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16.7.10

Crítica: Os Homens Que Não Amavam As Mulheres

OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES
Män Som Hatar Kvinnor

Suécia/Dinamarca/Alemanha, 2009 - 152 min. 
Suspense

Direção:
Niels Arden Oplev

Roteiro:
Rasmus Heisterberg, Nikolaj Arcel


Elenco: 
Michael Nyqvist, Noomi Rapace, Lena Endre, Peter Haber, Sven-Bertil Taube, Peter Andersson, Ingvar Hirdwall, Sofia Ledarp, David Dencik

Não há satisfação maior para um cinéfilo, descobrir ao acaso uma trilogia conceituadíssima na literatura da qual nunca havia ouvido falar e descobrir o quanto ela é excelente. Admito a ignorância pela minha parte, confesso que (ainda) não consegui ler ao livro, mas ao mesmo tempo sinto-me redimido e feliz por descobrir as obras de Stieg Larsson, escritor sueco que faleceu antes mesmo de suas obras ficarem famosas. E mesmo desconhecendo profundamente as obras, acho que posso dizer que Os Homens Que Não Amavam As Mulheres é, com certeza, uma abertura digna para a trilogia e deve agradar aos fãs.

Na trama, um jornalista famoso de uma revista fictícia conceituada na Suécia é preso por difamação a um milionário magnata dono de uma rede de empresas. Mikael Blomkvist (Michael Nyqvist) tem certeza de que seu julgamento foi armado. Com o direito de recorrer a uma apelação, o jornalista terá seis meses para tentar achar provas que impeça sua prisão. Neste meio tempo, ele recebe um convite misterioso de Henrik Vanger (Sven-Bertil Taube), ex-comandante de uma empresa que leva seu sobrenome. Mikael então viaja até o norte do país para receber uma proposta: tentar desvendar o desaparecimento da sobrinha de Vanger que está desaparecida há mais de 40 anos. O problema é que no dia do desaparecimento da garota, o local onde toda a família Vanger vive, é fechado como uma ilha. No dia do desaparecimento, houve um acidente que bloqueou a única estrada que possibilitava a saída do vilarejo, indicando que o suposto assassino da garota seja um membro da família, pessoas rudes e gananciosas, pois, a garota herdava a maior parte das ações da empresa. Antes do desaparecimento, a sobrinha preferida de Vanger presenteava o avô em todos os seus aniversários com quadro com uma flor seca prensada e o curioso é que Henrik recebe estes quadros de todos os lugares do mundo até hoje. O que faz Vanger a crer que o assassino ainda está vivo e a solta. Enquanto isso, a hacker Lisbeth (Noomi Rapace) é contratada para investigar Mikael, onde acaba descobrindo a inocência do jornalista.

A trama é extensa. Para quem está acostumado apenas a assistir aos filmes americanos de linguagens fáceis pode ter alguns problemas com a linguagem arrastada sueca. Não apenas pelas falas dos atores, mas o andamento da película se desenvolve diferente do padrão americano. Nada é corrido demais e geralmente vem de diálogos rápidos e extensos, um pouco estranho para quem não tem o costume, mas garanto nada que prejudique o filme. Pelo contrário, a direção de Arden Oplev desenvolve a obra de Stieg Larsson de maneira mais sútil e menos barulhenta que os suspenses americanos. A envolvência do telespectador aqui vai além da trilha sonora pesada e dos sustos fáceis, não que "Os Homens Que Não Amavam As Mulheres" fuja totalmente deste padrão, porquê se não deixaria de ser um suspense, mas a trama e os personagens são apresentados de formas mais pessoais. Às vezes, constrói situações brutais que fazem automaticamente que o telespectador tenha, alguma forma, conexão aos personagens. E este é o caso de Lisbeth Salander.

A garota hacker é amedrontadora, cheia de piercings e tatuagens. De personalidade extremamente forte e incomum, seria um prato cheio para a incompatibilidade do público, mas após uma cena terrível de estupro, se igualando, talvez, as cenas de estupro de A Laranja Mecânica, do brilhante Stanley Kubrick. É quase impossível depois daquela cena não criar um vinculo com a personagem e a atuação de Noomi Rapace convence e muito. Sua postura, de inicio rebelde, nos convence do contrário e mostra seu passado perturbador e o quão atormentada Lisbeth é. Brutal e fria, seu lado feminino desaparece totalmente. O interessante é ver como esta ''placa de gelo'' vai quebrando ao longo das duas horas e meia do filme, de uma maneira natural imposta na trama, que não transforma o personagem em algo falso e de dupla personalidade, onde poderia perder toda a graça desta ligação entre personagem e público. Com certeza, o personagem mais marcante do filme e de como tudo indica, de toda a trilogia.

O titulo brasileiro "Os Homens Que Não Amavam As Mulheres" foi escolhido de forma enganosa pelo marketing da distribuidora. No titulo original "Os Homens Que Odeiam As Mulheres", com certeza, pode traduzir desde início, o que o filme vai desenvolver durante toda sua projeção. Desconheço da cultura sueca, mas há boatos que Larsson, escritor dos livros, fora assassinado e não morto vítima de um infarto como descreve muitos lugares. Há jornais que dizem que o escritor tinha problemas com o governo sueco pela exposição que seus livros tinham da cultura do país. Nada que indique nada, claro, mas o que não seria uma grande surpresa. Não quero expôr o que de fato o filme sugere, mas não é nada muito a favor do país, culturalmente dizendo.

Longe de ser uma boa atração apenas pelos boatos que circulam em volta de suas origens, o longa desenvolve um tom investigativo ótimo que me fez lembrar da essência de clássicos como Sherlock Holmes. Se Guy Hitchie tivesse criado uma investigação como esta à Robert Downey Jr., algo realmente interessante, envolvente e sério, como as verdadeiras origens do personagem, com certeza, tiraríamos mais proveitos do que vimos, sem dúvidas. Mas o que Guy Hitchie não fez, Niels Arden Oplev traz a nós de forma muito mais ousada e interessante.

Soube que a maldição de remakes caiu também em cima de ''Os Homens Que Não Amavam As Mulheres''. Até diria que seria algo que não valeria a pena ser visto. Algo desnecessário. Mas como soube que David Fincher (do maravilhoso O Curioso Caso de Benjamin Button e do futuro A Rede Social) foi quem decidiu fazer o remake. É a primeira vez que podemos dizer que poderá ser algo excelente disso tudo.

Mesmo atrasado em um ano, a película tornou-se uma grande (e boa) surpresa neste ano, cheio de catástrofes como "Fúria de Titãs". Se ''A Menina Que Brincava Com Fogo'', segundo livro da trilogia do escritor sueco, for adaptado de forma tão comprometida como este se mostra, teremos uma trilogia, enfim, muito boa para acompanhar nos cinemas.

Nota: 8,7


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