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30.7.14

Crítica: Penny Dreadful

PENNY DREADFUL

Suspense/Terror
Estados Unidos/Irlanda/ Reino Unidos, 480 minutos. (aprox.)

Criação:
John Logan (diretor), Sam Mendes (produtor executivo)

Elenco:
Josh Harnett, Eva Green, Timothy Dalton, Harry Treadaway, Danny Sapani, Rory Kinnear, Reeve Carney, Olivia Llwellyn

Há meses deixei explicitamente claro a minha decepção com a primeira temporada de American Horror Story. Tanto potencial foi desperdiçado com cópias em tom de “homenagem” a clássicos da literatura e do cinema americano. Na série exibida na Fox, criada por Ryan Murphy, em nenhum momento sequer este tom. Pelo contrário, utiliza de cenas, takes, fotografia, e sacadas de grandes diretores onde, em uma grande “mistureba”, finge mostrar algo realmente novo. Pura besteira. Entretanto, a falta de qualidade não espantou a audiência e claramente abriu um leque de um novo público ali. Por questões mercadológicas ou não, Sam Mendes junto de seu parceiro no roteiro de 007 – Operação Skyfall, John Logan, responsável também pelo texto do brilhante A Invenção de Hugo Cabret, decidiram ir um pouco além da proposta da “concorrente” e criar uma série de grandes clássicos do terror/horror europeu. O resultado é muito feliz em sua execução: Penny Dreadful faz o telespectador embarcar em uma história muito interessante, repleta de personagens atraentes e, principalmente, sabe explorá-los de maneira que demonstra respeito aos cânones inspirados, mas sabe que deve seguir seu próprio caminho. Não é uma adaptação e seus criadores não tentam em nenhum momento fazer parecer uma.

A história mescla Lobisomem, o charmoso Dorian Gray, Drácula, Van Helsing, Frankenstein, avançando por diversas literaturas poéticas, como Shakespeare, por exemplo. Mas é em Malcolm Murray (Timothy Dalton) e Vanessa Ives (Eva Green) que a trama central foca. A série começa com Malcolm e Vanessa precisando da ajuda de exibicionista de circo Ethan Chandler (Josh Harnett) para protegê-los de algo não humano. Logo vamos descobrir que os dois estão atrás de Mina, filha de Murray e amiga de Ives, que foi levada para um mundo sombrio por um vampiro. Conforme a missão vai se mostrando mais difícil e completa, ambos vão incluindo outros membros dentro do grupo para ajudar a desvendar onde realmente está a jovem. O que nenhum deles sabe é que cada um carrega um segredo pessoal diferente, deixando as circunstâncias, já extraordinárias, muito mais instáveis do que poderiam imaginar.

Logan e Mendes sabem das expectativas que envolvem uma série quando decidem utilizar tantos personagens conhecidos, mas, os poucos, vão mostrando que não tem medo de arriscar sua própria linha criativa, muito menos sacrificar grandes nomes por conta de sua fama. Sendo assim, Penny Dreadful avança em seu mundo instigantemente dark gradualmente, aumentando aos poucos o tempo de suspense do seriado.

Mesmo com poucos episódios, a série televisiva consegue explorar com precisão seus personagens mais interessantes. Entretanto, seu tom psicossexual parece ter efeito tridimensional no desenvolvimento dos protagonistas fazendo com que Penny Dreadful avance sua história como um flerte, de maneira que instiga e manipula o público a querer saber mais, mesmo nem sempre oferecendo este “mais”. Não se trata de algo frustrante, pelo contrário, aumenta a expectativa pela segunda temporada.

O ótimo elenco é muito bem comandado e, diferentemente de American Horror Story, possuem conexão com os telespectadores, por mais monstrengo que possam ser estes personagens. Algo que parece ter sido trazido do longa de Scorsese. Os destaques artísticos vêm de Harry Treadaway como Dr. Frankenstein e Eva Green como Vanessa. A ex-Bond Girl encarna sua personagem de forma complexa, transpondo muito bem o tom de mistério e perturbação que Ives carrega desde a infância. Os momentos de possessão são realmente assustadores graças à competência da atriz e o episódio inteiro em flashback contando sua vida é um dos altos da série.

Sem muitas firulas para usar de passatempo, Penny Dreadful faz jus à sua denominação de “conto” em sua linguagem original, repleta de terror, cenas sanguinolentas, misteriosas e sexuais (principalmente, como não poderia deixar de ser, protagonizadas por Dorian Gray, em sua personificação mais perfeita para a mídia visual), mas, por mais que não se leve a sério, não dá para chamar uma série tão divertida e competente em sua proposta de “conto barato”, por mais despretensioso que o título insinua. A concorrência chegou para American Horror Story e chegou muito forte!


Nota: 9,0/10

25.7.14

Crítica: Planeta dos Macacos: O Confronto

PLANETA DOS MACACOS: O CONFRONTO

Dawn of the Planet of the Apes

Ação/ Drama/ Suspense
Estados Unidos, 130 minutos.

Direção:
Matt Reeves

Roteiro:
Mark Bomback, Amanda Silver

Elenco:
Andy Serkis, Jason Clarke, Tori Russel, Gary OIdman, Toby Kebbell


Não é de hoje que Hollywood se vendeu aos deslumbres dos efeitos especiais e vem a cada dia oferecendo filmes que deixam diretores, roteiros e atores de lado para segurar o expectador com ações desenfreadas com pirotécnicas espetaculares, escondendo muitas vezes a grande porcaria que é exibida em telas. Michael Bay e Roland Emmerich estão aí para provar isso. Atualmente a maior indústria de filmes do mundo perde criatividade por medo do mercado e apela cada vez mais para o que é “comercialmente” aceito. Escolhas feitos por executivos que acham que sabem o que as pessoas realmente querer ver ou não. Claro que isso é tão relativo que grandes apostas viram fracassos épicos. John Carter, O Cavaleiro Solitário e grande parte dos filmes da Disney nos últimos 10 anos deixaram mais do que um rombo financeiro à produtora. Mas afinal, qual é o problema de entreter o público com longas recheados de CGI? Nenhum. Desde que o diretor saiba que computação gráfica é usado para contar uma história e não um elemento que segura a história. Pontos que parecem simples, mas são cruciais. Isso parece impossível para um blockbuster americano? Não, não é. Planeta dos Macacos: O Confronto é prova disso.

A captação de movimentos criada por James Cameron para Avatar foi um marco na indústria. Gravidade assustou pela verossimilhança com o claustrofóbico espaço de Alfonso Cuáron. Aqui, a tecnologia é elevada ao nível extremo ao ponto de criar choque. É, definitivamente, um registro na história. Principalmente porque amplia a competência da proposta do diretor e do redondo roteiro de Mark Bomback e Amanda Silver, fazendo o público temer realmente macacos que não existem. Mas que isso, comove, expressa e se comunica se maneira tão perfeita que a admiração do trabalho é inevitável. Se no anterior estes elementos pareciam excelentes, espere para se impressionar com esta continuação.

A história se passa 10 anos após os incidentes do anterior. A doença iniciada em “A Origem”, aqui, já destruiu quase toda vida na Terra. Os macacos imperam, sendo parte deles comandados por Cesar (Andy Serkis). Os poucos humanos que restaram se afugentam em esconderijos ou zonas de segurança. Um dos grupos em meio a uma selvagem São Francisco, liderados por Dreyfus (Gary Oldman), teme que a falta de energia extinga seu pessoal de vez, achando uma alternativa junto de Malcolm e Ellie (Jason Clarke e Teri Russel), em uma represa do outro lado da cidade. Exatamente onde os macacos se concentram. Após um inevitável confronto, Cesar tenta aceitar a necessidade de ajudar a raça humana a se manter viva, o que causa conflitos internos dentro de seu próprio grupo e após erros de ambos os lados, uma grande guerra acontecerá.

O roteiro do fraco Bomback é simples, redondo e um tanto previsível. Mas apesar disso, Silver, que ajudou a escrever o anterior, faz com que o texto não perca os bons elementos criados para a franquia. O polimento de toda esta história fica por conta de Matt Reeves, diretor que, sem grandes experiências, vem conseguindo seu espaço dentro da indústria por sua direção de personalidade, mas que não esquece o produto que tem para “vender”. Principalmente em um longa cujo orçamento passa os 170 milhões de dólares. Os dois grandes acertos do diretor de Cloverfield são sábios: dar espaço para os atores, principalmente Serkis, brilhar e garantir uma perspectiva para o longa que garanta que o público se coloque de ambos os lados, não apenas o dos humanos. Uma vez feito isso, não existem mocinhos ou vilões em Planeta dos Macacos: O Confronto, apenas o medo das duas pontas de perderem o que se foi conquistado. Assim tanto o diretor perde a necessidade de evidenciar heroísmo, algo clichê neste subgênero, garantindo mais abertura para novos horizontes, fazendo com que o expectador possa compreender criaturas que, aparentemente, parecem incompreensíveis. E para este meticuloso trabalho, os efeitos especiais garante o tal marco citado anteriormente. Nunca no cinema alguém conseguiu esboçar tanta expressão através da tecnologia, principalmente em animais. Este é, de fato, o ápice.

Sendo assim, os atores como Jason Clarke, Keri Russel, que interpretam os protagonistas humanos no filme (os macacos são, em sua grande maioria, pessoas captadas por câmeras especiais) chegam a perder espaço, mesmo mostrando competência. E competência é algo que nunca falta a Gary Oldman. Mas, como não poderia ser por menos, aqui são os macacos que dominam. Andy Serkis já havia posto a grande dúvida na cabeça dos selecionadores do Oscar sobre uma indicação a melhor ator para seu papel como Cesar anteriormente, mas este ano será realmente muito difícil ignorar este trabalho assombrosamente memorável. A tradicional academia talvez deva reconsiderar algumas regras ou criar uma futura categoria, pois a captação de movimentos é uma tendência que está longe de ser modinha e cada vez mais aparecem trabalhos dignos de premiação.

Planeta dos Macacos: O Confronto não é uma película genial, mas tanta competência técnica junto a sua proposta, do elenco e da direção muito firme e precisa Reeves (que é conduzida de forma que agrade o grande público, afinal, estamos falando de um blockbuster ainda), não deixa de ser uma obra de potenciais bem explorados, tanto artística e comercialmente dizendo, sendo impossível passar em branco. Só a magnífica trilha de Michael Giacchino já chamaria atenção o suficiente. E com tantos méritos e uma diversão mais que garantida, Cesar conquista parte do topo dos grandes lançamentos do verão americano deste ano até o momento. Vai precisar de há rugida mais do que firme para derrubá-los de lá.

Nota: 9/10


(PS: Deixe a edição de 3-D de lado. Não possuí qualquer elemento em terceira dimensão, fará você pagar mais caro e ficar com óculos incômodos até o fim da sessão.)

11.7.14

O Outro Lado de Harry Potter


Não sou do tipo que adora teorias de conspiração sobre uma obra, principalmente quando existe uma ambição de querer fazer o que era mágico ficar menos poderoso. Pelo contrário, quero compartilhar um outro lado sobre a aclamada história de Harry Potter, que encantou milhões de pessoas no mundo, inclusive eu, que tive uma grande inspiração quando criança pelo mundo de J.K Rowling. Notei que poucas pessoas conseguiram chegar a esta conclusão, ou melhor, a esta perspectiva deixada pela escritora o tempo todo entrelinhas, que acabou diminuída para aqueles acompanharam apenas os filmes.

As perguntas são sempre as mesmas: Por que Voldemort quer matar Harry Potter? O que o menino bruxo tem de tão especial que possa ameaçar a vida do bruxo mais poderoso de todos os tempos? Bom, a parte mais explícita desta história Rowling já deixou bem clara a todos. Mas deixemos a resposta “oficial” de lado para nos questionarmos, o que Harry Potter tem de tão especial? Oficialmente ele é a chave de tudo, mas a resposta mais honesta é: nada. Ele não passava de um bebe como qualquer outro. E aí você se pergunta, como assim? Bom, vamos lá.

Tom Riddle já nasceu uma criança extraordinária. Em Harry Potter e o Enigma do Príncipe, J.K conta com detalhes a infância do garoto deixado no orfanato e que desde que chegara, mostrava habilidades incríveis, por mais assustadoras que fossem. Não demorou a compreender o poder que tinha, foi seduzido pela ambição e anos mais tarde tornou-se o bruxo mais temido de todos.

Para combater o desejo doentio de Voldemort em transformar o mundo da magia em um lugar sob sua repressão, apenas para sangues puros e aniquilando de todos que não se encaixassem em seu regime, a Ordem da Fênix surgiu comandada por Dumbledore, o único bruxo que Voldemort realmente temia.


Enquanto o Lorde das Trevas estava no auge do seu poder, Alvo procurava uma professora de adivinhações para lecionar em Hogwarts quando recebeu um convite de uma candidata que era parente meio distante de Cassandra Trelawney, uma famosa vidente. Descrente que ela pudesse ter o mesmo talento que sua descendente, Dumbledore já estava se despedindo quando a mulher desajustada e esquisita começou a falar em tom rouco: "Aquele com o poder de vencer o Lorde das Trevas se aproxima… nascido dos que o desafiaram três vezes, nascido ao terminar do sétimo mês… e o Lorde das Trevas o marcará como seu igual, mas ele terá um poder que o Lorde das Trevas desconhece… e um dos dois deverá morrer na mão do outro, pois nenhum poderá viver enquanto o outro sobreviver…aquele com o poder de vencer o Lorde das Trevas nascerá quando o sétimo mês terminar…". Essa iria ser a primeira concreta profecia de Sibila Trelawney, que imediatamente teria a atenção de Dumbledore e se tornaria professora de adivinhações em Hogwarts. O problema de toda esta história é que o encontro dos dois fora no Cabeça de Javali, pub cuja clientela era, no mínimo, eclética e um dos servos de Voldemort observava a conversa de ambos e que foi descoberto no meio das falas da vidente, sendo expulso do local. Mesmo sem ouvir a conclusão, não demorou para que o homem levasse a história ao Lorde das Trevas, causando um alvoroço na cabeça d’Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado.

O grande dilema para o Lorde das Trevas era que dois bebes se encaixam dentro da profecia: Harry e Neville Longbottom. Após uma avaliação das crianças, Voldemort acreditou que fosse Harry o escolhido, pois mesmo sendo mestiço, fato que abominava, ele supôs que Neville aparentava ser frágil demais para um dia poder combatê-lo de igual para igual. Foi assim que tudo começou.


A história descrita acima vai se desenrolando dentro dos sete livros e Rowling vai insinuando aos poucos que tudo o que aconteceu em seus livros poderia ter sido evitado de forma simples. Sibila nunca teria concretizado a sua primeira profecia se Voldemort não fosse prepotente  e não decidisse matar o bebe antes que ele crescesse. Quando a história se tornou forte o suficiente, houve esperança de um lado e temor do outro. A mãe de Harry lançou o feitiço do amor para poupar a vida de seu filho e parte da alma do Lorde das Trevas ricocheteou para dentro da criança, marcando a testa do bebe com uma cicatriz em formato de raio, iniciando a concretização da profecia.

Em Harry Potter e o Cálice de Fogo, Voldemort consegue restaurar seu corpo e se encontra cara a cara com o garoto pela primeira vez. Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado diz a Harry que muitas mentiras foram criadas em cima de sua fama, passando despercebido até por ele, principalmente por sua arrogância, que ele mesmo poderia ter evitado tudo isso. Se Voldemort tivesse ignorado a profecia, o garoto cresceria como uma criança qualquer. Não haveria maiores ameaças, muito menos parte de sua alma dentro do corpo de Harry. Além de toda a expectativa que se criou em cima do garoto franzino que foi o único que sobreviveu a maldição da morte, o menino jamais teria conseguido, por exemplo, ser escolhido pela varinha gêmea de Voldemort, quando entrou na loja de Olivaras pela primeira vez. Como disse por diversas vezes Olivaras “A varinha escolhe o bruxo, não o contrário”. Sua fala se diz principalmente ao fato das varinhas se entrelaçarem à alma do bruxo, criando assim uma poderosa conexão. Este é um dos motivos das varinhas parecerem “fieis” a determinados bruxos, caso que vem acontecer com o próprio Voldemort em As Relíquias da Morte e faz também com que o Lorde das Trevas não consiga atingir letalmente Harry.


Mesmo que Harry viesse a entrar na Ordem da Fênix quando crescesse para combater o poderoso bruxo, assim como seus pais, ou mesmo com eles, que chances um garoto comum, com uma varinha comum e sem a proteção exclusiva de poderosos bruxos teria contra o bruxo mais poderoso de todos os tempos? Nenhuma. Resposta que é evidente nas comparações das habilidades de Harry com seu pai. Tiago, por melhor que fosse em quadribol e tivesse uma boa desenvoltura para feitiços e magia, a sua inteligência não era comparada a de grandes bruxos. Tanto é que Voldemort fica em dúvida entre as crianças e escolhe uma delas pela aparência saudável, sem sequer considerar a família delas, mostrando que ambas, apesar de terem boas intenções, de nada extraordinárias tinham.

A cada passo que deu, Voldemort cravou seu próprio túmulo. Sua prepotência em acreditar em rumores, sim, rumores! Afinal, se Sibila jamais tinha acertado uma grande profecia, quais a verdadeiras chances de ela estar certa? Durante os setes anos, poucas são as adivinhações concretas de Trelawney, algo que incomoda aos alunos, especialmente Hermione, que acreditava que a professora era uma fraude. A história “oficial” mostra que não, afinal, foi ela quem profetizou o futuro de Voldemort e Harry. Mas isso se tornaria realidade, como já dito antes, se o Lorde das Trevas tivesse ignorado a tal profecia. Profecia que, aliás, nunca chegou a ser ouvida pessoalmente por ele, já que o rumor veio primeiramente de um servo e em A Ordem da Fênix, Lucius Malfoy deixa o globo que contém a profecia cair, perdendo de vez as palavras proferidas por Trelawney.


O provável fim para Voldemort seria de sucesso. Se nada disso tivesse acontecido a Harry, e a profecia fosse ignorada, o único temor de Tom Riddle seria Dumbledore. Problema que posteriormente seria dissolvido pela inveja do diretor de Hogwarts às habilidades do Lorde das Trevas, algo evidente e explícito pela autora em O Enigma do Príncipe. E com profecia ou não, as horcruxes poderiam ser encontradas por Alvo, mas sua inteligência seria sabotada por sua ambição, aonde viria a possuir o anel amaldiçoado de Marvolo, que o levaria a morte, assim como na história “oficial”.

Há diversas outras perspectivas sobre a história, uma delas vindas até mesmo da própria autora, dizendo que Harry poderia ter imaginado tudo dentro armário sob as escadas, na Rua dos Alfineiros, tentando esquecer a morte trágica dos pais em um acidente de carro. Claro, não passava de uma brincadeira de Rowling. Mas o fato é que existe mais do que os olhos podem ver em suas histórias e elas serão eternizadas por isso.

25.5.14

Crítica: X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

X-MEN: DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO
X-Men: Days of Future Past

Estados Unidos, 2014 - 131 min.
Aventura

Direção:
Bryan Singer

Roteiro:
Simon Kinberg, Jane Goldman e Matthew Vaughn

Elenco:
Hugh Jackman, Patrick Stewart, Ian McKellen, James McAvoy, Jennifer Lawrence, Michael Fassbender, Nicholas Hoult, Anna Paquin, Ellen Page, Shawn Ashmore, Halle Berry, Peter Dinklage, Omar Sy, Evan Peters, Josh Helman, Daniel Cudmore, Fan Bingbing, Adan Canto, Booboo Stewart, Lucas Till, Evan Jonigkeit

Quatorze anos após X-Men: O Filme, podemos concluir sem sombra de dúvidas que a grande era de super-heróis dominando o cinema atualmente se deve ao primeiro longa dos mutantes dirigido por Bryan Singer. E a investida não poderia ter sido melhor. A criação de Stan Lee e Jack Kirby talvez seja a que mais consegue, de fato, se conectar ao público, onde as dificuldades de aceitação dos mutantes, tirando toda parte lúdica, é basicamente o que se vive em nossa sociedade. Sem contar, claro, os fantásticos poderes desejados até pelos adultos mais céticos. Sendo assim, logo o pioneiro se tornou uma franquia e esta teve uma longa e complicada empreitada pela frente que foi desestabilizada por diversos motivos. X-Men: O Confronto Final trocou Singer e colocou o comprado Brett Ratner, que deu o tiro certeiro para destruir tudo o que os dois primeiros filmes tinham alcançado. Depois veio a aberração do primeiro filme solo do Wolverine e o mundo dos mutantes nunca pareceu mais obscuro.

Contratos e direitos autorais vencendo, a Fox não sabia o que fazer para consertar tantos erros e como tudo em Hollywood é moldado em reboots, logo foi oficializado X-Men: Primeira Classe. O longa de Matthew Vaugh tinha tudo para ser um desastre, mas deu o fôlego que a franquia  precisava para retomar a força nas telonas. Diante de dois extremos, os produtores se viram no maior impasse, talvez, da história do cinema para encaixar dois mundos que, na teoria, são os mesmos, mas na prática se distanciaram completamente por conta de tantos equívocos. Devolveram a posto de direção a Bryan Singer com a inevitável missão de fazer o (quase) impossível: apagar os erros do passado, mesclar o presente e abrir as portas de um futuro próspero. E aqui está X-Men: Dias de um Futuro Esquecido. O que ninguém poderia imaginar é que o resultado não poderia ser mais assertivo.

A trama muito conhecida pelos fãs é simples. Em 2023, o mundo dos mutantes (e possíveis futuros) está praticamente extinto por conta dos Sentinelas que tomaram uma proporção muito maior do que a sua criação tinha por objetivo, destruindo inúmeras cidades e deixando o planeta em um atmosfera de sofrimento e falta de esperança. Para tentar evitar a extinção, Professor Xavier (Patrick Stewart) decide enviar Logan (Hugh Jackman) para o passado, há quase cinquenta anos atrás, para evitar o assassinato do Dr. Trask (Peter Dinklage), inventor do projeto, ocasionado por Mística (Jennifer Lawrence) que achava que acabaria com as ideias do governo, eliminando o criador dos robôs. Não poderia imaginar, no entanto, que estaria trazendo a situação exatamente oposta. Voltando ao passado, Logan não poderia se deparar com uma situação pior, já que Xavier não era o mentor que ele conhece e a tensão entre ele e Erik (Michael Fassbender) não poderia ser maior, em um momento em que a união será crucial para a mudança do futuro.

O roteiro, inspirado em uma das aventuras mais aclamadas do universo mutante, cumpre perfeitamente o seu papel em consertar as besteiras feitas no passado. Singer deixa uma ou outra ponta solta (principalmente sobre a cena pós-crédito do terceiro filme), mas a falta de menção à cena dá mais uma atmosfera de endeusamento ao Professor Xavier do que uma falha no texto, diga-se de passagem. O texto mastiga um pouco mais as respostas em momentos que acha conveniente, outras mantém distanciam e limita-se (sabiamente) em não criar grandes delongas. Mas o que realmente é certeiro na franquia X-Men é que os filmes funcionam por si só, diferente do que acontece com diversos longas de super-heróis. Em outras palavras, o texto é preciso em formular uma história interessante e crível, trazendo os mutantes para nosso universo e nunca o contrário. Isso faz que os problemas ali existentes ganhem mais força e mais comoção do público. Muito além disso, consegue envolver o expectador de forma intensa e transmite a real dimensão dos problemas do personagens, o que, de novo, dificilmente acontece neste subgênero.

Porém, o diretor é incapaz de deixar de lado a diversão tão atraente deste universo e traz memoráveis sequências de ação em Dias de um Futuro Esquecido, colocando este novo longa em um patamar além do que já havia criado. As cenas trazem muito convencimento pela impressionante forma orgânica como as coisas acontecem, onde nada parece forçado e se encaixa perfeitamente no contexto ali presente. As tomadas dentro da ação são absolutamente espetaculares, assim como os efeitos especiais que deixarão os fãs boquiabertos, cujo primor chega ao ápice na criação dos futuros Sentinelas que, apesar de fugirem do design dos quadrinhos e desenhos, deve impressionar pela capacidade de contextualização junto do roteiro. A mutante Blink deve tirar o fôlego dos veteranos entusiastas, assim como a inspiradíssima e épica cena de Quicksilver.

Além da forma muito orgânica da ação, como citado anteriormente, este desenvolvimento tão assertivo, assim como o convencimento do roteiro, se deve ao maravilhoso elenco. É difícil mencionar um destaque quando se concentra Jennifer Lawrence, Michael Fassbender, Hugh Jackman e James McAvoy nas mesmas sequências. O elenco veterano também se ganha méritos com as esperadas cenas com Stewart e McKellen, cuja identificação com Fassbender (sua versão jovem) é inacreditável. A sutileza e sofisticação com que o ator alemão interpreta e caracteriza o cânone é algo raramente vista e incontestavelmente admirada. A participação de Peter Dinklage é acertada, onde a sombra de Tyrion Lannister, de Game Of Thrones, se faz necessária aqui. A sensacional trilha sonora retoma as ícones batidas da franquia, faz uma bela mescla com um tom mais sombrio e imponente, que muito lembra a trilha de Hans Zimmer em A Origem, assim o veterano John Ottman dá a atmosfera necessária para a película.

Administrando de forma inteligente um grande problema, Bryan Singer faz de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido não apenas a solução de déficits que a franquia criou ao longo dos últimos anos, mas sim uma empreitada extremamente empolgante para o público e, acima de tudo, um filme que funciona com suas próprias pernas, não utilizando muletas de tudo o que foi criado anteriormente ou sobre a alta expectativa que a versão setentista de Matthew Vaugh criou. Os fãs agora vão poder olhar com entusiasmo para o passado, desejando mais episódios com estes personagens incríveis e, apostando na cena pós-creditos, eles não estarão desamparados na continuação.


Nota: 9,3/10

18.5.14

Crítica: Godzilla

GODZILLA

Estados Unidos, 2014 - 123 minutos.
Ação

Direção:
Gareth Edwards

Roteiro:
Max Borenstein, Dave Callaham

Elenco:
Aaron Taylor-Johnson, Elizabeth Olsen, Ken Watanabe, Bryan Cranston, Sally Hawkins, David Strathairn, Juliette Binoche

Quando soube que o novato Gareth Edwards iria dirigir o novo remake de Godzilla (ou Gojira, para os entusiastas), e pude conferir o empolgante trailer, logo corri para assistir o único longa deste diretor inglês, Monstros. Por coincidência ou não, o interessante filme que celebra o início da jornada de Edwards no cinema dava motivos o suficiente para tentar acreditar que este novo filme do kaiju mais venerado de todos os tempos não fosse outra besteira que Hollywood faria para ganhar dinheiro. E felizmente não foi. Godzilla entende, em todos os sentidos, o poder de uma criatura de tamanho absurdo caminhando sobre uma metrópole e, muito mais do que isso, consegue compreender que passar duas horas com lutas e destruições ininterruptas não tirará o péssimo gosto que a lagartixa esquisita de Roland Emmerich deixou na boca de todos, em 1998.

A trama volta a suas origens e vai mesclando todos os acontecimentos históricos de bombas nucleares e atividades radioativas envolvendo os japoneses no último século. A história começa quando Dr. Ichiro Serizawa e sua equipe encontra os fosseis de uma besta pré-histórica de tamanhos jamais imaginados pelo homem após um desmoronamento em suas escavações. Alguns anos depois, o que achavam ter sido um acidente isolado, era o prelúdio de um ataque envolvendo uma criatura devastadora e inatingível que, para ser detida, o gigantesco kaiju deixará as profundezas do oceano para travar uma batalha épica em terra.

Círculo de Fogo, de Guillermo Del Toro, já havia demonstrado extrema competência e precisão em mesclar robôs e criaturas gigantes de uma maneira que nada daquilo perdesse a incrível escala de proporção, seja ele visual ou emocionalmente. Algo extremamente comum neste tipo de filme. Exemplo clássico disso é Transformers, onde Michael Bay, em sua inacabável megalomania, é incapaz de manter um centímetro de seus robôs fora de suas lentes. No começo, o expectador se intimida e se deslumbra com a criação, mas este tipo de abordagem é cansativa e viciosa, fazendo com que, após certo tempo, nos acostumemos com toda aquela proporção. A ação, nestes casos, sempre tem que ser maior para que o público consiga se empolgar e surpreender. E é exatamente deste erro fatal que Edwards fica longe. O tempo todo existe uma expectativa para ver a besta colossal dominar a tela, seja por conta de sua histórica fama ou pelo roteiro que nunca deixa de enfatizar o quão sem precedentes a tal criatura parece ser. Sendo assim, o diretor inglês explora a perspectiva humana sobre o incrível evento, ao invés de pular para a ação desenfreada. O roteiro cria e consegue manter um excelente suspense durante toda a película. Peca apenas pelo protagonista ter um envolvimento dramático cheio de clichês com quem assiste, fazendo com que o desenvolvimento geral do filme perca certa parte de sua força com a inclusão de coisas desinteressantes perante o espetáculo que promete apresentar.

Quando chega então o grande momento, Godzilla está pronto para entregar ao público sua apresentação perfeita. Com roteiro devidamente desenvolvido, expectativas em grande escala, uma trilha sonora digna de Oscar e uma fotografia engenhosa, chega a hora de o monstrão aparecer em tela. Neste instante, Gareth mostra uma meticulosa obsessão em deixar muito claro para o expectador do impacto da criatura no mundo em que vivemos. O mais surpreendente é ver que, diferente do que acontece nos longas do gênero, as pessoas quase não conseguem realmente ter noção da real proporção da fera, seja por seu imenso tamanho ou os ininterruptos desastres que vão ocorrendo cada vez que ela dá um passo. Quando há um momento para respiro, o temor da próxima aparição parece ser a verdadeira catarse. É o que Godzilla tem de mais diferente dos demais. A sequência que em que o kaiju mergulha por debaixo de uma ponte, após ter levantado imensos navios como se fossem palitos, é quase tangível a angustia das pessoas ali presentes.

 A escolha de elenco é uma das decisões mais emblemáticas do filme, já que o elenco secundário é mais atraente que o principal. Ken Watanabe está ótimo, assim como Bryan Cranston, Sally Hawkins e a participação de luxo de Juliette Binoche, uma das mais emocionantes do longa. Já Aaron Taylor-Johanson e Elizabeth Olsen demonstram uma inexpressiva falta de empatia com o público, crucial no gênero.

Por fim, por mais que escorregue de um lado ou outro, onde poderia cortar facilmente alguns momentos indigestos, é quase incapaz de não se saborear Godzilla, que nunca aparentou tão ameaçador como agora. A grandiosa orquestra magistrada através de absurdos efeitos especiais, uma criação de arte irrepreensível aliada à excepcional trilha de Alexandre Desplat, o diretor inglês deu um belo motivo para os japoneses (e os fãs) voltarem a sorrir e tentar esquecer as aberrações que Hollywood tentou fazer com seu monstro mais intimidador. Uma possível e esperada continuação pode surgir dependendo, é claro, do resultado nas bilheterias. Uma nova visita seria muito bem vinda!


Nota: 8,2/10

[ATUALIZAÇÃO] Foi confirmada a continuação do longa.
Fonte: Omelete [FIM DA ATUALIZAÇÃO, 18:04]

17.4.14

Crítica: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO

Brasil, 2014 - 95 minutos.
Drama

Direção:
Daniel Ribeiro

Roteiro:
Daniel Ribeiro

Elenco:
Ghilherme Lobo, Fábio Audi, Tess Amorim


O cinema comercial brasileiro vive atualmente uma réplica amarga e clichê de tentar criar comédias bobas ao estilo hollywoodiano, quando não ostentando de forma bastante vulgar o estilo de vida dentro de favelas, conflitos entre policias, corruptos e traficantes. E aquele linguajar que é impossível não reconhecer de longe. Claro, não dá para generalizar, muito menos tirar o mérito de grandes obras como Cidade de Deus, de Fernando Meirelles ou mesmo Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro, de José Padillha. Entretanto, é impossível não ficar felicíssimo que um projeto tão pequeno e independente como o primeiro longa de Daniel Ribeiro, inspirado em seu fantástico curta “Eu Não Quero Voltar Sozinho”, chegue para contagiar o espectador com muita delicadeza e uma linguagem completamente inversa a que estamos acostumados a enxergar no cinema nacional. Mais do que isso, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho marca um grande passo para o nosso cinema, se desgruda completamente do cinema americano e caminha com suas próprias pernas de forma muito feliz e competente.

A trama basicamente é uma extensão do curta lançado em 2010. Nela somos apresentados a Leo, um garoto cego que sofre com bullying na escola por suas condições especiais, com a superproteção do pais e com os grandes dilemas da adolescência. Tudo isso acompanhado a sua inseparável melhor amiga, a divertidíssima Giovana. Pensando em mudar sua perspectiva vida, o adolescente decide que quer fazer intercambio e não muito pouco tempo depois, é surpreendido pela chegada de Gabriel, um novo estudante que vai balançar com seus sentimentos.

O roteiro simples se encarrega de ampliar com muita precisão o que foi criado no curta. Com pequenas e sutis mudanças, o texto de Daniel Ribeiro explora toda a ideia da produção anterior e acrescenta outros elementos para justificar o longa metragem. Mas o fato de manter a simplicidade no roteiro dá a liberdade suficiente para o Ribeiro explorar toda a linguagem de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho de forma muito cativante, profunda e admirável.

O tratamento a questão da homossexualidade nas descobertas da sexualidade dos adolescentes é feita de forma extremamente natural e delicada. Esperto, o diretor sabe que a motivação da sua história não é buscar polêmica no tema ou escandalizar a relação de Leo e Gabriel, como fez, por exemplo, o muito mal sucedido Do Começo Ao Fim. O foco é a descoberta e os difíceis caminhos que os adolescentes têm que encontrar para enfrentar essa delicada época, ainda mais considerando a cegueira de Leo. O fato desta relação ser gay fica em segundo plano, o que amplia a legitimidade dos sentimentos dos personagens, expondo de forma muito bela os verdadeiros pilares de uma relação, principalmente porque o protagonista se apaixona por outros instintos que não a visão, e Daniel sabe demonstrar isso com muito carinho.

Com um tom leve e até um pouco despretensioso, o longa carrega o espectador para um universo delicioso de se acompanhar. Dada à graciosidade do trio principal (Ghilherme Lobo está ótimo em todos os aspectos, assim como Tess Amorin, entretanto, é Fabio Audi que encanta o público, seja pelo seu charme, seu aparente conforto no papel ou pela sua visível capacidade de improviso que faz com que o texto da película flua de forma ainda mais interessante), a excelente trilha sonora, que oscila muito bem entre Belle & Sebastian e Arvo Pärt, ou ótima linguagem visual, muito distante de grande parte das produções nacionais. Impressiona ainda pelo fato do projeto ser tão pequeno, mas ter um tratamento impecável.


Os memoráveis 95 minutos de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho me fizeram lembrar, por diversos motivos, por mais diferentes que sejam, Deixa Ela Entrar, do sueco Thomas Alfredson. Utilizam de elementos e roteiro muito distintos, mas a essência da descoberta da sexualidade, o relacionamento de duas pessoas com necessidades diferentes, mas que conseguem encontrar entre elas um campo seguro, com uma conexão impressionantemente cativante e ímpar, de um amor quase inexplicável. Só a comparação com essa obra-prima, já mostra o orgulho que Daniel Ribeiro nos dá pela excelente luz que talvez possamos caminhar o nosso cinema comercial, merecedor de todos os prêmios que vêm recebendo. Não deixe de conferir!

Nota: 9/10

7.4.14

The Walking Dead (4ª Temporada)

THE WALKING DEAD

Estados Unidos, 2014 – 672 min. (aprox.)
Drama – Série de TV

Roteiro:
Scott Gimple

Elenco: 
Andrew Lincoln, Sarah Wayne Callies, Laurie Holden, Steven Yeun, Chandler Riggs, Norman Reedus, Melissa McBride, Lauren Cohan, Scott Wilson, Emily Kinney, Michael Rooker, Danai Gurira, David Morrissey


Após o final polêmico da terceira temporada, ninguém sabia ao certo o futuro de The Walking Dead. A série criada por Frank Darabont passou ao longo dos anos trocando de mãos para tentar encontrar seu porto seguro. Desde o começo, o que não faltou foram conflitos e até o próprio Darabont deixou a adaptação das HQ’s de Robert Kirkman, causando desespero nos produtores executivos já que a série, apesar de instável, não parou de bater recordes de audiência, portanto, nada mais preocupante do que não encontrar o rumo certo de um material com extremo potencial e um caminho para se seguir. Após uma excepcional quarta temporada, os executivos de um dos seriados mais assistidos de todos os tempos podem deitar tranquilamente em suas camas, pois o tom ideal foi encontrado para a série, que sem grandes dificuldades, atingiu seu ápice este ano.

A trama continua exatamente onde parou. Rick tenta reconstruir uma vida pacifica dentro da prisão com seus novos moradores, mas tentando evitar a violência do mundo fora das grades, para se dedicar ao cultivo. Quando tudo aparenta estar calmo e em paz, uma misteriosa e mortal doença aparece e começa a ameaçar a vida de todos ali. Um conjunto acontecimentos e atitudes estranhas dentro do local fazem o grupo ficar à espreita e suspeitando que alguém anda alimentando os zumbis. Para piorar, o recuo do Governador à armadilha que foi lhe montada anteriormente parece não surtir mais efeito, fazendo com que ele busque um grupo de refugiados para manipulá-los e buscar vingança.

A entrada de novos produtores mais sábios e com bom senso fez com que todos admitissem os erros cometidos na temporada anterior. Senso assim, a história entre Rick e o Governador que deveria ter se encerrado lá atrás e que não se encerrou de fato, não poderia tomar toda esta quarta temporada. Mas também seria impossível ignorar o que havia sido feito, muito menos prosseguir com o seriado sem dar uma resolução plausível a tudo o que aconteceu. A primeira parte desta quarta temporada resgata os bons elementos do terceiro ano e adiciona muita criatividade, profundidade e reflexão em todo o material. O contágio na prisão, por exemplo, foi uma saída excelente que os produtores encontraram de evoluir The Walking Dead a um patamar que ele poucas vezes, se é que conseguiu atingir alguma vez: intangibilidade. Sempre houve muito físico no material e esse novo elemento acrescentou um desespero ainda não abordado dentro da série e tudo é desenvolvido com muita maturidade.

Com um roteiro muito mais maciço, complexo e com uma abordagem excepcional, os produtores deste quarto ano mostram competência e constroem um belíssimo arco dramático durante toda a série, avançando com muita precisão os mistérios que envolvem esse ano, assim como a rixa entre o Governador e Rick, sem aumentar mais elementos dentro da história, que sabe o tempo todo o foco do que se precisa apresentar. Senso assim, quando realmente chega a hora do confronto este mocinho e bandido, The Walking Dead consegue transmitir cada angustia dos personagens que estão no meio daquela guerra, dando muito sentimento para o telespectador, ao invés de apagar fogo com copo d´água, como foi feito anteriormente. Faz quase o público esquecer a frustração que todos ficaram com o fim da terceira temporada.

E quando todos acharam que a série ia caminhar para a mesmice ou sofrer novamente com problemas de roteiro, uma vez que desenrolou o que parecia o “gran finale” já no meio deste ano, os produtores mostraram que escondiam as melhores cartas para o final e, a partir de seu meio para frente, choca o telespectador com o melhor que pode apresentar. Não caí na fraqueza de querer acelerar toda a trama para ganhar quem assiste na violência gratuita e no entretenimento barato e mostra extrema disposição para desenvolver todos os personagens com excelente abertura, sem exceção. É incrível e muito gratificante ver como a série consegue entender a explosão de drama que criou durante tanto tempo, e abre espaço para os protagonistas irem se descobrindo em seus interiores e resgatando com que havia sido esquecido há tanto tempo. A coisa é levada tão a sério que em diversos episódios, Rick sequer aparece em telas e isso amplia com sutileza e atenção as perspectivas de todo o seriado.

Para revelar tudo o que tem a mostrar, The Walking Dead novamente não poupa o telespectador e o choca com brutalidade em diversas cenas. Há no mínimo duas que assombram e perturbam a quem assiste de maneira nunca vista antes e isso parece ser impossível de se imaginar, principalmente para uma série com tanta violência gráfica. Pois bem, prepare-se para muito tormento moral e fortes emoções.

Revivendo as melhores sacadas criativas, explorando novos elementos sem entrar em conflito ou incoerência com que já havia criado e proporcionando cenas épicas, esta quarta temporada aponta um marco de estabilidade de tom para a série, que pareceu se encaixar perfeitamente agora. Ah, e o final da temporada? Os produtores não foram apressados e esperaram o momento certo, da maneira correta, para deixar a todos contando os dias para o quinto ano. Outubro nunca pareceu tão longe.


Nota: 10/10

25.3.14

Crítica: Need for Speed - O Filme

NEED FOR SPEED - O FILME
Need for Speed

EUA, 2014 - 130 min.
Ação

Direção:
Scott Waugh

Roteiro:
George Gatins

Elenco:
Aaron Paul, Dominic Cooper, Imogen Poots, Scott Mescudi, Ramon Rodriguez, Rami Malek e Harrison Gilbertson.

Quando o primeiro Velozes e Furiosos foi lançado, nem os próprios produtores poderiam imaginar o tamanho sucesso que o despretensioso longa poderia ter, sendo hoje, uma das franquias mais bem sucedidas da Universal Studios. Logo o estúdio começou a perceber que a pegada meio videogame da franquia não surtia tanto efeito nos fãs quanto o estilo de vida dos protagonistas. Não demorou muito, é claro, para os executivos ouvirem o público e transformar a saga, em algo incrivelmente exagerado, intangível e que se leva mais a sério do que realmente precisa. Entretanto, o culto pelos personagens de Vin Diesel e o falecido Paul Walker fez com que as bilheterias dos filmes não deixassem de ser extremamente lucrativas. Sendo assim, era apenas uma questão de tempo para alguém chegar para tomar uma fatia do bolo. E a E A Games logo tomou a iniciativa junto da Dreamworks, para adaptar um dos jogos de corrida mais vendido de todos os tempos. O resultado? Esperar uma obra-prima de um filme que claramente se vende como um produto é equivalente a esperar que M. Night Shayamalan faça outro Sexto Sentido. Improvável. Ainda sim, Need for Speed – O Filme consegue se tornar um bom entretenimento, sem nunca se vender mais do que realmente é, apesar da enxurrada de clichês desnecessários.

A trama é batida (com perdão ao trocadilho).  Em uma disputa por dinheiro com o atual namorado de sua ex, o playboy Dino Brewster, o mecânico Tobey Marshall (Aaron Paul) vê seu amigo Pete (Harrison Gilbertson) morrer em um acidente causado pela imprudência e ambição de Brewster, que sequer presta socorros. Indo parar atrás das grades por dois anos, decide honrar a morte do amigo, expondo a verdade sobre Dino em um dos torneiros de carro mais exclusivos dos Estados Unidos. Para isso, é obrigado a pedir emprestado o Mustang Shelby da qual consertou, sob condição de ter como copilota, a expert em carros, Julia (Imogen Poots).

O roteiro raso pouco se esforça para desviar dos clichês do gênero fazendo com que a adaptação dirigida pelo quase novato Scott Waugh perca a sua força. Tem a loira gostosa pra encantar os machões, alguns alívios cômicos forçados, embora boa e grande parte do humor do filme seja realmente bem-vindo e, como não poderia ser diferente, alguns exageros na resolução da trama ou mesmo nas sequências de ação que, aliada a uma bela fotografia que abusa de contrates e flares (luzes contra a câmera), tenta fazer com que Need for Speed aparente visualmente épico. Não é.

Por mais que tenha caído em diversos clichês, o longa de Waugh consegue fugir das maiores  besteiras implantadas em Velozes e Furiosos. O conceito “músculo, testosterona, mulheres seminuas e um protagonista inabalável” (Vin Diesel parece mais o Chuck Norris nas últimas películas da franquia, onde seu olhar é tão forçado que em alguns momentos parece que ele derreterá os vilões com os olhos) não se faz presente aqui. Pelo contrário, o protagonista com aparência de “homem comum” dá certa tangibilidade à Need for Speed e, apesar da inclusão da tal loira gostosa, essa não tem único destaque sexual, como acontece nas personagens femininas deste gênero, muito menos aparenta uma mulher machona capaz de espancar traficantes e sair ilesa, como Michelle Rodrigues por exemplo. O sotaque inglês, embora bastante forçado em algumas cenas, dá certo carisma a personagem. O vilão, esse sim, parece ter saído de um verdadeiro jogo de videogame. E é exatamente aqui que o longa tem seus méritos.

Embora possua duas ou três cenas questionáveis, as sequências de ação lembram demais os jogos da conceituada franquia. Sem aparentar tão falso e também sem querer se levar a sério demais, o longa deve agradar os amantes de carros (principalmente os jovens) por sua despretensão ao universo a volta (note, por diversas vezes durante o filme, há intervenções vindas de todos os lados, para que o carro do protagonista sempre esteja em movimento, nem que para isso, alguém precise roubar um helicóptero militar), sempre desenvolvendo seu ritmo pela intensidade com que os personagens se devotam dentro de suas máquinas. E por mais vazio que aparente ser, é muito mais honesto que Velozes e Furiosos, já que nunca quer enganar o espectador. Aqui o protagonista é falho e sofre consequências, a boa noção para manobras tem (boas) sacadas, como a do helicóptero que vai dando as instruções como um GPS, e os personagens parecem ter paixão pelos carros, algo que deixou a franquia de Toretto há muito tempo.

Sem atuações exemplares, um roteiro muito preciso ou original, ou mesmo uma direção realmente competente, Need for Speed – O Filme surpreende com a sua simplicidade e a sua fidelidade com o jogo que adapta. Não é de se esperar muito, mas o saldo é mais positivo que negativo no fim, mostrando um bom potencial para ajustes em uma franquia futura. E se colocar tanta veracidade e força de vontade na continuação, quanto coloca nas excelentes cenas de ação aqui, podemos esperar boas coisas daqui para frente.

Nota: 6/10


Ps: Descarte complemente o uso do 3-D. É totalmente dispensável e não existe qualquer tridimensão na película. 

20.3.14

Crítica: Ninfomaníaca - Volume II

NINFOMANÍACA - VOLUME II
Nymphomaniac - Volume II

Dinamarca / Alemanha / França / Bélgica / Reino Unido, 2014 - 123 minutos
Drama

Direção:
Lars von Trier

Roteiro:
Lars von Trier

Elenco:
Charlotte Gainsbourg, Stacy Martin, Stellan Skarsgård, Shia LaBeouf, Jamie Bell, Mia Goth, Willem Dafoe, Michael Pass, Jean-Marc Barr, Ananya Berg


Um pouco mais de dois meses após o lançamento da primeira parte do polêmico projeto de Lars von Trier, Ninfomaníaca – Volume II chega aos cinemas brasileiros praticamente no mesmo tempo em que choca o mundo, principalmente a Europa, com o desfecho de sua película. Para isso, von Trier cria um ensaio de uma mulher inesgotavelmente sexual, em meio a uma sociedade hipócrita, machista, julgadora e contraditória. Isso sem, é claro, deixar de utilizar de seus próprios pensamentos, manipulações e genialidades para criar o próprio mundo que vive e flertar com o espectador, enquanto se delicia masoquistamente com suas agonias.

Essa segunda parte começa exatamente aonde o anterior terminou. Joe confirma a sua insensibilidade perante o prazer sexual e, em estado de fúria, vai à busca de diversos métodos para tentar reverter esse quadro e possuir comando de seu próprio corpo. Na medida em que a sua vida sexual aflora ainda de forma mais perversa, Joe deixa Jerôme de lado, assim como seu próprio filho que vem a ter posteriormente, para embarcar em uma vida perigosa e sem limites e tentar extrair de si própria, um pouco de sentimento.  

Esse volume dois marca uma mudança muito clara na narrativa em relação à primeira parte. Enquanto víamos uma Joe jovem curiosa, cheia de si, manipuladora e insensível, os acontecimentos finais do volume I nitidamente afetam a protagonista e aquele estado de busca divertida por prazer, se transforma em um problema desesperadamente incontrolável e autodestrutivo, da qual Joe não enxerga mais diversão e sim um método escravo da qual se impõe a sobreviver. Nesta busca por descoberta e recuperação, o diretor dinamarquês expõe a personagem e exibe ao público, as mais diferentes e doentias formas de prazer. Entre algumas das cenas mais notáveis, algumas delas são protagonizadas por K (Jamie Bell), um masoquista friamente calculista e perturbado. Prato cheio para Lars, é claro. Assim como a bizarra cena de uma tentativa de ménage à trois, da qual Joe tenta fazer sexo com dois africanos, sem qualquer modo de  comunicação, já que não consegue entender uma palavra do que eles estão dizendo. A percepção da protagonista em descobrir “novas” tentativas de prazer são maneiras metafóricas de von Trier em escancarar a visceral personalidade de Joe, assim como abrir um inimaginável cenário para os diálogos entre a ninfomaníaca e Seligman, o homem que a retira do beco, e questionar além dos instintos da protagonista, o mundo que eles e nós vivemos.

Entre os dois se concentram as melhores partes do longa. É impressionante como o texto do dinamarquês é tão envolvente e complexo, que seu polêmico visual, seja por exibir pênis eretos, vaginas com ferida ou uma excitação doentia que se remete a pedofilia (há uma conversa interessantíssima sobre o assunto, questionando a capacidade do ser humano de conter suas vontades e instintos para fazer o que é certo ou parece certo, pelo menos) entre outros pontos, parece surtir efeito ameno perto excepcional roteiro que Ninfomaníaca – Volume II possui. E é aqui que ele ganha o espectador. Além de todas as teorias que cria na primeira parte, Lars consegue expor outras no mesmo nível, venham elas do músico Beethoven, do neurologista Freud ou mesmo do romancista Thomas Mann. A pedofilia como citada anteriormente ganha um cenário reflexivo. Assim como em Anticristo, Lars volta a questionar o papel da mulher dentro da sociedade, mas foca um lado um pouco distante da sua obra anterior: a repressão do feminismo atual. A hipocrisia da sociedade perante as atitudes de Joe, por exemplo, são questionadas por Seligman, se tudo o que ela fez, não seria bem aceito se ela fosse um homem. Não deixa de falar também da incoerência do politicamente correto dentro do mundo em que vivemos. Na película, a passagem mostra de forma clara a necessidade da mulher em se comportar como um ser inferior ao homem, sendo essa, alvo de intolerância de atitudes consideradas “condenáveis”, sejam elas por ações ou mesmo palavras “indigestas” e “incômodas” para boa parte da sociedade, enquanto essa, às escondidas, não se importa de agir de forma questionável, contanto que a mesma seja camuflada para amenizar o impacto da imagem representativa à pessoa ligada aquela ação ou palavras. Além de claramente ser outro ponto de reflexão sobre Joe, o diretor dinamarquês faz uma referência a si mesmo, no caso de 2011, no lançamento de Melancolia, quando foi mal interpretado e acusado de apoiar o nazismo e fora expulso do Festival de Cannes. De quebra e sem dó, crítica o falso moralismo social, já que von Trier anunciou que faria um filme pornô e a divulgação de Ninfomaníaca sugeria mais sexo do que de fato possui, e esses fatos levaram uma multidão que sequer conhece o seu trabalho e não se importaram de ir assistir ao longa, uma vez que este parecia se fantasiar com arte, quando é justamente o contrário. Ponto para o dinamarquês.

Essa segunda parte pode aparentar mais monótona que a primeira, mas é apenas um equivoco, já que na verdade, o amadurecimento da personagem transforma a narrativa e a sua maneira de conduzir o longa. Nesse aspecto, lembra a diferença entre os dois “Kill Bill”, onde a segunda parte é muito mais “pé no chão” que a primeira. Não é uma questão de qual parte é melhor e sim o porquê desta mudança de perspectiva. E aqui ela é indispensável para o diretor de Dogville dar o drama necessário que a protagonista necessita. Há momentos que,raros em sua carreira, von Trier parece que não sabe exatamente qual caminho irá concluir a obra por conta da quantidade de conteúdo que Ninfomaníaca se dispõe a discutir. Aliás, flerta por duas vezes com Anticristo, recriando cenas do longa de 2009, em uma maneira clara de completar de forma oposta e curiosa, seu raciocínio no filme anterior. Felizmente quem ganha é o espectador, já que o polêmico artista parece sair de sua zona de conforto e desafiar a si próprio.

Como comentado na crítica da primeira parte, a técnica excepcional do diretor, esteta ao extremo, impacta o público de maneira totalmente precisa e deslumbrante. A pouca trilha sonora interage perfeitamente com o silêncio imprescindível do projeto. Há apenas uma cena em que se questiona uma falha técnica de continuação, que não darei detalhes para não dar spoilers, mas que passará invisível para muitos, não consegue fazer o filme perder seu impacto. O elogiadíssimo elenco da primeira parte recebe outros excelentes atores de apoio, como o veterano dos trabalhos do diretor, William Dafoe e o novato e assustador, Jamie Bell. Charlotte Gainsbourg logo assume o papel da fase adulta de Joe e, devota, entrega-se cegamente à personagem. É incrível o trabalho desta atriz francesa que parece não medir esforços para captar toda a atenção do público e, sem piedade, nos manipular em cada aventura doentia da ninfomaníaca.

Sem criar muitas reviravoltas e no tom pessimista de sempre, o diretor dinamarquês termina Ninfomaníaca – Volume II de forma que, a primeira vista, vai parecer despretensiosa para muitos. Mas, na verdade, escancara de forma ainda mais perversa a hipocrisia da sociedade, sua injustiça que, moldada pelo machismo, julga o ser feminismo como objetivo de desvio moral, na condenação mais falsa possível. E toda essa falsidade, é o desfecho perfeito que Lars von Trier encontra para mostrar que a manipulação de palavras e boas intenções, como dizia o velho ditado, o inferno está cheio. E se a exposição de sentimentos tão pessoais e perturbadores de uma pessoa que é incapaz de encontrar paz de espírito por uma obsessão (até a religião é intrigantemente questionada neste aspecto) à falta de prazer em uma das práticas mais naturais de relacionamento entre dois corpos, que leva Joe a autodestruição permanente, remetendo ao constante sofrimento, é incapaz de comover outro ser humano, o que somos como sociedade?



Nota: 9,3/10

12.3.14

Crítica: Looking

LOOKING

Estados Unidos, 2014 – 240 minutos aprox.
Drama/ Comédia

Criador:
Michael Lannan

Elenco:
Jonathan Groff, Frankie J. Alvaraz, Murray Bartlett, O. T. Fagbenle, Lauren Wedman Raúl Castillo, Russel Tovey


Se há 15 anos, Queer as Folk, a série de Russel T. Davies explodiu a mente de milhões de espectadores com uma das séries mais ousadas, divertidas e importantes sobre o universo homossexual, hoje, analisando o mercado atual, o roteirista inglês criou um ícone que provavelmente não poderá ser igualado tão cedo. Pelo menos, não pela primeira temporada da nova série da HBO, Looking. Muita expectativa foi criada pela emissora para a série de Michael Lannan, prometendo ser a nova sensação da temática GLS. Com apenas 8 episódios, de 30 minutos cada, todas as expectativas criadas passaram tão rápido quando a exibição do seriado. Perdida, Looking tenta convencer o espectador que não é Sex and the City para o público gay, mas a realidade é que são bem poucas as diferenças.

A trama dispersa e com pouca profundidade relata a história de três amigos gays, Patrick, Augustin e Dom, tentando lidar com seus problemas pessoais. Enquanto Patrick busca se conhecer melhor e conseguir engajar um relacionamento, Augustin tenta deixar a desmotivação e depressão de lado para elevar a sua carreira artística, enquanto Dom tem que encarar a realidade e responsabilidades da vida madura e, ao mesmo tempo, colocar em prática seu sonho de abrir um restaurante.

Enquanto Nova York exalava glamour na série de Carrie Bradshaw e encantava o público feminino, aqui, a série situa-se no badalado point gay, a cidade de São Francisco. Em uma ambientação bem underground, por sinal. O que parece agradar o público-alvo em geral, mas diverge da realidade e marginaliza um pouco o universo homossexual, sugerindo sempre uma coisa meio “suja” e nada muito “perfeito”. Soa, às vezes, clichê.

O grande problema de séries piloto, é que a primeira temporada sempre sofre (mais que as outras) por conta da necessidade de se fazer dinheiro e isso atinge gritantemente Looking. O roteiro acanhado não vai além do básico, demora muito para engrenar, visualmente evita apresentar o sexo gay, tenta retratar superficialmente alguns dilemas do universo, mas logo pula para outro assunto e, claro, como não poderia ser diferente, logo arranja uma forma de criar um triangulo amoroso para o protagonista. Em um formato de exibição que pouco ajuda, o seriado ainda tem que contar com o problema de que 30 minutos não são o suficiente para criar um conteúdo mais profundo. Alias, é bem claro que a série de Lannan fica desconexa nesse sentido. Não tem 20 minutos, como The Big Bang Theory, mas também não tem quase uma hora como True Blood e Game of Thrones, duas séries da casa. Novamente a série esbarra em Sex and the City, que também era exibida em 30 minutos. Mas enquanto a série de Darren Star conseguiu cativar as mulheres em cheio, Looking tenta usar da falta de foco para mostrar que o universo é explorado em diversos aspectos e todos eles têm a devida atenção. Infelizmente não é verdade.

Com poucas boas sacadas, um elenco que tenta se esforçar para criar um vinculo com o público (Murray Bartlett, que vive o Dom, parece DEMAIS fisicamente com o personagem de Joaquim Phoenix em Ela, indicado ao Oscar recentemente) e demonstrar carisma, mas parece meio deslocados juntos a falta de foco de Lannan. Entretanto, é admirável que a série também não apele para o sexo gratuito e o exibicionismo de “six-pack”, a fim de garantir a audiência de toda forma. 

Do pior, Looking já conseguiu fugir, agora precisa dar bons motivos para o espectador acompanhar a série, que foi muito mediana para os padrões da emissora e parar de cortar a temporada no momento em que consegue elevar o nível de interesse de quem assiste. E ainda sim, falta muito para Emmett Honeycutt ser superado.

Nota: 5/10


9.3.14

Crítica: 300: A Ascensão do Império

300 - A ASCENSÃO DO IMPÉRIO
300 - Rise of an Empire

Estados Unidos, 2014 - 102 minutos
Ação / Épico

Direção:
Noam Murro

Roteiro:
Zack Snyder, Kurt Johnstad

Elenco:
Sullivan Stapleton, Eva Green, Rodrigo Santoro, Lena Headey, Hans Matheson, Callan Mulvey, Jack O'Connell, Igal Naor


Desde o sucesso de Gladiador, de Ridley Scott, nenhum outro épico de guerra emplacou grande sucesso, pois o gênero simplesmente ficou escasso e não atraía mais as pessoas por conta da mesmice. Sendo assim, a adaptação da aclamada HQ de Frank Miller, 300 de Esparta, titulo reduzido apenas aos números, foi um sucesso arrasador. De visual impactante, com atores esforçados, uma excelente história para contar e cenas memoráveis, o longa de Zack Snyder fez os épicos ganharem novamente um destaque dentro do cinema. Principalmente depois que o longa conseguiu obter a maior bilheteria do subgênero, na época, para uma classificação de 18 anos. Claro, como tudo em Hollywood que dá lucro precisa de uma continuação, os executivos da Warner Bros. (o que me lamenta dizer isso, pois hoje é um dos melhores e mais criativos estúdios de grandes produções) se encarregaram de acelerar Miller na produção da continuação de uma HQ para, inevitavelmente, transformá-la em filme.

Agora, saiu o diretor Zack Snyder e entrou o novato Noam Murro. Foi embora também, Gerald Butler e boa parte do bom elenco anterior. O resultado: 300: A Ascensão do Império falha miseravelmente em tentar ser melhor que o seu anterior, tentar reconstruir o que já havia feito, com uma história sem qualquer desenvolvimento, tediosa e que utiliza do visual característico da, agora, franquia, para escandalizar uma violência absolutamente marginalizada e sem qualquer força de impacto ou propósito convincente.

A trama tenta mesclar os eventos anteriores e cria um universo entrelaçado à película anterior. Basicamente temos Themistokles (Sullivan Stapleton), um guerreiro grego que tenta unir todas as forças da Grécia para tentar combater o tirano Xerxes e a comandante da marinha persa Artemesia (Eva Green) e evitar que tudo seja controlado pelo deus-rei, assim como Leonidas e seus soldados lutaram no primeiro longa.

Como era citado anteriormente, onde o Rei de Esparta dizia que os gregos não eram preparados para lutar e sim em usar suas habilidades mentais se confirma nessa continuação. A incapacidade e fraqueza dos “soldados” são visualmente expostas para o espectador e qualquer sequência de ação do roteiro é escancaradamente forçada para tentar ter o mesmo impacto que o filme de Snyder conseguiu com muito louvor. O protagonista já possui uma história menos interessante que Leonidas, e Murro piora a situação com a sua péssima direção de atores, posicionando o público à insensibilidade do que assiste, não se importando com quem morre ou vive. Personagens que eram interessantes anteriormente (como a Rainha Gorgo) perdem suas forças por conta do roteiro que é incapaz de dar um bom motivo ao espectador para que o filme que ele está assistindo, tenha certa importância ou mesmo um entretenimento de qualidade.

O texto escrito pelo próprio Snyder e Kurt Johnstad (quem diria?) não consegue sequer segurar a coerência da história que estão contando, o que prova a teoria em que o diretor de Watchmen somente consegue produzir boas adaptações e não películas com roteiros escritos por ele mesmo. Está aí Sucker Punch que não deixa ninguém mentir. O roteiro entra em contradição em coisas tão obvias quanto ambientação. O local que Xerxes vive em 300: A Ascensão do Império simplesmente não é o mesmo que vivia no longa anterior, mesmo muitas vezes ambos estarem no mesmo período de acontecimentos e o que é pior, o conceito do design de produção foge gritantemente do que fora produzido anteriormente. Isso é apenas a casca. É analisar, por exemplo, em como Artemesia tem tanta importância na construção e nas decisões de Xerxes e a mesma nunca sequer foi citada ou apresentada anteriormente, sendo que o personagem vivido por Rodrigo Santoro tem extrema importância em ambos os filmes,  o que mostra o despreparo e a falta de atenção dos realizadores em dar tanto foco para alguém que, com tanto desenvolvimento, vira antagonista e simplesmente parece ter sido introduzida na história por falta de bons personagens. Apesar do pouco interesse que a continuação de 300 gere venha da comandante, este é um erro imperdoável.

As contradições não terminam no roteiro fraco. A primeira pergunta que o espectador faz em ver o longa de Noam Murro é mais do que obvia e objetiva: Como alguém que tem o dobro de orçamento para produzir filme, não consegue manter o mesmo nível de qualidade técnica, com tecnologias mais baratas e avançadas, 8 anos após o original? Outra falha no planejamento. O sangue estilizado da adaptação de Snyder aqui vira um borrão digital pavoroso que mais parece petróleo de espesso e negro que aparenta ser. As sequências de ação lembram jogos de videogame da década passada, com uma má renderização dos efeitos especiais. Beira o amador. Não bastando, a fotografia amarga à falta de criatividade, tentando o tempo todo reconstruir o que foi feito anteriormente, mas nunca chegando a estilosa técnica empregada em 2006. A falta de experiência do diretor também atinge a maquiagem do longa, fazendo tudo parecer surreal e desinteressante. Até o corcunda Ephialtes foi reconstruído de maneira artificial e a boa maquiagem de antes foi substituída por efeitos especiais por conta preguiça de Murro em dar atenção aos detalhes. É impressionante como a mesma produtora, com os mesmos profissionais, simplesmente são incapazes de trazer de volta o que já haviam feito com qualidade muito superior. Lamentável.

O que resta de 300: A Ascensão do Império é uma ou duas cenas que consegue, de fato, chamar a atenção do público por suas audácias. Não demora muito para as mesmas serem ofuscadas por mesmices e incompetências, seja do elenco fraquíssimo e desinteressante ou do diretor que não se esforça para mudar este quadro. A fragilidade que Leonidas tanto temia e as essenciais qualidades que apreciava, desmoronou aqui. E resta a nós, durante 102 miseráveis minutos, aguentar tudo isso.

Nota: 4/10