver rápido, morrer jovem”. Em uma questão de segundos a garota se envolve em um violento acidente de carro. Ali não há dúvida do que Bling Ring: A Gangue de Hollywood quer dizer: excessos, irresponsabilidade e despeito. Aqui Sofia Coppola saí elegantemente do maravilhoso Um Lugar Qualquer, onde contava a vida monótona de um grande ator de Hollywood para mostrar o outro lado da moeda: os que querem a todos os custos serem famosos. E faz isso com muita competência.

A história incrivelmente baseada em fatos reais, narra a vida de um grupo de jovens de classe média alta de um dos bairros mais badalados e glamorosos da Califórnia que invadiram por diversas vezes as mansões de grandes famosos e roubavam roupas, joias e relógios caríssimos por pura diversão. Inevitavelmente, logo alguém dá falta dos objetos e rapidamente os jovens começam a ser alvo da polícia.

Sem meios termos, Coppola consegue transmitir com muita precisão o mundo fútil da qual os jovens tentam desesperadamente fazer parte: festas regadas a muita bebida alcoólica, cocaína, pessoas externamente maravilhosas sem qualquer conteúdo moral e intelectual, esperando as oportunidades certas para estarem na mídia. Ser e estar são os principais intuitos daquele universo que parece querer recriar no mundo real, o que fantasiam nas produções hollywoodianas não muito longe dali. A mensagem da diretora vai bem além quando um dos personagens em um dos diversos momentos estúpidos que protagonizam grita “Isso aqui é a América”. Claro, Sofia escancara sem pudor a falsidade do tal sonho americano.

Coppola consegue entrelinhas dar ao expectador um estudo complexo da má estrutura e valores das famílias destes jovens. Brinca com as estranhezas das religiões que envolvem artistas de Hollywood (a mãe de duas personagens reflete toda a sua filosofia de vida e da sua família no livro “O Segredo”), que simplesmente vira referência a elas porque aquilo está na moda. Como dito, a questão é ser e estar.

Há pelo menos 3 momentos épicos que dramatizam de forma revoltante a hipocrisia e absurdo, o extremo superficialismo que cerca os personagens: prestes a ser presa, Nicki (protagonizada por Emma Watson que, por sinal, rouba as cenas que aparece com seu extremo cinismo) está em frente de uma assistente social disposta a ouvir seu depoimento sobre os diversos roubos que cometeu. Enquanto a garota tenta livrar sua pele com uma das mentiras mais cínicas de todos os tempos, sua mãe a interrompe por diversas vezes, tentando dramatizar ainda mais a história, a fim de ganhar mais atenção que a filha como se aquilo fosse um grande reality show. A mesma personagem caminha para seu julgamento como se estivesse em um desfile de moda, em postura perfeita. Para, vira, olha para as câmeras e completa seu cinismo com “Obrigado por vocês estarem respeitando a privacidade de nossa família. Esse é um momento muito difícil para nós”. Nem é preciso ter um olhar muito atento para ver o prazer da garota em estar cercada pelos flashes, mesmo que o momento seja catastrófico. Mas para fechar com chave de ouro e colocar quem assiste em estado de incredulidade é sua entrevista para um programa de televisão, da qual dramatiza de forma repulsiva e asquerosa, seus “difíceis” dias na cadeia junto de Lindsay Lohan, que foi roubada por ela e, ironicamente ou não, também foi presa por estar dirigindo bêbada pela enésima vez. Depois de uma história pra deixar qualquer um admirado com a falta de pudor da personagem, a mesma finaliza a entrevista fazendo propaganda de seu site que, segundo ela própria, conta com detalhes seus dias ao lado de Lindsay. É a típica situação que a diretora atinge seu ápice onde nenhuma palavra a mais é capaz de narrar o que está estampado nas telas.

Muito técnica, Coppola abusa de uma fotografia incrível, que eleva a precisão de seu longa anterior, e consegue transpor todo o mundo luxuoso da qual os personagens circulam de maneira muito tangível, utilizando de uma câmera aparentemente amadora, que funciona perfeitamente com sua proposta de flexibilizar visualmente este universo de maneira muito crível. O mesmo pode se dizer da trilha sonora, a excelente edição e a escala de elenco que, sem exceção, caracterizam muito bem seus personagens.

Esperta, Sofia revelou desde o inicio que a aparência dos personagens, nomes e referências, não seriam parecidos com do grupo original para não dar mais mídia para essas pessoas. Algo que realmente deve ter irritado os jovens mimados, já que seria a oportunidade perfeita de tornarem o tão precioso sonho de serem famosos em realidade. Mais claro que a futilidade e superficialidade, Coppola mostra que somente estar perto de criaturas tão insatisfeitas com sua realidade e, ao mesmo tempo, incrivelmente persuasivas e manipuladoras, é tão letal quanto ser uma delas. Porque sem pensar duas vezes, você será usado impiedosamente para que elas consigam o que querem.


Nota: 8/10

7.10.13

Crítica: Os Estagiários

OS ESTAGIÁRIOS
The Internship

Estados Unidos, 2013 - 119 min.
Comédia

Direção:
Shawn Levy

Roteiro:
Vince Vaughn, Jared Stern

Elenco:
Owen Wilson, Vince Vaughn, Will Ferrell, Max Minghella, Rose Byrne, John Goodman, Dylan O'Brien, JoAnna Garcia,Eric Andre, Josh Brener, Tiya Sircar, Tobit Raphael

Depois de produzir o subestimado e divertido “Gigantes de Aço”, com Hugh Jackman, me pareceu esperançoso imaginar que Shawn Levy poderia ter, enfim, encontrado o caminho do comercialmente aceitável, sem chamar o espectador de babaca, como já fez em outras besteiras como Uma Noite no Museu, A Pantera Cor de Rosa e Doze é Demais. Não diferente de suas outras comédias, Os Estagiários possui um enredo fantasioso e ilusório que necessita que o público esqueça as probabilidades da lógica, desconsidere o porquê, e tente aproveitar o resultado da brincadeira. Entendendo isso, não dá pra julgar o longa por colocar dois estúpidos totalmente desqualificados para serem estagiários em uma das maiores companhias do planeta. Entretanto, podemos julgar o espetáculo preconceituoso, imoral e sem graça que a película apresenta no intuito de entreter.

A história não saí do raso: dois vendedores (protagonizados por Owen Wilson e Vince Vaugh) perdem o emprego depois que a firma em que trabalham decide fechar as portas porque o dono acredita que não existe mais público que compre relógios, afinal a tecnologia dominou o cotidiano das pessoas. A decisão não é apenas catastrófica financeiramente para os dois, mas os fazem encarar a realidade inconveniente que estão completamente desatualizados do mercado de trabalho. Após uma não crível desculpa, Billy (Vaugh) consegue uma entrevista para ele e seu amigo para serem estagiários no Google e mesmo depois de uma sucessão ininterrupta de babaquíces que ninguém ousaria fazer em uma entrevista tão importante como aquela, eles inacreditavelmente conseguem uma chance. A partir daí, é uma luta contra o tempo para aprender a se adequar a um mundo que nunca fizeram parte e conseguir uma vaga efetiva na empresa.

Os Estagiários já começa errado por ter sido lançado em uma época muito aquém às piadas que tenta fazer durante os intermináveis 85 minutos de projeção. Com a tecnologia e as pessoas muito mais próximas e evoluídas, as sátiras não conseguem surtir efeito, nem se elas fossem, de fato (o que não são), divertidas e originais. Descontextualizado, Levy apela para as caras de bocas caricatas da dupla de protagonistas para tentar emplacar seu filme. Novamente, a coisa não funciona, já que Wilson e Vaugh são limitados e a direção pouco ajuda para tirá-los da atuação automática. Quando tenta investir em um tom mais sério, a vergonha alheia surge pela cara pavorosa de Owen, que estampa todos seus filmes que tenta parecer mais sério. Vergonhoso. E mesmo que tivesse aqui dois atores altamente competentes, o roteiro de Shawn exagera em clichês, sermões e situações preconceituosas e desagradáveis.

A visão do diretor é bem clara: dar à massa a oportunidade de tentar compreender, divertidamente, este mundo tão desejado por tantos, entretanto, rotula não apenas personagens que são funcionários na empresa, mas todos os nerds como seres intelectualmente inteligentes, porém, incapazes de brilharem ou serem realmente geniais porque em suas vidas faltam diversão e sexo. São pessoas que não sabem aproveitar a vida em todos os sentidos. Aparentemente Levy não conhece a biografia de Steve Jobs. Quando tenta dar sermão nos personagens e os colocam para “enfrentar seus problemas”, um toque levemente espiritual é dado ao filme. Aí, não há mais nada o que possa se fazer.

Para rotular ridiculamente para a mente do expectador mais superficial (e ignorante), o diretor de Gigantes de Aço apela nas definições mais clichês e impertinentes possíveis: os nerds “burros” no filme são representados pelos americanos (o que é quase uma ironia, de certa forma), os intelectuais são protagonizados pelos ingleses, os esquisitos pelos indianos e os alternativos pelos asiáticos.

A história ainda tem tempo para acrescentar lições de moral que nem crianças de 5 anos engolem mais, como trabalhar em equipe para o bem de todos, não sabotar seu concorrente que uma hora você será punido, não menospreze as pessoas antissociais porque elas podem não ser exatamente quem elas parecem ser, tudo isso com direito a câmera subindo em direção ao céu ensolarado. Se fosse um doce, Os Estagiários daria diabete ao menor contato.


Nota: 3/10

28.9.13

Crítica: Elysium

ELYSIUM

Estados Unidos, 2013 - 109 min.
Ação / Ficção científica

Direção:
Neill Blomkamp

Roteiro:
Neill Blomkamp

Elenco:
Matt Damon, Jodie Foster, Sharlto Copley, Diego Luna, Wagner Moura, Alice Braga

Quando Distrito 9 chegou aos festivais de cinema, todo mundo surtou pela intensa criatividade aliado à uma grande crítica social entre metáforas e simbolismos com criaturas bem distantes da criação hollywoodiana e de aproximação com o expectador. A ideia de Peter Jackson de financiar o primeiro longa de Neill Blomkamp pareceu mais do que inteligente, uma vez que o sul-africano honrou a premissa que cumpriu e mexeu com o gênero de ficção cientifica, com um orçamento modesto e atores nada conhecidos.

Agora em Elysium, seu segundo filme, Blomkamp tentar criar uma película com tom de crítica social com um orçamento mais folgado e atores conhecidos para emplacar sua carreira de vez entre os magnatas. Infelizmente, como acontece com muitos, o diretor perde-se com o alto orçamento recebido e entrega um filme instável e mal aproveitado em um cenário com potenciais épicos.

A trama se passa em 2154, a Terra está superpopulosa, imunda e sem qualquer qualidade de vida para os seres humanos. Sendo assim, os governos se juntam para criar Elysium: uma espécie de satélite que consegue receber toda estrutura para uma excelente vida, altamente saudável. Claro que para ser cidadão deste paraíso, a pessoa deve ser muito rica, o que faz da Terra um local quase abandonado e esquecido pelos milionários, que ainda a utilizam para fazer a massa que vive em condições sub-humanas a trabalhar como escravos. 

Dentro deste mundo medíocre conhecemos Max (Matt Damon), um operário de fábrica que é exposto a uma fortíssima radiação devido a uma negligência de um supervisor que insiste que ele tente consertar a máquina onde trabalha a qualquer custo. Doente e com poucos dias de vida, Max é levado até o traficante cibernético Spider (Wagner Moura), que promete ajuda-lo a chegar até Elysium, que conta com máquinas capazes de curar qualquer tipo de doença. Para isso, ele deve ajudar o traficante a roubar informações de algum bilionário para conseguir estabilidade financeira e poder comprar sua passagem permanente para o satélite. Entretanto, a secretária Delacourt (Jodie Foster) e seu agente secreto Kruger (Sharlto Copley) estarão dispostos a impedir a qualquer custo a entrada de ilegais dentro do local.

A ambientação da Terra em Elysium é muito semelhante à de Distrito 9. A sensação que se tem é que a imundícia dos cenários penetram na pele da população tamanha sujeira e aglomeração de lixo presente em todos os cantos. Neste quesito, os brasileiros podem ter certa familiaridade com a situação, já que por diversas vezes, o local se assemelha a paisagens conhecidas por nós. Já a bela estação espacial ambientada pelos milionários contrasta em contraponto, toda a pobreza da Terra com cenários perfeitamente projetados, muito parecidos com A Ilha, de Michael Bay e o recente Oblivion, do arquiteto e diretor Joseph Kosinski.

A crítica social que Blomkamp quer transmitir em seu longa, mostrando novamente a frieza social perante as classes inferiores, vai se perdendo a medida que Elysium começa a priorizar grandes clichês em seu roteiro e um show pirotécnico de efeitos especiais e desperdiça os grandes potenciais que cria durante todo o filme.

É compreensível que boa parte dos deixados na Terra sejam representados por latinos e asiáticos, provavelmente seria a mais obvia hipótese se um dia tudo isso realmente viesse acontecer. Entretanto, querer vender para quem assiste que Damon é latino, força demais a credulidade da história. É evidente que os executivos tiveram a mão presente dentro desta decisão, uma vez que Blomkamp não pensou duas vezes em colocar Copley, um sul-africano, para protagonizar Distrito 9. Aqui, o estrelismo do protagonista impulsiona a fragilidade e a fraqueza do roteiro. Como se não fosse o suficiente, o diretor sul-africano ainda abre um espaço desnecessário na trama para dramatizar a história do protagonista com flashbacks da sua infância que era praticamente profetizada pela avó de Max. Mais clichê, impossível.

A situação piora quando Elysium vai alterando gradativamente seu tom e foco, perdendo a força dos personagens vividos por Jodie Foster, que vive uma tirana fria e calculista, Wagner Moura, excelente em sua estreia no cinema hollywoodiano e Sharlto Copley, que rouba descaradamente as cenas em que está com um personagem doentio e insano. Ironicamente ou não, os três personagens eram cruciais para o desenvolvimento da crítica social que tanto Blomkamp tenta expor e perde força principalmente por ofuscar personagens estão interessantes e cheio de potenciais, em meio a correrias e explosões que no longa anterior do diretor faziam muito sentido, aqui tem apenas a intenção clara de entreter.

Agora nos resta a grande dúvida em saber a promessa financiada por Peter Jackson cairá no tornado gigantesco de executivos e estúdios que utilizam do cinema para vender o produto mais medíocre e fútil o possível, ou foi apenas um deslize em uma carreira visionária e criativa.


Nota: 6/10

15.9.13

Crítica: Rush: No Limite da Emoção

RUSH: NO LIMITE DA EMOÇÃO
Rush

EUA, Inglaterra, Alemanha, 2013 - 123 minutos.
Corrida / Drama / Esporte

Direção:
Ron Howard

Roteiro:
Peter Morgan

Elenco:
Chris Hemsworth, Natalie Dormer, Olivia Wilde, Daniel Brühl, Tom Wlaschiha, Rebecca Ferdinando, Alexandra Maria Lara, Joséphine de La Baume, Rain Elwood, Jamie Sives, Pierfrancesco Favino, Julian Seager, Patrick Baladi

Uma obra somente é completa quando, independentemente do meio que tenha vindo, seja uma adaptação de quadrinhos, livros ou games, seja completamente compreensível desde o fã mais fervoroso até aquela pessoa que caiu de paraquedas na sala de cinema. Claro que vir com conhecimento ou vivência de algo que está se presenciando em um filme traz maior prazer e nostalgia para quem estiver assistindo, mas o projeto deve ter a obrigação de ser claro para todos.

Rush: No Limite da Emoção não é exatamente uma adaptação e sim a biografia de dois dos maiores corredores de Fórmula 1 da história. Confesso primeiramente que nunca fui fã do esporte e pela minha ignorância pessoal também nunca tinha ouvido sequer falar de Niki Lauda e James Hunt. Entrei na sala de cinema sem nem ter visto um trailer da película, apenas confiante na chuva de elogios que o filme de Ron Howard levou por onde passou. E o resultado foi bem claro: se consegui sair surpreso com a fantástica história destes corredores, quem dirá os fãs do gênero.

A trama narra pelos dois pontos de vista, a história de Niki Lauda e James Hunt. Dois corredores completamente distintos em suas personalidades que criaram uma rivalidade quase que instantânea por representarem dois polos distantes como pessoas: Niki (interpretado maravilhosamente por Daniel Brühl), alemão vindo de uma família tradicional e controladora, delimita sua vida e profissão dentro da lógica e percentuais de erros, onde cada movimento pode ser crucial para a vitória ou fracasso. Já James (vivido surpreendentemente bem por Chris Hemsworth), inglês acostumado à boemia, possui uma vida desregrada onde sequer sabe com quem vai levantar no dia seguinte, onde sua raça atrás do volante é definida por seu instinto aventuresco e, de certa forma, quase suicida. O longa foca exclusivamente a disputa entre os dois corredores nos anos 70 pelo prêmio mundial de Fórmula 1, em 1976.

Para dar a ambientação da película o tom exato da época, Howard cria uma fotografia de cores levemente dessaturadas e desajustadas com granulação para simular as câmeras da época e dar, automaticamente, mais realismo às cenas. A incorporação das “hand-cam” (câmeras na mão) consegue envolver com muita precisão quem assiste não apenas nas fantásticas sequências das corridas protagonizada por Lauda e Hunt, mas consegue aproximar emocionalmente o espectador e aprofundá-lo dentro do estilo de vida dos dois corredores.

Apesar das boas soluções técnicas, Rush: No Limite da Emoção se beneficia da experiência de Howard em reconstruir grandes histórias para o cinema como o excelente Frost/Nixon e A Luta pela Esperança. Sabido, o diretor americano compreende a necessidade do filme em não se aprofundar apenas nos violentos shows estrelados pelos dois corredores nas pistas, mas dar ao público a compreensão de dois pontos de vistas igualmente interessantes e, a partir deles, construir um tom de rivalidade e, no fundo, de companheirismo que os dois tinham secretamente. A sequência em que Lauda admite a Hunt que ter um inimigo nas corridas não é algo ruim e sim motivador para ambos continuarem uma rixa incessante, é o ponto claro em mostrar que a graça não era vencer e sim ter um adversário à altura. E neste ponto, os dois mostravam-se totalmente contraditórios. Niki sempre afirmando que corria porque era a única coisa com que sabia fazer dinheiro. E James que sempre dizia que a graça de correr era estar perto da morte e pela diversão que isso causava. O resultado foi que James deixou o esporte dois anos depois da grande corrida de 1976 e Lauda se aposentou depois de alguns anos, onde claramente a graça de correr não era mais a mesma sem Hunt.

Sem se apoiar exageradamente nos dramas, Howard consegue aproveitar o melhor da história que conta, construindo um tom perfeito para o espectador, dando equilíbrio certo entre o ótimo roteiro e as sequências empolgantes de ação. A escalação do elenco é extremamente feliz. Hemsworth e Brühl possuem excelente dinamismo de cenas juntos e a rivalidade da história original engrandece em momentos épicos protagonizados pelos dois. O elenco secundário é ótimo e dá o apoio necessário para o filme.

Com a escalação de filmes para o Oscar de 2014 chegando, será muito difícil que Rush: No Limite da Emoção não ganhe algumas indicações muito merecidas por esta reconstrução biográfica fantástica de dois corredores igualmente brilhantes que levavam estilos de vidas totalmente distintos que garantiu a ambos o preço alto de suas escolhas.

Nota: 9,5/10


8.9.13

Crítica: Jobs

JOBS

EUA, 2013 - 128 min.
Biografia

Direção:
Joshua Michael Stern

Roteiro:
Matt Whiteley

Elenco:
Ashton Kutcher, Dermot Mulroney, Josh Gad, Lukas Haas, Matthew Modine, J.K. Simmons, Victor Rasuk

Acho que não é preciso contestar a genialidade de Steve Jobs. Artista zen, revolucionário, um verdadeiro visionário que conduziu todo o mercado tecnológico a um futuro cheio de desafios que sempre foi instigado por sua mania obsessiva compulsiva pelo perfeccionismo, design funcional e seu próprio campo de distorção da realidade. Pode parecer excêntrico afirmar, mas apesar de nunca ter conhecido Jobs pessoalmente, minha identificação com seu modo de pensar sempre foi muito grande. Estudar este visionário por um ano e ler sua maravilhosa biografia escrita por Walter Isaacson me fez perceber o quão incrível e contraditório este mesmo poderia ser. E sem sombra de dúvidas, isto foi o ingrediente principal que o fez passar por uma avalanche de problemas e sair de todos da melhor maneira possível. Bipolaridade pessoal e profissional.

Quando anunciaram que David Fincher faria um filme sobre o Facebook, todos riram. Pareceu uma ótima sacada mercadológica já que a rede social se encontrava em gritante crescimento e a tendência de nerds crescia a todo instante. Felizmente o resultado foi muito além e A Rede Social, com certeza, é um dos melhores filmes deste fantástico diretor. Mas infelizmente a ótima sacada de Fincher não foi o suficiente para que o diretor Joshua Michael Stern entendesse que quando se faz biografias de pessoas do patamar de Zuckerberg e Steve Jobs, analisá-los com profundidade é um passo extremamente crucial para que a obra ganhe as devidas proporções, uma vez que estes são motivados e incomuns exclusivamente pelo seu modo de pensar, seu estilo de vida e uma influência totalmente pessoal que acabou, controversamente, se tornando indústrias bilionárias e valiosíssimas. Jobs (o título no Brasil perdeu a sacada do “j” em minúsculo para lembrar os “i”s dos produtos da marca) fracassa violentamente em não transpor para quem assiste as verdadeiras motivações de um homem que por si só, era um mar de complexidades por seu mix de sentimentos distintos, bons ou ruins, que alteravam radicalmente qualquer coisa que ele tocava e, em pinceladas fúteis e superficiais, remetem todo o brilhantismo deste gênio a uma loucura inexplicável de uma juventude incompreensível que, em um uso casual de drogas, não foi perdida pela sua visão de um futuro revolucionário enquanto estava chapado.

A trama se restringe a resumir a juventude de Jobs, o começo da Apple e todos os seus problemas pessoais e profissionais que quase levaram a marca à falência e que, inevitavelmente, o levou para a saída temporária dos comandos da própria empresa, até voltar e levar a Apple a ser a empresa mais valiosa do planeta.

Tudo, porém, é feito com muita imprecisão. O roteiro peca violentamente pela falta de coerência narrativa onde, sem qualquer explicação, corta grandes pedaços de sua história de maneira tão grotesca, que Stern parece acreditar levianamente que o espectador é incapaz de perceber que a filha que Jobs tanto renegou por anos, do nada, logo está ao lado de seu pai feliz pela situação, sem qualquer tipo de explicação. Esquecer também de mencionar grande parte da vida pessoal do visionário enquanto foca sem muito contexto o andar rotineiro da Apple, e quando menos se espera, Steve já está com uma aliança de casado na mão, e sequer sua esposa é apresentada uma vez ao público. Coisa de indignar a qualquer um. Para fechar as contradições apresentadas em tela, o longa abre seu prólogo com a apresentação de Jobs em 2001, mostrando ao mundo pela primeira vez o revolucionário ipod. Entretanto, a sequência só serve para forçar o espectador a acreditar na verossimilhança de Ashton Kutcher protagonizando o personagem título, já que sequer a narrativa ou trama chegam em tal ocasião, já que o filme é encerrado antes mesmo dos anos 2000, o que demonstra uma grande falta de planejamento de Joshua em acrescentar a sua película uma abertura insignificante dentro do seu contexto narrativo.

Tentando ainda esquecer tanta incoerência, o diretor peca em não conseguir refinar a atuação de Kutcher, que peca por ser um pouco caricata, mas ao mesmo tempo, consegue segurar o longa do total desastre, assim como todo elenco secundário que se caracteriza bem e espanta pela semelhança com os personagens interpretados. Infelizmente tanto esforço é mal aproveitado com um tom ridiculamente cômico, que muda sem meios termos para um drama pesado e ainda tem tempo de apelar para uma trilha sonora medíocre que tenta convencer o público da epicidade de seu protagonista perante todas as suas contribuições na história tecnológica do mundo, como se isso fosse necessário.

Com uma história bem menor, Fincher provou que a competência de um grande diretor é capaz de dar poder a qualquer projeto e é gritante a todo instante que o que falta a Jobs é um diretor de pulso firme e incrivelmente apaixonado pelo o que faz. Porque um apaixonado entende outro apaixonado e a paixão de Steve Jobs pelo o que se fazia de melhor era tão evidente, que chegava em pedaços em cada caixa composta para seus produtos.

Nota: 3,5/10

25.8.13

Crítica: True Blood (6ª Temporada)

TRUE BLOOD (6ª Temporada)

Estados Unidos, 2013 – 600 minutos aprox.
Drama/ Fantasia/ Mistério - Série de televisão

Criação: Alan Ball

Roteiro: Alan Ball, Charlaine Harris, Alexander Woo, Brian Buckner, Raelle Tucker

Elenco: Anna Paquin, Stephen Moyer, Sam Trammell, Ryan Kwanten, Rutina Wesley, Chris Bauer, Nelsan Ellis, Carrie Preston, Alexander Skarsgård, Joe Manganiello

Ufa! Respiração começa a voltar ao normal depois do season finale da 6ª temporada de True Blood. Este ano a série ficou com 2 episódios a menos por conta da gravidez de Anna Paquin, mas não menos empolgante. Entre o resgate dos primórdios da criação de Alan Ball, um roteiro divertido e cativante, a série vampiresca volta a fazer uma ácida e verdadeira crítica social a meio as iconográficas cenas de sexo e o tom trash tão característicos da obra.

A trama começa exatamente onde a 5ª temporada acabou. Bill bebe o sangue de Lilith e se transforma em algo do qual ele mesmo não consegue entender. Com sua evolução rara de poderes nunca vista antes em outros vampiros é o ponto-chave para que outrem o chame de Deus, pois até o futuro, de certa forma, ele consegue prever. Entretanto, toda esta ascensão tem um inimigo imprevisível: instabilidade.

Enquanto Sookie tenta novamente restabelecer sua vida fora de toda a loucura de vampiros e fadas, ela conhece um homem misterioso da qual se sente atraída. Embora queira ficar longe de problemas, a meia-fada terá que encarar uma realidade nada esquecível: o governo decide criar um campo de concentração para estudar os vampiros e, com o passar do tempo, encontrar a melhor forma de exterminá-los e com a falta do Tru Blood, a sede dos vampiros instabiliza as noites de todos, o que contribui para uma aceitação geral dos planos, mesmo que ele seja parcialmente distorcido para a grande população, tudo comandado sob ajuda da fanática religiosa Sarah (que está de volta e interpretada perfeitamente insuportável por Anna Camp), da qual Sookie terá que decidir se participará ou não do resgate que pode significar a vida ou a morte verdadeira de todos os seus amigos vampiros e a contaminação de toda a espécie.

O temor que todos tinham sobre Ball sair do comando da série foi leviano. True Blood recebe um ar de inovação em seu sexto ano com sacadas muito interessantes e divertidas. Consegue retornar a sua origem mais simplista, mesmo que o roteiro tenha, entrelinhas, uma história praticamente global. Mesmo assim, o resultado, para o bem da série, não é megalomaníaco. A técnica é quase semelhante a que Lars Von Trier conseguiu em Melancolia: retratar eventos grandiosos em “segundo” plano e não desfocar todo o universo existente. Os episódios, de modo geral, ganham pontos pela boa estrutura de núcleos da trama central e subtramas que são distribuídos de modo preciso. Embora a subtrama de Sam Merlotte em constante fuga da alcateia de Alcides tenha mais atenção do que o necessário. Felizmente alguém teve o bom senso e não deixou que isso fosse estendido até o último episodio, o que causaria um desperdício muito grande de tempo em um seriado que, curto por natureza, sofre excepcionalmente este ano com a falta de mais episódios. Outro escorregão do roteiro fica pela indecisão dos roteiristas com o grande personagem desta temporada: Warlow (interpretado por Robert Kazinsky). Muito foi prometido durante a temporada, principalmente no excelente quarto episódio e o personagem teve uma resolução infeliz e fraca para toda a expectativa que foi criada. Teve um desenvolvimento grande, cativou o público e saiu de cena de forma errônea. Com certeza, foi o tendão de Aquiles deste ano.

Erros e focos desnecessários à parte, True Blood volta a questionar a moral humana de forma intensa e polêmica. Os roteiristas foram espertos em fragilizar os vampiros nesta temporada para maximizar os questionamentos feitos durante este sexto ano. Embora seja compreensível o medo pela vulnerabilidade de ser ameaçados por seres mais fortes e sugares de sangue, a solução para conter os vampiros é doentia. Novamente há reflexões sobre o valor de uma vida, mesmo que seja a de outra espécie.  A coisa se polemiza radicalmente quando a fanática religiosa Sarah decide executar barbaridades contra os imortais justificando suas atitudes pela “vontade de Deus”. Suas cenas são o grande alto desta sexta temporada, da qual a personagem ao mesmo tempo em que consegue ser divertida e insuportavelmente irritante, espanta o telespectador pela sua falta de decência moral. Vão bem mais além, em uma das melhores cenas de toda a série em seus seis anos de existência, quando coloca a prostituta Pam para ser interrogada no campo de concentração por um psicólogo humano. Ali, a vampira é questionada pela falta de transparência dos sentimentos da sua espécie e logo rebate a falsidade e a leviandade da expressão dos sentimentos humanos. Enquanto nós prometemos algo pela eternidade, na qual são raramente cumpridos, os vampiros só prometem quando realmente vão cumprir e não se apegam em sentimentos autodestrutivos de forma banal para gerar a piedade de outras pessoas e viver se lamentando durante toda sua existência. Quando estão realmente tristes, choram de verdade e não fingem. Um verdadeiro tapa na cara da sociedade hipócrita em que vivemos.

Com excelentes e rápidos episódios, a 6ª temporada de True Blood mal acabou e já deixa um gosto de saudades que só será suprida no meio de 2014. O temor de que a série poderia estar perdendo sua personalidade tão ímpar e audaciosa que cativou e dividiu a opinião do público veio novamente mostrar que tem muito ainda a exibir e, com certeza, não faltará contexto para a sétima temporada que promete... E muito.

Nota: 8,9/10